Andorinhas, ilustração francesa.
Se acaso eu fosse rainha,
dava a você meu reinado;
e se fosse uma andorinha,
o meu ninho no telhado.
(Colombina)
Andorinhas, ilustração francesa.Se acaso eu fosse rainha,
dava a você meu reinado;
e se fosse uma andorinha,
o meu ninho no telhado.
(Colombina)
Clarabela vai ao antiquário © Walt Disney.
“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”
Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.
José Paulo Moreira da Fonseca (Brasil, 1922- 2004)
óleo sobre placa, 55 x 47 cm
As sombras que fazes
nas portas que pintas,
a tábuas azuis
o verdes gradis,
aquele amarelo
— é tudo verdade? —
Será que existem?
Quem faz tuas portas,
um sonho esconde.
Que tens atrás delas?
Ali estão vivos fantasmas reais?
Em: Mãos Dadas, Marialzira Perestrello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1989, p. 41
Reprodução de gravura de Utagawa Toyokuni (Japão, 1769-1825)
xilogravura policromada, 17 x 26 cm
Não posso me considerar conhecedora de literatura japonesa. Kawabata, Murakami, Tanizaki, Kawakami, Matsuoka, Kirino, Inoue foram os únicos escritores lidos. Uma dúzia de obras, não me faz conhecedora. Particularmente quando se trata de uma de civilização milenar, repleta de biombos culturais, sussurros de entonação e gestos estudados. Mas já li o suficiente para sentir que em Guerra de gueixas há uma diferença. A trama é contada com ritmo avançado, clareza de expressão, narrativa direta e descrições cândidas. Nagai Kafū economizou nas metáforas e tradicionais insinuações orientais. O resultado foi uma bela obra sobre um pequeno evento colocado num contexto franco e arrojado.
Depois de enviuvar Komayo, que havia sido gueixa, retorna à vida que tivera antes do casamento e participa da disputa por clientes para garantir boa sobrevivência no futuro. Nessa procura envolve-se com três homens e se vê no centro de uma competição com outras gueixas que, como ela, pensam em assegurar uma vida estável, nos dias em que a idade se mostrar como obstáculo. Procuram um único patrocinador. Komayo se depara, nessa competição, com uma escolha: proteção financeira sem amor ou uma paixão. Sozinha, suas escolhas determinarão o futuro. Não pode errar. Suas conquistas são objeto de ciúmes e inveja.
Grande parte do que conheço sobre Shimbashi, o bairro das gueixas em Tóquio, veio através de obras de autores ocidentais, mais ou menos fascinados com o exotismo das gueixas, dos cerimoniais nas casas de chá, do teatro kabuki. Um grande livro que alargou o meu conhecimento sobre o assunto foi do escritor inglês Kazuo Ishiguro, Um artista do Mundo Flutuante. Mas Ishiguro escreveu também com conhecimento de segunda mão, já que passou a vida desde de os cinco anos de idade na Inglaterra. Pois, foi na obra de Nagai Kafū que vi o retrato do mundo flutuante por um escritor japonês descrito com desembaraço semelhante ao encontrado em muitas xilogravuras Ukiyo, abertamente sexuais. Em Guerra de gueixas a vida diária de Shimbashi é retratada sem romantismo, numa ostensiva rebeldia à habitual discrição sobre o assunto na terra do sol nascente.
Um dos pontos altos deste livro é o retratar das mudanças de comportamento na sociedade japonesa com a influência ocidental. A obra, lançada em 1916, é enraizada justamente nesse período de grande pujança econômica do país. Mas não faz qualquer menção aos grandes sacrifícios da população que caracterizaram a época entre o final do século XIX e a entrada do país na Segunda Guerra Mundial: as guerras contra a China e contra a Rússia. Isso só não empobrece o texto porque Nagai Kafū não se propôs a escrever um romance histórico, mas um obra de gênero. O que descobrimos são as pequenas maneiras em que a ocidentalização se dá na vida cotidiana da cidade.
Nagai KafūGuerra de gueixas é considerado um clássico da literatura japonesa moderna. Tem todo jeito de ser uma obra de transição, de um período em que a estética literária de Yasunari Kawabata se desloca para a de um Haruki Murakami. Ainda que Kawabata seja mais jovem, sua obra me parece mais ligada às tradições literárias nipônicas do que a de Nagai Kafū que o precedeu. Talvez isso seja só a visão de quem lê com os olhos do ocidente. Mas sou pretensiosa ao fazer essa afirmação, consciente de meu conhecimento superficial de uma rica tradição literária. A leitura de Guerra de gueixas é rápida, cheia de passagens memoráveis e de interessantes observações. É leve. Tem um gosto de século XIX. Mas vale muito a pena. Devo ressaltar a bela edição da Estação Liberdade que dá gosto à leitura. Recomendo.
Luar, ilustração de Christine Barnes.
A lua, pelo céu, passeia airosa,
A copa do arvoredo prateando,
E passando entre as folhas, sobre o lago,
Um poema de rendas vai bordando.
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Edward Burne-Jones (Inglaterra, 1833-1898)
óleo sobre tela, 76 x 53 cm
Hanif Kureishi me conquistou, ainda na década de noventa, com The Buddha of Suburbia. Seu humor rascante pareceu uma nova vertente na literatura inglesa contemporânea, diferente da que eu conhecia. Nele combinavam típica ironia inglesa e crítica esfuziante desenvolvida por aqueles que sendo de casa ainda conseguem ver a sociedade com os olhos de fora, como acontece com membros da primeira geração pós imigração. Tempos depois, soube que ele era o autor do roteiro de My Beautiful Laundrette um filme inesquecível.
Desde então me aproximo dos livros de Kureishi com simpatia e corri a ler A última palavra porque achei pela sinopse que a veia irônica do autor seria o tom preciso para gerenciar um tópico fascinante: um escritor jovem, ainda sem uma carreira definida, é chamado por um editor a fazer a biografia de um escritor famoso cujo brilho parece ter-se ofuscado nos últimos tempos.
Imediatamente percebi a riqueza do tópico. Um jogo de espelhos deveria se desenrolar e como poderia ser revelador! Uma obra sobre o significado e a criação da arte. Hanif Kureishi é um desses escritores que fornecem maravilhosas citações. É comum ter frases ou parágrafos de sabedoria salpicadas em seus textos como pérolas de um colar desfeito. E realmente isso se tornou realidade durante essa leitura. Dezenas de pequenos lembretes post-it, coloridos, enfeitam hoje o texto do meu exemplar de A última palavra. Tenho uma enormidade de frases bem humoradas sobre diversos assuntos para uso posterior. Hanif Kureishi entregou aquilo que sempre beneficiou seus textos: o pensamento crítico, a visão ácida.
Exploramos com ele o confronto entre dois escritores, com projetos de vida diametralmente opostos. Um é velho e famoso. Seu contraponto é jovem, à procura de fama: simpático e sociável; o oposto do biografado que se esconde do público. Enquanto um necessita bisbilhotar a vida do outro; esse se diverte ao esconder-se atrás de cortinas de fumaça. Ambos são insaciáveis no amor e ambos se representam a si próprios com os atributos do outro.
No entanto, a obra com humor ferino, crítica de costumes singular e retrato do mundo editorial implacável, que tinha potencial de ser inesquecível, não coalesce. Fica longe do trabalho memorável da minha expectativa. Ela se arrasta e se perde no caminho. Entedia. Não fosse eu uma dedicada leitora deste autor, poderia tê-la deixado de lado sem lástima. O texto é redundante.
Hanif Kureishi
Talvez seu maior pecado seja uma trama bastante solta. Nada prende o leitor. A obra, se fosse de alguém menos conhecido, teria dificuldade de ser publicada. Pareceu escrita às pressas e sem o cuidado de seus outros livros. Tem um fim inesperado que quase salva o esforço. Se você nunca leu um livro do autor, este não deve ser o seu primeiro. Não o representa bem. Mesmo assim, cheguei até o fim, o que é mais do que muitos livros que me atraem.
Gato com bola
Vicente Do Rego Monteiro (Brasil, 1899-1970)
óleo sobre tela, 65 X 80 cm
Marina Colasanti
No alto do muro
pulando no escuro
miando no mato
entrando em apuro
é o gato, seguro.
De antigo passado
e jeito futuro
movimento puro
ar sofisticado
é o gato, de fato.
Só pode ser gato
esse bicho exato
acrobata nato
que só cai de quatro.
Marie Fox (EUA contemporânea)
acrílica sobre tela, 30 x 30 cm
Sempre aprendo na internet. É só ter curiosidade. Tudo está na rede.
Hoje dei com um artigo sobre terapia através de livros. Não falo de livros escritos com o objetivo de autoajuda. Não é disso que se trata. É a leitura de literatura, tanto antiga quanto contemporânea, auxiliando no entendimento de emoções, de prazer, da felicidade. Biblioterapia parece estar em alta. É esse o campo, que meus amigos bibliotecários certamente devem conhecer, mas eu ignorava.
O artigo na revista online The Millions, titulado Books Should Send Us Into Therapy: On The Paradox of Bibliotherapy, de James McWilliams expandiu meu conhecimento sobre o uso pragmático da leitura e levantou perguntas relacionadas ao Brasil: Nós temos biblioterapia? Há livros de ficção literária brasileira que possam ser usados na terapia?
No mundo de língua inglesa há, por exemplo, os livros de Jane Austen. Ninguém duvida do valor literário da autora inglesa. Mas eu não sabia que poderíamos usar seus livros no processo de psicoterapia como William Deresiewicz sugere em A Jane Austen Education. Ou que o mesmo resultado parece ter sido atingido pelo autor britânico Andy Miller no best-seller The Year of Reading Dangerously.
O autor do artigo cita Lendo Lolita no Teerã, de Azar Nafisi, o único mencionado com tradução brasileira, que li em 2004. Faz muito tempo. Mas me recordo dele demonstrar o crescimento emocional dos personagens e o desenvolvimento da felicidade através da leitura.
Enfim, vou explorar essa nova visão da literatura. Uma consequência formal do hábito de ler que qualquer leitor assíduo já sabia, instintivamente. Deve estar aí o sucesso de grupos de leitura onde o hábito de ler regularmente e discutir emoções, aventuras, consequências e associações dos personagens nas tramas literárias oferece uma variedade imensa de situações e paralelos com a vida real que podem contribuir para o desenvolvimento emocional dos leitores.
Uma coisa sei por experiência: ler e discutir uma leitura em comum num grupo de leitores, regularmente, promove amizades sinceras, em qualquer idade. Nasce e se desenvolve um sentido de coesão, entendimento e aceitação do outro que supera meios tradicionais de se fazer amigos.
Ilustração de Lacombe.
“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável. Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa. O juiz deu-lhe razão.”
Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.