Cai o número de pássaros marinhos migratórios

18 09 2008
Escher, anel de moebius com pássaros

Escher, anel de moebius com pássaros

 

No 4° Encontro da AEWA Wetlands International for the African-Eurasian Migratory Waterbird Agreement [ Acordo sobre os Pássaros Migratórios de Pântanos da África-Eurásia] que acontece esta semana (15-19 setembro) em Madagascar houve uma queda de 41% no número na população destes pássaros.  Para os pássaros usando as rotas que passam pela Ásia Central e Ocidental a situação é ainda de maior perigo, com um declínio na população dos pássaros de 55%.   O anúncio para a imprensa destes dados foi acompanhado da explicação de que isto está acontecendo principalmente pela destruição do meio ambiente nestes locais de pouso/ parada dos pássaros migratórios, pela falta de planejamento econômico e na execução da exploração destas terras na Eurásia e na África.  Lugares tradicionalmente retidos como parada/pouso destes pássaros para a jornada de inverno estão desaparecendo pela ação do homem.  

80 países tem representantes neste encontro na cidade de Antananarivo, mas mesmo assim, é essencial que haja cooperação internacional para que programas de conservação das rotas sejam mantidos e ampliados.  Pássaros que precisam de longos vôos, indo de um lado da Terra para o outro, com rotas estabelecidas através de séculos são os que mais sofrem com as mudanças climáticas, com o aquecimento da Terra e com a destruição dos lagos e pântanos onde estão acostumados a parar para recomeçar vôo depois do descanso. Um apelo a que se preste atenção a este problema e que se fomente maior cooperação internacional é até agora o resultado deste encontro.

 

Para mais informações, clique aqui.





O cheiro do medo: ratos e peixes na berlinda.

31 08 2008

 

De acordo com o resultado de uma pesquisa feita na Suíça e noticiada no programa da rádio NPR nos EUA:  All Things Considered  (21-8-2008 )  pelo jornalista Christopher Joyce,  sabemos  hoje que o medo tem o seu próprio cheiro e também que ele vem do feromônio do  alarme, que animais produzem quando sob influência do estresse.  

 

Os cientistas ainda não sabem como tudo funciona.  Sabem que há um órgão no nariz dos ratos que detecta o feromônio do alarme.  Isto quer dizer que de fato existe o tal cheiro do medo.   O órgão que sente este cheiro é chamado de gânglio de Grueneberg, que são uma trouxinha de células próximas a ponta do focinho do rato.

 

Na Universidade de Lausanne, a bióloga, Marie-Christine Broillet separou quantidades de ar de gaiolas em que ratos envelhecidos foram submetidos à eutanásia.   Quando os pesquisadores expuseram ratos jovens e saudáveis a este ar, os neurônios do gânglio de Grueneberg se modificaram.  E o comportamento dos ratos também se modificou: correram para o lado oposto da gaiola e viraram estátuas, não se mexiam.

 

Para a confirmação da descoberta, submeteram ratos a outro teste, desta vez, removendo as células de percepção do glânglio.  Estes ratos, por sua vez, não demonstraram nenhum alarme quando expostos ao feromônio do medo.  Não houve reação alguma. 

 

É interessante notar que há um outro ser vivo que parece usar constantemente sua habilidade de detectar através de um feromônio, situações de alarme.   São os peixes.  Quando atacados por um peixe maior, eles secretam uma substância pela pele, a que se deu o nome em alemão de schreckstoff, que significa “coisa de grito”.

 

O alarme dado pelos peixes de perigo à vista, está sendo estudado pelo zoólogo Nathaniel Scholz, que tem se dedicado ao estudo de quanto a poluição das águas afeta a abilidade dos peixes de perceber uma situação de alarme, de sentir o schreckstoff.  Até o momento sua pesquisa descobriu que o cobre presente nos elementos urbanos poluidores da água proíbe os peixes de perceberem quando estão correndo perigo.  Em outras palavras,  eles não conseguem cheirar o feromônio do medo.  





Sucesso! BIO-EYES um projeto para o estudo da ciência.

26 08 2008
Paulistinhas

Paulistinhas

BIOLHOS  — esta foi a melhor tradução que encontrei para o nome de um projeto de grande sucesso nos EUA — chamado Bio-EYES – que até o momento compreende as cidades de Baltimore, em Maryland, Filadélfia na Pensilvânia e South Bend no estado de Indiana.  Este programa de incentivo aos estudos, direcionado a crianças pobres, de bairros carentes destas cidades, propaga conhecimentos de ciências naturais, incentiva os estudos da genética e ajuda a demonstrar métodos científicos de pesquisa aos que muitas vezes nem pensariam que poderia haver um futuro para eles em semelhante setor.

 

Como quase todo bom projeto, BIO-EYES surgiu organicamente, como por acaso, para preencher um vazio no seio das comunidades pobres.  Não foi pensado por um governo e então aplicado.  Cresceu de uma necessidade e se enraizou pela infinita boa-vontade dos muitos profissionais que o lideram.  Começou inicialmente de graça, num laboratório local, servindo a uns poucos alunos.  Hoje é uma ONG que já cobre as necessidades de tres comunidades em cidades distantes, entre si, mas semelhantes em carência.

 

Em 2001, o biólogo americano Dr. Steven A. Farber acabava de inaugurar seu primeiro laboratório na universidade Thomas Jefferson na Filadélfia.  Um sonho de qualquer cientista que se preze, este laboratório repleto com maquinaria de ponta, levava o seu nome na porta, uma indicação que de que as pesquisas ali realizadas estavam todas sob sua responsabilidade.  Enquanto ainda desempacotava caixas de papelão e em meio a muita bagunça, Dr. Farber fazia planos para continuar a pesquisa que vinha fazendo sobre a genética da digestão de gorduras.  Por isso, seu laboratório, comportava além dos instrumentos científicos esperados um aquário onde cardume de peixes Paulistinhas fazia repetidas viagens de um canto ao outro, movendo-se incessantemente.  O Danio rerio nome científico do peixinho listrado que no Brasil chamamos de Paulistinhas é um dos seres mais usados em alguns tipos de experimentos científicos hoje em dia por serem de manutenção barata, por se reproduzirem rapidamente e por terem seus corpos transparentes, o que ajuda em muito o entendimento de qualquer processo biológico.  

 

Desde 1993, todos os anos, no dia 24 de abril, nos EUA, há a campanha [“Take your kid to work Day”]  Leve seu filho para o trabalho hoje,  uma campanha nacional (hoje em dia inclui o Canadá também) organizada para expor crianças ao ambiente de trabalho de seus pais, deixá-las curiosas sobre o mundo adulto, assim como, no futuro, ajudá-las a decidir sobre planos de carreira.  Crianças de 6 a 15 anos participam deste evento, no país inteiro.  Em 2001, enquanto ainda arrumava seu laboratório, alguém guiando um grupo de crianças pelo hospital vizinho sugeriu:  “ Ei, depois dessa visita, passem lá no laboratório do Dr. Farber para verem o aquário com os Paulistinhas.”

 

As crianças que visitaram o então recém inaugurado laboratório ficaram fascinadas.  Naturalmente intrigadas por animais, neste laboratório elas foram apresentadas ao elementos básicos da ciência biológica podendo apreciar os órgãos internos dos peixes – porque são translúcidos – puderam achar maneiras de descobrir o peixe macho do fêmea,  puderam “caçar” um macho e uma fêmea para serem colocados num aquário exclusivamente usado para reprodução e  na discussão sobre a aparência dos futuros peixinhos chegaram às linhas gerais do estudo de genética.  Todos estes conhecimentos foram passados de maneira esquemática, mas bastante interessante para instigar os alunos a considerarem as ciências seriamente.  Dr. Farber mostrou às crianças através de seu poderoso microscópio o coração dos peixes vivos bombeando células vermelhas.  O sucesso foi imediato.  E logo, logo, sem ter feito qualquer plano, seu laboratório virou parada obrigatória para qualquer turma de estudantes das escolas de nível básico e médio em dias de excursão.    

 

Na verdade, foram tantas as visitas que estas começaram a perturbar o projeto de pesquisa do Dr. Farber.  Assim, ele se dirigiu ao diretor da instituição.  Juntos acharam que havia bastante interesse para justificar uma posição para um professor de nível básico para servir de guia para os visitantes.  Procuraram então por uma maneira de financiar um professor por ano, para esta posição.  O professor, eles sabiam, tinha a maneira correta de interessar ainda mais os alunos visitantes.  Sabia exatamente como trazer um mundo de informações ao nível de conhecimento dos jovens.  

 

Assim foi o início da ONG BIO-EYES que tem como objetivo levar conhecimento cientifico às crianças na escola além de promover a curiosidade e o estudo da ciência.  Quando a ONG  — pelo menos na cidade de Baltimore — descobre que há um aluno ou aluna com talento para as ciências, com aptidão e gosto para este tipo de trabalho a ONG dirige o aluno a uma das escolas públicas modelo que dão maior incentivo aos estudos das ciências.  Hoje o projeto é bem mais elaborado.  BIO-EYES trabalha em direto contato com cada professor interessado em trazer sua turma e por uma semana as crianças são responsáveis por anotar nos “cadernos científicos” que lhes são dados suas observações junto aos peixinhos no aquário.   A descoberta ainda na idade tenra de talento em potencial entre esses alunos vindos de áreas e de famílias carentes é um dos grandes objetivos da organização.  

 

Nestes 7 anos de existência o sucesso vem quase que de imediato, revelado no número de cartas que as crianças escrevem depois das visitas, demonstrando interesse em seguirem uma profissão que inclua o que elas viram na visita ao laboratório e na observação dos cardumes de Paulistinhas, nos aquários de experimentos.  

 

 

Este artigo foi baseado na entrevista dada pelo Dr. Farber à jornalista do New York Times Claudia Dreifus, publicada no dia 29 de julho de 2008, com o título: A Conversation With Steven A. Farber: To Teach Genetics, Zebra Fish Go to School.  [Conversa com Steven A. Farber — Ensinado genética, Paulistinhas vão à escola].

 





O cavalo branco, uma interferência na genética!

31 07 2008

 

Depois de postar este maravilhoso poema de Carlos Drummond de Andrade,  fui atrás de um artigo que havia lido recentemente sobre os cavalos brancos.  Lembrei-me dele quando usei a aquarela do pintor gaúcho José Lutz Seraph Lutzemberger para ilustrar a   postagem anterior.  Finalmente depois de uma hora, me lembrei que havia visto esta nota sobre a genética do cavalo branco no Sunday Times de Londres, do dia 20/7/08, no artigo intitulado: The Lone Ranger: white horses’ single ancestor [O ancestral do cavalo branco de Zorro, o cavaleiro solitário].

 

Foi desconcertante descobrir que os cavalos brancos – todos os cavalos brancos do mundo – são mutantes e que sofrem de um defeito de DNA que os faz envelhecer rapidamente.  Não estou falando aqui dos cavalos albinos.  Estes são diferentes, estes são brancos desde que nascem. Mas falo aqui dos cavalos que nascem com pelo castanho, passam a ter pelo cinza e mais ou menos aos 6 anos de idade, adquirem a cor branca que lhes dá um ar mágico, de criatura de outro mundo.  Tudo indica que cavalos brancos já teriam desaparecido há muito tempo, não fosse a mão do homem.   

 

Há dois problemas sérios com a cor branca: 1) o cavalo branco em estado selvagem seria muito mais fácil de ser caçado.  Sua complexão não o deixaria esconder-se por entre árvores ou vegetação sem atrair a atenção de predadores.  2) com o pelo branco, estes cavalos, quando expostos ao sol, têm uma probabilidade muito grande de adquirirem câncer de pele.  

 

Foi a fascinação do homem que “criou” este animal, que lhe deu meios de sobrevivência, como se intuitivamente soubesse das leis de Darwin.  Isto não quer dizer que o cavalo branco seja um novato na face da terra, sua existência é tão longa quanto a de seus companheiros.  Acredita-se, no entanto, que o ser humano tenha começado a domar cavalos selvagens há aproximadamente 10.000 anos atrás.  Mas é bastante revelador que todos os cavalos brancos em existência tenham tido um único ancestral.  

 

Isto está revelado, como mostrou a revista Nature Genetics, num estudo feito pela Universidade de Uppsala na Suécia. Todos estes cavalos têm um gene específico em comum. Isto significa que o cavalo original com este gene deve ter impressionado muito o homem antigo.  Quem sabe até poderia ter sido mais valioso pela raridade!  O que sabemos ao certo é que foi selecionado para reprodução.  E foi reproduzido, sistematicamente.  Até que nos dias de hoje, 1 em cada 10 cavalos ou seja, 10% do eqüinos no mundo têm este gene.  

 

Há esperanças de que estudando este gene, que no momento recebeu o nome de “grisalho por idade” venha-se a entender melhor o processo de envelhecimento em geral e dos seres humanos em particular.  Esta é uma das primeiras intervenções bem sucedidas que conhecemos do homem no meio ambiente.  O que fascinou o homem primitivo é o que ainda fascina o homem moderno: a alvura de seu pelo.





O canto do peixe-balão: sedução a meia voz

22 07 2008

Recentemente a Associated Press, noticiou que uma pesquisa financiada pelas National Science Foundation e pelos National  Institutes of Health nos EUA,  descobriu que “cantar ao pé do ouvido” é um comportamento de conquista sexual usado não só por seres humanos, batráquios e mamíferos. Surpreendentemente, os peixes podem, agora, ser incluídos nesta lista.  Tudo indica que os sons que os peixes produzem não cheguem a ser um canto tal como associamos aos dos pássaros, ou até mesmo aos assobios das baleias ou  ao coaxar dos sapos.   Parece mais um murmúrio musical, um “cantar de boca fechada” registrado entre os peixes-balão na hora de atrair o sexo oposto.

 

A equipe do neurobiólogo Andrew H. Bass, da Universidade de Cornell, se concentrou no estudo dos peixes-balão.  Observaram o animal desde larva por já se saberem de antemão que eles produziam mais de um som.  Mas o Professor Bass, rapidamente explica que não se trata de um uso mais sofisticado, refinado de um cérebro de peixe.  A melodia, ou melhor, o murmúrio emitido pelos peixes-balão está longe das melodias dos pássaros ou dos sons produzidos por mamíferos.  Mesmo assim, trata-se de um sistema complexo de neurônios engajado na produção destes sons, um sistema antigo, que remonta às centenas de milhões de anos em que a evolução da vida no planeta, como a conhecemos, se formou.

 

São dois os sons produzidos pelo peixe-balão:

 

1) um murmúrio, como se fosse o zumbir de uma abelha.  Este é o canto Donjuanesco que atrai a fêmea para o macho. 

 

2) o outro é um som ameaçador, usado quando o peixe sente a necessidade de proteger seu território de reprodução.  

 

A localização dos nervos vocais descritos na pesquisa corresponde a sistemas semelhantes encontrados nos sapos, pássaros e mamíferos.   Mas muito mais pesquisas como esta ainda serão necessárias para podermos ter uma melhor idéia da evolução da comunicação entre os animais.