Inverno: Charles Dickens

19 08 2023

 

 

“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não havia nada antes de nós. Todos íamos direto para o céu, todos íamos direto para o outro lado.”

 

Charles Dickens

 





Nova York, texto de Vivian Gornick

14 08 2023

Cena de rua em Nova York, 1990

Matthew Popielarz (EUA, 1926-2012)

óleo sobre tela,  76 x 121 cm

 

 

 

“Estou subindo a Quinta Avenida ao meio-dia diretamente ao encontro da luz solar fria e crua de uma manhã de novembro. Hordas de pessoas vêm na minha direção. Antes essas hordas eram compostas predominantemente de brancos, agora são de negros e outras origens. Antes se vestiam de azul e colarinho branco; agora, de roupas informais. Antes respeitavam a lei, agora não. A língua mudou, mas o espírito se mantém estável. De vez em quando vejo um rosto e um personagem perdido em meio aos jeans e jaquetas de praxe — alguém de rosto estreito e cútis alva vestindo peles lustrosas (Paris, 1938); alguém trigueiro e perigoso falando espanhol da ilha (Cuba, 1952); alguém com olhos de ameixa e além do tempo (Egito, 4000 a.C.) — e sou lembrada da natureza persistente da multidão. Nova York me pertence tanto quanto pertence a todos eles: não mais a mim do que a eles. Estamos todos aqui na Quinta Avenida pela mesma razão e em virtude do mesmo direito. Todos nós percorremos incessantemente as ruas das capitais do mundo: atores, caixeiros, bandidos; dissidentes, fugitivos, clandestinos; gays de Nebrasca, intelectuais poloneses, mulheres à margem do tempo. Metade dessas pessoas vai ser engolida pelo brilho e pelo crime — desaparecendo em Wall Street, escondendo-se no Queens —, mas metade delas será eu: uma caminhante na cidade; aqui para alimentar a torrente incessante de multidão incessante que certamente está ficando impressa na criatividade de alguém.”

 

 

Em: Uma mulher singular, Vivian Gornick, tradução Heloísa Jahn, São Paulo, Editora Todavia: 2023, Edição Kindle.





Curiosidade Literária

7 08 2023

Charles Dickens foi um dos grandes fenômenos da literatura inglesa.  Poucos sabem, no entanto, que nos dias de hoje talvez ele fosse considerado com um leve caso de TOC, transtorno obsessivo compulsivo.  Porque seu comportamento quanto à arrumação de mobiliário era fora da norma.

Dickens se recusava a escrever em qualquer cômodo se mesas e cadeiras não estivessem organizadas de maneira específica. Se, porventura, ele estivesse visitando uma pessoa amiga, ou passando alguns dias em um hotel, providenciava, de imediato, que tudo naquele quarto fosse re-arrumado a seu gosto.  Não bastasse isso, ele também era obsessivo com sua própria aparência, escovando seus cabelos dezenas de vezes em um dia, mesmo depois que começou a perdê-los.  Era capaz de passar o pente nos cabelos, mesmo durante um jantar formal, se sentisse que havia uma mecha fora do lugar.

Além disso Dickens era muito supersticioso.  Tocava três vezes em tudo, para dar sorte, considerava sexta-feira seu dia de sorte e curiosamente, sempre saía de Londres, no dia em que o último capítulo de seus livros publicados em série nos jornais, saía impresso e distribuído a seus leitores.

E, ainda sem explicação: Dickens insistia em dormir com sua cabeça de frente para o Polo Norte.

 

.-.-.-

Texto traduzido do livro:

Secret Lives of Great Authors: What Your Teachers Never Told You about Famous Novelists, Poets, and Playwrights, de Robert Schnakenberg, Kindle Edition, 2008





Curiosidade literária

24 07 2023

Primeira fila orquestra, 1951

Edward Hopper (EUA, 1882-1965)

óleo sobre tela, 79 x 101 cm

Hirshhorn Museum and Sculpture Garden,

Washington DC

 

 

O escritor russo Boris Pasternak, autor do livro Doutor Zhivago, foi o primeiro escritor a recusar o Prêmio Nobel para Literatura.  Ele ganhou o prêmio em 1958 por conseguir, em linguagem poética contemporânea, dar continuidade à tradição épica da literatura russa.  A princípio, ele aceitou o prêmio, mas, pressionado pelo governo soviético, acabou recusando-o com medo que prendessem a ele e sua família.  Foi só trinta e um anos mais tarde, em 1989 que o filho de Pasternak foi à Suécia receber o prêmio por seu pai.

 





Onda no Youtube Shorts

1 07 2023

Soube ontem que há nova onda nos Shorts do YouTube:  pessoas mostrarem a cada mês, ou cada semana, francamente não sei o período mais comum, os livros que baixaram, compraram ou obtiveram para ler no Kindle, o aparelho de leitura digital da Amazon.  Seria como um passeio pela biblioteca.

Achei curiosa essa moda; não sei quanto tempo vai durar.  Tudo na internet dura pouco. Mas resolvi fazer uma lista, uma vez por mês e mostrar o que tenho na biblioteca o que está sendo lido, o que foi lido.  Mas aí será só nos livros digitais.  Ainda tenho mais de milhar de livros em papel, em casa.

O curioso é que tenho comprado livros no papel depois de tê-los lido na versão digital.  Há diversos motivos: gostei tanto que quero poder manusear suas páginas; gostei e quero emprestar para amigos que acho que deveriam ler; li em língua estrangeira e quero marcar passagens em português, para uso aqui, ou nos grupos de leitura.  Mesmo com esta despesa extra, ainda sai muito mais em conta financeiramente e me dou ao luxo de experimentar gêneros e autores que se tivesse que pagar mais, provavelmente faria meia-volta volver.

Aqui estão as duas telas dos livros mais recentes no meu Kindle.  Há um livro que aparece duas vezes, porque rolei a imagem para cima e para baixo e mesmo assim não consegui fazer a captura muito bem.

A tela da direita mostra dois livros sendo lidos ao mesmo tempo, ambos com um pouco mais de 45% de leitura.

William Safire, Scandalmonger, romance histórico passado na última década do século XVIII, 1790s, cuja intenção é mostrar o lado do avesso dos patriarcas, formadores do experimento americano de democracia.

Robert Schnakenberg, Secret Lives of Great Authors, que repleto de curiosidades estranhas sobre alguns dos mais conhecidos escritores de língua inglesa é uma das dez fontes de informações que tenho usado para a postagem semanal CURIOSIDADE LITERÁRIA, neste blog.

Miss Read, Gossip from Thrush Green, sexto livro da série Thrush Green, livros de puro entretenimento cujas histórias leves se passam na pequena cidade inglesa mencionada no título. Tudo sempre acaba bem no final. Excelente leitura para uma viagem.  Comprei ontem, em oferta especial.  Não sei quando vou ler.  Mas gosto de tê-lo em mãos.

Abigail Williams, The Social Life of Books: reading together in the Eighteenth Century Homes.  Estou em processo, segunda metade, de escrever um livro sobre um quadro importante do Século XVIII.  Devo lançá-lo daqui a uns oito meses.  E no momento, com a pesquisa sobre o assunto principal já digerida, volto minha atenção ao contexto em que foi criado.  Fiquem atentos… será interessante.

Christopher P. Jones, Great Paintings Explained — esse livro não será necessariamente lido.  Começo em agosto um curso de história da arte: Obras Primas.  Em cada aula, uma obra é mostrada e contextualizada. Este é o segundo curso com este tema que leciono.  Já dei Obras Primas e os alunos gostaram tanto que acabou sendo um curso sem fim.  Durou aproximadamente ano e meio com uma obra por semana.  Comprei para ter novas ideias sobre o que outros autores considerariam obras importantes.  Boa parte dos alunos já terá feito primeiro curso e repetir não está nos meus planos.

Carmen Korn, Filhas de Uma Nova Era: A história de quatro mulheres que enfrentaram os momentos cruciais do século XX. Este livro foi uma das sugestões de leitura de um grupo que tenho.  Eles escolheram outro livro para o mês de julho, que eu já tinha lido.  Então comprei este para saber se é tão bom quanto imagino. Curiosidade pura.

Na outra página do Kindle, a primeira da esquerda para a direita, temos mais livros que ainda não li. 

George Bataille, Literature and Evil.  Há tempos estou para ler este livro.  Foi mencionado em outra leitura que fiz.  Ensaios estão entre as minhas leituras favoritas e neste livro o conhecido pensador francês se dedica a oito diferentes escritores. Será lido em breve. De bônus a ridículo preço abaixo de um dólar,  comprei também do mesmo autor The Accursed Share, ensaio sobre economia. Leituras sobre economia são uma necessidade para quem lida com história cultural e da arte.  Mas não sei quando me dedicarei a ele.  Galápagos de Kurt Vonnegut está naquele patamar conhecido como “sempre quis ler mais”… Vonnegut… veremos.  O quarto livro deste grupo já está lido, 71%.  Um de meus hobbies, vocês verão ao longo destas postagens, é ler sobre a Idade Média.  Sempre aprendo algo que em geral incorporo nas minhas aulas.

O livro do cantinho tem história particular.

Marcelo Gleiser, The Dancing Universe: from creation myths to the big bang – já li duas vezes o mesmo livro em português: A dança do Universo.  A última vez em leitura em conjunto com um grupo de amigas.  Todas as 3ªs feiras à noite, nos encontrávamos via Zoom e líamos juntas por hora e meia em voz alta, todo o livro.  Levamos mais ou menos um ano, porque a cada encontro discutíamos e tirávamos dúvidas umas com as outras.  Esta maneira de ler já tinha tido sucesso na leitura de 21 Lições para o Século 21, de Yuval Noah Harari. Este ano começamos um livro que está nos deixando de queixo caído com quanto estamos aprendendo. Trata-se de História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira.  Mas isso é outro assunto.  Enfim, marquei de dar uma ajuda no inglês para um rapaz estudando física, e tive a ideia de lermos juntos The Dancing Universe.  Foi eu comprar o livro em inglês, para ele resolver dar um tempo no aprendizado.  Por isso ele se encontra ali na pilha do Kindle.

Vamos ver se este tipo de postagem quer no YouTube quer no blog tem algum interesse.  Como sempre gosto de saber o que outros estão lendo, se vejo alguém com um livro na mão espicho o pescoço para ver pelo menos o título, é possível que seja algo interessante.  Veremos. 

Preciso avisar, no entanto, que continuo lendo livros no papel.  E às vezes também compro no Kindle depois de ler no papel.  Li emprestado Laços de Domenico Starnone.  Gostei muito.  Estou para fazer uma resenha, gostei tanto que devolvi o livro de papel à sua dona e comprei a versão digital.  Haja compras dobradas!





Sublinhando…

27 06 2023

A leitora

Catherine Solier (França, 1958)

técnica mista sobre papel, 76 x 101 cm

 

 

Sempre que me falavam de meu avô, começavam dizendo que ele “não sabia ler nem escrever”, como se sua vida e sua personalidade não pudessem ser compreendidas sem essa informação básica.

 

Em: O lugar, Annie Ernaux, tradução Marília Garcia, São Paulo, Fósforo: 2021





Inverno: Albert Camus

22 06 2023

A caminho de Versailles, Louveciennes, sol de inverno e neve, c.1870

Camille Pissarro (França, 1830-1903)

óleo  sobre tela

Museu Thyssen-Bornemisza, Madri

 

 

 

“Na profundeza do inverno, finalmente aprendi que dentro de mim existe um verão imbatível.”

 

Albert Camus





Curiosidade literária

19 06 2023

Pouco se fala no outro grande sucesso de Shakespeare, além de seu legado literário. Apesar de suas primeiras peças teatrais serem hoje consideradas ainda imaturas, faltando um certo refino de forma, ela foram, em seu tempo, grande sucesso de bilheteria.  Comédias como  “A comédia de erros” (1623) e dramalhões como “Tito Andrônico” (1594)  representaram bem o gosto popular, rendendo a William Shakespeare o suficiente para sair da pobreza e viver como um “country gentleman”. Ele conseguiu especular financeiramente  comprando  e vendendo imóveis, onde obteve sucesso, investindo  sempre que possível.  Também emprestava dinheiro a juros, chegando a processar na justiça aqueles que não lhe pagavam de volta.  E finalmente ele comprou  ações do Globe Theater que o fizeram rico podendo se aposentar em 1613 em  Stratford, como um homem rico.

Fonte: Secret Lives of Great Authors, Robert Schnakenberg





Sublinhando …

19 06 2023

Leitora

Hélène Beland (Canadá,  1949)

óleo sobre tela, 120 x 120 cm

 

´

“Para quem se beneficia das indulgências da vida, a obrigação de rigor na consideração da beleza é inegociável. A língua, essa riqueza do homem, e seus usos, essa elaboração da comunidade social, são obras sagradas. Que evoluam com o tempo, se transformem, se esqueçam e renasçam, enquanto, por vezes, sua transgressão torna-se fonte de uma fecundidade maior, nada  muda o fato de que, para praticar com elas esse direito ao jogo e à mudança, é necessário, previamente, ter-lhe declarado plena submissão. Os eleitos da sociedade, esses que o destino isenta das servidões que são o quinhão do pobre, têm, portanto, a dupla missão de adorar e respeitar o esplendor da língua. Por último, que uma Sabine Pallière faça mau uso da pontuação é uma blasfêmia tanto mais grave na medida em que, ao mesmo tempo, poetas maravilhosos nascidos em barracos fedorentos ou em subúrbios que parecem lixões têm por ela essa sagrada reverência que é devida à Beleza.”

Em: A elegância do ouriço, Muriel Barbery, tradução de Rosa Freire d’Aguiar, São Paulo, Cia das Letras: 2008, p. 117

 

 


Nota:  Há poucos livros que releio.  Precisam ter conteúdo mais denso, ter agradado pelo prazer da escrita, ter ideias que possam ser pensadas, discutidas, conversadas.  Fiz neste mês que passou a terceira leitura de A elegância do ouriço e continua, para mim, excelente no contar de uma história e levantar questões por que passamos todos os dias sem nos deter.  Recomendo a leitura. 





Outono: Hal Borland

16 06 2023

O jardim do Hospital Saint Paul, (Folhas caindo),1889

[Saint-Rémy-de-Provence]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm

Museu Van Gogh, Amsterdã

 

 

 

“Dois sons do outono são inconfundíveis… o rápido farfalhar das folhas quebradiças ao longo da rua… pelo vento turbulento e o tagarelar de um bando de gansos em migração.”

 

Hal Borland   (EUA, 1900-1978)

 

 

Tradução : Ladyce West

-.-.-

“Two sounds of autumn are unmistakable…the hurrying rustle of crisp leaves blown along the street…by a gusty wind, and the gabble of a flock of migrating geese.”
— Hal Borland