Praia das Astúrias, Guarujá, década de 1940
Diógenes Duarte Paes (Brasil, 1896-1964)
aquarela sobre papel, 39 x 54 cm
Praia das Astúrias, Guarujá, década de 1940
Diógenes Duarte Paes (Brasil, 1896-1964)
aquarela sobre papel, 39 x 54 cm
Salvador Collell (Espanha, 1949)
óleo sobre tela
Dois leitores e uma mesma obra não leem a mesma história. Cada qual traz uma percepção única. Por isso trocar ideias depois de uma leitura é uma excelente opção para expandir os horizontes, um exercício de ver através dos olhos do outro. Há livros tão ricos que as possibilidades de interpretação são inúmeras, mesmo para um único leitor. Este é um deles.
Uma história de difícil resumo relata vidas paralelas de um mesmo personagem central, nascido no mesmo dia, na mesma família. Só que as variadas existências, desde a primeira, quando o bebê morre ao nascer, parecem ilustrar o conhecido Efeito Borboleta, as consequências impensáveis de a uma pequena variação na história. Essas variações podem ser tão simples quanto um acidente com um animal em uma fazenda vizinha, levar à sobrevivência ou não de uma criança que acabou de nascer, dependendo da interrupção ou não do trajeto do médico que a atenderia. É como a autora diz na página 288, Você às vezes não se pergunta… se apenas uma pequena coisa tivesse sido mudada, no passado, …. as coisas seriam diferentes?
Ao contrário do que a sinopse sugere O fio da vida não oferece uma leitura ilustrativa de vidas passadas, ainda que em alguns momentos alguém se refira a esse fenômeno. Tampouco a história ilustra a ideia de re-encarnação. Não se trata disso. Pelo menos na minha leitura. Nela vejo apenas as possibilidades inerentes a uma mesma vida, realidades paralelas, vividas simultaneamente. Não, não precisamos entender física quântica para ler o livro, mas há paralelos com esse fenômeno e o caminho do entendimento pode se adequar a essa leitura. Não se trata de ficção científica, pelo menos no sentido mais estrito da classificação.
O fio da vida mostra a pluralidade que existe em cada um de nós e como cada uma dessas diferentes pessoas que poderíamos ser se desenvolveria, se qualificaria, se comportaria e até mesmo como morreria quando uma determinada virada do destino se apresenta. São diversas vidas de um mesmo personagem nascido no mesmo dia, e na mesma hora, dos mesmos pais, na mesma cidade, tendo o mesmo lugar entre os irmãos. Pode até parecer confuso, mas é uma leitura fascinante na circularidade e no aprofundamento do conhecimento que temos de Úrsula, personagem principal. Através dela se questiona: se pudéssemos viver diversas vidas em diferentes circunstâncias, o que de nós seria constante? O que faz de nós o que somos? De que é composto o núcleo do que somos? O que é a essencialidade do ser humano? Como se apresenta?
Ao fim, passado um grande número de vidas e mortes de Úrsula, somos lembrados que vida e morte podem ser tão casuais quanto qualquer outro evento. Não há garantias. Não há futuro necessariamente, o passado é justamente isso: algo que já desapareceu. Possibilidade perdida. A única coisa com que podemos contar é o momento presente. A circularidade do universo. O tempo é um constructo, na realidade tudo flui, sem passado ou presente, apenas o agora. (p.502)
Este não é o primeiro romance de Kate Atkinson que leio. Há alguns anos li Por trás das imagens do museu, publicado no Brasil em 1998. Mas aquela obra não me preparou para esperar de O fio da vida a força narrativa da autora e a destreza com que ela consegue gerenciar personagens e tramas tão complexas: a cada curva do caminho um novo mundo se descortina. Além da trama há algo maravilhosamente bem engatado na narrativa: as alusões e citações a obras literárias conhecidas de todos nós: Shakespeare, Bacon, Heráclito, Píndaro, Hawthorne, Keats, Colette, Coleridge e muitos outros. Esses autores demonstram sua atualidade pois as citações, bem tecidas no texto, se mostram relevantes no entendimento do que nos faz humanos.
Se você prefere uma narrativa linear, esse livro não deve lhe seduzir. Mas se você aceita a experimentação literária, vai se deliciar com esse romance. Recomendo.
Ilustração de John Millar Watt.
No portão os namorados
são como barcos no cais,
pelos beijos amarrados,
querem ir e ficam mais.
(Cleonice Rainho)
Tulio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)
óleo sobre tela, 34 x 26 cm
—
Estas rosas, como se colhidas à última hora no fundo do quintal, singelas mas aveludadas, discretas, sedutoras, misteriosas, formam um pequeno ramalhete que ofereço ao fiel leitor Eduardo, que ao fazer anos hoje, me contemplou com um pedido: “Por favor, flores discretas!“. Digo contemplou, porque me senti, muito honrada de, assim, participar desse momento importante em sua vida. Eduardo, tem sido um prazer conhecê-lo através de seus oportunos comentários. Essa data, além de seu aniversário, parece marcar mais uma de muitas e boas mudanças em sua vida nos últimos tempos. Que os anos futuros lhe tragam felicidade, paz, saúde e a realização de mais sonhos que virão. A beleza de se conseguir algo com o qual se sonhava é abrir espaço para que outros sonhos venham e se completem. Parabéns meu caro amigo e um grande abraço.
Ilustração: gravura da artista Blenda Tyvoll, “Mesa posta”.
“O uso de talheres começou a se difundir no século XVI, mas eram totalmente pessoais, em geral dobráveis para facilitar o transporte e evitar os envenenamentos. Fornecê-los para convidados só a partir do século XVII, entre os aristocratas ocidentais e, no século XVIII entre os burgueses. A idade dos acessórios é distinta. O mais antigo deles é a faca, que até o século XVI fazia as vezes de garfo, já que além de trinchar os alimentos, espetava e os levava à boca. A colher veio evoluindo desde os tempos mais antigos, mas sua forma atual data do século XV, quando seu cabo foi alongado, em parte devido às gravatas largas e bufantes e aos babados das mangas dos trajes da época. O garfo mais próximo do atual veio da Renascença italiana — mas com apenas três dentes — o quarto dente foi acrescentado pelo franceses no século XVI.”
Em: Sempre, às vezes, nunca – etiqueta e comportamento, Fábio Arruda, São Paulo, Arx: 2003, 8ª edição, p: 90.
Ilustração de livro escolar americano, década se 1960, sem indicação de autor.
Almir Correia
O grilo
gritou no saco
gritou no papo
do sapo
gritou no poço
gritou na cara do moço
gritou no mato
gritou no
sa
………..pato.
E de repente
pra espanto da gente
não gritou mais.
Moinho d’água medieval, iluminura do Livro de Salmos Luttrell, 1320-1340.
Água, sua falta e sua abundância, assunto que está em pauta. Menos do que deveria estar, já que é um elemento essencial para a nossa sobrevivência e sofre com as mudança climáticas. Mas pensando nisso me pergunto se não é surpreendente que tenhamos tão pouco uso de água como força geradora em moinhos.
Abundância de água doce nós tivemos até o século XXI. Por que então há tão poucos moinhos d’água em funcionamento, nas pequenas propriedades? E por que a nossa tradição rural não manteve tais moinhos? São poucos os que resistem até hoje. Não é por falta de conhecimento. Desde a antiguidade usava-se a água como força motora.
Essas ponderações me vieram depois da leitura de um capítulo inteiro dedicado ao uso dos moinhos d’água como fonte de energia na idade média.
“As décadas turbulentas em que Roma tentava se expandir para o Levante marcaram outra conquista muito mais duradoura do que a Pax Romana: o início do domínio da energia da água. Um papiro do século II aEC menciona a noria ou uma roda automática de irrigação no Egito, e em 18 aEC Estrabão menciona um moinho de grão movido a água no palácio que Mitrídates, rei do Ponto havia construído em 63 aEC. Um contemporâneo de Estrabão, Antípatro, celebra o moinho d’água como o libertador da labuta das serventes. Os primeiros moinhos d’água eram horizontais, revolvendo em torno de um eixo vertical preso à mó. Mas Vitrúvio que por consenso data do século I aEC, dá instruções para uma construção para uma roda de moinho d’água vertical … o moinho de Vitrúvio foi o primeiro grande resultado de design para uma máquina com poder de movimento contínuo.”
Não é para surpreender? Tanta água, tantos rios e tão poucos moinhos…
Traduzido do inglês por mim.
Em: Medieval Technology and Social Change, Lynn White, Jr., Nova York, Oxford University Press: 1964, essa edição de 1968, p: 80