Orlando Teruz ( Brasil 1902-1984)
Óleo sobre madeira, 80 x 100 cm
Coleção Particular
Alfredo Volpi (Itália 1896 — Brasil 1988)
esmalte sobre azulejo, 15 x 15 cm
Coleção Particular
—-
Sábio trabalhando no seu gabinete no Rio de Janeiro, 1827
Jean-Baptiste Debret (França 1768-1848)
aquarela
Fundação Raimundo de Castro Maia, Rio de Janeiro
—
—
Jean-Baptiste Debret (Paris 1768 — Paris 1848) foi um pintor e desenhista francês. Integrou a Missão Artística Francesa (1816), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou pintura. De volta à França (1831) publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), documentando aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX.
O violeiro, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850- 1899)
óleo sobre tela — 141 x 172 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
—
—
Já era tempo de José Ferraz deAlmeida Júnior ser honrado com uma exposição de seu trabalho na sua cidade natal. Um dos grandes expoentes da arte brasileira do final do século XIX, finalmente vai ser conhecido e se possível reconhecido por seus conterrâneos. O pintor que como muitos de sua época, estudou fora do Brasil, teve a coragem de voltar ao país e procurar, encontrar e desenvolver um vocabulário imagístico próprio, totalmente brasileiro. Suas obras captam uma realidade regional que foi pouco explorada por seus companheiros de profissão na época e que além do valor artístico que demonstram, esses quadros têm o valor de documentos de época, documentos de valores.
Com o tema “Homem e Natureza”, 20 das principais obras do pintor que integram o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo completam a exposição. “Caipira Picando Fumo“, de 1893, um dos destaques do acervo. A mostra faz parte das comemorações dos 160 anos do nascimento do pintor, além de comemorar os 400 anos da fundação de Itu.
—
—
Paisagem do Sítio Rio das Pedras, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela — 57 x 35 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
—
—
A curadoria de Ana Paula Nascimento ressalta nessa exposição os quadros que representam a temática de Almeida Júnior, mostrando a preocupação do pintor de valorizar o caipira e sua cultura: “Caipiras Negaceando” (1888), “Cozinha Caipira” (1895) e “O Violeiro” (1899)[ foto acima], demonstram esse cuidado do pintor. Almeida Júnior foi um pintor que viveu exclusivamente de sua arte, assim sendo, grande parte do acervo do pintor é dedicada aos retratos de pessoas ilustres, que fazia por encomenda. [Por exemplo, neste blog, Retrato de D. Joana Cunha] Mas Almeida Júnior também se dedicou ao retrato da natureza à sua volta, pintando com cuidado locais favoritos de seus passeios pelos arredores de Itu: “Cascata do Votorantim” (1843) e “Paisagem do Sítio Rio das Pedras” (1899) [foto acima] são dois exemplos de seu paisagismo nessa exposição.
—–
——
SERVIÇO:
Exposição:
Regimento Deodoro — Antigo Colégio São Luiz
Data: 9 de maio de 2010 a 20 de junho de 2010
Praça Duque de Caxias, 284, Centro
Telefones: (11) 4022-2967 ou (11) 4022-1184
Entrada Franca.
—-
A vida no campo, vaquejada, 1960
Ernest Zeuner ( Alemanha, 1898 — Brasil, 1967)
Têmpera sobre papel, 25,5 cm x 36,5 cm
Museu Ado Malagoli, Porto Alegre, RS
—
—
—-
—
Coelho Neto
—
—
Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.
Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça. O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos. E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência. Algumas eram inventadas por ele, diziam; outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.
Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade. O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas. No seu tempo ninguém levava o melhor ao Firmo do Curral Novo. Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a aguilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.
Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.
Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas. Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.
Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?! As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.
Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:
— Isso, ahn! isso, foi o diabo!
Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto. “Hoje em dia qu’é que a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Serapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela. Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente… Eu também pisei duro, ora!”
Firmo vivia das recordações. Passava os dias caminhando de um para o outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.
À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: “Estava vivendo…” dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho. Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro. Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.
De repente aprecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava… uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres: um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara. E a marcha aproximava-se morosa.
Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego. De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:
— Eh! eh! eh! cou! ruma! ruma! Eh! cou…
E ficava longo tempo excitado, a olhar. Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho. Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado, Firmo suspirava baixinho:
— Ah! Nossa Senhora! meu tempo!
* * *
—
—
Camponês com cavalo, 1948
José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)
óleo sobre tela, 54 x 65 cm
Coleção Particular
—–
———
—–
Foi pelo Natal que o vi pela última vez. Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sitio. Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças. Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.
Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede. Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semi-cerrados.
— Eh! vaqueiro velho… Então que é isso?!
— Estou derrubado, patrãozinho.
— Mas que diabo tem você?
— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.
— Ora qual…
— Eu é que sei como me sinto, patrãozinho. Se até o pito me faz nojo…
— Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude. Quem está aí fora? adivinha…
— Ah! Patrãozinho, alguma alma boa… Quem há-de ser?!
— Raimundinho.
O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:
— E onde está esse negro que não entra?
— Boa noite à gente da casa! Disse da porta o cafuzo.
— Entra, negro!
O cafuzo, um codoense da fama, atravessou o limiar da porta:
— Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?!
— Sim porque eu não vi quando ela entrou… quando não! Então, negro, que é que vamos fazendo?…
— Vim fazer minha festa. Dizem que vão queimar fogaréus em Curral Novo…
— Como vai Noca?
— Boa.
— E Ana? está na cidade, mais o pai?
— Hen, hen, afirmou o cafuzo.
— Negro, você não vai daqui hoje. Ah! Patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo. Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca…
— Está encordoada?
— O danado! Onde você viu viola sem corda? e afinada, ajunta.
— O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.
— Passa p’ra luz, cafuzo.
— Lá vou…
Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.
— Anda com Deus.
— Lá vai; pigarreou e desferiu:
—
“ No coração de quem ama
Nasce uma flor que envenena”
— Eh! gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:
“Morena, essa flor que mata
Chama-se paixão, morena…”
— Pega, negro… não deixa o verso no chão!
De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.
Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a voz fraca:
— Canta, canta mais, cafuzo… Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga. Canta.
Era tarde quando desci o outeiro. Raimundinho lá ficou cantando.
No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viageiro:
— Raimundinho, como vai ele?…
De longe apontou a palhoça:
— Sim.
O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: “ Às quatro da manhã… Atirei um verso e disse, para bulir com ele: Pega, velho! Não respondeu. Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão… Fui ver, coitado! Estava morto”. E deu esporas para que não lhe visse as lágrimas.
Subi ao outeiro… Pobre Firmo! Lá estava no fundo da rede, cercado de gente. Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos. E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas! Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a morte entrar na cabana de Firmo.
—
—
* * * * *
—
—
Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta. Usou entre outros os seguintes pseudônimos: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.
Obras:
Romance Bárbaro (1914)
O Mistério (1920)
Fogo fátuo, romance, (1929)
Álbum de Caliban, contos, (1897)
Contos da vida e da morte, contos, (1927)
Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)
A cidade maravilhosa, contos, (1928)
O polvo, romance (1924)
A descoberta da Índia, narrativa histórica, (1898)
O Fruto, contos, (1895)
O rei fantasma, romance, (1895)
O Rajá de Pendjab (1898)
Rapsódias, contos, (1891)
Sertão (1897)
A Bico de Penna
Água de Juventa, contos,
Romanceiro (1898)
Theatro, vol. I – Os Raios X (1897), O Relicário (1899), O Diabo no corpo(1899)
Theatro, vol. II – As Estações, Ao Luar, Ironia, A Mulher, Fim de Raça (1900)
Theatro, vol. IV – Quebranto (1908), comédia em 3 actos, e o sainete Nuvem
Theatro, vol. V – O dinheiro, Bonança (1909), e o Intruso
Fabulário
O Arara, (1905)
Jardim das Oliveiras, (1908)
Esfinge, romance, 1908
Inverno em Flor, romance, (1897)
Apólogos, contos para crianças
Miragem, romance, (1895)
Mysterios do Natal, contos para crianças
O Morto, Memórias de um Fuzilado, romance, (1898)
Rei Negro (1914)
Capital Federal, Impressões de um Sertanejo, romance, (1893)
A Conquista, romance, (1899)
Tormenta, romance, (1901)
Tréva
Banzo, contos, (1913)
Turbilhão (1904)
O meu dia
As Sete Dores de Nossa Senhora
Balladilhas, contos, (1894)
Pastoral
Vida Mundana, contos, (1919)
Patinho torto (1917)
Às quintas
Scenas e perfis
Feira livre
Immortalidade, lenda, romance, (1926)
O Paraíso (1898)
Bazar
Fogo Fátuo (1930)
fogo de vista (1923)
Theatro lyrico
os pombos
Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac
Teatro infantil, data ignorada, nova coletânea com o mesmo tema
—-
—–
—–
Garcia Redondo
—–
Nessa manhã de Natal, luminosa e fresca, Mma. Lenoir, ainda em penteador, alegre e gárrula, enfeitava, na sala da biblioteca da sua habitação garrida, a virente araucária minúscula que devia encher de gáudio o pequeno Alberto, cobrindo-a de bibelots policromos e de doçuras apetitosas – quando uma criada entrou no aposento e lhe entregou uma carta.
Mma. Lenoir olhou o sobrescrito e, estranhando a letra, indagou:
— De onde vem isto?
— De casa do pai de V. Exª .
— De casa de meu pai!…
Muito admirada, rasgou o envelope, e passou os olhos pela carta.
Uma palidez súbita substituiu as róseas cores do rosto de Mma. Lenoir, as suas lindas mãos patrícias tremeram e um suspiro abafado escapou-lhe do peito. Depois, atirando a carta sobre a mesa onde se erguia a araucária, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.
A criada, pasmada e solícita, correra para a ama, e carinhosa, sem conhecer ainda a causa desse pesar imprevisto, conduziu-a docemente para junto de uma poltrona, onde a fez sentar.
E timidamente, respeitosamente, inquiriu:
— Que foi, minha senhora? Aconteceu alguma coisa ao Sr. Afonso?
Mma. Lenoir não respondeu; soluçando sempre, sempre com suas mãos no rosto, ensopando em lágrimas o seu fino lenço de batiste dava silenciosamente expansão à sua dor.
A criada, perplexa, desejosa de ser-lhe útil nesse transe doloroso, perguntou ainda:
— Quer que vá buscar o menino Alberto?… ele já deve estar acordado.
A cabeça de Mma. Lenoir agitou-se nervosamente e da sua garganta patiu, depois de um grande esforço, esta frase rouca:
— Não, não, traze-me água para beber.
A criada saiu, cerrando discretamente a porta da biblioteca.
—
* * *
—–
Mma. Lenoir só tinha duas afeições no mundo: seu filho Alberto e seu pai. Filha única de um velho rico e libertino, cedo perdera a mãe e cedo vira-se entregue aos cuidados de estranhos.
Para ver-se livre de uma criança, cuja presença o constrangia, impedindo-o de dar largas ao seu temperamento fescenino, o velho Afonso Marquet começara pondo a filha em casa de uma instrutora que lhe servia de mãe e de mestra, e acabara encerrando-a em um colégio, onde ia vê-la raramente, compensando as largas ausências com amiudados presentes fascinadores.
A respeito deste regime pouco afável, a criança, que herdara o belo coração materno, tinha uma grande afeição ao pai e amava-o sinceramente.
Assim cresceu, assim se desenvolveu, esquecida e triste, sempre encerrada entre as quatro paredes do mesmo colégio, vendo o pai poucas vezes, sem conhecer as alegrias do lar e os carinhos dos amigos. Para encher o vácuo de sua alma sentimental e meiga, ilustrava-se, lendo muito, estudando com o prazer e a ânsia de quem procura derivativos para o tédio e distrações aos pesares do isolamento e da reclusão.
Mas, um dia, amanheceu mulher feita e não era mais possível continuar no colégio. O velho Afonso, bem a contragosto, viu-se forçado a conduzi-la ao seu lar de libertino, onde tanta vez espumara a champanha da orgia e estalara o beijo do amor livre. Todavia, a presença em sua casa, dessa mulher, dessa linda mulher que não era como as outras, constrangia-o, obrigando-o a mudar de hábitos arraigados, cuja continuação a sua velhice cupidiana e ardente imperiosamente solicitava.
Atormentado pela forçada abstenção dos seus prazeres cômodos, o velho Afonso cogitou em casar a filha.
Era um meio fácil de ver-se livre dela, recuperando a sua ampla liberdade perdida. E, uma noite, esse pai egoísta e frívolo notou, entre os seus parceiros de baccarat no Clube, um rapaz viveur e esperto, bem galante, bem distinto, razoavelmente educado e como ele de origem francesa, que, a seu ver, era muito capaz de fazer a felicidade da filha, se ela quisesse ter a complacência de amá-lo um poucochinho.
E com essa idéia fixa, começou a levar o rapaz a casa, a dar-lhe jantares, a pô-lo em contato com a filha. Sagaz e ambicioso, o galante Lenoir percebeu os intuitos do velho e, como o negócio convinha-lhe em todos os sentidos, fez-se a desejada corte e conseguiu fazer-se amar.
Poucos meses após, o casamento fazia-se, e o casal ia habitar uma linda chácara com que o velho Afonso presenteara a filha.
——
* * *
——–
A vida conjugal de Mma. Lenoir foi de duração curta e de ventura escassa. Passada a lua de mel, durante a qual ela apenas entreviu uma nesga do céu da felicidade sonhada, o marido voltava à vida enervante e dissipadora dos clubes, abandonando-a noites inteiras, isolada e desiludida, entregue à insônia e aos sustos.
Felizmente o acaso, esse bom amigo incógnito, que às vezes surge providencialmente para dar lenitivo aos que sofrem, veio libertá-la desse companheiro instável, arrebatando-o à vida, que para ele resumia-se nas emoções que produzem os prazeres frívolos e o retângulo verde da mesa do jogo. E assim foi, dois anos após de casada, Mma. Lenoir, com apenas dezenove anos, achou-se viúva e em vésperas de ser mãe.
* * *
—-
—–
A Carta, 1925
Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)
Óleo sobre tela, 51 x 69 cm
Coleção Particular
——
——
—-
Quando nasceu o pequeno Alberto, havia três meses que o Sr. Lenoir repousava no Caju, em baixo de uma grande pedra tumular. Essa criança, que não conhecera o pai e que estava destinada a ser o consolo único da mãe, despertou uma grande comoção piedosa no avô. Talvez o remorso de não ter consagrado uma afeição mais intensa à filha, talvez a fadiga produzida pela vida dissoluta que passara, impelisse o velho contrito a dedicar-se com exagero apego ao neto. Nesse rebento louro concentrava todos os seus afetos; e ele que tanto afastara de si a filha, acabou por não poder passar um dia sem ver o neto, sentando-o nos joelhos acalentando-o com excessos de ternura. Entre os braços da mãe carinhosa e os joelhos já trêmulos do avô, essa criança avançou pela vida e atingiu os nove anos.
Mma. Lenoir, embora moça, formosa, rica e requestada, achou-se bem na sua viuvez, e preferiu conservar a independência, que ela lhe trouxera, a correr o risco de var para o seu lar tranqüilo um segundo marido igual ao que tivera. Demais, a sua existência, toda ocupada com o filho, era-lhe agora menos insípida, agradável mesmo.
Via diariamente o pai, que, embora morasse em casa própria, tinha um talher constante à sua mesa e raro deixava de sentar-se entre a filha e o neto, para encher o pequeno de gulodices e fazer-lhe todas as vontades.
Para ter essa criança constantemente feliz e satisfeita, o velho despovoava as prateleiras das lojas de brinquedos e inventava toda sorte de loucuras. Um pedido de Alberto era uma ordem para o avô, que, na sua indulgência senil, chegava muitas vezes a contrariar a filha para não ver murchar o sorriso vermelho nos lábios do neto.
Tal era a situação de Mma. Lenoir, quando na manhã de 25 de dezembro de 1886, na ocasião em que na sala da sua biblioteca preparava a árvore de Natal, que o velho Afonso ocultamente lhe levara na véspera para surpreender o neto no dia seguinte, recebeu inesperada e brutalmente a notícia, comunicada laconicamente por um criado, do falecimento repentino de seu pai.
E fora essa nova que a pusera em lágrimas, numa aflição angustiada e acabrunhadora.
—-
* * *
—-
—–—-
Cerca de uma hora ficou Mma. Lenoir no fundo do seu jardim, no interior de um belvedere rústico, a esmagar a sua dor, a conformar-se com a sua triste sorte, ocultando lágrimas e fazendo desaparecer do seu rosto todos os vestígios da tristeza. Fora aí, entre rosas e madressilvas, que a criada lhe viera explicar como falecera o pai, fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que se levantara do leito para ir tomar banho; e fora aí também que a mesma criada, ofegante e aflita, lhe veio comunicar, pouco depois, que o filho, impaciente, fugira do quarto e já estava na biblioteca, encantado e surpreso, a olhar a linda árvore de Natal, que o bom São Nicolau lhe trouxera, esquecendo-se, na precipitação da dádiva de pendurar pelos galhos todos os brinquedos que deixara sobre a mesa.
Dando à fisionomia um ar risonho, Mma. Lenoir atravessou o jardim, reentrou em casa e seguiu para a biblioteca. E já próxima, abafando os passos, viu, através do vão da porta, o filho, de olhos fixos na carta que ela recebera e onde a triste nova lhe tinha sido comunicada de um modo banal, com a fórmula arcaica, lançada por um criado, dedicado mas pretensioso, sobre uma larga folha de papel comum: “Saiba V. Ex.ª que o Sr. Afonso acaba de partir deste para melhor mundo”.
Sem pensar no que fazia, instintivamente, a pobre mãe precipitou-se para a criança e antes de a abraçar, antes de a beijar, arrancou-lhe a carta das mãos, dizendo-lhe com um grande esforço, a sorrir contrafeita, para disfarçar a emoção:
— Ah! Seu curioso, então estava lendo a carta que o São Nicolau me escreveu?
E o pequeno, piscando os olhos, num gesto brejeiro:
— Não é a do São Nicolau, não, mamãe! É a do Antônio, avisando que o vovô fez viagem.
E alegremente, mexendo nas tetéias espalhadas sobre a mesa, acrescentou:
— Estou zangado com o vovô, porque não quis levar-nos com ele para o “mundo melhor”.
Um suspiro de alívio e ao mesmo tempo de dor recalcada escapou dos lábios da infeliz mãe; depois, passeando os seus olhos negros, de novo marejados de lágrimas quentes, pelos livros da biblioteca, disse vagamente, respondendo à observação da criança:
— Sim, não nos levou com ele, mas mandou-nos todas essas lindas tetéias e jóias que estás vendo.
O pequeno, muito intrigado, como quem se sentia na pista de um segredo, indagou:
— Então, o São Nicolau é vovô?
Mma. Lenoir atrapalhada, presa aos sentimentos mais opostos, enxugou de novo os olhos e, para não dar a perceber o seu enleio, foi então beijar o filho numa explosão de ternura.
E, quando o osculava, atraía-lhe a atenção para os brinquedos, distraindo-o do assunto, que tanto a atormentava.
Mas, ele obstinado e curioso, inquiriu ainda:
— E onde fica, mamãe, esse “mundo melhor” para onde o vovô seguiu hoje? Nunca ouvi falar dessa terra!…
Então, a desgraçada mulher, erguendo o braço para o ar, e apontando para a nesga do céu, que se avistava da janela, deixou escapar dos lábios lívidos estas palavras confusas:
— É lá, meu filho,lá, além, bem além daquelas nuvens brancas…
— Então, já sei; é no céu, onde estão Nosso Senhor e … papai — disse o pequeno, batendo as mãos de contente.
E fixou demoradamente os olhos no azul, a ver se divisava por lá a vitória a rodar por entre as nuvens.
—
* * * * *
Em: Noite de Natal: coletânea de histórias de Natal, ed. Cassiano Nunes e Mário da Silva Briito, São Paulo, Editora Saraiva: 1950
—–
—–
—-
—–
Manuel Ferreira Garcia Redondo (RJ, RJ 1854 – SP, SP 1916) engenheiro, jornalista, professor, contista e teatrólogo. Usou os seguintes pseudônimos: Um contemporâneo; Um plebeu, Cabrion, Pepelet, Gavarni, Nemo, Childe Harold.
Obras:
Arminhos, contos, 1882
Mário, teatro, 1882
O dedo de Deus, comédia, 1883
O urso branco, comédia, 1884
Carícia, 1895
A choupana das rosas, contos, 1897
Moléstias e bichos, comédia, 1899
Salada de frutas, 1907
Viagens pelo país da ternura, 1907
Através da Europa, viagem, 1908
Novos contos, 1910
O descobrimento do Brasil, conferência 1911
Cara alegre, humor, 1912
Na pele do outro, comédia, s.d.
Bom-humor e vida airada, s.d.
Luiz Costa ( Brasil, 1955)
acrílica sobre eucatex, 65 x 50 cm
—
Luiz Pereira da Costa ( Aimorés, MG, 1955) — Muda-se para Brasília em 1969, onde quatro anos depois passa a trabalhar na Galeria de Arte Oscar Seraphico. Torna-se galerista em 1979, quando funda com o Jorge de Sousa a Galeria Parnaso em Brasília. Estuda com João Evangelista e Hugo Mundi. Em 1980 funda a Murale Escritório de Arte também em Brasília. Estuda a figura humana com Cathleen Sidki. A partir de 1982 começa a expor individualmente. Desde então tem-se dedicado exclusivamente à pintura.
Igreja de Santo Antônio da Barra, 1951
José Pancetti ( Brasil, 1902-1958)
Óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
O BRASIL
Renato Sêneca Fleury
Perguntei ao céu tão lindo,
— Por que é todo cor de anil?
Ele me disse, sorrindo:
— Eu sou o céu do Brasil!
Perguntei ao Sol, então,
A causa de tanta luz.
— Sou a glorificação
Da Terra de Santa Cruz!
Depois perguntei à Lua:
— Por que noites de luar?
— É para enfeitar a tua
Grande Pátria à beira-mar.
Perguntei às claras fontes:
— Por que correis sem cessar?
— Nós brotamos destes montes
Para a terra fecundar!
Então eu disse à floresta:
— És tão bela, verde inteira!
Ela respondeu em festa:
— Sou a mata brasileira!
Perguntei depois às aves:
— Por que estais a cantar?
— Cantamos canções suaves
Para tua Pátria saudar.
Céu e sol, luar e cantos,
Florestas e fontes mil
Enchem de eternos encantos
És minha Pátria, — o Brasil!
Renato Sêneca de Sá Fleury ( SP 1895- SP 1980) Pseudônimo: R. S. Fleury, ensaísta, pedagogo, escritor de Literatura Infantil, professor, professor catedrático de Pedagogia e Psicologia, jornalista, membro da Academia de Ciências e Letras de São Paulo, membro fundador do Centro Sorocabano de Letras.
Obras:
Anchieta
Ao Passo das Caravanas
Barão do Rio Branco, 1947
Contos e Lendas Orientais 1941
Francisco Adolfo de Varnhagen 1952
História do Pai João 1939
José Bonifácio
Osvaldo Cruz
Rui Barbosa
Almirante Tamandaré
Santos Dumont
A Vingança do João de Barro/ A Jóia Encantada/ Quem faz o Bem
Ao Passo das Caravanas
As Amoras de Ouro
Breves Histórias Orientais
Cálculo Escolar, 1945
Como é bom trabalhar!
Consultor Popular da Língua Portuguesa
Contos e lendas do deserto
Contos e lendas orientais
Correspondência para todos, 1944
D. Pedro II, 1967
Duque de Caxias,
Emendas à gramática
Gusmão, o padre voador, 1957
Heroínas e mártires brasileiras
História do Corcundinha
Histórias de Bichos, 1940
No reino dos bichos, 1940
O caminho de ouro, 1957
O esposo, a esposa, os filhos
O Padre Feijó
O Padre Gusmão
O Pássaro de ouro
O Pequeno polegar
Os vasos de ouro e as rosas do dragão
Proezas na roça
Prudente de Morais
Visconde de Mauá
—-
Giuseppe Gianinni Pancetti (Campinas SP 1902 – Rio de Janeiro RJ 1958). Pintor. Muda-se para a Itália em 1913. Em 1919, ingressa na Marinha Mercante italiana e viaja por três meses pelo Mediterrâneo. Em 1920, de volta para o Brasil, executa diversos ofícios; trabalhando em fábrica de tecidos, como ourives e garçom, entre outros. Conhece o pintor Adolfo Fonzari (1880-1959) e auxilia-o na pintura decorativa de uma residência. Em 1922, alista-se na Marinha de Guerra brasileira, onde trabalha por mais de vinte anos. Em 1933 ingressa no Núcleo Bernardelli e recebe orientação de Manoel Santiago (1897-1987), Edson Motta (1910-1981), Rescála (1910-1986) e principalmente do pintor polonês Bruno Lechowski (1887-1941). Participa das exposições do Salão Nacional de Belas Artes, sendo premiado em várias edições. É considerado um dos principais pintores de marinhas do país.
Fonte: Itaú Cultural
Menina lendo, 2008
Inha Bastos ( Brasil, 1949)
óleo sobre tela, 50x 50 cm
—
Inha Bastos é o nome artístico da pintora brasileira Maria das Graças Fontes Bastos, nascida em Itabuna, na Bahia, em 1949. Formada pela Escola de Belas Artes em Salvador, /UFBA 1970 / 1974. Adolescente, descobriu sua vocação artística, quando recebeu um estojo de tintas de presente. Inha Bastos tem participado de exposições coletivas e individuais em diversos estados brasileiros e no estrangeiro. Suas obras fazem parte do acervo de diversas instituições públicas e particulares.. Inha Bastos foi uma das artistas selecionadas para representar o Brasil no “ ano do Brasil na França” e seu trabalho ganhou destaque na imprensa francesa.