A rã e o touro, Olavo Bilac

25 06 2020

 

 

illustrations_couleur_fables_de_la_Fontaine_par_Vimar_-_la_grenouille_qui_veut_se_faire_aussi_grosse_que_le_boeufIlustração de Auguste Vimar (1851-1916)

 

 

A rã e o touro
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que os outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”

Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…

Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro

Rebentou e morreu, sem ficar  como um touro.

 

Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8

 





21 de junho de 1839! Viva Machado de Assis!

21 06 2020

 

 

Machado de Assis

 

Hoje comemoramos o dia do aniversário de Machado de Assis, sem dúvida o maior escritor brasileiro de todos os tempos.  Ele faria 181 anos.

 

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

 

̶  Não me podes negar um facto, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior do que o do beneficiado. Que é o benefício? É um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incômodo, desabotoas o cós, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna à indiferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. Não havendo nada que perdure, é natural que a memória se esvaeça, porque ela não é uma planta aérea, precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela memória da privação, ou, usando de outra fórmula, pela privação continuada na memória, que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno.

Não digo que, ainda sem esta circunstância, não aconteça, algumas vezes, persistir a memória do obséquio, acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um filósofo.

̶  Mas, repliquei eu, se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado, menos há de haver em relação ao obsequiador. Quisera que me explicasses este ponto.

̶  Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma coisa mais. A persistência do benefício na memória de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa ação, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Loucura escreveu algumas coisas boas, chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que ele não disse, a saber, que se um dos burros coçar melhor o outro, esse há-de ter nos olhos algum indício especial de satisfação.

Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá uma certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciência é a mesma coisa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.

 

Em: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Joaquim Maria Machado de Assis, 1881.





Para melhorar os conhecimentos, Paul Auster

18 06 2020

 

book-and-coffee-jennifer-kafouryLivro e café, ilustração de Jennifer Kafoury.

 

 

No livro 4321 de Paul Auster, logo no início, somos apresentados a uma pequena lista de livros que, durante gravidez de perigo, a personagem  Rose Ferguson lê para melhorar seus conhecimentos gerais.  Aqui segue a lista.  Estamos em meados do século XX, pós Segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos.  Livros que Rose leu:

 
Suave é a noite, Scott Fitzgerald
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A casa da felicidade, Edith Wharton
Moll Flandres, Daniel Defoe
Feira das vaidades, William Thackeray
O Morro dos ventos uivantes, Emily Bronté
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A cartuxa de Parma, Stendhal
Primeiro amor, Ivan Turgueniev
Dubliners, James Joyce
Luz em agosto, William Faulkner
David Copperfield, Charles Dickens
Middlemarch, George Eliot
Washington Square, Henry James
A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne
Rua principal, Sinclair Lewis
Jane Eyre, Charlotte Bronté

Quem sabe você também não se anima a arredondar seus conhecimentos escolhendo alguns destes livros para ler ainda este ano?

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, página 32

 





As velhas árvores, Olavo Bilac

16 06 2020

 

 

Edgar Walter - Quadro á óleo sobre tela representando Parque com figuras.54 x 72 cmParque com figuras

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 54 x 72 cm

 

As velhas árvores

 

Olavo Bilac

 

Olhas estas velhas árvores,  — mais belas,

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

 

O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E alegria das aves tagarelas…

 

É preciso, desde a infância,

Ir preparando o futuro;

Para chegar à abundância,

É preciso semear…

 

Não nasce a planta perfeita,

Não nasce o fruto maduro;

E, para ter a colheita,

É preciso semear…

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116





A dacha de Boris Pasternak

15 06 2020

 

 

RESCALA, JOÃO JOSE (1910-1990). Paisagem com Casario e Riacho no Estado do Rio, óleo s cartão, 26 X 32. Assinado no c.i.d. (Década de 30).Paisagem com casario e riacho no Estado do Rio, década de 1930

João José Rescala ( Brasil, 1910-1990)

óleo sobre cartão, 26 X 32 cm

 

Sempre quis saber exatamente o que era uma dacha.  Ouvia falar que russos de alguma importância saíam nos verões para suas dachas.  Havia mágica a respeito desta palavra.  Um encantamento. Qual não foi minha surpresa, no ano passado, descobrir que dachas talvez não fossem mais especiais do que uma casa de campo, num local próximo à natureza, como muitos têm nas cidades montanhosas ou praieiras aqui no país.  Mais ainda,  o governo russo tenta acabar com essas casas de veraneio, e restabelecer algumas como propriedade agrícola. Calcula que haja no país mais de sessenta milhões de dachas.   Então não eram locais tão especiais, penso.

Recentemente li Os segredos que guardamos de Lara Prescott, traduzido por Alessandra Esteche, para um grupo de leitura.  A narrativa é dividida em dois locais, em Washington DC, e na Rússia, envolvendo o escritor Boris Pasternak, recipiente do prêmio Nobel de literatura de 1958. Grande parte da vida do autor de Dr. Jivago recontada no livro se passa na dacha do escritor.  Finalmente pude satisfazer minha curiosidade.  E a conclusão é simples: dachas são apenas casas de veraneio, algumas mais ricas na decoração do que outras.  Aqui estão as fotos da dacha de Boris Pasternak para dar uma ideia do que parecia algo mágico nos tempos da Russia comunista, já que só os “queridinhos do governo” tinham acesso e possuíam estes refúgios. Hoje é um museu.

 

195324Dacha do escritor Boris Pasternak.

 

227bffc5fe0e4ff2088abb82cb3dd547Dacha do escritor Boris Pasternak.

 

5ab4e1bb85600a2a38066fd7

 

ac-21117427

 

photo3jpg

 

Интерьер-5

 

Цветы

 

Интерьер6

 

Столовая-в-доме-музее-Пастернака

 





10 de junho, dia de Camões

10 06 2020

 

JESSER VALZACCHI - Tarde de domingo - Óleo sobre tela - 90 x 70 - 2014Tarde de domingo,  2014

Jesser Valzacchi (Brasil, 1983)

óleo sobre tela,  90 x 70 cm

 

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

 

Luís de Camões

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.





Curiosidade sobre Goethe

8 06 2020

 

Coffee and Parasol, Aldo Balding(GB,1960), Oil on canvas, 50cm x 40cmCafé e guarda-sol 

Aldo Balding (GB, 1960)

óleo sobre tela,  50 x 40cm

 

O humor do escritor alemão Johann Wolfgang Goethe pode ser vislumbrado na ocasião em que escreveu uma longa carta para um de seus amigos.  No final ele adicionou uma  nota explicando:  “Sinto muito por mandar uma carta tão longa, mas não tive tempo suficiente para escrever uma menor.”





A fonte, poesia de Faustino Nascimento

8 06 2020

 

 

product-image-196722180Ilustração Sung Kim.

 

 

A fonte

Faustino Nascimento

 

Do seio da floresta secular,

Ao abrigo do sol mais inclemente,

Gota por gota, vê-se derivar

A fonte cristalina e refulgente.

 

Deitada no seu leito, a murmurar.

Talvez. uma canção de amor fremente,

Reflete, no seu prisma, ao sol e ao luar,

Tudo que a cerca, a plácida corrente.

 

Repousa, assim, no leito, a correnteza,

Aos embalos sutis da natureza,

Como encantada Ninfa, em seu ritual.

 

Dorme… Depois, num sobressalto, acorda

E, como que a fremir de amor, transborda

E se espreguiça pelo branco areal…

 

Em:  Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p. 15

 

Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-)  advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor.  Em Fortaleza, fundou a revista Argus.

Obras

Juvenília, poesia, 1927

As Cosmogonias, ensaio, 1929

Paisagens sonoras, poesia, 1937

Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943

Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941

Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943

O refúgio sublime, poesia, 1945

Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949

O sonho do fauno, poesia, 1950

Cântico ao nordeste, poesia, 1954

Caminhos do Infinito, poesia, 1956

A  fonte de Afrodite, poesia, 1958

A Alvorada, cântico a Brasília, 1958

Antologia poética, 1960

A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962

A terra de Israel, ensaios, 1967

Oriente e ocidente, história, 1973





Dias de leitura, Marcel Proust

7 06 2020

 

 

Vanlerberghe, Sylvie (1963-...) 1Leitura

Sylvie Vanlerberghe (França, 1963)

óleo sobre tela

 

 

Dias de leitura
[20 de março de 1907]

 

Você provavelmente lera, Mémoires de la comtesse de Boigne.  Há “tantos doentes” nesse momento que os livros encontram leitores, até mesmo leitoras. Sem dúvida, quando não podemos sair e fazer visitas, preferimos recebê-las a ler. Mas, “nesses tempos de epidemias”, até as visitas que recebemos representam algum perigo. É a senhora que da porta onde se detém por um momento – apenas por um momento -, e de onde, emoldurando sua ameaça, grita: “Vocês não  temem a caxumba e a escarlatina? Previno-os de que minha filha e meus netos estão doentes.  Posso entrar?”; e entra sem esperar resposta.

E outra, menos franca, que mostra seu relógio: “Preciso voltar logo: minhas três filhas estão com rubéola; vou de uma a outra; minha inglesa está acamada desde ontem com uma febre alta, e temo ser minha vez de ficar doente, pois me senti mal ao levantar.  Mas fiz questão de fazer um grande esforço para vir vê-lo…”. Então preferimos não receber muito, e, como não podemos telefonar sempre, lemos. Só lemos em último caso. …

[…]

… a partir do momento em que nos resignamos a ler, escolhermos de preferência livros como as memórias da sra. de Boigne, livros que dão a ilusão de continuarmos a fazer visitas, a fazer visitas às pessoas que não pudemos visitar, porque ainda não éramos nascidos sob Luís XVI e que, de resto, não serão muito diferentes daquelas que conhecemos, pois levam quase os mesmos sobrenomes que elas, seus descendentes e nossos amigos, os quais, por uma comovente delicadeza para com a nossa fraca memória. conservaram os mesmos nomes e ainda se chamam: Odon, Ghislain, Nivelon, Victurnien, Josselin, Léonor, Artus, Tucdal, Adhéaume ou Raunaulphes. Belos nomes de batismo, aliás, e dos quais não deveríamos sorrir; eles provêm de um passado tão profundo que em seu esplendor insólito parecem brilhar misteriosamente como esses nomes de profetas e santos inscritos abreviados nos vitrais de nossas catedrais.”

Em: Salões de Paris, Marcel Proust, tradução Caroline Fretin de Freitas e Celina Olga de Souza, São Paulo, Carambaia: 2018, 2ª edição, pp.  87 e 90.

 





Resenha: A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

5 06 2020

 

 

 

Andrew Ganley - Brigit Ganley - Pintora irlandesa (1909-2002)O dramaturgo Andrew Ganley

Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)

óleo sobre tela

 

Em 1926,  Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita.  Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama.  Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd  ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato.  Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads  para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.

Diferente do que aconteceu comigo na leitura do  livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

 

A_PACIENTE_SILENCIOSA_1550411916853010SK1550411917BLaydce

 

Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece.  Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.

Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama.  Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final.  Neste ponto, A paciente silenciosa  é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.

 

lex Michaelides 2.jpgAlex Michaelides

 

O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental.  Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.

A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva.  Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.