Piteco pensando na vida © Maurício de Sousa
Da vida ao brando balanço
diz o malandro, folgado:
— Se a morte é mesmo descanso,
prefiro viver cansado.
(Maia D’Athayde)
Piteco pensando na vida © Maurício de Sousa
Da vida ao brando balanço
diz o malandro, folgado:
— Se a morte é mesmo descanso,
prefiro viver cansado.
(Maia D’Athayde)
Carissa Rose Stevens (EUA,contemporânea)
aquarela e marcador permanente sharpie
Lêdo Ivo
O mundo em peso cai-me sobre os ombros
e em seguida se evola, sol de urânio.
Arquipélago branco, sai da terra
a rosa nuclear da anunciação.
Fossem meus braços límpidas colunas
e eu deteria o mundo enfurecido
por esta luz atômica que sobe
ao convívio dos céus despedaçados.
Ó corola de átomos, leitosa
flor da quinta estação da terra em pânico
que se exibe à feição do Apocalipse,
sê para nós igual à rosa branca
da paz, sempre banhada pelo orvalho
monumental das lágrimas dos homens!
Em: Central poética, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 98-9.
Armen Vahramyan (Armênia, 1968)
Álvaro Magalhães
Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.
À noite regressa à casa cansado
e estranhamente feliz
porque sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada, que belo dia!
Antes de entrar limpa as botas
num tapete de compridos pelos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.
Em:O Reino Perdido, Alvaro Magalhães, Porto, ASA: 2000
Retrato de Monteiro Lobato © Maurício de Sousa.
Tudo sinto na alma, o enlevo
das histórias infantis.
— Lobato, quanto te devo
da minha infância feliz!
(Magdalena Léa)
Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
— Sem sequer mover os lábios,
cada livro é um professor.
(A. A. de Assis)
Marina Shkarupa (Ucrânia, contemporânea)
acrílica e óleo sobre tela, 60 x 60 cm
“Noor conta que em 1975, pouco antes do início das demolições, conseguiu comprar uma vivenda em Athlone. Levou consigo, para além, evidentemente, da mulher e dos filhos, os pombos-correios, vencedores de vários prêmios, construindo o segundo pombal com a madeira salva do primeiro. Ao fim de três meses decidiu soltar as aves. Nenhuma regressou. Ansioso, após uma noite em branco, Noor foi de carro ao que havia sido o Distrito Six. Distinguiu, em meio ao imenso descampado em ruínas, um claro rumor de asas. Meia centena de pombos esperavam-no, atônitos, no exatao lugar do primeiro pombal. Ainda hoje um espanto semelhante paira sobre a cicatriz, no chão vazio, onde deveriam erguer-se as casas.”
Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.139.
Scott Harding (EUA, 1965)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Lawrence Durrell (1912-1990)
Meu lenço, na despedida,
Tu não viste em movimento:
Lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento
(Carlos Guimarães)
“Front Beach” em Rockport, Ma, 2013
Ginger Greenblatt (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Que bela voz narrativa seduz o leitor de A garota de Boston! Addie Baum, personagem principal, conta para sua neta, prestes a se formar, sobre sua juventude, e sobre a família, imigrantes poloneses que precisavam trabalhar, vencer e sobreviver no início do século XX na cidade de Boston. Com essa premissa Anita Diamant leva o leitor a revisitar os primeiros trinta e poucos anos do século passado mostrando ao invés de descrever as dificuldades dos imigrantes, de qualquer nacionalidade, em se adaptarem e ajustarem a um novo país. Ela também nos instrui a respeito de facetas da história americana facilmente esquecidas cem anos depois.
O que empolga a respeito dessa narrativa fácil de ler, dessa suave volta ao passado é a encantadora personagem principal, a única da família já nascida em solo americano e que, talvez por isso mesmo, é aquela com o espírito desbravador e rebelde. Não é a única rebelde. Addie tem habilidade de se rodear por pessoas que também se rebelam contra costumes da época, hábitos do velho mundo transportados para o novo e consegue, através dos anos, formar com outras jovens com que se relaciona, um grupo de mútuo apoio.
Ainda que Addie Baum seja filha de imigrantes judeus, e que os costumes mantidos pela família sejam aqueles o mais próximo possível dos perpetuados na Polônia, Anita Diamant nos faz ver que dentro do judaísmo havia e há diferentes costumes e diferentes enfoques. Além disso, a autora mostra, com sucesso, que a vida do imigrante é a mesma para quase todas as culturas: italianos, judeus, irlandeses. Foram bem recebidos mas com preconceitos, como parecem ser até hoje em qualquer lugar do mundo. Os que os hospedam não entendem hábitos diferentes, nem costumes estranhos. No final são só as gerações futuras que são as verdadeiras donas da terra.
Mais que isso, a história de Addie Baum mostra que, diferente do folclore cultural que acredita ser impossível; mulheres podem, conseguem e fazem amizades profundas com outras mulheres que, por sua vez, lhes servem de equipe de apoio. A crendice de que mulheres estão sempre competindo com suas iguais é um mito. Mais do que qualquer homem, elas sabem entender os problemas das outras. Por essa perspectiva A garota de Boston poderia ser considerado um livro feminista, porque é uma história de empoderamento da mulher. Mas é tão suave e delicioso que a mensagem feminista vem no contexto, quase na reflexão pós-leitura. Enquanto a história se desenrola, torcemos por Addie, por sua independência, por sua necessidade de conhecimento, pelo sucesso, profissional e amoroso que deveria coroá-la.
Anita Diamant
Esta história é uma pouco mais longa do que uma novela ou um conto prolongado. Diagramação editorial o transforma num livro de quase 300 páginas(272), mas é facilmente devorado num fim de semana. Nele encontrei uma heroína que não era comum quando eu tinha meus dezesseis anos e procurava exemplos de mulheres que se rebelavam e “dava certo”. Felizes são as moças de hoje que podem encontrar em Addie Baum alguém em quem se espelhar. É um livro que levanta o espírito, que joga a leitora para uma visão positiva da vida. Não há nada de errado com isso. E apesar de minha sobrinha estar com vinte e poucos anos, ela receberá esse livro pelos correios, com um cartão da tia: “Leia, tenho certeza de que vai gostar.”
Ilustração ©Maurício de Sousa.
Meu dia de estrela!
Hoje, estive no programa SÁBADO SHOW da Rádio Bandeirantes no RJ. Fui falar sobre o PAPA LIVROS e o AO PÉ DA LETRA, dois grupos de leitura, com 22 pessoas cada, que oriento. E deu para falar também do meu próximo projeto que é EU TAMBÉM LEIO, um grupo de leitura para adolescentes que gostam de ler. Explicar que a leitura é uma forma ecumênica de aprendizado é importante. Foi uma oportunidade única. Agradeço aos que puderam proporcionar esse momento.
Contato através da página da PEREGRINA CULTURAL no Facebook ou através daqui mesmo, no blog.