Trova da ajuda

22 09 2014

 

 

ajudar, possoPorquinho quer ajudar, ilustração de Walt Disney.

 

No mundo nada terás,

se não socorres alguém.

Ajuda, espera, e verás

como é bom fazer o bem!

 

(Almeida Corrêa)





As árvores e os livros, poesia de Jorge Sousa Braga

21 09 2014

 

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As árvores e os livros

 

 

Jorge Sousa Braga

 

As árvores como os livros têm folhas

e margens lisas ou recortadas,

e capas (isto é copas) e capítulos

de flores e letras de oiro nas lombadas.

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,

as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,

no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

 

As florestas são imensas bibliotecas,

e até há florestas especializadas,

com faias, bétulas e um letreiro

a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

 

É evidente que não podes plantar

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.

Para começar a construir uma biblioteca,

basta um vaso de sardinheiras.

 

 

Em: Herbário, Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim: 1999





Trova da ingratidão

19 09 2014

 

brigs, ilustração T. CorbellaIlustração de T. Corbella.

 

 

Não vem dos nossos rivais

a ingratidão que exaspera.

— Geralmente a que dói mais

vem de quem menos se espera.

 

(Severino Uchôa)

 





Infinito, poesia de Renato Travassos

18 09 2014

 

Paisagem,Georgina Albuquerque - óleo sobre tela sem data, PESPPaisagem, s/d

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela

PESP –Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP

 

 

Infinito

 

Renato Travassos

 

Um delicioso anseio me atordoa,

Netas lindas manhãs de primavera;

Em mim não me contenho, pois quisera

ter asas para voar sem rumo, à toa!

 

Os olhos pondo na azulada esfera,

Toda ave invejo que, liberta, voa:

Como seria, sendo livre, boa

A vida que me prende e desespera!

 

Nestas manhãs de luz maravilhosas

Em que sorrindo, desabrocham rosas,

Quem me dera dispor de duas asas, —

 

Para, contente, voar do vale à serra;

Para, louvando o que existir na terra,

A um tempo além pairar das coisas rasas!

 

 

Em: Oração ao Sol: obra completa, Renato Travassos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1946, 3ª edição, p. 97.





Trova dos livros

17 09 2014

 

 

Volando entre libros (ilustración de Cecco MarinielloIlustração Cecco Mariniello.

 

De livros encham-se as casas,

eis um conselho excelente,

pois o livro, aberto em asas,

põe asas na alma da gente.

 

(Orlando Brito)





O que se escuta numa velha caixa de música, poesia de Martins Fontes

15 09 2014

 

 

Carolus-Duran_-_Le_BaiserO beijo, 1868

Carolus Duran (França, 1837-1917)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes, Lille

 

 

O que se escuta numa velha caixa de música

 

Martins Fontes

 

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,

ou permuta-se, mas naturalmente.

Em seu sabor seria diferente

se, em vez de ser trocado, se furtasse.

 

Todo beijo de amor, longo ou fugace,

deve ser um prazer que a ambos contente.

Quando, encantado, o coração consente,

beija-se a boca, não se beija a face.

 

Não toquemos na flor maravilhosa,

seja qual for a sedução do ensejo,

vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

 

Como os árabes, loucos de desejo,

amemos a roseira, olhando a rosa,

roubemos a mulher e não o beijo.

 

(A Flauta Encantada)

 

Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53





Hábitos que se foram, memórias a partir de “Utz” livro de Bruce Chatwin

14 09 2014

 

 

american-art-artist-paintings-prints-by-louis-moeller-the-connoisseurs-1890-approximate-original-size-18x24Os especialistas [Connoisseurs], 1890

Louis Moeller (EUA, 1855-1930)

óleo sobre tela, 46 x 62 cm

 

 

Há anos me recomendaram a leitura de Utz, um livrinho pequeno de 135 páginas, publicado pela Cia das Letras em 1990, de autoria do inglês Bruce Chatwin (1940-1989).  Recentemente, tive a oportunidade de lê-lo.  É a história de um colecionador de porcelanas Meissen, vivendo em Praga, ainda na época da Cortina de Ferro, que protege a todo custo as delicadas estatuetas das mãos do governo comunista que vê no luxo desnecessário desse passatempo um sinal da decadência da vida no ocidente e da aristocracia checa.  Apesar de interessante a trama me pareceu datada, retratando muito de leve as restrições do governo da República Checa [naquela época Checoslováquia]. A história, portanto, se restringe ao retrato do personagem Utz, um apaixonado colecionador de porcelanas e de cantoras de ópera. É um conto. Não chega a ser um romance.

Mas aqueles que dizem que na leitura estamos sempre nos retratando, admito que à medida que eu avançava no texto, memórias de um tempo antes dos meu dez anos, me rondaram e com elas uma apreciação de como as maneiras e as preocupações mudaram nas últimas décadas do século XX.  O personagem Utz, homem refinado, que aprecia as belíssimas porcelanas Meissen, que passa temporadas na estação de águas em Vichy, na França, e que tenta sozinho manter o brilho da aristocracia checa, lembrou-me um tipo de homem que, se não desapareceu por completo, hoje eu não encontro nos meus círculos.

Meu avô era um homem de muitos amigos e conhecidos.  Advogado, professor, intelectual, escritor e cronista para um diário carioca, cultivou muitas amizades que o visitavam regularmente. Dentre eles havia um que se chamava Prof. Eugênio. Sua figura, que me lembro dos meus oito anos, era a de um homem imponente, alto —  mais alto que vovô, o que, diga-se, não era grande vantagem — sempre bem apresentado em ternos de três peças. Afetava uma bengala.  E quando consultava o relógio de bolso, puxando a longa corrente de ouro,  entre as tragadas de charutos finos e perfumados, mostrava belas abotoaduras mais caprichadas do que os simples quadrados de ouro fosco e brilhante usadas por vovô.   Prof. Eugênio era muito sério e não sucumbia facilmente ao charme da netinha que, encantada com o vovô, insistia em perambular pelo jardim-de-inverno, local preferido para as visitas dos amigos. Foi a figura do Prof. Eugênio que se reacendeu, no corredor das memórias infantis, preenchendo a imagem de Utz, o principal personagem desse romance.

 

Vintage 1930 Prince and Princess Fairy Tale Story Illustration Print by Margaret Evans PricePríncipe e princesa, 1930 ilustração de um conto de fadas de Margaret Evans Price.

 

Provavelmente minha memória, muito vívida, de algumas dessas visitas pode estar enraizada no fato de que as conversas entre eles, quando minha avó não estava junto, eram em francês.  Vovô havia vivido por algum tempo na Suíça, a trabalho,  falava francês fluentemente.  Na verdade é possível que tenha sido escalado para a Suíça, porque falasse francês, já que em seu diário, que está em minhas mãos, usa o francês desde cedo, para as passagens menos públicas, digamos, um pouco mais apimentadas.  Por toda essa vivência e a pluralidade das tarefas que preenchiam o seu tempo, vovô tinha grande variedade de amigos, que o visitavam à noite, após o jantar, num hábito de entretenimento que já desapareceu.  Passei muitos dias na casa de meus avós.  Não só era a neta mais velha da família, como eles também eram meus padrinhos. Com eles aproveitei muito, viajei pelas cidades serranas no estado, pelas cidades das águas de Minas Gerais, visitei São Paulo, duas vezes. Assim estava sempre incluída na rotina de suas vidas, pelo menos era assim que me sentia.

No entanto, a razão principal de me lembrar do Prof. Eugênio era que além dessa figura toda, desse ar diferente dos homens que eu conhecia, da língua francesa ser murmurada como código secreto, além disso tudo, Prof. Eugênio era um príncipe.  Sim, príncipe.  Era brasileiro, mas depois da Segunda Guerra Mundial, no final dos anos cinquenta ele havia comprado o título de príncipe de uma família nobre europeia que precisava de alguns bons trocados.  É claro que, para a criança que já lia os contos de fadas de Grimm, Prof. Eugênio não lembrava nem de longe os príncipes que eu trazia na imaginação. E, me lembro da minha surpresa ao descobrir, não sei como ou quando, que ele possuía esse título.  Prof. Eugênio e Utz são ambos feitos da mesma estopa.  São figuras totalmente anacrônicas que me deixam mesmerizada; o mundo em que viviam já havia se dissipado há muito tempo e mesmo assim eles insistiam em manter pelo menos algumas de suas fantasias. Talvez suas fantasias fossem tudo o que lhes restava.





A Inveja em texto de Teolinda Gersão

11 09 2014

 

 

Talbot Hughes - The New DressO vestido novo, s/d

Talbot Hughes (Inglaterra, 1869-1942)

óleo sobre tela, 57 x 41 cm

 

 

“Por sorte, logo no início tinha havido um acaso que viera dar força à versão que lhe convinha: Dora Flávia mandara-lhe coser um pedaço da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. Era já tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, não precisava do vestido agora.

Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que tinha que acabá-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa no Sommershild.

Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava por si, atraía logo os olhos das freguesas.

Deixara-o ali como um talismã que a livrasse, e ela do mundo dos armazéns baratos d’ A Feira ou do Lorenzo Marques Mercantil, na rua dos Irmãos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, fosse o sinal exterior de uma mudança.

Só na terça-feira seguinte, à noite, lhe coseu a bainha. Difícil, porque a mousselina parecia desfazer-se nas mãos. Mas era também um prazer tocar-lhe — suave, leve, se havia tecido vaporoso era aquele.

Vestiu-o da própria depois de pronto. Um corpo tão parecido, as medidas iguais, ficava-lhe até melhor a ela, achava-se tão mais bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e não a outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com as suas mãos eles pertenciam a outra. As vidas não se trocavam.

Dora nunca lhe pagaria o preço justo por nada, soube. Ninguém lhe pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura tão leve que parecia areia movediça, onde os alfinetes e a agulha escorregavam sempre, e Dora assentaria, distraída, com um movimento de cabeça, julgando que ela queria justificar um acréscimo no preço por esse trabalho extra,  diria, sim, sim, impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa aborrecia. Nunca poderia dizer-lhe que o problema não tinha sido o trabalho, mas aquele nó na garganta, como uma mão de ferro, que a deixava sem ar.

Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente sobre si própria no espelho. Saberia fazê-lo, tal e qual, nem um ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa próxima, concreta, era ao mesmo tempo impossível, irreal.  Mesmo que houvesse ali à venda aquele tecido e ela tivesse dinheiro para comprá-lo (duas coisas já de si improváveis), nunca teria ocasião de vesti-lo, porque não tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.

Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se alegrado,  com as idas a  Sommershild, com o que dentro de si, na euforia do primeiro momento, chamara “a época do Sommershild”. Como pudera ser tão louca. Acreditar que uma mudança acontece só porque alguém passa a ir regularmente a um lugar.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp 86-87.

 

 





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





Cantiga, poema de Jair Amorim

6 09 2014

 

moça com sombrinha, Neysa McMein,AmericanMagazine 1925-08Moça com sombrinha, Ilustração de Neysa McMein, American Magazine, Agosto de 1925 [DETALHE].

 

 

Cantiga

 

Jair Amorim

 

Pensamento, pensamento,

mais veloz que um pé de vento

mais sonhador que um detento

mais duro que um sofrimento

mais forte que um juramento

mais feroz e violento

que o pranto de um sentimento.

Pensamento, pensamento,

cadê forças, onde o alento,

para tirar um momento

a amada do pensamento?

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995 (?), p. 41

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.