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Antônio de Orléans e Bragança (Brasil, 1950)
Aquarela sobre papel, 46 x 61 cm
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Antônio de Orléans e Bragança (Brasil, 1950)
Aquarela sobre papel, 46 x 61 cm
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Chuva no Shinagawa, Tóquio, 1931
Kawase Hasui (Japão, 1883-1957)
Xilogravura policromada
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Às vezes o acaso nos traz experiências interessantes. Tudo o que se precisa é ter o bom-senso de abrir as portas ao que acontece. Há quatro semanas saí de casa para ir ao cinema. Gosto muito de cinema, mas não me consideraria uma conhecedora profunda. Nada além de ir regularmente ver a grande tela. Há semanas que merecem mais de um filme. Há semanas como a do Carnaval no Rio de Janeiro que merecem seis ou sete filmes! Pois eu havia lido no jornal uma resenha muito interessante de um filme japonês. Gosto muito dos filmes orientais: japoneses, chineses e indianos. Gosto de me expor a outras estéticas. Sempre que possível vou atrás de filmes produzidos em lugares exóticos. Como sou uma pessoa meio distraída, daquelas que faz uma coisa pensando em outra, que nunca sabe bem onde colocou o telefone celular e tem que telefonar do fixo para o seu próprio celular para achá-lo, saí de casa e fui ver o filme japonês sem prestar muita atenção à lista do jornal.
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Era uma vez em Tóquio foi o filme que vi. Não era o filme que eu imaginava ir ver. Cópia antiga, restaurada. Preto e branco. Tela pequena e uma história fascinante de um Japão pós-guerra, aparecendo ainda conservador, diferente do Japão que conhecemos hoje, moderno, produzindo bens que nos seduzem. Homens e mulheres em trajes tradicionais, cenas de natureza bucólica. A história é sensível. Reflete as mudanças no Novo Japão de pós-guerra. Filhos que saem de casa, de pequenos vilarejos e vão para Tóquio. Chegando lá transformam-se. Casam-se, formam famílias e na procura pela sobrevivência nessa nova ordem social, não têm mais tempo para os pais. É um filme belíssimo, de grande sensibilidade na caracterização dos personagens, antiquado mas com uma magnífica fotografia. Dirigido por Yasujiro Osur o filme foi votado como melhor filme de todos os tempos numa pesquisa do British Film Institute com 358 diretores de todo o mundo. Se é ou foi “o melhor filme de todos os tempos”, não posso dizer, porque não tenho conhecimento para isso. Mas fiquei bastante impressionada e feliz de tê-lo conhecido.
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Passados cinco dias me encontro em outra parte da cidade vendo o filme que tinha a intenção de ver originalmente, Era uma vez em Tóquio. Tenho uma memória visual bastante boa, graças à minha profissão. É assim que historiadores da arte fazem associações entre artistas e suas obras. Logo na primeira cena eu notei que estava vendo o mesmo filme. [A primeira cena tem uma alusão direta ao filme original no posicionamento da câmera]. Mas dessa vez o filme era a cores e em um Japão moderno. Chamava-se agora, Uma família em Tóquio. Dirigido por Yôji Yamada, é uma refilmagem do anterior, celebrando o que Yasujiro Ozu fizera em 1953. E foi uma experiência extraordinária. Foram duas horas encantadoras em que pude apreciar muito mais do que o filme, mais do que sua fotografia, do que o roteiro. Pude rever a história de novo, perceber as mudanças feitas,os detalhes e relembrar os ângulos de onde as cenas haviam sido filmadas. Não me lembro de ter tido uma experiência tão rica ou gratificante no cinema anteriormente.
Para quem se interessa em classificar, em ordenar o mundo, vou frustrá-los porque não consigo me decidir sobre a versão de que mais gosto. O filme de 2013 mostra um Japão bem mais descontraído, mais moderno. No entanto sua paisagem permanece singularmente bucólica e as tradições familiares, ainda que tenham sofrido mudanças, parecem requerer o mesmo grau de sensibilidade no trato. As situações estão adaptadas, há mudanças em alguns personagens, há outro que aparece, mas não senti nenhuma perda emocional com o que foi engendrado para a versão moderna. Psicologicamente o filme é fiel à primeira versão. Estou acostumada a ver filmes baseados em romances. Vez por outra vejo refilmagens. Recentemente vi a refilmagem de Cape Fear (1991), na televisão. Mas não conhecia a primeira filmagem de 1962. Não me interessou. Achei teatral demais. Parte do que me seduziu nessa “experiência japonesa”, foi justamente não conhecer o primeiro filme e depois de cinco dias ver o segundo. Com a facilidade que temos hoje, pela internet, e se você é curioso sobre cinema, recomendo fazer o download desses dois filmes e vê-los em ordem. Acredito que venha a ser uma experiência inesquecível.
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Ilustração de Margret Boriss.–
Somente um bem acontece
quando a gente cai doente:
aí é que se conhece
quem é amigo da gente.
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(Aloísio Alves da Costa)
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Stella Leonardos
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— Eu fui andando
Por um caminho.
— Eu fui também.
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— Eu vi cantando
Um passarinho.
— Eu vi também.
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— Ia pensando
Em fazer ninho.
— Você também?
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Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956
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Alexei Harlomoff (Rússia, 1840-1925)
óleo sobre tela
Coleção Particular
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Casario e igrejas no centro histórico em Salvador, BA, s/d
Carlos Bastos (Brasil, 1925 – 2004)
óleo sobre tela, 73 x 100cm
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Charles Blackman (Austrália, 1928)
Esmalte sobre papel colado em placa, 98 x 130 cm
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O inglês é uma língua prática e precisa. À maneira do português do Brasil incorpora expressões estrangeiras com facilidade mas, diferente da nossa língua, cada palavra adquirida recebe um significado bem preciso, específico. Sinto essas diferenças diariamente em conversa com meu marido, que além de ter o inglês como língua nativa e ser professor de literatura americana, ao tentar se expressar em português considera o que falamos extraordinariamente vago; enrola-se com os nossos sujeitos ocultos e com as diferenças que umas poucas letras no final das palavras podem fazer — letras que qualquer americano ignoraria num diálogo informal. Falo dos femininos e masculinos, da conjugação verbal que permite a ocultação do pronome pessoal [porque este já está incorporado na conjugação] e assim por diante. Acabo de me lembrar mais uma vez desse contraste entre as duas línguas, quando procurei usar a palavra ‘proustiana’. Com a manha de quem passou a vida entre as duas línguas decidi ir ao dicionário para ver o significado em português. Aqui ‘proustiano’ tem unicamente a ver com a “capacidade de se recuperar fato retidos na memória à maneira de Proust”, enquanto que em inglês ‘proustiano’ já deixou de lado sua simbiose com o escritor francês, e passou a significar uma memória involuntária qualquer. Demonstração exemplar das diferenças entre essas línguas. ‘Proustiana‘, como memória involuntária é a maneira de narrar usada por Hilary Mantel em Um experimento amoroso [Record: 1999].
O romance narra vida de Carmel McBain e de sua vizinha, Karina, nem sempre amiga, mas sempre colega dos bancos escolares, meninas que nasceram no norte da Inglaterra, na região próxima a Manchester, no seio de famílias da classe média baixa, pobre, operária e católica. Famílias que se sacrificam, cada qual à sua maneira, para educar as filhas e lhes dar meios de uma ascensão social mais veloz. De maneira proustiana, desordenada, ora na adolescência, ora na primeira infância, acompanhamos Carmel desde os primeiros anos escolares até o amadurecimento da fase adulta. Hilary Mantel é escritora de palavra precisa, texto sucinto, e uma enorme capacidade de escolher o detalhe certo para com ele traçar um mundo de inferências que dão profundidade ao texto e empurram a narrativa para frente. Não dá vontade de se deixar de lado a história, relutantemente apaga-se a luz antes de dormir; por outro lado, leva-se o livro na bolsa para aproveitar os 20 minutos no transporte público.
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Romances de amadurecimento em geral são menos complexos do que este. Tradicionalmente, essas histórias têm como personagem principal um jovem adolescente, O apanhador no campo de centeio, de Salinger vem à mente. Mas, na última década, tive o prazer de ver essa produção literária centrada em meninas adolescentes, na literatura para adultos. [Outro romance que aborda esse tema, já resenhado aqui é obra do escritor peruano Alonso Cueto: O sussurro da mulher baleia]. Hilary Mantel no entanto não se detém em uma única experiência de ritos de passagem, já que acompanha a vida de Carmel desde os primeiros dias na escola. Por isso mesmo, quando finalmente nos deparamos com climax narrativo dessas memórias nossa surpresa, que foi cuidadosamente elaborada, traz a profundidade de anos de conhecimento da vida através dos olhos de nossa heroína.
Crescer, amadurecer emocionalmente, não é fácil. O mundo não é aconchegante, a vida é cheia de decepções. Famílias com boas intenções nem sempre se sensibilizam às dificuldades do crescimento, principalmente quando estão vivendo no limite, trabalhando horas exageradas, economizando todos os centavos. Além disso, há as barreiras que cada sociedade impõe: classe social, religião, origem, sotaques. Diferenças que para alguém de fora podem parecer irrelevantes, para quem vive rodeada desses valores parece muito difícil libertar-se deles. Carmel e Karina têm que se submeter aos desejos de seus pais. Karina é obrigada a ajudar em casa, sua mãe trabalha dois turnos. A Carmel, por outro lado, não é permitido o trabalho doméstico. A pressão é para que estude. Ambas sofrem. Exclusão, buling, anomalias alimentares, tudo está presente nesses anos. Tudo isso e a religião católica, que para essas meninas não ajuda. A história se passa na década de 1960, quando a pílula já estava disseminada na Inglaterra e há liberdade sexual para as jovens mulheres. Como cada uma resolve seus sentimentos em relação ao sexo e à religião, acaba por demonstrar os valores que permaneceram no amadurecimento.
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O título, Um experimento amoroso, que parece tão abstrato, aplica-se aos diversos tipos de amor por que os personagens passam, do amor maternal ao sexual. Hilary Mantel narra com um ritmo pulsante até o final, mesmo com as idas e vindas ao passado próximo e ao passado longínquo. Algumas decisões de Carmel, que parecem insignificantes, no final nos levam ao retrato detalhado da personalidade da jovem. Esse é também um bom retrato da Inglaterra dos anos 60 do século passado, assim como do distanciamento natural entre pais e filhos. As dúvidas de Carmel e de suas amigas nos lembram das grandes mudanças nos últimos 5o anos. Para melhor, sem dúvida. Mas essas mudanças podem ter sido simplesmente externas. Os seres humanos me parece que permaneceram os mesmos. Recomendo sem restrições esse romance reflexivo, intenso e sedutor.