“Jacinto”, texto de Eça de Queirós

16 07 2018

 

 

8547f88f72ecad7dc93a8994f80218bcFotografia de jovem desconhecido, século XIX.

 

Jacinto

 

Eça de Queirós ou Eça de Queiroz

 

Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta. ca[ia em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléa, orquídea ou tulipa. fundidas numa mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.”

 

[Exemplo de Retratos Descritivos]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 74.





Anedota sobre Oscar Wilde

16 07 2018

 

1 _sQTf2g5TNqbqJGSq3MswQ

 

Uma vez, quando era hóspede numacasa de campo no interior da Inglaterra, Oscar Wilde  irritou-se com a rudeza de um dos convidados lá hospedados que, em voz alta e clara, declarava que todo esforço na criação artística não passava de uma triste perda de tempo.

Meu caro Wilde, ele disse numa manhã, por favor, diga como passou a manhã?

Oh, estive muito ocupado,” Oscar Wilde respondeu sério.”Passei o tempo todo revisando os textos para meu novo livro de poemas.” E o filisteu perguntou então sobre o resultado dessa atividade.

Foi um trabalho importante,” ele disse, “tirei uma vírgula.”

Então,” retrucou o homem, “foi só isso o que fez?

Oscar Wilde respondeu educadamente, “de modo algum, depois de muito pensar, coloquei a vírgula de volta.

O homem não aguentou, e tratou de pegar o próximo trem para Londres.

 

Em: The quote investigator





Resenha: “O ano da lebre” de Arto Paasilinna

15 07 2018

 

 

Simon Taylor, O velho e o coelho,

Dança do velho e  coelho, 2016

Simon Taylor (GB, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 40 x 40 cm

Artmajeur.com

 

 

Libertar-se do marasmo da rotina diária, do cotidiano  sem sentido, é o desejo silencioso de Kaarlo Vatanen, um jornalista finlandês que protagoniza o livro de Arto Paasilina, O ano da lebre, traduzido por Lilia e Paso Loman.  O livro é composto pelas aventuras — uma por capítulo — da vida de Vatanen que, em um dia de frustração depois de um acidente rodoviário em que atropela uma lebre, toma-a sob seus cuidados, abraça-a e a mantém saudável e aquecida.  Neste momento de distúrbio,  pode-se dizer de imprudência, declara independência da vida que tem em Helsinque e decide não retornar ao lugar onde mora.  Abandona o emprego no jornal e deixa para trás a esposa com quem estava em conflito. Num piscar de olhos, Kaarlo Vatanen passa de profissional a andarilho, sem destino, errando pelas aldeias e bosques do interior da Finlândia.  A lebre é sua companheira de aventuras.

Começa então a série de escapadas, molecagens, estripulias em que ambos se metem e que dão a Vanaten a oportunidade de agir como veterinário, pescador, boiadeiro, bombeiro, caçador de ursos. O destino é incerto,  requer audácia e empreendedorismo para sobrevivência. Vivem de pequenos trabalhos, de bicos nos vilarejos e audaciosas decisões de sobrevivência nos bosques e florestas. Algumas situações são engraçadas, trazem um sorriso ao leitor, outras aventuras não se resolvem de bom grado. Uma vez, os dois ciganos são postos na prisão quando um médico reclama da invasão de seu terreno; outra, um reverente pastor de uma igreja mais radical decide sacrificar a lebre em seu ritual religioso.  Este formato de aventuras em sequência é clássico na literatura mundial e, neste caso, imprevistos extraordinários trazem à lembrança As aventuras do Barão de Münchausen ou Alice no País das Maravilhas, obras que se assemelham a esta por utilizarem sistemas de lógica próprios, impenetráveis.

 

images

 

O ano da lebre é uma obra simbólica. Vanaten procura se livrar de todos os grilhões da vida citadina, com horários e responsabilidades a terceiros, correntes que o prendiam, que o deixavam deprimido e sem poder de decisão sobre sua própria vida.  É curioso que tenha sido a lebre o animal que lhe ajuda a deixar para trás mundo urbano e procurar sua própria essência.  Desde a antiguidade o coelho ou a lebre foram símbolo de renascimento, de ressurreição. Símbolo mais tarde adotado para a Páscoa.  Não é gratuita a associação de lebres e coelhos com essa data cristã que comemora a ressurreição de Cristo. Aqui, Vanaten consegue a liberdade a partir do momento em que abraça a lebre ferida e dela cuida até que se recupere.  Ambos, de fato, estão num processo de renascimento, de cura.  Não sei se este é um dos motivos desta obra ser considerada um clássico da literatura finlandesa.  Publicado em 1975 teve imediatamente grande sucesso que extrapolou as fronteiras do país e se tornou leitura popular não só na França como em grande parte dos países europeus. Mas o grito de liberdade dos limites impostos por uma civilização urbana também encontra eco num grande número de obras clássicas. Há na própria literatura escandinava obra de grande sucesso do norueguês Erlend Loe, Doppler, (2004) que advoga semelhante aventura,  o protagonista, que dá o nome ao livro, abandona a vida em Oslo, emprego, mulher e filho e se embrenha numa série de aventuras enquanto se liberta da civilização.  Que ambas as obras usem de humor para a narrativa é mais um ponto em comum.

 

getimage5246-arto-paasilinna.300x300Arto Paasilinna

 

Humor é cultural. Ainda que no presente estejamos conectados 24 horas por dia com outras culturas, é possível vermos que o humor inglês, nervoso, característico de Fawty Towers, não se assemelha ao americano Seinfeld, nem ao mexicano Chaves ou ao brasileiro Chico Anysio. Podemos entender muitas das situações humorísticas em qualquer deles, mas nem sempre compreendemos na totalidade a razão da piada. Foi assim que me senti ao ler O ano da lebre.  Ainda que caracterizado por críticos como de grande senso de humor, esta não seria a mais importante característica para descrever o livro.  Um livro de aventuras, de contos fantásticos, quase surreal, seriam as maneiras mais óbvias para mim descrevendo a obra.  O humor, acredito que tenha se perdido na tradução. No entanto, foi uma leitura prazerosa, diferente, que me colocou pela primeira vez, que eu me lembre, em contato com um escritor finlandês. Recomendo aos curiosos e aos que desejam alargar os horizontes.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

 

 





Lendo: “Pequenos incêndios por toda parte”, Celeste Ng

14 07 2018

 

 

DSC03881

LENDO

Pequenos incêndios por toda parte

Celeste Ng

Intrínseca: 208, 416 páginas

SINOPSE

Um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos.Em Shaker Heights tudo é planejado: da localização das escolas à cor usada na pintura das casas. E ninguém se identifica mais com esse espírito organizado do que Elena Richardson.

Mia Warren, uma artista solteira e enigmática, chega nessa bolha idílica com a filha adolescente e aluga uma casa que pertence aos Richardson. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.





Flores para um sábado perfeito!

14 07 2018

 

 

 

AUGUSTO HERKENHOFF, Flores, óleo sobre tela , 40 x 40 cm , assinado e datado - 2006Flores, 2006

Augusto Herkenhoff (Brasil, 1965)

óleo sobre tela, 40 x 40 cm





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

11 07 2018

 

 

EVILÁSIO LOPES (Brasil, 1917-2013) , óleo sobre tela,Natureza Morta, medindo 33 cm por 40 cm.Natureza morta

Evilásio Lopes (Brasil, 1917-2013)

óleo sobre tela, 33 cm x 40 cm.





Natureza maravilhosa: Bengala doce Sorrel

9 07 2018

 

 

florrara10Flor Bengala Doce Sorrel (Oxalis versicolor )

 

 

Bengala doce Sorrel (em referência à bala de Natal vermelha e branca em forma de uma bengala), a Oxalis versicolor  é uma  planta que pertence à família Oxalidaceae, encontrada na África do Sul.

Cresce de um bulbo, chega a ter de 8 a 15 cm  de altura.  Forma, assim, uma cama de folhas verdes, cada folha composta de três folhetos alongados. No final do verão e início do outono, brotos tubulares brancos estreitos se formam na ponta de caules finos. Um rebordo escarlate curvo para cada pétala dá a aparência de uma bengala doce. As flores se abrem em plena luz do sol, mas permanecem enroscadas em outros momentos.

Candy_Cane_icon





Imagem de leitura — Claude Juppet-Malbet

7 07 2018

 

 

 

Claude Juppet-Malbet (French, 20c).Henriette Morel, 1945. pastel e fusain,

Retrato de Henriette Morel, 1945

Claude Juppet-Malbet





Resenha: “O caminho de casa” de Yaa Gyasi

6 07 2018

 

Titouan Lamazou (Marrocos, 1955)Retrato de Mulher, da exposição Tenebres au Paradis, Africaines des Grands Lacs, aquarelaRetrato de mulher

Titouan Lamazou (Marrocos, 1955)

Aquarela

 

 

É um projeto ambicioso O Caminho de Casa de Yaa Gyasi, com tradução de Waldéa Barcellos, no Brasil. Mas ficou aquém das minhas expectativas dado o volume de aplausos aqui e no exterior à obra. O livro permanece em voga, não por sua qualidade literária, mas pelo fôlego requerido ao abordar o tema: a história de africanos nos últimos  quase 300 anos. Yaa Gyasi contrasta aqueles que permaneceram na África, no século XVIII, com os que, escravizados, chegaram ao Novo Mundo.  Retratadas estão as gerações dos descendentes das meias irmãs Effia e Esi: uma permaneceu na África, outra veio para o Novo Mundo como escrava. Linhagens separadas que se espelham nos dois lados do Atlântico.  “E na minha aldeia nós temos um ditado sobre irmãs separadas. Elas são como uma mulher e a imagem do seu reflexo, condenadas a ficar cada uma de um lado do lago.” [65]

 

O_CAMINHO_DE_CASA_1496700281680965SK1496700281B

 

A maior objeção que tenho é o formato.  Ele dá a sensação de uma trama picadinha.  Porque cada capítulo é uma história completa e pertence a um personagem descendente das meias irmãs.  Portanto, não há seguimento. Trata-se, de fato, uma coleção de pequenos retratos, perfis de vidas sofridas, cá e lá, que não dão continuidade, não formam uma história coesa. Este formato leva o leitor a repetidamente consultar as árvores genealógicas dos retratados para se situar na leitura.  Além disso, o romance que se propõe a ser histórico sofre de pesquisa limitada, de descrição superficial dos diferentes costumes, hábitos e até acontecimentos históricos mundiais que ajudariam o leitor a se localizar na narrativa e enriquecer a visão de época. Preocupada em contar a história dos que não têm voz, “ …quando se estuda História, é preciso sempre fazer perguntas. Que história não está sendo contada? De quem é a voz que foi reprimida para que essa voz pudesse se fazer ouvir?” [337] Yaa Gyasi pecou por não posicionar melhor no tempo, nos hábitos e costumes de cada era e de cada terra, o que acontecia, para enraizar a trama no conteúdo geral da história.

 

GYASI-SMYaa Gyasi

 

A coleção de contos, não permite que tenhamos simpatia por qualquer personagem, por mais do que algumas dezenas de páginas; no entanto é rica em acontecimentos, repleta do padecer típico dos séculos XIX e XX, e recheada de lágrimas e sofrimento pessoais para cada um dos diversos personagens.  Se você aprecia um drama sequencial, se gosta de contos variados, que partem o coração, talvez este seja um livro de que goste. Mas não é a obra prima que se descreve no momento.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Yaa Gyasi: “Entre força e fraqueza”

6 07 2018

 

 

8855bd0cfd37585d5ea658be1f1508a7Metamorfose, 2011

Carol Chen Poun Joe (Suriname, 1989)

acrílica sobre tela, 50 x 40 cm

 

 

“Você quer saber o que é fraqueza? Fraqueza é tratar alguém como se pertencesse a você. Força é saber que cada pessoa pertence a si mesma.”

 

 

Em: O caminho de casa, Yaa Gyasi, tradução Waldéa Barcellos, Rio de Janeiro, Rocco: 2017, página 63