Os caquis, poema de Sônia Carneiro Leão

9 02 2013

Jean Xanthakos, Caquis e uvas, osm, 9x12

Caquis e uvas, s/d

Jean Xanthakos (Brasil, 1936 (?))

óleo sobre madeira

Os caquis

Ah! Os caquis,

esses tomates inflados.

Os caquis,

esses pneus assanhados,

risonhos, safados,

que nos convidam a morder

sua carne aguada, açucarada.

Os caquis,

vítimas da nossa voracidade.

Os caquis,

que se abrem à primeira dentada,

docemente, docilmente,

feito fêmea dominada.

Ah! Os caquis já vão-se embora.

Despeço-me deles agora.

Mas não faz mal,

estou satisfeita,

esperando a próxima colheita.

Em: Respostas ao criador das frutas, Sônia Carneiro Leão, Recife, Editora da autora: 2010

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.





As Florestas texto de Afonso Celso

9 02 2013

ANDERSON CONDE - manhã com neblina,2008, ost, 60x80.andersoncondecombrManhã com neblina, 2008

Anderson Conde (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

www.andersonconde.com.br

As Florestas

Afonso Celso

Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha; circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.

Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa do que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta terra.

Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis. O sol doura simplesmente o cimo das árvores. Não penetra através das grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou  o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras, avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às coisas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.

Todos os sentidos aí ficam extasiados. Gozam todos os nossos sentidos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de pintura e, sobretudo, de divina poesia.

Em: Criança brasileira: quinto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949.

AAA

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso, (Brasil, MG, 1860 — RJ, 1938) professor, poeta, historiador e político brasileiro. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 36.

Obras (lista parcial)

Prelúdios –  poesias, publicado aos quinze anos de idade (1876)

Devaneios (1877)

Telas sonantes (1879)

Um ponto de interrogação (1879)

Poenatos (1880)

Rimas de outrora (1891)

Vultos e fatos (1892)

O imperador no exílio (1893)

Minha filha (1893)

Lupe (1894)

Giovanina (1896)

Guerrilhas (1896)

Contraditas monárquicas (1896)

Poesias escolhidas (1898)

Oito anos de parlamento (1898)

Trovas de Espanha (1899)

Aventuras de Manuel João (1899)

Por que me ufano de meu país (1900)

Um invejado (1900)

Da imitação de Cristo (1903)

Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905)

Lampejos Sacros (1915)

O assassinato do coronel Gentil de Castro (1928)

Segredo conjugal (1932)





Imagem de leitura — Tatyana Deriy

8 02 2013

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Silêncio, 2008

Tatyana Deriy (Rússia, 1973)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

Tatyana Deriy

Tatyana Deriy nasceu em Moscou em 1973 . Em 1993 graduou-se no Colégio da Academia de Arte de Moscou . Sempre demonstrou preferência pelo retrato.  Em 1999 no Instituto de Arte de Surykov . Prefere composições de interiores. Membro da Federação Internacional de Artistas e da União de Artistas de Moscou . Participou de várias exposições Na Rússia e na Alemanha.





Quadrinha do Carnaval

8 02 2013

carnaval, problemasPato Donald se lembra dos últimos Carnavais, ilustração Walt Disney.

O Carnaval já vai alto,

com desfiles no sereno…

Minha alma rola no asfalto,

sambando atrás do moreno.

(Ilza Tostes)





Foto do dia

8 02 2013

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Um caracol e uma lagarta se encontram em  Batam, Indonesia

Foto: Shikhei Goh / Barcroft Medi

Não resisti hoje, quando vi essa foto no jornal inglês The Telegraph.  Tinha que mostrar a todos vocês.  Achei espetacular.  A natureza é muito bela, e os bons fotógrafos nos ajudam a desfrutá-la ainda mais.





O silêncio na biblioteca é importante

8 02 2013

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Ilustração Walt Disney.

Numa pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que os usuários das bibliotecas públicas mais gostam nos serviços apresentados está o silêncio para ler.  Um mundo de quietude parece ser tão importante quanto acesso livre a computadores e à internet.  Os resultados dessa enquete foram surpreendentes para  Laura Miller que  publicou um pequeno artigo na revista Salon sobre o fato.  Eu também aprecio a certeza de que estarei num lugar quieto, sem conversas, quando vou à minha biblioteca. Gosto de saber que não serei incomodada com cochichos e conversinhas, que ainda há ilhas de quietude nas metrópoles, quietude ainda maior do que a que encontro em  minha casa, onde o telefone com ofertas mais variadas parece estar sempre chamando.

Aqui estão os resultados: os serviços mais apreciados nas bibliotecas públicas:

80% considerou – bibliotecárias que ajudem a encontrar informações.

80% considerou – empréstimo de livros

77% considerou – livre acesso a computadores e à internet

76% considerou – lugar silencioso para adultos e crianças

Este último item, só 1% a menos do que acesso à internet.  VIVA!  Há pessoas com os mesmos gostos que eu!





Palavras para lembrar — Jean-Claude Germain

7 02 2013

dan GriggsUm momento de descanso

Dan Griggs (EUA, 1948)

óleo sobre tela

Dan Griggs

“Um livro é como uma garrafa no mar que chega a bom porto. Não sabemos quem a colocou na água. Não sabemos tampouco porque a encontramos e menos ainda como ela nos achou.”


Jean-Claude Germain





Um e outro, poesia de João Manuel Simões

7 02 2013

homem que voa, isabelle arsenault, montrealIlustração de Isabelle Arsenault.

Um e outro

Il est perdu jadis.

Mais il est vivant encore.

Maintenant et toujours.

SAINT-JOHN PERSE

João Manuel Simões

São dois meninos.

Coexistem em mim

constantemente:

o adulto terrestre

e o jovem alado,

seu mestre.

Inquilinos,

até o fim,

um dos quartos da mente,

outro do corpo cansado.

Em: Poemas da infância: antologia poética, João Manuel Simões, Curitiba, HDV:1989





Nota do Carnaval de 1939 — texto de Marques Rebelo

7 02 2013

Aloysio Zaluar, O Clovis Vem Aí, 1977, OSM

O Clóvis vem aí, 1977

Aloysio Zaluar (Brasil, 1937)

óleo sobre madeira

21 de fevereiro [1939]

Hoje, terça-feira gorda, é o dia dos préstitos das grandes sociedades e, pelos anúncios de página inteira com evoés e versalhada, haverá muita alegoria estadonovista com subvencionados ouropeis, que os míopes poderão tomar como realidades estadonovistas.  Que saiam! A estas horas já devem estar na rua, enguiçando nas curvas mais fechadas, com suas fanfarras, com suas encarapitadas deidades seminuas, que Aldina tão doidamente invejava, com seus fogos-de-bengala deixando acessos de tosse na esteira. Aqui permanecerei distante de tanta beleza. Um toque de incubada melancolia acordou comigo, comigo esteve o dia inteiro como uma dormência – refuguei a leitura, refuguei o rádio, a vitrola, a conversa, a visita dos amigos, dormitei quanto pude, entreguei-me sem resistência ao devaneio, algo doce, algo de prisioneiro, pescador à beira do escuro mar com cantos de sereias.

Luísa não compreende a súbita névoa, que a convivência é caixa perene de surpresas:

— Que é que você tem, filhotinho?

— Também não sei, querida. Também não sei.

E certamente estaria falando a verdade. Há verdades que se falam.

Em: A Mudança, segundo tomo de O Espelho Partido, Marques Rebelo, São Paulo, Martins:1962.

 





Imagem de leitura — Esaú Andrade

6 02 2013

esau vakencia andrade (Mpexico) ladywithbook2

Moça com livro, s/d

Esaú Andrade (México, contemporâneo)

Esau Valencia Andrade nasceu em Tepic Nayarit no México numa família de artistas folclóricos. Estudou pintura na Escola de Belas Artes da Universidade de Guadalajara. Já participou de inúmeras exposições tanto solo como coletivas.  Hoje divide seu tempo entre o México e os Estados Unidos.