Ilustração de Raymond James Stuart.
Nos meus tempos de menino
tinha na palma da mão
a fieira do destino
nas voltas do meu pião!
(Antonio Claret Marques)
Hoje, dia chuvoso e cinzento, teve seu momento de luz: um recém plantado ipê roxo, pequenino ainda, adornava essa pracinha, cujo nome aprendi procurando no mapa — Praça Mário Lago. Um dia será uma bela e alta árvore embelezando ainda mais a paisagem carioca.
Pierre de Nolhac, retratado por seu filho, 1909
Henri de Nolhac (França, 1884-1948)
óleo sobre tela
É o que se dá com todos os grandes escritores: a beleza de suas frases é imprevisível, como a de uma mulher que ainda não conhecemos; é criação, porque se aplica a um objeto exterior em que eles pensam — e não a si — e que ainda não expressaram. Um autor de memórias de nossos dias que quisesse imitar disfarçadamente a Saint-Simon poderia em rigor escrever a primeira linha do retrato de Villars: “Era um homem corpulento, moreno… de fisionomia viva, franca, impressiva”, mas que determinismo lhe poderá fazer encontrar a segunda linha que começa por: “E na verdade um tanto aloucado”? A verdadeira variedade está nessa plenitude de elementos reais e imprevistos, no ramo carregado de flores azuis surgindo, contra toda expectativa, da sebe primaveril, que parecia incapaz de suportar mais flores; ao passo que a imitação puramente formal da variedade (e o mesmo se poderia argumentar quanto às outras qualidades do estilo) não passa de vazio e uniformidade, isto é, o contrário da variedade, e se com isso conseguem os imitadores provocar a ilusão e a lembrança da verdadeira variedade é tão somente para as pessoas que não a souberam compreender nas obras-primas.
Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana
Natureza morta
Adolfo Fonzari (Itália-Brasil, 1880-1950)
óleo sobre tela, 85 x 78 cm
Mangas e marmelos
Florêncio [José Carlos dos Santos] (Brasil, 1947)
óleo sobre tela, 60 x 46 cm
Moça sentada, lendo ao lado de uma mesa
Charles Henry Tenré (França, 1854-1926)
óleo sobre tela, 74 x 61 cm
Jardim florido
Elizabeth Peña (Peru, contemporânea)
óleo sobre tela, 76 x 76 cm
“Era uma dessas manhãs ensolaradas da primavera limenha, em que os gerânios amanhecem mais arrebatados, as rosas mais perfumadas e as primaveras mais crespas, quando um famoso galeno da cidade, o doutor Alberto de Quinteros — testa ampla, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade no espírito —, abriu os olhos e espreguiçou-se em sua espaçosa residência de San Isidro. Viu, através das cortinas transparentes, o sol dourando o gramado do bem-cuidado jardim cercado por canteiros de crótons, a limpeza do céu, a alegria das flores, e teve essa sensação de bem-estar proporcionada por oito horas de sono reparador e uma consciência tranquila.“
Mario Vargas Llosa, Tia Julia e o escrevinhador
Quando criança eu queria
crescer dez anos num mês
e, agora, o que não daria
pra ser criança outra vez!…
(Elton Carvalho)