Rodolfo Weigel (Brasil, 1907-1987)
óleo sobre tela, colada em madeira, 24 x 19 cm
Rodolfo Weigel (Brasil, 1907-1987)
óleo sobre tela, colada em madeira, 24 x 19 cm
William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)
Gravura
Pouco se fala nas perdas emocionais do divórcio, fora o casal e seus filhos, se esses existirem. O vazio, a perda vai muito além do parceiro ou parceira. Com o divórcio perde-se também a família maior: os sogros, cunhados, sobrinhos, tios, todos que, um dia, foram considerados membros de uma unidade, de um universo familiar. Esses podem desaparecer de um momento para o outro como se engolidos por um buraco negro. Lá se afunda, no meio do nada, uma constelação de contatos, de alianças, de pontos de amizade e camaradagem.
Ontem soube que a mãe de meu primeiro marido, minha sogra, faleceu. Ela desocupou a posição oficial de minha sogra há muito anos, mas o coração é grande e em uma parte dele ela sempre reinou. Diferente do estereótipo cultural, eu gostava dela. Tomei-a como exemplo não só durante os nove anos do casamento, mas também nos anos que se seguiram, muito tempo depois, quando eu já fazia parte de outro círculo familiar, resultado de um casamento mais feliz.
Conheci minha primeira sogra, quando eu tinha dezesseis anos e namorava seu filho mais velho. Quatro anos depois, quando nos casamos, ela soube participar dos preparativos e ao mesmo tempo se distanciar quando necessário.
Depois de casada encontrei nela fonte de muitos conselhos práticos, de orientação da cozinha às costuras. Aprendi também o valor dos pequenos rituais; de viver sem dar extrema importância ao que os outros pensam; assim como o dar-se permissão por se ter um gosto diferente, um ponto de vista único. Minha sogra tinha um excelente senso de humor; era independente, determinada e ocupava-se nas ações filantrópicas com a mesma energia que dedicava à família. Era justa. Nos quase quatorze anos de convivência, tive momentos de grande aproximação, principalmente nos meses em que morei com ela, enquanto meu marido, fora do país, começava seu curso de doutoramento e eu, aqui, terminava o ano de estudos no Rio de Janeiro. Ela sempre me tratou bem com carinho, atenção, respeito, camaradagem e cumplicidade. Por uma questão de afinidade, ela se tornou, de fato, membro do meu cosmos familiar.
O divórcio, fora do Brasil, de um casal sem filhos, trouxe um abismo sem fundo nesse relacionamento. Os filhos trazem com eles a obrigação de sempre se estar em contato com a família que era. No meu caso isso não foi necessário. Novos casamentos dos dois lados solidificaram a ausência. Ela, meu sogro, meus cunhados desapareceram. Levaram com eles parte das memórias da minha adolescência e todos os meus vinte anos. Minhas reflexões sobre aqueles quatorze anos estão indubitavelmente marcadas por essa família, em parte porque desde cedo me adaptei, por gosto e inclinação, a uma variedade de atividades que nada tinham a ver com a minha família natural, mas que fizeram parte do meu dia a dia como membro desse clã. Perdi, assim como muitas outras pessoas em um divórcio, um bocado das referências pessoais. No meu caso da adolescência até ao adulto maduro.
O vácuo permaneceu como um ponto fraco e dolorido, até a minha volta ao Rio de Janeiro. Um dia, por coincidência, em uma livraria de Copacabana (minha sogra gostava de ler), ouvi a mocinha da caixa tomar o nome da senhora que estava à minha frente na fila. Era ela, minha primeira sogra. Chamei-a, nos reconhecemos e nos abraçamos. Lágrimas e sorrisos se misturaram, as duas se emocionaram. Muitos anos haviam se passado. Mas tanto foi dito naquele abraço! O meu foi repleto de saudades e de carinho. O encontro não durou muito tempo, o bastante para sabermos que ambas haviam sentido falta uma da outra e que ocasionalmente ponderávamos sobre a outra. Honramos nosso passado em comum. Trocamos pequenas informações e alguns telefonemas depois desse dia, nada mais do que meia dúzia, para desejar um Feliz Ano Novo ou Feliz Aniversário. Mas daquela tarde em Copacabana cheguei em casa feliz. Era disso que eu precisava: nosso encontro finalmente fechou aquele ciclo da vida do qual participamos juntas. Tivemos a oportunidade do adeus. Não foi uma vida, nem tampouco uma semana. Quatorze anos contam, principalmente para uma adolescente à procura de modelos de vida e de comportamento que melhor expressassem seu íntimo. Minha primeira sogra foi importante nessa busca. Por isso mesmo sei que fui privilegiada em conhecê-la. Que a paz esteja com a senhora, D. Léa.
Lyse Anthony (EUA, contemporânea)
aquarela, 24 x 16 cm
Mais uma fábula de Leonardo da Vinci. Quem segue este blog já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, e também de contar histórias. Leonardo escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos. Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. Transcrevo aqui a fábula As Garças do volume de Leonardo chamado: Lendas, H. 9r.) Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p. 42
O rei era um bom rei, porém tinha muitos inimigos. As garças, leais e fiéis, estavam preocupadas. Havia sempre a possibilidade, principalmente à noite, dos inimigos cercarem o palácio e aprisionarem o rei.
— Que devemos fazer? pensaram elas. — Os soldados, que deveriam estar de guarda, estão dormindo. Não podemos confiar nos cães, pois estão sempre caçando e sempre cansados. Nós é que temos que guardar o palácio e deixar nosso rei dormir em paz.
Então as garças decidiram tornarem-se sentinelas. Dividiram-se em grupos, cada grupo zelava por uma área, com mudanças de guarda em horas determinadas.
O grupo maior postou-se no prado que cercava o palácio. Outro grupo colocou-se do lado de fora de todas as portas. E o terceiro decidiu ficar no quarto do rei, a fim de vigiá-lo o tempo todo.
— E se nós adormecermos? perguntaram algumas garças.
— Temos um modo de evitar adormercermos, respondeu a mais velha de todas. — Cada uma de nós vai ficar segurando uma pedra com o pé que estiver levantado enquanto permanecermos paradas. Se uma de nós dormir, a pedra cairá no chão e o barulho a acordará.
Todas as noites, desde então, as garças vigiam o palácio, mudando a guarda de duas em duas horas. E nenhuma, ainda, deixou cair a pedra.
Johan Patricny (Suécia, 1976)
Aquarela
Menotti del Picchia (Brasil, 1892-1988) em Juca Mulato, publicado em 1917.
Desavença, ilustração de Arthur Sarnoff.
Nada requer mais tato do que a verdade, pois pode fazer sangrar o coração. Tão importante quanto dizer a verdade é saber calá-la. Com uma só mentira se perde toda a reputação de integridade. O enganado é considerado sem juízo, e o enganador é tomado por falso, o que é pior. Não se podem dizer todas as verdades: umas porque nos afetam e outras porque afetam os demais.
Em: A Arte da Prudência: aforismos selecionados, Baltasar Gracián, organização Domenico de Masi, Rio de Janeiro, Sextante: 2003, 2ª edição,p. 127
Carequinha e Bolinha conversam sobre o livro: Segredos
Fiquei muito feliz com a decisão da Suprema Corte do Brasil de permitir toda e qualquer biografia. Biografias, semelhantes a obras de outros gêneros são obras de ficção. E, portanto, proibi-las seria proibir a própria ficção. Demos um passo à frente para a cultura brasileira. Minhas razões para celebrar o evento se enraízam na convicção de que uma narrativa é sempre ficcional. Com exceção daquilo que podemos provar por equações matemáticas, todo o resto é narrativa.
Para uma historiadora isso é gritante. Ver os mesmos dados serem contados, interpretados por diferentes gerações e diferentes culturas, mostra de maneira explícita o quanto dependemos da visão e da interpretação de quem narra. Sei que posso resgatar dados, procurá-los, ir atrás de testemunhas. Posso encontrar pistas do que poderia ter acontecido, quer no passado distante, quer nas últimas 24 horas. Mas não posso nunca deixar de reconhecer que tudo, absolutamente tudo, é ficção. Nem mesmo duas pessoas que participam de um mesmo ato, conseguem narrar objetivamente aquilo que lhes aconteceu. Cada qual tem seu enfoque pessoal, cada qual vem de um lugar interno, pessoal, diferente. A subjetividade está sempre presente. E como não há memória sem narrativa, todo o passado em comum que temos como grupo familiar ou nação é subjetivo, é interpretação, é ficção.
Não há necessidade de vermos o mundo divididos em extremos: verdade x mentira. Nem tudo é branco ou preto. Tudo é cinza. Cinza porque nossa interpretação do que já foi cai indubitavelmente no subjetivismo do narrador.
Não há historiador objetivo. Não há relato objetivo. No momento em que um acontecimento, um fato, um evento passa pelo ser humano ele é subjetivo. Daí a minha satisfação de se permitir que a ficção continue no Brasil. Proibir a escrita de biografias, sobretudo daqueles que se colocaram como líderes musicais, políticos, sociais, para um grande público é proibir a maneira criativa de interpretação que fazemos deles.
Ganhamos todos com a decisão da Suprema Corte.