Lendo: “Autobiografia” de Agatha Christie

8 08 2018

 

 

DSC03893Autobiografia

Agatha Christie

Rio de Janeiro, Editora Globo: 1979, 560 páginas

 

SINOPSE:

O mundo inteiro conhece o virtuosismo literário de Agatha Christie. Sua extraordinária habilidade em desvendar os segredos ocultos da alma humana produziu oitenta e seis livros que continuam encantando gerações e gerações de leitores em todo o mundo. Qual o segredo de Dame Agatha? Que mistérios cercavam a personalidade daquela pacata dona de casa que, ao escrever, transformava-se na diabólica Rainha do Crime? Essa resposta você encontra na Autobiografia que narra, com absoluta honestidade e lucidez, todos os pormenores de sua vida, desde a infância na pequena cidade de Torquay até os devaneios de sua mais remota vida amorosa.

 

NOTA:

Estou lendo este livro em inglês, no Kindle.  E me encantei tanto com ele que comprei um volume em português, para poder colocar algumas passagens no blog.





O escritor no museu: Émile Zola

7 08 2018

 

 

Emile Zola, par ManetÉmile Zola, 1868

Èdouard Manet (França, 1832-1883)

óleo sobre tela, 146 x 114 cm

Musée d’Orsay, Paris





Trova das garças

28 07 2018

 

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Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas,

adornando o pantanal.

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Resenha: “A inesperada herança do Inspetor Chopra” de Vaseem Khan

19 07 2018

 

 

_Demeter_BabyElephant David Drinnon (oil), Baby Elephant by Anne Demeter (acrylic)Elefantinho, ilustração de Anne Demeter.

 

 

A Inesperada Herança do Inspetor Chopra de Vaseem Khan é um agradável livro de entretenimento, perfeito para o fim de semana de férias.  Ele se insere entre livros de mistério passados em terras exóticas e longínquas. Este nicho literário ganhou, nas últimas duas décadas, leitores fieis e novos escritores.  Essas obras abrem caminho para o entendimento de diferentes culturas através de detetives e crimes por resolver. Neste segmento meus preferidos são as aventuras de Mma Precious Ramatswe, em Botsuana,  personagem criado pelo escritor britânico Alexander McCall-Smith cuja aparição no mundo dos detetives foi no livro Agência Nº 1 de Mulheres Detetives (original de 1998, 2003 no Brasil) (a série inteira é deliciosa) e também os problemas enfrentados ao combater crimes pelo Detetive Chen Cao, do escritor Qiu Xialong (imperdíveis para quem lê em inglês, mas até o momento sem tradução no Brasil), cujo território de ação é sua terra natal, Xangai. Sua primeira aventura apareceu em Death of a Red Heroine (2000). Ambos autores presenteiam seus leitores com impressões da vida cotidiana e da cultura local.  Agora podemos adicionar a esta lista as obras de Vaseem Khan, localizadas na Índia, em Bombaim (Mumbai).   A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é o primeiro volume da série Baby Ganesh Agency, e o único título publicado no Brasil. Nele o policial indiano, que está se aposentando, e que dedicou toda vida profissional no combate ao crime, na mais populosa cidade da Índia, recebe, no mesmo dia de sua aposentadoria, um elefante bebê de herança.

 

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Este é um livro aconchegante. Cheio de charme e bom humor.  Ele nos lembra como é importante seguir os instintos ganhos depois de mais de trinta anos de profissão.  Como era previsível, o inspetor Chopra não tem tempo de se sentir nostálgico pelos anos a serviço da cidade. Apesar de se aposentar por motivos médicos, no mesmo dia em que deveria usufruir do tempo livre, sem horários, típico do benefício que lhe coube, descobre que a polícia não está fazendo qualquer esforço para resolver um crime e isso lhe parece estranho.  O instinto o alerta.  Há algo que não cai bem nessa história.  No entanto, este não é o único empecilho proibindo-o de gozar do descanso projetado. Há outro problema inesperado: cuidar do  filhote de elefante herdado de um tio e que lhe foi entregue em casa na primeira manhã do planejado descanso.  Contrastando com os agitados primeiros dias de reforma, há a figura calma da fiel esposa, Poppy, que raciocina de maneira deliciosa sobre soluções de problemas corriqueiros e que solidamente o mantém em cheque, mesmo depois de Chopra levar para dentro de casa, para nada menos do que a sala de estar do casal, a inusitada herança. Como numa boa e justa história tudo se explica no final e por causa do sucesso de seu desempenho, tanto no crime quanto na guarda do elefante, Inspetor Chopra abre a Agência de Detetives Baby Ganesh.

 

Vaseem-Khan-14.10.2017-2-e1510867988647-350x2jlzrbt007tg7l0ykqVaseem Khan

 

Estamos em julho.  Época de férias de inverno.  Nada melhor do que uma leitura leve, com chocolate quente nas mãos, manta no colo e uma boa poltrona.  Indicada para todas as idades.  Interessante e informativo.  Alarga horizontes. Em dois tempos Inspetor Chopra nos conquista.  E não precisamos de mais do que duas tardes, acompanhamos a vida deste detetive que ao transitar em sua cidade natal nos mostra os bairros e o complexo perfil de Bombaim.  Ao final, ficamos felizes de ver que provavelmente a Agência de Detetives Baby Ganesh será um sucesso e trará para nós  leitores mais aventuras com gosto indiano. É só esperar pelos próximos volumes.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Preste atenção!

19 07 2018

 

 

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Trova do gato

19 07 2018

 

gato peludo Harrison Fisher (1875 - 1934)Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).

 

 

Bobagem grande, de fato,

que o meu bom senso rejeita…

Mas que inveja dá-me o gato

que no teu colo se deita!…

 

(A. A. de Assis)





Resenha: “Jesus Cristo bebia cerveja” de Afonso Cruz

18 07 2018

Inês Dourado (Portugal, contemporânea) Monsaraz VI, 2013,acrílica sobre papel, 17 x 23 cmMonsaraz VI, 2013

Inês Dourado (Portugal, 1958)

Técnica mista (grafite, acrílico, canetas de acetado e crayons) s/papel, 17 x 23 cm

Jesus Cristo bebia cerveja é um título que chama atenção. Parece profano, desrespeitoso.  E, no entanto, esta provocação de Afonso Cruz, não se materializa.  Trata-se de obra moralizante, cujo desfecho me pareceu surpreendentemente antiquado, bastante incompatível com o mundo contemporâneo.

A trama se desenvolve em torno de Rosa, uma jovem de beleza rústica e sensual. Imaginei-a semelhante a Frida Kahlo, por causa do bigodinho, sobrancelhas espessas e vasta cabeleira. Rosa foi criada pela avó.  Os pais, cada qual à sua maneira, decidem tocar a vida separadamente e em estilo não condizente com a vida doméstica.  Ele morre, ela sai de cena. A criança fica com a avó.  Agora, Rosa é responsável pela anciã que já não consegue sobreviver sozinha.  Muito pobres, vivem do que plantam e do auxílio dos outros.  Um dia, Rosa descobre que a avó gostaria de visitar Jerusalém antes de morrer.  Este desejo parece impossível de ser concretizado, a não ser que mudassem Jerusalém para o centro do Alentejo. Como? Esta é apenas uma das inúmeras intrigas que seguimos  e não é, nem mesmo, a mais importante.  Porque a vida de Rosa, filha de uma mulher que sai do interior de Portugal e se prostitui em Lisboa, parece já estar, desde o início da leitura, condicionada.

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Esta obra se parece com uma igreja barroca-rococó, como as encontradas no século XVIII no Brasil.  A localização da história no Alentejo, árido, ensolarado, de casas caiadas e ruas vazias nos dá a impressão externa de simplicidade como acontece com qualquer templo barroco tardio e engana quem se detém em sua observação, pois esconde a rica  complexidade de seu interior. E é esse interior,  a narrativa de uma história simples entremeada por numerosos personagens esdrúxulos — como a inglesa que mantém intelectuais de duvidoso saber a seu redor;  assim como as intermináveis discussões entre eles sobre assuntos esotéricos — que ocupam o espaço, e por excesso borram a linha narrativa, confundindo o leitor com mais informação do que necessário, entulhando seu percurso até o final. Prestar atenção a esses personagens é seguir arabescos narrativos e chegar a becos sem saída que intrigam, não pela imaginação do autor em descrevê-los, mas porque conspiram para que a leitura de um texto de 240 páginas na versão brasileira, consiga ser cheia de caminhos tortos e curvas perigosas,  continuamente desnecessários.

Este foi o primeiro livro que li de Afonso Cruz, que ocupa, pelo aplauso e louvor recebidos por suas obras anteriores, lugar de importância na literatura lusitana da atualidade. Foi uma leitura que me surpreendeu  pelo estilo rebuscado.  No início, suas figuras de linguagem, antíteses, metáforas, paradoxos, hipérboles parecem charmosas.  Encantam.  O virar da frase, a torção inesperada de um significado, a troca do significado pelo significante chamam a atenção.  Configuram maneira diferente, poética, de registrar acontecimentos.  Mas terminado o primeiro terço da obra, elas se tornam um maneirismo, um impulsivo exagero cansativo e irritante.  Pareceu-me um caderno de exercícios em estilo, em que os adornos ao texto tornam a narrativa rebuscada, barroca e indisciplinada. “A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela vida, lábios cheios de palavras por dizer.” [57].  [Quantas figuras de linguagem cabem numa frase de vinte palavras? ] “A noite começa seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com suas trevas.” [113] Ocasionalmente este tipo de linguagem é muito bem vindo.  Sim, o autor está trabalhando a nossa língua, está exercitando sua potencialidade.  Mas precisa mostrar toda destreza que possui ao navegar o idioma, continuamente?  Em uma única obra?

Afonso Cruz 075Afonso Cruz

Não conheço o trabalho anterior de Afonso Cruz.  Amigos recomendaram a leitura por serem fervorosos adeptos da obra do autor.  A seu favor: houve interesse suficiente para que eu levasse a leitura até o fim.  Por Jesus Cristo bebia cerveja, e exclusivamente por esta livro, Afonso Cruz me parece ansioso por compartilhar com leitores as incríveis ideias que lhe vêm à cabeça, tanto na linguagem quanto na volumosa população de personagens extravagantes, sem edição.  A exuberância narrativa, a imaginação prolixa contrastam com a trama simples e previsível. Sem dúvida uma obra que trabalha a discordância entre a singeleza da trama e a ostentosa linguagem.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





“Jacinto”, texto de Eça de Queirós

16 07 2018

 

 

8547f88f72ecad7dc93a8994f80218bcFotografia de jovem desconhecido, século XIX.

 

Jacinto

 

Eça de Queirós ou Eça de Queiroz

 

Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta. ca[ia em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléa, orquídea ou tulipa. fundidas numa mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.”

 

[Exemplo de Retratos Descritivos]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 74.





Anedota sobre Oscar Wilde

16 07 2018

 

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Uma vez, quando era hóspede numacasa de campo no interior da Inglaterra, Oscar Wilde  irritou-se com a rudeza de um dos convidados lá hospedados que, em voz alta e clara, declarava que todo esforço na criação artística não passava de uma triste perda de tempo.

Meu caro Wilde, ele disse numa manhã, por favor, diga como passou a manhã?

Oh, estive muito ocupado,” Oscar Wilde respondeu sério.”Passei o tempo todo revisando os textos para meu novo livro de poemas.” E o filisteu perguntou então sobre o resultado dessa atividade.

Foi um trabalho importante,” ele disse, “tirei uma vírgula.”

Então,” retrucou o homem, “foi só isso o que fez?

Oscar Wilde respondeu educadamente, “de modo algum, depois de muito pensar, coloquei a vírgula de volta.

O homem não aguentou, e tratou de pegar o próximo trem para Londres.

 

Em: The quote investigator





Resenha: “O ano da lebre” de Arto Paasilinna

15 07 2018

 

 

Simon Taylor, O velho e o coelho,

Dança do velho e  coelho, 2016

Simon Taylor (GB, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 40 x 40 cm

Artmajeur.com

 

 

Libertar-se do marasmo da rotina diária, do cotidiano  sem sentido, é o desejo silencioso de Kaarlo Vatanen, um jornalista finlandês que protagoniza o livro de Arto Paasilina, O ano da lebre, traduzido por Lilia e Paso Loman.  O livro é composto pelas aventuras — uma por capítulo — da vida de Vatanen que, em um dia de frustração depois de um acidente rodoviário em que atropela uma lebre, toma-a sob seus cuidados, abraça-a e a mantém saudável e aquecida.  Neste momento de distúrbio,  pode-se dizer de imprudência, declara independência da vida que tem em Helsinque e decide não retornar ao lugar onde mora.  Abandona o emprego no jornal e deixa para trás a esposa com quem estava em conflito. Num piscar de olhos, Kaarlo Vatanen passa de profissional a andarilho, sem destino, errando pelas aldeias e bosques do interior da Finlândia.  A lebre é sua companheira de aventuras.

Começa então a série de escapadas, molecagens, estripulias em que ambos se metem e que dão a Vanaten a oportunidade de agir como veterinário, pescador, boiadeiro, bombeiro, caçador de ursos. O destino é incerto,  requer audácia e empreendedorismo para sobrevivência. Vivem de pequenos trabalhos, de bicos nos vilarejos e audaciosas decisões de sobrevivência nos bosques e florestas. Algumas situações são engraçadas, trazem um sorriso ao leitor, outras aventuras não se resolvem de bom grado. Uma vez, os dois ciganos são postos na prisão quando um médico reclama da invasão de seu terreno; outra, um reverente pastor de uma igreja mais radical decide sacrificar a lebre em seu ritual religioso.  Este formato de aventuras em sequência é clássico na literatura mundial e, neste caso, imprevistos extraordinários trazem à lembrança As aventuras do Barão de Münchausen ou Alice no País das Maravilhas, obras que se assemelham a esta por utilizarem sistemas de lógica próprios, impenetráveis.

 

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O ano da lebre é uma obra simbólica. Vanaten procura se livrar de todos os grilhões da vida citadina, com horários e responsabilidades a terceiros, correntes que o prendiam, que o deixavam deprimido e sem poder de decisão sobre sua própria vida.  É curioso que tenha sido a lebre o animal que lhe ajuda a deixar para trás mundo urbano e procurar sua própria essência.  Desde a antiguidade o coelho ou a lebre foram símbolo de renascimento, de ressurreição. Símbolo mais tarde adotado para a Páscoa.  Não é gratuita a associação de lebres e coelhos com essa data cristã que comemora a ressurreição de Cristo. Aqui, Vanaten consegue a liberdade a partir do momento em que abraça a lebre ferida e dela cuida até que se recupere.  Ambos, de fato, estão num processo de renascimento, de cura.  Não sei se este é um dos motivos desta obra ser considerada um clássico da literatura finlandesa.  Publicado em 1975 teve imediatamente grande sucesso que extrapolou as fronteiras do país e se tornou leitura popular não só na França como em grande parte dos países europeus. Mas o grito de liberdade dos limites impostos por uma civilização urbana também encontra eco num grande número de obras clássicas. Há na própria literatura escandinava obra de grande sucesso do norueguês Erlend Loe, Doppler, (2004) que advoga semelhante aventura,  o protagonista, que dá o nome ao livro, abandona a vida em Oslo, emprego, mulher e filho e se embrenha numa série de aventuras enquanto se liberta da civilização.  Que ambas as obras usem de humor para a narrativa é mais um ponto em comum.

 

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Humor é cultural. Ainda que no presente estejamos conectados 24 horas por dia com outras culturas, é possível vermos que o humor inglês, nervoso, característico de Fawty Towers, não se assemelha ao americano Seinfeld, nem ao mexicano Chaves ou ao brasileiro Chico Anysio. Podemos entender muitas das situações humorísticas em qualquer deles, mas nem sempre compreendemos na totalidade a razão da piada. Foi assim que me senti ao ler O ano da lebre.  Ainda que caracterizado por críticos como de grande senso de humor, esta não seria a mais importante característica para descrever o livro.  Um livro de aventuras, de contos fantásticos, quase surreal, seriam as maneiras mais óbvias para mim descrevendo a obra.  O humor, acredito que tenha se perdido na tradução. No entanto, foi uma leitura prazerosa, diferente, que me colocou pela primeira vez, que eu me lembre, em contato com um escritor finlandês. Recomendo aos curiosos e aos que desejam alargar os horizontes.

 

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