Imagem de leitura — Aubrey Beardsley

7 03 2011

 

Pierrô lendo, 1896

Desenho para a série “Pierrot’s Library”  [ A biblioteca de Pierrô]

Aubrey Beardsley (Inglaterra, 1872-1898)

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Aubrey Vincent Beardsley (21 de agosto, 1872, Brighton – 16 de março, 1898, Menton) foi um importante ilustrador e escritor inglês. Seu estilo recebeu influência do grupo pré-rafaelita e da estampa japonesa.  Por sua vez ele influenciou o desenvolvimento da Art Nouveau.





O sumiço dos Arlequins, Pierrôs e Colombinas…

6 03 2011
Aqui está, a Peregrina, fantasiada de Pierrete,  num Carnaval da segunda metade do século XX.

Sexta-feira passei por uma escola quando os alunos voltavam para casa.  Estavam vestidos com fantasias de super-heróis, fiéis aos figurinos saídos das telas do cinema, de Branca de Neve e fadas à moda de Walt Disney.  O Carnaval mudou.   Sou do tempo em que as crianças ainda se fantasiavam de outros personagens além daqueles dos desenhos animados.   Fantasias para meninos eram sempre mais difíceis, e meus irmãos aderiram, é verdade, a esse esquema de cinema muito antes de mim, principalmente para evitarem os trajes de tirolês, vestidos ano após ano.  Embarcaram logo  na de Super-Homem.  Mas foram também xerife do oeste americano, sheik e  uma grande variedade de piratas.

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Pierrete, 1922

Emiliano Di Cavalcanti ( Brasil, 1897-1976)

óleo sobre tela,  78 x 65 cm

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Nossas fantasias não eram compradas prontas.  Eram pensadas em janeiro, logo depois da festa do Dia de Reis e repensadas levando em conta a praticidade,  facilidade de desenho, beleza e conforto .  Os trajes eram construídos aos poucos, costurados por mãe, avó, tia solteira, empregada, babá ou qualquer outra pessoa que pudesse usar agulha, linha ou cola.  Saíamos nos 3 dias de Carnaval com as versões de trajes tradicionais que nossos pais imaginavam para nós.   Aos tenros 2  e 3 anos (a mesma fantasia foi usada), fui  uma sedutora odalisca.  Depois fui baiana, cigana, índia, pirata, tirolesa e,  já adolescente, Violeta Scragg, personagem dos quadrinhos do caipira Ferdinando, de Al Capp, cuja Corrida do Dia de Maria Cebola povoara a imaginação da geração de minha mãe.  Além disso, como mostra  a foto acima,  saí num longínquo Carnaval de Pierrete.    Mas de Pierrete?  — podem perguntar…  Essa fantasia não é de Colombina?  Não, não, não… não, não.   Minha mãe, professora de língua e literatura, não queria que eu me vestisse de Colombina, porque ela não tinha, como diríamos, assim um tão bom caráter…  Preferiu me vestir de Pierrete, a forma feminina do Pierrô.

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O desespero de Pierrô, também conhecido como Pierrô Ciumento,  1892

James Ensor (Bélgica, 1860-1949)

óleo sobre tela, 117 x 167 cm

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O trio Arlequim, Pierrô e Colombina,  originais da Comédia dell’Arte, do teatro italiano do século XVI, aparecia em grande número entre crianças e adultos em outros Carnavais cariocas.  Sua popularidade tem raízes mais recentes do que o século XVI.   O tema, durante o século XIX,  sob a influência do romantismo francês, ganhou popularidade em todas as artes, trazendo para  primeiro plano o sofrimento de Pierrô, enamorado por Colombina, cujo afeto não conquista.  O triângulo amoroso, a derrota de Pierrô para Arlequim, tornou-se, então,  a variação favorita da antiga tradição italiana.   Originalmente, cada qual tinha um papel específico, e o desfecho de suas aventuras teatrais podia sempre variar, desde que os personagens se mantivessem dentro do esperado.  Arlequim era um empregado, um  servo esperto, conquistador dos corações femininos, que  desejava Colombina.  Esta por sua vez, era uma empregada, frívola, inconstante no amor, e esperta nas suas conquistas, flertava com todos e não era de ninguém.  Nem Arlequim, nem Pierrô originalmente conseguiam conquistar seu coração.

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Pierrô, 1918

Pablo Picasso ( Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela

Museu de Arte Moderna de Nova York

 

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Os três personagens, que voltaram a preencher o espaço imaginário da cultura européia nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, estão hoje praticamente desaparecidos do carnaval carioca, porque não refletem mais as nossas preocupações.  O amor não correspondido, sofrido, chorado deixou de ser um meio de se cantar nos 3 dias de folia.   O Carnaval do passado tinha como parte de seu roteiro musical duas faces:  as músicas irreverentes, licenciosas, às vezes repletas de non-sense, que burlavam os limites morais vigentes e o lado sentimental que refletia os amores não-correspondidos, o sofrimento da dor de cotovelo, das brigas amorosas, da procura pelo par perfeito.  As primeiras eram cantadas nas marchinhas agitadas, puladas, ritmadas no pé, como acontece, por exemplo,  com o clássico O teu cabelo não nega.

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Arlequim, s/d

Clarence K Chatterton ( EUA, 1880-1973)

Óleo sobre tela.

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 Eram as marchas-rancho, os sambas mais lentos, as músicas que refletiam o outro lado da alma,  retratando o desespero sentimental de um amor não correspondido, traído, sofrido.   Para isso, a imagem do Pierrô era moeda corrente na poesia.  Não fazemos mais um Um Pierrô apaixonado,/Que vivia só cantando,/Por causa de uma Colombina/ Acabou chorando… Acabou chorando… Nem tampouco cantamos Tristeza/ Por favor vai embora/ A minha alma que chora/Está vendo o meu fim.   Sentimentos que refletem filosofias da vida amorosa, como aparecem em:  Eu perguntei a um mal-me-quer / Se meu bem ainda me quer/ Ela então me respondeu que não / Chorei, mas depois/Eu me lembrei / Que a flor também é uma mulher/Que nunca teve coração… já não são mais cantados ou frustrações como no clássico, Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim./Ai meu bem, não faz assim comigo não! Você tem, você tem que me dar seu coração! Já não encontram forte eco na alma carioca.

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Pierrô desconsolado, 1907

Witold Wojtkiewicz ( Polônia, 1879 — 1909)

Têmpera sobre madeira,  65 x 80 cm

Museu de Naradowe, Posnan, Polônia

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No século XXI, o romantismo sofrido, chorado, o amor não correspondido não tem mais lugar com foliões e nem mesmo nas composições carnavalescas.  A “tristeza que não tem fim, felicidade sim”, foi-se junto com as marchinhas carnavalescas, os lança-perfumes, o confete jogado sobre uma bela fantasia e as serpentinas de papel colorido;  o triângulo amoroso daqueles personagens renascentistas parece falar a um público diferente.  Carrega em si  preconceitos passados, reflete um momento romântico longínquo, que não tem mais razão de ser.  Éramos mais reprimidos, e sofríamos mais com os desencontros amorosos, dávamos peso às nossas tristes sinas, que se valorizavam quanto mais estivessem em descompasso com a alegria carnavalesca.

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A hora azul, s/d

Federico Armando Beltrán Masses ( Espanha, 1885-1949)

óleo sobre tela

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Hoje, somos mais livres em ação e sentimento.  As mulheres conquistaram direitos, os homens responderam à altura.  Como um todo, vivemos menos regidos por regras sociais.  Sabemos, apesar de nem sempre aceitarmos, que ninguém é de ninguém: nem no Carnaval, nem o ano inteiro.  Não precisamos esperar pelos 3 dias de folia  para extravasarmos  nossos amores; para expressarmos nossas frustrações amorosas, para darmos voz aos nossos sentimentos mais íntimos.  Talvez este tenha sido o grande  legado da popularização da psicologia.   Não precisamos da loucura de domingo à Terça-feira Gorda para pularmos a cerca, para flertarmos com um desconhecido, trocarmos de amor acreditando que  escondidos pelas máscaras, podemos quase tudo sob a proteção do anonimato.   A verdade é que podemos fazer tudo o que quisermos o ano inteiro.

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Pierrô, s/d

William Orpen ( Irlanda, 1871-1931)

aquarela

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Pierrô, sofrendo por amor, parece por demais trágico para conviver com a alegria extrovertida do carnaval de rua.  A pesada presença de seu contínuo sofrimento, de seu abandono;  os ombros caídos do desacreditado em si mesmo, não combinam com as novas regras sociais que ditam um estado de perpétua felicidade.  Não condizem tampouco com a auto-estima elevada requerida pelos novos padrões sociais, pregados a quatro ventos nas revistas, nos jornais e na televisão.  Somos todos lindos, bonitos,  alegres e felizes.  A julgar pelos slogans corriqueiros temos que nos  sentir bem, a qualquer preço e a qualquer hora;  estar orgulhosos de nossa aparência e de nossas conquistas; estar bem-resolvidos.   Hoje, a tristeza do Pierrô,  a profundidade de seu desconsolo acabam deslocados.  Eles refletem um estado de alma ao mesmo tempo inocente e alheio, ambos sentimentos de pouca empatia para esta geração de foliões.

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Pierrô, 1977

Adelson do Prado, ( Brasil, 1944)

acrílica sobre tela, 73 x 50 cm

Coleção Particular.

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De fato, o final do século XX se caracteriza pela redução da imagem do Pierrô de uma figura trágica para a do palhacinho alegre e cantador, um boneco engraçadinho, mimoso, apropriado para os quartos de crianças e para as capas de cadernos escolares das meninas pré-adolescentes.   Pierrô se despoja, a cada década da carga emocional que o abateu de meados do século XIX aos anos que antecedem o final da Segunda Guerra Mundial.   Sua imagem, bastante fascinante para as abstrações do período Art-Deco, nas décadas de 20 e 30 ,  vai se estilizando à medida que o século XX chega ao fim.   E perde, aos poucos, a tri-dimensionalidade emocional que o caracterizara no passado.  Torna-se um exercício decorativo, um tema de geometria a ser explorado e consumido em massa, favorecendo os redondos pompons, o triângulo de seu chapéu a fofura de sua gola embabadada , a perpétua lágrima no rosto, — ou seria uma tatuagem? — aludindo à sua poesia através de um violão.

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Arlequim e Pierrô, mangá.

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Mas, para os que possam estar preocupados, deixe-me lembrar que isso não significa o fim de Pierrô, ou do trio a que pertence.   O pêndulo fará seu percurso natural e voltará a trazer para o proscênio o trio italiano.   Sua aparição no final do século XVI durou até meados do século seguinte;  depois sumiu como tema nas artes gráficas só para ter um renascimento no século XVIII, nas pinturas de Watteau  e de seus contemporâneos.  Ressurgiu das cinzas no século XIX até meados do século seguinte.  Quem estiver vivo daqui a algumas décadas  verá a reaparição do trio, talvez com outros aspectos de suas personalidades enfatizados, para refletirem o gosto cultural da época, mas eles voltam.  Quando personagens teatrais refletem características humanas verdadeiras, eles podem passar por momentos esquecimento,  até que alguém se lembre de mostrá-los mais uma vez, mas com uma nova roupagem.  É esperar para ver.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2011





O Carnaval no Rio, de Américo Fluminense, texto integral, Revista KÓSMOS, 1907

21 02 2011

O entrudo no Rio de Janeiro, 1823

Jean-Baptiste Debret ( França 1768-1848)

Aquarela sobre papel

Museu da Chácara do Céu

Rio de Janeiro

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O carnaval no Rio

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(NOTAS LIGEIRAS PARA UMA CRÔNICA)

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O Carnaval dos nossos antepassados era o entrudo.

Já nos tempos coloniais jogavam-no desembaraçadamente.  As máscaras eram tidas como prejudiciais à ordem pública, serviam para ciladas, para os levantes e crimes.   Em 1720, quando em Minas Gerais, o bando do mestre do campo Pascoal Guimarães desceu, alta noite, do Morro Velho sobre a moradia do prepotente ouvidor Martinho Vieira, os que o guiavam vinham mascarados.  Dizem também que foi um mascarado quem assassinou o prisioneiro Almirante Du Clerc, em 1710, na casa que o governador desta cidade lhe dera por prisão na rua Direita…  Outros crimes misteriosos são atribuídos a embuçados com máscaras.  E certo é que a máscara foi tida como traiçoeira e criminosa, por quanto, em diversas épocas os governadores desta cidade mandavam fazer públicos vários alvarás proibindo o seu uso.

Por essas proibições o entrudo constituiu-se o mais apreciável folguedo carnavalesco.

Havia grande prazer nesse jogo brutal.  Em algumas ruas grupos entrudescos agarravam os transeuntes a pulso, violentado-os, metiam-nos dentro de uma tina e, por sobre carga, toda a família do folgação despejava sobre a vítima jarros e barris d’água.   Visitar alguém nesses três dias era uma temeridade.  Só se animava a fazê-lo os que achavam graça no banho à força…ou não tinham escravos para abastecer a sua casa do precioso líquido.  Assim o banho chegava a ser providencial.

O processo mais delicado dessa terrível pagodeira consistia no arremesso de limões de cera cheios d’água simples ou perfumada com essência de benjoim e canela, e jatos de seringas de irrigação.  O fabrico desses limões tornou0se uma pequena indústria que ocupava por longos meses as famílias cariocas.  Durante dezembro e janeiro muitas casas no Rio de Janeiro viviam em verdadeira azáfama, a fabricar esses projéteis, mas nem sempre com a cautela necessária à integridade física do próximo, porque alguns limões excediam a espessura de seus invólucros o quanto deveriam ter de bem aferido para não esborrachar narizes nem amachucar o rosto das vítimas.  As seringas menos mal faziam contrapunham, porém, maior banho.  Colaborando com a seringa apareciam frequentemente o moringue, o jarro, o alguidar e o barril.

A água não bastava, porque se era limpa poderia, quando muito, provocar bronquites, plurises, pneumonias, o que era preciso, o que era necessário, era ridicularizar a vítima, fazê-la irrisória, escorraçá-la com a vaia, e o obrigá-la a arrastar o seu ridículo por onde passasse.

Assim, como banho cobriam-na de farinha de trigo ou polvilho, algumas vezes de pós de sapato ou vermelhão.  Este hábito esteve muito em voga entre a gente do povo, mormente os negros.  A estampa de Debret que reproduzimos adiante, é um quadro de costumes.  Aí está a pagodeira em todas as suas minúcias.  Aí estão a seringa em ação, a tina preparada, os limões para a batalha e o polvilho posto  ao serviço da folia. Nada lhe falta, nem mesmo a assuada dos que assistiam o ataque à crioula de anágua curta e cabeção rendado.

A introdução dos bailes carnavalescos populares sem corrigir logo este estúpido folguedo, veio indiretamente modificá-lo.  Foi em 1847 que eles estavam em maior voga.  Um hotel que aqui existiu, com o título de Hotel di Itália, dava-os como alguma animação e a Sociedade Constante Polka aumentava-lhes o brilho com a assistência dos seus associados.    Ao mesmo tempo o Tívoli, que era um estabelecimento de recreio, na chácara n. 9 do Campo d’Aclamação (Campo de Sant’Anna, em nossos dias Praça da República) engalanava-se para a alegria das quatro noites de Carnaval.  Em 1849 o Tívoli transformou-se, sob o título de Paraíso, num aprazível botequim campestre com salas de jogos e pavilhão para danças, então os seus bailes tornaram-se famosos, tal o preparo, o brilhantismo, a concorrência que tiveram.  O Teatro S. Francisco e o Salão da Floresta também deram bailes devendo-se notar que por causa perdida pela negligência das crônicas da época,  o empresário do Salão da Floresta arrepiou carreira publicando na quarta-feira de cinzas daquele ano, solene protesto de não mais dar bailes carnavalescos….  A partir desse tempo os bailes públicos carnavalescos entraram nos nossos costumes e com eles veio o atrativo das fantasias e o prazer da máscara em tal desenvolvimento, que em 1851, foram organizadas duas sociedades carnavalescas: o Congresso das Sumidades e a União Veneziana.

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Ilustração original do texto, revista Kosmos, 1907, sem indicação de autor.

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O aparecimento das sociedades carnavalescas não foi o bastante para por cobro ao entrudo brutal,  grande parte da população sentia prazer em se molhar e entregar-se delirantemente às suas violências, das quais, uma vez por outra, resultavam conflitos mais ou menos graves; outra parte, porém, propendia para a alegria do Carnaval mascarado e fantasiada e essa queixava-se da dificuldade em sair à rua formar bandos, organizar passeatas por causa dos vexames, contrariedades e prejuízos a que ficaria exposta com o desbragamento do entrudo.

Fizeram, então uma persistente campanha contra o entrudo.  A polícia empregou energia, perseguindo os entusiastas desse divertimento.  Os primeiros resultados dessa perseguição apareceram em 1854, cujo carnaval correu animadíssimo, vendo-se pelas ruazinhas cariocas carruagens com famílias fantasiadas, muitos máscaras avulsos e alguns montando cavalos azaejados.  Dois anos depois, em 1856, o chefe de Polícia Dr. Alexandre Joaquim de Sequeira conseguia reprimir o entrudo.  Datam desse tempo as vitórias do Carnaval do Rio.  O Congresso das Sumidades Carnavalescas obtinha grande sucesso com as suas passeatas, que ficaram memoráveis.  Em 58, a União Veneziana, estimulada pela vitória das Sumidades, organizou um suntuoso préstito, em que figuravam Felipe I de Castela, o duque de Buille, um Montmoroncy, o conde de Charnay,  capitão das guardas de Maria Antonieta, o marquês de Salures , o conde d’Arcos, o cavalheiro Ruy Lopes de Villa Lobos… em suma,  numeroso conjunto de reis, príncipes, duques, marqueses, condes, barões, cavalheiros e pajens.  Apesar da mistura das idades históricas e dos personagens, a marcha da União Veneziana assumiu a importância de um acontecimento social.  A população prestou-lhe ovações atirando-lhe flores e confeitos, saudando-a com palmas e bravos. Durante muitos anos essa passeata foi narrada e comentada e os nossos bisavós arregalando os olhos, suspendendo a pitada, murmuravam ainda cheios de assombro: Que luxo! que dinheirão!

Apareceram por esse tempo, os Zuavos, com o título: banda marcial da Sociedade Euterpe, e, segundo cremos, o celebérrimo Zé Pereira, o tremendo rompe-rasga do charivari pagodeiro.

O infatigável cronista de nosso passado, o sr. Vieira Fazenda, em um dos seus interessantes folhentins da Notícia, o de 15 de fevereiro de 1904, conta-nos o aparecimento desse barulhento e alegre estúrdio carnavalesco, mas esqueceu-se de nos dizer o ano em que isso foi.  É de crer que fosse por essa ocasião ou mais um ano depois ou menos um ano antes, que o incansável Zé Pereira zabumbou pelas ruazitas lôbregas da populosa sebastianópolis.  A data precisa escapou à pena, senão à memória do narrador dos nossos costumes e modos d’antanho;  em compensação tivemos o nome do seu primeiro zabumbador, que o cronista lega à posteridade.

Chamava-se José Nóbrega de Azevedo Paredes, tinha a profissão de sapateiro e era de origem portuguesa.  Foi o José Nóbrega quem, por uma tarde de nostalgias, numa segunda-feira de carnaval na Corte do império do Brasil, sob o reinado do sr. D. Pedro II, o formidável Zé P´reira das folias minhotas.   E teve êxito completo, foi um sucesso!

Toda a suja cidadezinha,  esconsa e fedorenta, estremeceu ao ruído ritmado da estrondosa pandorga; e se o Nóbrega tinha pulso capaz de vencer um touro, melhor teve-o para zabumbar galhardamente no couro curtido dum boi.  O sapateiro da rua São José, sem calcular o resultado da sua pândega nem prever a celebridade que o esperava, fez mais rápida escola com alegre barulhada dos bombos do que com a perícia da sua sovela.

De então em diante os Zé Pereiras surgiram às dúzias, aos centos.  As sociedades agarraram-se-lhe com fervor e toda a doidice do Carnaval e animou-se com esse retumbante bater de tambores e bombos.   No sábado do Momo, após o badalar das 10 horas do Aragão de S. Francisco de Paula, a barulhada começava.  Parecia que  um sopro de loucura passara sobre a cidade.  Em diversas ruas o Zé Pereira estrugia.  Ajuntavam-lhe buzinas, cornetins, campainhas.  Era o seu domínio.  Mas esse útil ao Carnaval porque distraiu o povo das brutalidades do entrudo.  Começou, então, o Carnaval das ruas.  Os princezes passeavam a sua capa de belbutina e os seus calções de cetim; ao arremedo de falsificados pajens medievais traziam cabeleiras de cachos frisados, e pregavam obreias pequeninas e multicores no rosto.

Fazia-se espírito.  Dominós impiedosos troçavam e intrigavam.  Alguns tornaram-se notáveis, e se os designava pela cor, porque guardavam rigoroso incógnito.

Dessa alegria, dessa animação surgiu a Boêmia, que, dizia França Júnior num folhetim da Gazeta de Notícias, de 7 de março de 1878, “marcou uma era memorável no Carnaval.  Foi o império do Chicard do espírito”.

Essa sociedade era composta dos mais elegante leões do tempo e foi ela que introduziu aqui o vestuário chicard, de gavarni, dando à Madame Niobey, costureira parisiense domiciliada no Rio, uma larga e longa celebridade por ter sido a confeccionadora da maior parte dessas fantasias.

Com a Boêmia, vieram os Estudantes da  Heidelberg, a Internacional, o Clube X, e outras mas já sem o caráter familiar dos primeiros, exceção do Clube X que afinal, teve de desistir de suas pretensões e ceder ao carnaval licencioso que Paris criava.

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Ilustração original do texto, revista Kosmos, 1907, sem indicação do autor.

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Apareceram também os diabinhos vermelhos, os velhos, cabeçudos, de enormes casacas com pães da rala por botões e báculos; o ás-de-copas, em camisas de mulher e trazendo por capacete um vaso,  que não é de sala…   E, pouco a pouco, os estalos fizeram a sua entrada; ao princípio alegremente atirados, dando uma nota ruidosa mas inofensiva aos folguedos; depois ultrapassando os limites d’alegria para entrar nos impulsos da perversidade, queimando roupas, chamuscando braços e colos.  E, sorrateiramente, sob maneiras de elegância e galanteios, surgiu a bisnaga, discreta, esguichando finamente, à guisa de um pulverizador, produtos das retortas de Lubin e Pinaud, conceituados perfumistas da época.

Não obstante os males provocados pelos estalos e a vulgarização das bisnagas, as sociedades folgavam e divertiam o povo.  O Carnaval do Rio de Janeiro ganhara foros de grande festa.  Arredadas, como foram, as famílias, os préstitos carnavalescos ostentavam um luxo que o maillot fazia deslumbrante.

Os bailes nos teatros iam perdendo a sua animação de outrora, porque as sociedades deixaram de os frequentar para se precaverem contra os contínuos conflitos que neles se davam, conflitos em que um pobre francês de nome Cosenave perdeu a vida.

Todos os anos surgiam novos clubes.  Eram os Fenianos, os Acadêmicos do Koenigcher, os Inimitáveis,  a Paulicéia Vagabunda, os Estudantes de Salamanca, que cantavam à guitarra peteneras e malaguenhas,  e grupos mais ou menos numerosos e efêmeros, como os das Sabichonas, Fragata Fraca, Corveta Terrível, Parasitas de Casacas, aos quais se reuniam clubes musicais, na sua maioria franceses…

Desapareciam uns, surgiam outros.

O Congresso das Sumidades desorganizou-se, em 63 já não existia; dez anos depois pretenderam reorganizá-lo com o título de Novas Sumidades; mas a sua existência não logrou duração.  Os Zuavos (Isto é, a Euterpe) passaram a ser Tenentes do Diabo, os Democráticos formaram-se com dissidentes de outras sociedades.

À proporção que se formavam novas sociedades, que seus préstitos atingiam a um luxo extraordinário, para cujas alegorias eram disputadas a ouro as mais bonitas alcasarinas, as mais moças e vistosas mundanas e os espirituosos máscaras da rua cediam lugar aos capoeiras vestidos de diabo, trazendo as caudas de rabo de velame, aos princezes armados para o que desse e viesse de porta-voz colossal, e mortes e macacos que escondiam nos cintos as navalhas assassinas.  E com isso o entrudo ressurgia.  As delicadas bisnagas, de fino jato de pulverizadores,  passaram a bisnagões que jorravam esguichos de repuxos; os limões não só de cera, também de borracha re-entravam na cena.   As mulheres, que faziam parte dos préstitos das sociedades, viam-se obrigadas a se munirem de chicotinhos de montaria para castigar os que as molhavam brutalmente.

Demais, parece que o entrudo, apesar da sua bruteza, das moléstias que provocava e dos conflitos que despertava, afinava-se perfeitamente com a nossa educação, porque muita gente boa tinha-lhe queda.  O Sr. Vieira Fazenda conta-nos que o Sr. D. Pedro II, quando em Petrópolis, não passava incólume sob a saraivada dos limões e esguichos das bisnagas.  Sua majestade achava-lhes graça e ao retornar a palácio, molhadinho como qualquer mortal, ria-se a bom rir dos desrespeitos das lindas veranistas petropolitanas.  Um jornalista houve, e dos mais célebres em nosso tempo, que comprava limões de cheiro aos milheiros.  E a pequenina redação do seu jornal, na rua do Ouvidor, transformava-se num verdadeiro arsenal, num depósito bélico de entrudo.  Dizem que, d’uma feita, andando a polícia a reprimir o entrudo, o alegre e gordo jornalista pediu ao delegado Macedo de Aguiar que subisse à sala da redação para intimar o numeroso grupo de damas e senhoritas a abandonar o divertimento.  Era um ardil.  O delegado subiu e mal punha o pé na sala uma legião de moças acometia-o de tal modo que, para sair, teve necessidade de mandar o seu ordenança buscar outras roupas em sua casa.

Contudo o Carnaval resistia, brilhava com a riqueza dos seus préstitos, atraía à cidade uma grande massa da população.

O Club X exibia uma caravana oriental montada em camelos, que mandara vir da Ásia, propositalmente para esse fim; os Tenentes, Fenianos, Inimitáveis e Democráticos, rivalizavam em riqueza de vestuários e espírito nas críticas, porque as sociedades tendiam ao aproveitamento jocoso dos fatos, mais salientes do ano.  Apareceram os Carbonários, Pingas, Filantes, Cínicos, Femmes Parisiennes, Badanas, Regresso do Rocambole, Tagarelas do Diabo ou Velhos Esponjas e, antes de todos os clubes de curta duração, os Cucumbis, que faziam suas danças selvagens nas ruas.

A pouco e pouco as sociedades mais dinheirosas desfaleciam, liquidavam seus últimos recursos.  Em 1878 só estavam em campo os Fenianos, Tenentes e Democráticos; os demais, mesmo o novo Club X, sucumbiu.  E aquelas três entravam num grave período de rivalidades que teve por desfecho uma tremenda luta, porfiada a cacete e pedradas, em um terça-feira, no momento em que Fenianos e Tenentes se cruzaram na rua do Hospício, esquina dos Ourives ou Quitanda.

Daí por diante, ou melhor dizendo, durante dois a três anos foi o entrudo quem fez o carnaval.

A seringa volveu a participar ativamente dos folguedos, não já a seringa de irrigação, mas a de borracha, destinada a outros usos; os limões atingiram as proporções disformes, deixaram de ser limões, transformaram-se em bananas, laranjas, abacaxis, jacas, melancias, pelo tamanho e pela forma: quem os levasse pela cara apanhava um banho completo e uma tapona de ver estrelas…entre chuva; as bisnagas pesavam litros e pareciam mangueiras de bombeiros, o polvilho e o pó de sapato entraram em atividade.

Não satisfeitos com isso os entrudistas voltaram às bombas de jardim e aos baldes d’água, e a perversidade, que é quem tira partido dos desregramentos, entrou a encher bisnagas com água suja e líquidos corrosivos e a fabricar limões que rivalizavam com cathaos na dureza e poder ofensivo. Para coroamento dessa obra de feios costumes e relaxamento policial não faltou a bordoada.  Quem descesse à cidade para assistir o carnaval, deveria dar graças a Deus quando voltasse sem chapéu e com as roupas em frangalhos, porque muitos voltavam com os olhos queimados, a cabeça em pontos falsos e o braço numa tipóia!…

Enquanto assim corria o Carnaval, os Cucumbis, como o Zé-Pereira n’outro tempo, mudavam o aspecto dos folguedos, comunicando a sua selvageria aos instintos rudes do povo.  Dir-se-ia uma afinidade.  Deles nasciam os cordões, esses horríveis, fétidos, bárbaros cordões, que dão ao nosso Carnaval de hoje algo de boçal e selvagem com a sua imutável melopéia de adufes e pandeiros e a babugem desbocada de suas cantilenas.  Quanto o Zé-Pereira, apesar de sua pobreza de ritmo, tem de ruidosamente alegre, esses tantãs e bufe-bufe dos cordões possuem de bruto, atroador, irritante e estúpido.

Já não há alegria nem espírito, há berreiro de taba, de mistura com uivos de africanos em samba.  E para completar a insipidez de um carnaval de cabindas e botocudos o lança-perfume vai abrindo caminho ao entrudo como outrora a bisnaga, pequenina, discreta e perfumada.

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[Texto integral, mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.  As duas ilustrações em preto branco são as ilustrações originais do texto que também tinha a reprodução de O Entrudo de Debret, em preto e branco.  Troquei-a para uma reprodução colorida.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

NOTA:

Américo Fluminense foi um dos pseudônimos do escritor  Gonzaga Duque.

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Retrato de Gonzaga Duque [pseudônimo:  Américo Fluminense], 1908

Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)

óleo sobre tela, 52 x 91 cm

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

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Luiz Gonzaga Duque Estrada (RJ 1863 — RJ, 1911) foi um jornalista, crítico de arte, pintor e escritor.   Atuou na imprensa carioca escrevendo em jornais e revistas importantes da cidade: O Paiz, A Semana, Diário de Notícias, Folha Popular, Kósmos e Fonfon, entre outros.

Obras:

A Arte Brasileira,  1888

Mocidade Morta, 1899

Graves e frívolos,  1910

Horto de Máguas, contos, 1914 – póstuma

Contemporâneos, s/d





Porque é Carnaval … “Pelo telefone”, composição de Donga

15 02 2010

Carnaval em Madureira, 1924

Tarsila do Amaral ( Brasil, 1886 – 1973)

óleo sobre tela, 76 x 63 cm

Na postagem anterior, um texto de Ruy Castro, há uma referência ao samba Pelo Telefone, do compositor Donga.  Posto aqui a letra assim como um  vídeo para ilustração.

Pelo Telefone

Compositor: DONGA

O chefe da folia

Pelo telefone manda me avisar

Que com alegria

Não se questione para se brincar

===

Ai, ai, ai

É deixar mágoas pra trás, ó rapaz

Ai, ai, ai

Fica triste se és capaz e verás

— 

Tomara que tu apanhe

Pra não tornar fazer isso

Tirar amores dos outros

Depois fazer teu feitiço

Ai, se a rolinha, sinhô, sinhô

Se embaraçou, sinhô, sinhô

É que a avezinha, sinhô, sinhô

Nunca sambou, sinhô, sinhô

Porque este samba, sinhô, sinhô

De arrepiar, sinhô, sinhô

Põe perna bamba, sinhô, sinhô

Mas faz gozar, sinhô, sinhô

O “peru” me disse

Se o “morcego” visse

Não fazer tolice

Que eu então saísse

Dessa esquisitice

De disse-não-disse

Ah! ah! ah!

Aí está o canto ideal, triunfal

Ai, ai, ai

Viva o nosso carnaval sem rival

 —

Se quem tira o amor dos outros

Por deus fosse castigado

O mundo estava vazio

E o inferno habitado

 —

Queres ou não, sinhô, sinhô

Vir pro cordão, sinhô, sinhô

É ser folião, sinhô, sinhô

De coração, sinhô, sinhô

Porque este samba, sinhô, sinhô

De arrepiar, sinhô, sinhô

Põe perna bamba, sinhô, sinhô

Mas faz gozar, sinhô, sinhô

 —

Quem for bom de gosto

Mostre-se disposto

Não procure encosto

Tenha o riso posto

Faça alegre o rosto

Nada de desgosto

 —

Ai, ai, ai

Dança o samba

Com calor, meu amor

Ai, ai, ai

Pois quem dança

Não tem dor nem calor

O chefe da polícia

Com toda carícia

Mandou-nos avisá

Que de rendez-vuzes

Todos façam cruzes

Pelo carnavá!…

— 

Em casas da zona

Não entra nem dona

Nem amigas sua

Se tem namorado

Converse fiado

No meio da rua.

 —

Em porta e janela

Fica a sentinela

De noite e de dia;

Com as arma embalada

Proibindo a entrada

Das moça vadia

 —

A lei da polícia

Tem certa malícia

Bastante brejeira;

O chefe é ranzinza

No dia de “cinza”

Não quer zé-pereira!

 —

Coro (civis)

— 

Me dá licença, não dou, não dou

Faça favô, não dou, não dou

Pra residença, não dou, não dou

Com pressa vou, não dou, não dou

 —

Coro (madamas)

Do chefe é orde? não vou, não vou

Sua atrevida, não vou, não vou

Entrar não pode, não vou, não vou

Vá pra avenida, não vou, não vou.

 —

 —

Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos)
(Compositor e violonista)
5/4/1889, Rio de Janeiro (RJ)
25/9/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 –





Porque é Carnaval… um texto de Ruy Castro

15 02 2010

Cabeça de palhaço, sem data

Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)

Crayon sobre papel, 16 x 15 cm

De 1930 a 1960, em termos de boa música e mau comportamento o Rio teve um Carnaval como nenhum outro lugar ou época.  Sendo uma cidade razoavelmente católica, produziu, sob as barbas do Cristo Redentor, Carnavais mais pagãos que os do próprio paganismo egípcio ou das bacanais romanas — aqui, o boi Ápis viraria croquete de botequim e Baco não pegaria nem aspirante no Clube dos Cafajestes, uma confraria de rapazes bem-nascidos e educados que usavam a alegria para fins saudavelmente imorais, como bailes, festas, orgias, com uma ou outra briga para manter a forma.

Por cair quase sempre em fevereiro, coincidindo com o esplendor do verão e convidando à pouca roupa, o Rio deixou longe em euforia os Carnavais invernais que o inspiraram, como os de Nice e de Veneza (os quais continuaram a ser o que sempre foram: belos bailes a fantasia).  O Carnaval carioca também permitiu ver que, em comparação, o de Nova Orleans era uma festa aristocrática, exclusivista e racista, de brancos e negros brincando iguais, mas separados.  No Rio, o samba e a marchinha nivelaram tudo.  A partir deles passou a haver um só  Carnaval para os negros, brancos e mulatos.

Carnaval, sem data.

J. Carlos (Brasil 1894-1950)

Nanquim e guache sobre papel, 18 x 27 cm

Seus criadores e intérpretes eram gente de todas as raças e classes, trabalhando e se divertindo juntos.  Nos anos 30, o cantor Mário Reis, branco de família rica, cantava os sambas que Ismael Silva, negro e pobre, fazia em parceira com o branco de classe média Noel Rosa, acompanhado por uma orquestra de músicos brancos e negros.  Dos três maiores cantores da época, Francisco Alves era branco, filho de portugueses; Orlando Silva era mulato, de cabelo passado a ferro; e o Sílvio Caldas, moreno de cabelo em escadinha, era o quê?  Era o “Caboclinho querido”.   Mas que importância tinha isso?  Terminada uma apresentação no rádio ou no teatro, saíam todos juntos e se sentavam às mesas do Café Nice, na avenida Rio Branco, ou de um humilde pé-sujo no Estácio,  e o samba continuava.  Tais combinações eram rotina no Rio.

A rigor nem eram novidade.  As bandas militares cariocas em fins do século XIX eram mistas, e a mais importante delas, a do Corpo de Bombeiros, tinha um maestro negro, Anacleto de Medeiros.  “Pelo telefone”, em 1917, já fora assinado por um preto e um branco, lembra-se?  A primeira orquestra de sambas e de choros, Os Oito Batutas, de Pixinguinha, criada em 1922, era preta e branca em partes iguais, quatro para cada lado, e tocava para platéias mistas, em cinemas e teatros.  Alguns anos depois, quando surgiu o rádio, os músicos negros de qualquer instrumento sempre tiveram espaço nas emissoras do Rio (em outras cidades do Brasil só eram admitidos como cantores ou percussionistas).  E as gravadoras americanas sediadas aqui nunca cometeram a torpeza de obrigar suas filiais brasileiras a produzir race records  (discos mais baratos de artistas negros para compradores idem), como faziam nos Estados Unidos com os jazzistas.  O samba e o jazz podem ter nascido ao mesmo tempo, dos mesmo avós africanos e molhado fraldas simultâneas, mas, defintivamente, seguiram caminhos diferentes.  (Não é uma vergonha, por exemplo, que o jazz tenha levado vinte anos para ter sua primeira formação “integrada”?  A qual foi o trio do clarinetista Benny Goodman, em 1936, com o pianista negro Teddy Wilson, e, no começo, só para gravações em estúdio, longe das vistas de uma platéia branca.)

Arlequins, 1939

Dimmitri Ismailovitch (Rússia, 1892 – Brasil, 1976)

Óleo sobre tela, 59 x 37 cm

Alguém já comentou admirado que o brasileiro “é um negro de todas as cores”.  Se se estava referindo ao carioca, que se orgulha dessa mistura, era perfeito.  Aqui somos mesmo neguinhos assumidos, das mulatas de olhos verdes aos “brancos” como eu, com leite e café na família.  Sem esquecer as louras autênticas, de pele clara e olhos azuis e sobrenome europeu — elas podem ser tudo isso, mas a bunda não nega e o jeito para sambar, também não.  O Rio é uma exuberante variedade de cores de pele e olhos, texturas de cabelo e formatos de nariz e lábios — resultado de cinco séculos de gip-gip-nheco-nheco sobre redes, catres, chaises longues, camas com dossel, de pé contra uma bananeira, ou na praia mesmo, à milanesa.  Todos no Rio temos um pé na África e os que não têm, gostam de dizer que têm.  Mesmo porque não podem jurar que não tenham.  Sabe-se lá o que, em 1850, o nhonhô estava  fazendo com a vovó nos fundos do sobrado?

Em:  Carnaval no fogo: crônica de uma cidade excitante demais, Ruy Castro, São Paulo, Cia das Letras: 2003, páginas: 86-89





Salgueiro, poema de Leonor Posada

1 03 2009
Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, Carnaval 2009, Foto: AFP

Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, Carnaval 2009, Foto: AFP

 

 

Homenagem à escola vencedora do Carnaval carioca de 2009.

 

 

 

 

 

SALGUEIRO

 

                                        Leonor Posada

 

 

 

Olho-te, morro, apaixonadamente,

docemente,

como quem olha, em noite luminosa,

a cena de Belém.

Em tuas grimpas o sol crava seus raios,

e os desmaios

da tarde, no poente, arroxeada,

são a coros que te sangra a fronte.

 

Sobem teus flancos

mil caminhos tortuosos, e barrancos

debruçam-se a olhar para a cidade.

Teus casebres misérrimos parecem,

de longe, feios,  entre os arvoredos,

um ponto de saudade.

 

Pela manhã, desce ligeiramente,

a tua gente

em busca do seu pão, do seu trabalho;

ao passo que o malandro, mal dormido,

no chão batido,

inda cheio de sono,

a fome engana batucando um samba…

 

Olho-te, morro, apaixonadamente,

docemente,

como quem olha, em noite luminosa,

a cena de Belém.

A cidade é berço do Messias,

e para tua gente tem um nome

sem significação:

— Civilização

 

 

 

Em: Poetas cariocas em quatrocentos anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965

 

 

 

Leonor Posada, (Cantagalo, RJ 1893 – Rio de Janeiro, 1960) Poeta, teatróloga, professora.

 

Obras:

 

Plumas e espinhos,  poesia, 1926

Leituras cívicas, didático, 1943

Guia de redação, didático, 1953

Serenidade, poesia, 1954

Os primeiros passos na redação, 1956





Cinzas — poema de Joaquim Norberto de Souza e Silva

25 02 2009

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Quarta-feira de Cinzas, 1855-1860

Carl Spitzweg (Alemanha 1808-1885)

Óleo sobre tela,  21 x 14 cm

Galeria Nacional de Stuttgart

Alemanha

 

 

 

CINZAS

 

                         Joaquim Norberto de Souza e Silva

 

 

Sobre as asas da alegria,

Entre enganos ruidosos,

Entre vivas jubilosos,

Expirava o carnaval.

 

Oh, quanta moça faceira,

Que muito se divertira

Morrer com pena não vira

Esse tríduo sem igual.

 

A rótula então perdera

Todo o sigilo, se abrindo,

E um rosto moreno e lindo

Livre e ousado se mostrou;

E mais de um braço certeiro

Achou um alvo condigno,

Em que amável, benigno,

Os seus tiros empregou.

Em: Poetas Cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965

 

 

Joaquim Norberto de Sousa e Silva  (RJ 1820 – RJ 1891)

Pseudônimo: Joaquim Norberto, Fluviano, João do Norte.  Poeta, romancista, teatrólogo, polígrafo, pesquisador, biógrafo. Sua atividade literária foi intensa e seus estudos têm validade para o conhecimento do passado literário do Brasil, dispersos na Revista do IHGB, na “Revista Popular”, na “Minerva Brasiliense”. É na crítica e história literária que reside a sua melhor contribuição através de estudos, memórias, edições anotadas de autores brasileiros.

 

 

Obras:

 

A Cantora Brasileira Crítica, teoria e história literárias 1871  

A noite de agonia: Poesia 1889  

Amador Bueno, ou, A Fidelidade Paulistana, Drama em 5 actos Teatro 1855  

As Americanas Poesia 1856  

As duas orfãs: Romance e Novela 1841  

Balatas Poesia 1841  

Beatriz Teatro XIX   

Bosquejo da historia da poesia brazileira. Crítica, teoria e história literárias XIX   

Brasileiras Célebres Biografia 1862  

Cantos Épicos Poesia 1861  

Cantos epicos Poesia 1861  

Cantos poeticos. Poesia XIX   

Chegado de Londres: Romance e Novela 1884  

Chile e Brazil: Poesia 1889  

Climnestra, Rainha das Micenas, Tragédia em Cinco Atos Teatro 1846  

Colombo ou o descobrimento da America: Teatro 1854  

Dirceu de Marilia. Liras atribuídas à sra. D. M. J. D. de S. (Natural de Villa Rica) … Poesia 1845  

Flores entre Espinhos; Contos Poéticos Conto 1864  

História da Conjuração Mineira Outros 1860  

História das Aldeias… Outros XIX   

Investigações sobre o Recenseamento da População Geral do Império Outros 1870  

Jacub ou Carlos VII entre seus grandes vassallos: Teatro 1841  

Joaquim Garcia Romance e Novela 1832  

Kettli Tradução XIX   

Maria ou Vinte Anos Depois Romance e Novela 1844  

Melodias romanticas: Poesia XIX   

Modulações Poéticas, Precedidas de um Bosquejo da História da Poesia Brasileira Crítica, teoria e história literárias 1841  

Novas modulações: Poesia XIX   

O berço livre: Poesia 1883  

O Brazil: Poesia 1857  

O cancioneiro das bandeiras: Poesia XIX   

O Chapim do Rei Teatro 1851  

O Livro de Meus Amores Poesia 1849  

O Martírio do Tiradentes Romance e Novela 1882  

O ultimo abraço, 1841  

Poesia á inauguração da estatua equestre do fundador do imperio. Poesia 1862  

Romances e novelas Romance e Novela 1852  

Tartufo: Tradução XIX   

Vindo de Paris: Romance e Novela 1884  

Visão. Poesia XIX 





Porque é Carnaval…

24 02 2009

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Carnaval, 1968

Emiliano Di Cavalcanti ( RJ 1897 – RJ 1976)

Óleo sobre tela

 

 

 

 

—-

DI CAVALCANTI

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (Rio de Janeiro RJ 1897 – idem 1976). Pintor, ilustrador, caricaturista, desenhista, gravador, muralista. Inicia a carreira artística em 1908. Em 1914 publica seu primeiro trabalho como caricaturista na Revista Fon-Fon. Em 1917, muda-se para São Paulo, freqüenta aulas de direito no Largo São Francisco e o ateliê do pintor impressionista Georg Elpons (1865-1939). Realiza a primeira individual de caricaturas na livraria O Livro. A partir de 1918, integra o grupo de artistas e intelectuais de São Paulo com Oswald de Andrade (1890-1954) e Mário de Andrade (1893-1945), Guilherme de Almeida (1890-1969) , entre outros. Trabalha como diretor artístico da revista Panóplia, em 1918, em São Paulo, e ilustra a revista Guanabara, em 1920, sob o pseudônimo Urbano. Em 1921 ilustra A Balada do Enforcado, de Oscar Wilde (1854-1900), e publica, em São Paulo, o álbum Fantoches da Meia-Noite. É um dos idealizadores e organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, autor do material gráfico da exposição. Muda-se para a Europa como correspondente do jornal Correio da Manhã. Em Paris, estabelece ateliê em Montparnasse e freqüenta a Academia Ranson, onde conhece artistas e intelectuais. Retorna ao Rio de Janeiro em 1925 e em 1928 filia-se ao Partido Comunista do Brasil – PCB. No ano seguinte, faz a decoração do foyer do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Em 1931 participa do Salão Revolucionário e funda em São Paulo, em 1932, com Flávio de Carvalho (1899-1973), Antonio Gomide (1895-1967) e Carlos Prado (1908-1992), o Clube dos Artistas Modernos, CAM. Na Revolução Constitucionalista fica preso por três meses como getulista. Em 1933, casa-se com a pintora Noemia (1912-1992), sua aluna. Publica o álbum A Realidade Brasileira, série de doze desenhos satirizando o militarismo da época. Em Paris, em 1938, trabalha na rádio Diffusion Française nas emissões Paris Mondial. Retorna ao Brasil em 1940; publica poemas na Antologia de Poetas Brasileiros, organizada por Manuel Bandeira (1884-1968). Publica o livro de memórias Viagem da Minha Vida: memórias em três volumes (V.1 – Testamento da Alvorada, V.2 – O Sol e as Estrelas e V.3 – Retrato de Meus Amigos e … dos Outros) editado pela Editora Civilização Brasileira. Premiado em 1971 pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte – ABCA. Em 1972 publica o álbum 7 Xilogravuras de Emiliano Di Cavalcanti, pela Editora Onile, e recebe o Prêmio Moinho Santista. Em Salvador, recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia – UFBA, em 1973

 





A formação de um bloco de Carnaval: Ruy Castro

24 02 2009

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Carnaval, década de 40

Haydéa Santiago (RJ 1896 – RJ 1980)

Estudo para um painel do MAB

Óleo sobre tela

 

 

 

 

A gestação e o parto de um bloco são uma súmula do estilo carioca de viver.  Todo bloco nasce de uma amizade.  Começa com meia dúzia de amigos que, durante o ano, se reúnem para beber e conversar fiado num botequim de subúrbio, num quiosque à beira-mar ou mesmo para jogar pelada.  Às vezes são colegas de profissão: médicos, advogados, arquitetos, bancários, jornalistas, publicitários, desempregados – dá de tudo, de todas as cores, e recomenda-se apenas que um não esteja comendo a mulher do outro.  Entre churrasquinhos, chopes e caipirinhas, alguém aparece com um violão ou um tamborim.  Faz-se um samba, depois outro, que todos aprendem e cantam.  Nas proximidades do Carnaval, resolvem desfilar juntos, levando mulher, filhos, a empregada, a babá e quem mais se apresentar.  Outros amigos aderem e levam os amigos deles.  Para pagar o aluguel de uma quadra de ensaios, renovar o couro dos instrumentos,  fazem uma vaquinha entre os comerciantes da vizinhança e vendem camisetas oficiais do bloco – quase sempre desenhadas por um cartunista nacionalmente famoso e que, por acaso, também faz parte do grupo.  A uma ou duas semanas do Carnaval, o bloco começa a sair às ruas e logo conquista a simpatia, quase amor, do bairro – qualquer pessoa pode juntar-se e se deixar levar pela corrente humana.  No Carnaval para valer, já são tantos os blocos de cada região que eles têm de sair em dias alternados e com o apoio dos guardas de trânsito.  Se desfilarem ao mesmo tempo, darão um nó na cidade. 

 

Ao contrário das bandas, que usam instrumentos de sopro e se limitam a executar velhos standards do Carnaval, os blocos só dependem da bateria e do gogó para cantar os sambas e marchinhas feitos por eles mesmos – e que, como não tocarão no rádio ou na televisão, dizem o que querem sobre ou contra qualquer pessoa.  Neles estão a malícia, a crítica e a gozação – marcas registradas da cidade.

 

O Carnaval é a prova de que a força empreendedora do carioca, quando ele se dispõe a exercê-la, é formidável.  Imagine se o carioca pusesse essa força a serviço de algo realmente sério, importante e construtivo.

 

Não sei e não queremos nem saber.

 

 

Ruy Castro

Carnaval no fogo: crônica de uma cidade excitante demais

São Paulo Cia das Letras:2003  Páginas 117 e 118.





Porque é Carnaval…

24 02 2009

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Mascarado, 2007

Reynaldo Fonseca

óleo sobre tela 60 x 80 cm

Escritório de Arte, Rio de Janeiro

 

 

Reynaldo Fonseca

Recife, 1925

 

Transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1944, tornou-se aluno de Portinari e de volta de uma viagem à Europa, em 1949, e novamente residindo no Rio de Janeiro, estudou com Henrique Oswald, no Liceu de Artes e Ofícios, a técnica da gravura, terminando por retornar a Recife e estudar o «modelo vivo», o que explica a excelente técnica e o rigor compositivo características sempre presentes em todas as suas obras.

Expõe com sucesso desde 1958 (Recife) e desde 1969 (Rio de Janeiro), tendo dividido sua atividade artística entre os dois centros.

Através de seu trabalho percebe-se sua contínua tentativa de seguir a inspiração grandes pintores primitivos onde se encontra presente uma bafagem, tal como um deliciado sopro criador.

«Para conseguir a atmosfera de mistério e nostalgia que pretendo dar aos meus quadros, uso com freqüência, como assunto, velhas fotografias e gravuras. Tecnicamente parto do antigo (por encontrar nele os elementos necessários ao que quero expressar), tratando de dar uma construção pessoal, portanto atual.»  Reynaldo Fonseca.