Imagem de leitura — Géza Vörös

13 02 2013

Géza Vörös, na sala1

Na sala, s/d

Géza Vörös (Hungria, 1897-1957)

óleo sobre tela

Geza Vörös nasceu em Nagydobrony, na Hungria em 1897.  Estudou na Academia de Belas Artes de Budapeste. Aos 19 anos expôs seu primeiro trabalho.  Morou em Nagybánya e Szolnok, ambas colônias de arte na Hungria. Foi nesse período que conheceu sua futura esposa, Anna, que se tornou o principal modelo para suas pinturas de figurativas. Fez bastante sucesso com as suas naturezas-mortas e  pinturas de interiores também. Em 1927, foi a Paris, a estudo.  Lá conheceu Matisse que daí por diante exerceu  grande influência sobre ele: veja os contrastes ousados de cores e os detalhes ornamentais. Morreu em Budapeste em 1957.





Montando uma livraria, texto de Penelope Fitzgerald

13 02 2013

BOOKS Got book worm by Camille Engel

Tem traças?

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  30 x 30 cm

www.camille-engel.com

“Os livros novos vinham em séries de dezoito, embrulhados em fino papel marrom. Enquanto os separava , eles foram encaixando-se em sua própria hierarquia social. Os pesados e luxuosos livros  sobre casas de campo, os livros sobre as igrejas de Suffolk, as memórias de estadistas, em vários volumes, ocuparam o lugar que era seu por direito de nascimento na vitrine da frente. Outros indispensáveis, mas não aristocráticos, ocupariam as prateleiras do meio. Era o lugar para os Livros do Automóvel – do Austin ai Wolseley –, obras técnicas sobre polimento de seixos, mapas locais e guias.  Entre estes, as populares reminiscências da guerra, com sobrecapa em tons cáqui e vermelho-sangue, encaravam-se como rivais, com eriçada hostilidade. Lá atrás, nas sombras, estavam os Stickers, em grande parte de filosofia e poesia, que ela tinha pouca esperança de chegar a ver o último. Os Stayers – dicionários, livros de referência  etc. – iriam direto para a parte de trás, junto com as Bíblias,  e livros-prêmio que , segundo suas esperanças , a Sra Traill, do Primário, daria de presente aos alunos bem-sucedidos. Finalmente vinham os engradados dos sovados remanescentes da Müller. Uns poucos eram até de segunda mão. Embora ela fosse treinada para nunca olhar dentro dos livros enquanto estivesse trabalhando, abriu dois deles – velhas edições do Everyman, com uma desbotada carta verde-oliva, estampada a ouro. Havia a caprichada guarda, que examinara cheia de perplexidade quando era menina. Um bom livro é a preciosa força vital de um espírito superior, embalsamado e entesourado com o objetivo de uma vida após a vida. Depois de alguma hesitação, ela o colocou entre Religião e Medicina Doméstica.”

Em: A Livraria, Penelope Fitzgerald, Rio de Janeiro, Bertrand Books: 2000, p.44, tradução de Sonia Coutinho.

O texto escolhido para apreciação hoje vem com uma nota sobre traduções. Todos nós cometemos deslizes.  Mas há algumas omissões em se tratando de traduções que às vezes podem modificar ou tirar o charme de uma passagem.  Este é o caso da tradução do inglês para o português desse texto acima.

Aí,  as palavras Stickers e Stayers, usadas no original com letra maiúscula,  para dar idéia das categorias de livros na imaginação da dona da livraria, foram erroneamente mantidas no original em inglês, como se tratassem de nome próprios, de nomes de uma coleção de livros.  Esse é o caso só da palavra mais adiante no mesmo texto, Everyman.  Esta, Everyman, se refere a uma coleção de textos, cuja publicação começou em 1906 com o editor Joseph Malaby Dent e existe até hoje, atualmente publicada também nos Estados Unidos com o mesmo rótulo.  A coleção publicava literatura que poderia ser apreciada por Todos os homens – Everyman – ou melhor ainda que Todos os Homens  devessem ler ou conhecer, nada muito diferente das publicações que de vez em quando aparecem aqui no Brasil, em geral sob o auspício de diários, jornais de boa tiragem.  A Everyman´s Library – Biblioteca do Homem Comum — é e foi, uma instituição na Inglaterra. Seu equivalente nos Estados Unidos é a Harvard Classsics – os Clássicos de Harvard, iniciada em 1909. Os títulos de ambas as coleções, de um lado ou de outro do Atlântico, nunca se esgotam, são publicações que se renovam. A tradutora fez muito bem de deixar Everyman em inglês, por tratar-se de uma marca.

No entanto as palavras Stickers e Stayers, nada têm a ver com marcas, com nomes próprios.  Elas, sim, revelam a maneira de pensar da heroína de Penelope Fitzgerald enquanto decide como organizar a livraria que estava para abrir.  Stickers, do verbo “to stick”, ficar, grudar, ficar encalhado  – que neste contexto são os livros que ficam, ou seja, os  que são raramente vendidos, mas que toda livraria séria precisa ter; enquanto que os Stayers,  do verbo “to stay”, permanecer, são aqueles livros que são o sustentáculo de uma livraria, os dicionários, uma coisa que todas as livrarias precisam ter.

São decisões difíceis essas que tradutores fazem. Nenhuma tradução é perfeita. Cada uma é um novo livro que se assemelha ao original como irmãos univitelinos, que à primeira vista parecem exatamente iguais, mas que com um olhar mais atento mostram suas pequeníssimas diferenças.





Trova do carteiro

12 02 2013

carteiro desastrado, margret borissCartão postal, com ilustração de Margret Boriss.

Carteiro, ao fazer a entrega
das cartas, de porta em porta,
o pranto e o riso carrega
nos segredos que transporta.

(Jacy Pacheco)





Prece às estrelas, texto de Katherine Pancol

11 02 2013

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Memórias 1

Anônimo, trabalho folclórico

Óleo sobre tela, 50 x 60 cm

“Josephine desligou e seguiu titubeando até a varanda. Tinha o hábito de se refugiar ali. Da varanda, podia contemplar as estrelas. Interpretava cada cintilação,cada passagem de uma estrela cadente como um sinal de que estava sendo ouvida, de que o céu velava por ela. Naquela noite, ajoelhou-se no cimento, juntou as mãos e, erguendo os olhos para o céu, recitou uma prece:

— Estrelas, por favor, façam com que eu não fique mais sozinha, façam com que não seja mais tão pobre, façam com que não receba mais tantos ataques. Estou cansada, tão cansada… Estrelas, não se faz nada de bom sozinha e estou tão sozinha. Estrelas, concedam-me paz e força interior, concedam-me aquele que espero em segredo. Tanto faz que ele seja rico ou pobre, bonito ou feio, jovem ou velho, de qualquer altura, eu amo igual. Concedam-me um homem que me ame e que eu ame. Se for triste, eu o farei rir; se duvidar eu lhe darei segurança; se precisar lutar, estarei a seu lado. Não estou pedindo o impossível, só peço um homem, simplesmente um homem, porque no fim das contas, estrelas, o amor é a maior das riquezas… O amor que se dá é o amor que se recebe. É essa riqueza, sem ela eu não posso viver…

Inclinou a cabeça para o chão de cimento e se deixou levar por uma prece infinita.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.148.





Palavras para lembrar — Jean Cocteau

11 02 2013

Linda Apple

Esperando o ônibus, 2008

Linda Apple (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 15 cm

www.applearts.com

“Um belo livro é aquele que semeia em abundância os pontos de interrogação.”

Jean Cocteau





Travessuras, texto de Maria Ramos

11 02 2013

Pomar, Marie Cramer

Pomar, ilustração de Marie Cramer.

“Uma tarde após haver apanhado muitos figos, resolvemos, minha irmã, eu e as crianças da vizinhança, brincar de visita. Minha casa seria em cima do galinheiro. Como consegui por ali uma cadeira de balanço para receber a visita da comadre Geni Lopes não me recordo. O certo é que no melhor da festa, com todas as visitas sentadas em cima do telhado, e saboreando os figos esplendidos que eu lhes servira na porcelana chinesa da mamãe, o teto desabou. As visitas caíram no galinheiro, por cima dos poleiros, quebrando a louça e destroncando o meu braço, que ficou na tipóia vários dias.

Mas, na falta do pé de araticum que nos servia de mirante, havia as laranjeiras. Uma noite, cantavam salmos na igreja, quando eu pensei em apanhar umas laranjas. Depois de algum tempo, encarapitada no mais alto dos ramos, vi o Sonthia, de quem não gostava muito, deixar a igreja a caminho de casa. Joguei-lhe uma laranja que acertei em cheio. Ele parou, olhando espantado em todas as direções. Quando se voltou, mandei-lhe outra fruta, que se abriu de encontro à sua fatiota branca. O guri pegou sangue. Vociferando veio em direção ao muro. Mandei-lhe outra laranja que se esborrachou no meio da rua. Ele não hesitou: atravessou-a e veio bater na nossa porta. Desci rapidamente e enquanto o atendiam, eu já estava na esquina, olhando as pessoas que saíam da igreja e que, quase todas conhecidas, falavam comigo com muito afeto. Quando mamãe chegou à janela e me viu encostada ao lampião, conversando com a Chiquita, gritou para dentro:

— Veja só! Eu até já estava acreditando no que tu disseste…

Nisto, assomou ao lado de mamãe a cabeça de Sonthia, que me olhou fulo de raiva, insistindo que havia sido eu quem lhe jogara as laranjas. Mamãe despachou o guri, recomendando-lhe que de outra feita não fosse tão precipitado.

Disfarçando a falta de um pé de sapato, entrei em casa e já estava tirando a roupa para dormir quando mamãe deu pela coisa:

–Atirei por aí… Deve estar debaixo da cama.

Pouco depois, bateram à porta era o Sonthia. Tinha um ar triunfal e escondia algo atrás das costas.

— Olha aqui, Dona Mininha, o que eu achei embaixo da laranjeira – diz, mostrando o pé de sapato.”

Em: Banhado em flor, de Maria Ramos, Rio de Janeiro, do autor: 1963 — Introdução de Érico Veríssimo.  Prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras, 1964. p. 79-80.

Maria Senhoria Ramos nasceu em Cruz Alta, RS em 1910. Memorialista, jornalista e poeta. Radicou-se no Rio de Janeiro.

Obras:

Sol, ainda,  poesia, 1956

O gaúcho e suas tradições, folclore, 1958

Colombia de perto,  viagem, 1962

Banhado em flor, memórias, 1963





É Carnaval na arte brasileira

10 02 2013

Di Cavalcanti, CARNAVAL 54 x 73 cmóleo sobre tela1954

Carnaval, 1954

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976 )

óleo sobre tela, 54 x 73 cm

À semelhança de anos anteriores voltamos a fazer uma pequena coletânea do Carnaval na ointura, este anos uma pequena seleção da festa vista pelos olhos de artistas brasileiros. Bom Carnaval a todos!

Cristiane Campos, MEU-FREVO, 2009, ast, 100x80cm

Meu frevo, 2009

Cristiane Campos (Brasil, 1961)

acrílica sobre tela, 100 x 80 cm

Cristiane Campos

Aécio, Carnaval de Olinda, ast, 30x40Carnaval de Olinda

Aécio de Andrade (Brasil, 1935)

acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Antonio Gomide,Carnaval, sd, aquarelapapel,17x12Carnaval, s/d

Antônio Gomide (Brasil, 1895-1965)

aquarela sobre papel,  17 x 12 cm

Bruno Lechowiski,Carnaval,ost, 57 x 46,5 cm

Carnaval, s/d

Bruno Lechowiski ( Polônia 1887-Brasil 1941)

óleo sobre tela, 57 x 46 cm

Gentil Correia, Carnaval, ost, 60 x 80 cm

Carnaval, s/d

Gentil Correa (Brasil, 1935)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Glauco Rodrigues, CARNAVAL, Serigrafia, 40x60 cm.

Carnaval, s/d

Glauco Rodrigues (Brasil, 1929-2004)

Serigrafia, 40 x 60 cm

mario-gruber (1927-2011)-serigrafia-70 x 100, 2008

Sem título, 2008

Mário Gruber (Brasil 1927-2011)

Serigrafia, 70 x 100

Sérgio Telles,Carnaval – As bahianas,OSM, 20 x 25

Carnaval — as baianas, s/d

Sérgio Telles (Brasil, 1936)

óleo sobre madeira, 20 x 25 cm

Tobias Marcier (1948-1982) Os amigos foliões, ost, 36 x 28Os amigos foliões, s/d

Tobias Marcier (Brasil, 1942-1982)

Óleo sobre tela, 36 x 28 cm





Quadrinha da gravata

9 02 2013

casamento Arthur_Sarnoff1Casamento, ilustração Arthur Sarnoff.

Deu-lhe o sogro uma gravata…

– E a sua emoção foi tanta

que casou antes da data,

sentindo um nó na garganta!…

(Manuel de Oliveira Costa)

 





Palavras para pensar — Christian Bobin

9 02 2013

jaskiewicz (Polonia) menina lendo

Menina lendo, 1998

Barbara Jaskiewicz-Socewicz  (Polônia, contemporânea)

Óleo sobre tela com espátula, 65 x 50 cm

www.barbarajaskiewicz.pl

“O que aprendemos com os livros, é a gramática do silêncio”.

Christian Bobin





Ansiedade, texto de Katherine Pancol

9 02 2013

ernst29 O roubo da noiva, 1940

Max Ernst ( Alemanha 1891-1976)

óleo sobre tela, 130 x 96 cm

Peggy Guggenheim Collection, Veneza, Itália

“O mais duro era não se deixar levar pelo pânico. O pânico chegava sempre à noite. Podia ouvir o medo crescer dentro dela e não podia fugir. Virava e revirava no colchão sem conseguir dormir. Pagar as prestações do apartamento, as taxas do imóvel, os impostos, as lindas roupas de Hortense, a manutenção do carro, os seguros, as contas de telefone, a mensalidade da piscina, as férias, as entradas para o cinema, os sapatos, os aparelhos de dente… Enumerava as despesas e, com os olhos arregalados, aterrorizada, se enrolava nas cobertas para não pensar mais. Às vezes, acordava de vez, sentava na cama, fazia e refazia as contas em todos os sentidos para constatar que não, não ia conseguir, embora durante o dia os números tivessem dito sim! Acendia a luz, em pânico, e ia procurar o pedacinho de papel onde tinha rabiscado suas contas. Refazia tudo em todos os sentidos até reencontrar… seu bom-senso e apagar a luz, exausta.

Tinha medo das noites.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.82