Dois ursos, poema do mestre Sufi, Hafiz

12 09 2015

 

 

m_Tricycle-Bear_tIlustração de Jenny Keith Hughes.  [www.jennykeithhughes.com]

 

 

Dois ursos

Hafiz  (Pérsia, 1320-1389)

 

 

 

Uma vez

Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos

Dois ursos se sentaram em silêncio

Em uma bela paisagem

Observando o sol se por

E se sentindo profundamente gratos

Pela vida.

 

Mas, depois de algum tempo

Uma conversa interessante começou

Versando o tópico da

Fama.

 

Um dos ursos disse,

“Você ouvir falar do Rustam?

Ele ficou famoso

E viaja de cidade em cidade

Numa jaula dourada;

 

Ele faz exibições para centenas de pessoas

Que riem e aplaudem

Suas piruetas

No circo.”

 

O outro urso pensou

Por alguns segundos

 

Então começou

A chorar.

 

 

Tradução Ladyce West, do inglês

 

Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.





Resenha: “O sentido de um fim”, Julian Barnes

6 09 2015

 

 

Anthony Morris (Grã-Bretanha, 1938) Retrato de Roger 1999Retrato de Roger

Anthony Morris, RP (Grã-Bretanha, 1938)

óleo sobre tela

 

 

 

Recentemente tive uma discussão acalorada com meu irmão sobre a lembrança de um evento da nossa infância. Cada um de nós, únicos protagonistas da aventura, se lembrava de coisas diferentes e em diferente ordem. Mais revelador ainda: cada qual só tinha a memória daquilo mais significativo para si mesmo. Guardamos para o futuro, para o nosso banco de memórias, para o perfil do nosso passado, só o momento de nosso próprio ato de bravura. Os dois haviam sido corajosos, individualmente, mas uma única lembrança, pessoal, individual, em que fomos heróis, se manteve.  Não chegando a um acordo, partimos frustrados, como se tivéssemos sido traídos pelo outro. Aí estava uma prova, para mim, historiadora, que de fato a reconstituição do passado é sempre ficcionalizada de acordo com o narrador. Faz parte do dia a dia, de quem se dedica à história, considerar que memórias são seletivas.  Julian Barnes adverte o leitor sobre esse fenômeno desde o início da narrativa, através de Adrian, um adolescente precoce em conversa com seu professor: “Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador, a fim de entender a versão que é colocada diante de nós.” [18]

O sentido de um fim, de Julian Barnes, trata diretamente da memória e da narrativa que damos às nossas vidas.  Trata da maneira sucinta e por vezes poética com que narramos nossas próprias lembranças; reeditando-as com a a passagem do tempo.  Julian Barnes também trata de maneira sucinta e poética o tema,  revelando a enorme dimensão do que pode existir por trás dos detalhes que escolhemos lembrar, dos fatos que obliteramos, e como a cada narrativa podemos encontrar uma nova interpretação.   Esta é uma obra magistral.  Pequena, enxuta, prova de que conteúdo não precisa ser copioso para ter impacto.

 

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Inicialmente O sentido de um fim parece estar contido nos preparativos a que, aos sessenta anos, Tony Webster, protagonista e narrador, se dedica ao colocar a vida em ordem para um futuro incerto.  Mas à medida que se recorda do passado e conclui que não realizara nada do que sonhara, é forçado a reconsiderar o que havia feito de sua própria vida, de seu casamento. Fora nada mais do que a vida de um homem comum. Tem vívidas recordações de sua adolescência e dos amigos de então. Lembra-se de sua primeira namorada e dos hábitos diferentes de relacionamentos  na época de sua juventude.  Esse início, a primeira parte da história, marca o tom de meditação que permeia a narrativa: uma longa ponderação sobre as expectativas que temos sobre o futuro, e sobre o comportamento humano.

As lembranças, cada qual acessada a partir de um gatilho diferente parecem sempre surpreendentes. Tudo é próximo da realidade e enigmático.  Revisto dezenas de vezes e sempre novo.  Como num processo de psicanálise ou inquérito policial, a cada recontagem, a cada rearrumação de fatos, uma lembrança resgatada, uma revelação, nem tão clara, nem tão nebulosa, mas presente.  A verdade?  Está em algum lugar e não chega a ser mencionada.

O título O sentido de um fim toma conotações inesperadas, imprevistas.   Muito mais do que estabelecer ordem em uma vida que se prepara para o fim, essa trama nos leva a questionar a veracidade das nossas certezas.  Somos, afinal, quem pensamos ser?

 

julian barnes, booker 2011Julian Barnes, ©AP Photo/Kathy Willens

 

De repente, a história singela, franca, desafetada, que prendeu nossa atenção até o final, levanta dúvidas. Sérias.  Não sobre si mesma. Mas ela interage conosco. Questiona.  No mesmo tom meditativo da narrativa, embarcamos numa ponderação a respeito do passado.  Rever a ficção das nossas vidas, não é fácil. Saberemos catar nos rincões da memória o que é verdade?  Separá-la, mesmo não conhecendo todos os fatos?  Sim, porque é isso o que somos, um conglomerado de ficções e alguns fatos aos quais damos a nossa identidade, não é mesmo?  Tony Webster, adolescente, não percebe a ficção do dia a dia. “Esse era outro de nossos temores: que a Vida não fosse igual à Literatura” [21]. Mas é.  A vida é igual à literatura.  Somos protagonistas da história que desenvolvemos, editamos, burilamos. Eliminamos fatos indesejados, colorimos a gosto. E em algum lugar, em algum ponto, essa fantasia toma uma vida própria, ambulante e acreditamos nela. Só mesmo um acontecimento inesperado, um evento de grandes proporções — como acontece em O sentido de um fim —  pode  desvendar a proporção de realidade que escolhemos esconder dos outros e de nós mesmos. Mas mesmo assim, não revelará tudo. Só o suficiente para o entendimento geral de uma determinada situação.

O sentido de um fim é uma joia, uma obra prima.

 

 

NOTA: Com este livro Julian Barnes ganhou o Booker Prize de 2011.





Rio de Janeiro comemorando 450 anos!

4 09 2015

 

 

Pedro Bruno, Paquetá, dec1920,ost, 110 x 185Paquetá, década 1920

Pedro Bruno (Brasil, 1888-1949)

óleo sobre  tela, 108 x 185 cm





Imagem de leitura — Círculo de Durameau

25 08 2015

 

 

circle-of-durameau-louis-jean-recto-homme-assis-lisant-a-la- à la lumièreHomem sentado lendo  à luz de uma vela, s.d.

[Estudo para adoração do bezerro de ouro]

Círculo de Jean-Jacques Durameau (1733-1796)

carvão, sanguínea, aguadas cinza e marrom, sobre duas folhas de papel.

Piasa





Em três dimensões: Mariko Mori

7 07 2015

 

 

moriko mori, 2014, renewiiiRenovação III, 2014

Mariko Mori (Japão, 1967)

fibra de vidro, 200 x 158 x 166 cm





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

10 06 2015

 

 

CARLOS CHAMBERLLAND (1884-1950) - Natureza Morta - Frutas e Bule, pintura a óleo sobre tela, med. 25 x 29cmNatureza morta com frutas e bule, s.d.

Carlos Chambelland (Brasil, 1884-1950)

óleo sobre tela, 25 x 29cm





Rio de Janeiro, comemorando 450 anos!

5 06 2015

 

 

GUSTAVO DALL'ARA - Praia do Flamengo. Óleo sobre tela - 59,5 x 90,5 - 1917Praia do Flamengo, 1917

Gustavo Dall’Ara (Itália, 1865- Brasil, 1923)

óleo sobre tela, 59 x 90 cm





Imagem de leitura — Marcel Duchamp

20 05 2015

 

Mrcel Duchamp, homem sentado à janela,Homem sentado à janela, 1907

Marcel Duchamp (EUA, nascido na França, 1887-1968)

óleo sobre tela

MOMA, Nova York





Sonatina lunar, poema para crianças de Mário Quintana

19 05 2015

 

 

noite, Yan Nascimbene casaNoite, ilustração de Yan Nascimbene.

 

Sonatina lunar

 

Mário Quintana

 

Os padeiros da lua
Derrubam farinha
Na noite retinta.
Quem ganha? É o chão
Que se pinta e repinta
De giz e carvão.
Rendilha de aranha
Na face encantada,
Moedinha de prata
Escondida na mão,
Minh’alma menina
Fugiu para a mata.
Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.
Até eu me fujo…
Eu sou o corujo,
Olhar enorme
Que nunca dorme.
Nana, nana
Nina, nina,
Alma menina…
E sonha comigo
Como eu era dantes!
Os padeiros da lua
Derrubam farinha…
O chão se repinta
De giz e carvão…
Sonha, Menina,
Na mata assombrada
Enquanto o moinho
Vai rangendo em vão.

 

Em: Apontamentos de história sobrenatural, Mário Quintana, Rio de Janeiro, Objetiva:2012





Domingo, um passeio no campo!

3 05 2015

J. CARVALHO - Paisagem com igreja - ost - 46 xPaisagem com igreja, 1947

J. Carvalho (Brasil, 1900-1987)

[João Soares Carvalho]

óleo sobre tela, 46 x 54 cm