A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

3 02 2010

 

Há tempos eu não lia compulsivamente.  Em geral leio de dois a três livros simultaneamente, mas confesso que no mês de janeiro houve duas narrativas, completamente distantes uma da outra que não me deixaram dividir meu tempo livre com qualquer outra história.  Foram leituras sedutoras do início ao fim e que pediram e ganharam a minha total atenção enquanto leitora:  O tigre branco, de Aravind Adiga [Nova Fronteira: 2008] e A solidão dos números primos de Paolo Giordano [Rocco: 2008].  Hoje vou me concentrar no livro italiano.

Eu não teria acreditado, se me dissessem, que eu iria me interessar, que iria ler apaixonadamente, um romance que tratasse das vidas de pessoas muito complexas,  que carregavam traumas da infância.  Pessoas que cresceram no meio de famílias ineptas, que não conseguiam lhes dar atenção.  Famílias, pais, que  não notam  as  carências dos filhos, que os deixam sofrer distúrbios emocionais.  Essa descrição dos dois principais personagens de A solidão dos números primos, Alice e Mattia, teria simplesmente feito com que eu fechasse o livro e dito: Não sei se me encontro num momento emocional para ler sobre este tipo de tragédia Ando a procura de uma história mais branda…  Que erro eu teria cometido!  Porque não teria sido apresentada a esta história maravilhosa, a este livro sedutor.

Mas aí entra a arte deste recém descoberto escritor, Paolo Giordano.  Sua primeira profissão é a física. É formado em Física pela Universidade de Turim, onde ganhou uma bolsa de doutoramento em Física de Partículas. A segunda profissão, só agora começada, é a de escritor.  Não sei se uma tomará a frente da outra.  Numa entrevista à revista Elle, o escritor, que foi agraciado com o maior prêmio literário da Itália, o Prêmio Strega, em 2008,  por este primeiro romance, com o qual também recebeu uma menção honrosa do Prêmio Campiello no mesmo ano,  garante que gosta mais de escrever.  Espero que sim, pois revelou uma voz única e bem sucedida. 

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Parte do sucesso dessa narrativa vem da revelação, muito bem descrita, dos sentimentos de inadequação dos adolescentes, sentimentos que serão permanentes em cada um dos protagonistas.  Alice e Mattia têm essa inadequação elevadíssima: conseqüência do sofrimento físico ou psicológico sofrido por cada um na infância.  Vivem em extrema solidão, mesmo sendo membros de famílias confortavelmente estabelecidas na classe média.  Acompanhamos suas vidas de 1983 a 2007.  Enquanto Mattia, que tem o perfil de um gênio, se refugia na matemática, onde consegue se realizar – porque nela sentimentos não são necessários; Alice encontra abrigo na anorexia, onde se sente confortável emocionalmente, habituada que está à ausência dos alimentos emotivos de que sua alma, seu espírito, precisa.  Ambos são ímpares em seus respectivos casulos emocionais e é exatamente isso o que os aproxima e o que nos aproxima dos personagens. 

Fato é que  conhecemos estes personagens.  Se não são nossos filhos, irmãos, primos ou sobrinhos, estão no círculo de amigos, amigos de amigos, filhos de amigos, companheiros com quem nos relacionamos.  Reconhecemos alguém próximo e com a narrativa sedutora, rápida e contemporânea de Paolo Giordano seria difícil não nos aproximarmos emocionalmente, não acharmos Alice e Mattia fascinantes.

Paolo Giordano

Dizer que a matemática tem poesia é lugar comum.  Mostrá-la é único!  Neste livro a matemática é usada como metáfora, magistralmente: Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos.  Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros.  São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos.  E nas mãos hábeis de Paolo Giordano, nós também achamos os números primos maravilhosos. 

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Leia.  Não se arrependerá!





Papa-livros: A pesca do salmão no Iêmen, de Paul Torday

12 01 2010

 

A pesca do Salmão no Dee

Joseph Farquharson (Escócia 1846-1935)

óleo sobre tela

Quem anda à procura de um romance leve, muito diferente e com um bom senso de humor não deve deixar de ler A Pesca do Salmão no Iêmen do escritor inglês Paul Torday [Record:2008].    O mínimo que posso dizer é que este romance é muito original.  A começar pela forma com que a história é contada.  Lembra, em muitos aspectos, os romances epistolares, pois é feito de cartas, e-mails, páginas de diário, relatórios da Câmara dos Deputados na Inglaterra (House of Commons), programas de entrevistas, até emails relacionados a Al Qaeda fazem parte dessa “pilha” de documentação que conta a história.  Cada capítulo traz à tona uma nova faceta do desenvolvimento de um projeto ambicioso, imaginado por um xeique iemenita, de trazer a cultura do salmão para o seu país a fim de propiciar aos seus habitantes o esporte a que ele se dedicava em sua propriedade na Escócia: a pesca do salmão.  A engenharia social que atrai o abastado xeique seria proporcionar ao Iêmen uma das únicas atividades em que todos, de quaisquer classes sociais, poderiam participar de igual para igual, lado a lado à beira do rio.

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Este é um livro construído como uma sátira aos governos,  a toda a burocracia governamental, que aqui aparece retratada na Inglaterra, mas que com pequenos ajustes é universalmente insana.    O projeto de se fazer a pesca do salmão – um peixe de água doce muito fria–  no Iêmen, um país no deserto é considerado desde o primeiro capítulo como uma loucura, um projeto sem pé nem cabeça.  Mas, por razões diversas e principalmente para favorecer ao primeiro-ministro, este projeto começa a crescer e toma vida própria.  Não só cresce como se torna um projeto imprescindível para o governo inglês.  E ganha mais combustível ainda depois que Alfred Jones, nosso herói, um cientista do Departamento de Pesca do governo, contrário ao projeto, vê-se frente a frente e seduzido pela filosofia do xeique em questão.   O resultado é imprevisível.

 

 

Nesse meio tempo, entre “provas” escritas – emails, diários, cartas, entrevistas – temos uma das mais divertidas narrativas que ironizam e satirizam a vida contemporânea, os casamentos de conveniência, o discurso político.  O que nos resta, por incrível que pareça, é uma mensagem sóbria, gratificante: a esperança é imprescindível para nos dar direção a nossas vidas.  A gente vive, sonha e faz planos, os mais diversos.  Mas mesmo que o que planejamos não venha a se concretizar, aquela esperança que nos ajudou a tentar construí-lo já é o suficiente para dar sentido à nossa vida.    Por trás disso há uma diferença importante entre dois conceitos e quem nos ensina é o xeique:  há religião e espiritualidade.  Ás vezes elas se misturam, às vezes não.    Mas a espiritualidade, quando somos íntimos dela, pode ser encontrada nos recantos mais exóticos, onde jamais esperaríamos encontrá-la.  E é ela quem nos salva. 

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Recomendo a leitura de A pesca do salmão no Iêmen.  Principalmente se você anda desiludido com os seus políticos, com a falência dos seus sonhos.  Há muito material aqui, para dar uma outra vida ao cotidiano, para ver um problema por um outro ângulo.    Achei que esse romance perde um pouco o ritmo no meio das suas 360 páginas.  Mas devo alertar o meu leitor que esta pode ser uma observação só minha.  Ultimamente tenho tido a impressão que na maioria dos romances que leio p texto poderia ter sido cortado, editado, para melhoria do ritmo da narrativa.  Talvez seja um problema meu e não do autor neste caso.  Fica de qualquer maneira, aqui, a minha forte recomendação a esta divertida leitura.





Bom dia camaradas, um deleite de leitura!

3 01 2010

Acabei de ler o delicioso, divertido e suave livro Bom dia camaradas do autor angolano Ondjaki.  Este não é o seu primeiro livro, mas é o primeiro de seus livros que leio.  E que maravilhosa surpresa!

Este é um livro de memórias de um jovem dos seus primeiros anos da adolescência.  Na verdade, são memórias simplesmente de uns meses de escola.  Eles se passam ao mesmo tempo em que a Guerra de Angola está chegando ao fim.  Uma guerra que é vista do contexto da família desse menino, da rotina familiar e das aventuras normais de quem está freqüentando a escola.  Ele e sua família são membros sólidos da classe média angolana.  E o que aprendemos é como esta classe média lidou com a guerra, assim como percebemos suas esperanças para o futuro.

 

A história se desenvolve entre a chegada e a partida de sua tia, que mora em Portugal e que passa diversas semanas visitando a família em Luanda.  Esta visita dá a Ondjaki a oportunidade de descrever Luanda, Angola e os hábitos locais através dos olhos e das perguntas de uma viajante, uma pessoa de fora.  Nosso jovem herói, no entanto fica constantemente surpreso quando compara as perguntas dela com as respostas que precisa dar.  Ele é pego de surpresa quando tenta explicar o que é a “vida real” em Luanda.  Esta troca de perguntas e respostas, muito bem tecidas no texto, são freqüentemente muito engraçadas e às vezes, até mesmo, hilárias, porque podemos ver os dois pontos de vista, do estrangeiro e do local e a incompreensão que respostas e perguntas geram.

Ondjaki demonstrou também maravilhosa habilidade de narração quando representa a conversa do “nada” dos jovens adolescentes, que constantemente melhoram a realidade para não perderem a oportunidade de contarem uma boa história.  Apesar disso, Ondjaki é sucinto e consegue mostrar como em períodos de crise, qualquer história pode ser crível, e pode fazer pessoas reagirem com força extrema.  Tudo isso Ondjaki faz com um tom leve e o diálogo coloquial bastante claro de um menino entrando na adolescência.

Este livro é de leitura rápida.  É pequeno, com apenas 146 páginas.  Mas é um charme.  Eu queria mais.  Gostaria de continuar sabendo do resto das histórias dessa família.  Esse livro tem todas as características de um livro que se tornará um clássico da literatura para jovens leitores, em qualquer lugar do mundo.

O escritor Ondjaki

 

Para nós brasileiros, há a descoberta também de uma língua deliciosamente rica.  O português de Angola nos presenteia com vocábulos diferentes e com uma musicalidade ímpar, que canta aos ouvidos dos leitores.  Há um glossário no final do livro, mas não precisei consultá-lo durante a leitura.  Preferi deixar que as palavras que eu não conhecia estabelecessem seu significado por conta própria. 

Recomendo a leitura desse livro.  É uma leitura agradável e nos premia com muita informação sobre Angola.  Vá, corra para ler, não se arrependerá.

24/03/2008

Esta resenha já apareceu em inglês na Amazon e no Living in the postcard.





O Mar, de John Banville

3 01 2010

Marinha

Edgar Payne (EUA, 1883- 1947)

óleo sobre tela

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

 

O mar de John Banville

 

Só este mês pude me dedicar à leitura de O mar, de John Banville.  Eu estava à espera do momento próprio para lê-lo, um fim de semana quieto, talvez chuvoso, porque já conhecendo o estilo do autor por alguns de seus outros livros – de que gostei muito – eu sabia como seu tom reflexivo pedia pelo ambiente certo.   Eu estava certa ao imaginar que essa leitura iria exigir  a minha atenção e uma leitura cuidadosa.  Além disso, preciso dizer que cheguei a este livro com muita expectativa:  gosto imensamente da literatura inglesa e tenho sistematicamente concordado com as escolhas para o prêmio Man Booker, por diversos anos.   

Meu primeiro contato com John Banville foi na década de 80, quando tive a oportunidade de passar uns anos na Europa.  Naquela época John Banville não era muito conhecido como escritor e eu tive aquela sensação maravilhosa de se ter “descoberto um novo talento que ninguém mais conhecia”.  É claro que ele já ea conhecido, afinal de contas já publicara livros.  Mas nenhum de meus amigos o conhecia.  Ele era a minha descoberta.  Minha apresentação ao seu trabalho foi com o livro Newton’s Letter,[A carta de Newton, não publicado no Brasil], que ainda que um pequeno romance me deu a oportunidade de contar para meus amigos sobre as belezas do estilo do autor.  Ele havia me conquistado!  Depois li Kepler e mais tarde ainda, li The Book of Evidence.  Todos em inglês.  Já que nenhum dos dois últimos se comparava co A Carta de Newton, tirei umas férias do escritor com medo de ter simplesmente lido demais do mesmo autor e ter-me cansado.

 

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Então, fiquei duplamente desapontada depois de ler O Mar.  Primeiro, por discordar com a escolha do Man Booker de 2005.  Não que Banville não merecesse.  Claro que merecia, mas não por este livro.  Segundo, eu fiquei desapontada com o livro propriamente dito, cuja narrative achei manipulativa e indulgente, apesar da beleza da linguagem usada.  Da escolha do vocabulário.  Achei a história bastante comum, com conseqüências que são previsíveis, e achei que o narrador fez rodeios deliberados, seu estilo de pensamentos soltos uma mera  desculpa para transformar o que era um conto num pequeníssimo romance.

John Banville

 

Mas é claro que John Banville é um grande artesão da palavra, um mestre da língua inglesa, que ele sempre usa com precisão, e este romance mais uma vez demonstra isso.  Há através do texto frases preciosas, pérolas poéticas, observações astutas que podem facilmente ter uma vida muito mais longa do que este romance propriamente dito.  Conhecido por seus personagens nem sempre queridos, John Banville, neste romance deu a chance e mais espaço do que necessário a um personagem principal desprezível, o narrador.  Uma escolha literária que ainda me distanciou um pouco mais desse romance; algo que me roubou do puro prazer da leitura.  Ele é, sem sombra de dúvida, um excelente escritor apesar de todos os seus esforços de antagonizar o leitor com seus personagens quase sempre detestáveis.  Isto torna impossível para mim dar menos do que 4 estrelas para um total máximo de 5.  Mas eu não recomendaria este livro como o livro de apresentação ao autor.  Escolha um outro título.

30/03/2008

Esta resenha foi publicada anteriormente em dois locais:  Living in the postacard e na Amazon.





Alonso Cueto, brilha com O Sussurro da mulher baleia

3 01 2010

Meninas

Stanislaw Wyspianski ( Polônia, 1869-1907)

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.  Começo com um romance que me comoveu bastante, do escritor peruano Alonso Cueto, cuja resenha escrevi em 31/01/2008, antes de começar este blog.

Amizade, lealdade, ira e vingança num romance moderno e atual

Vi este livro em diversas livrarias em Lima, no Peru, em Outubro.  Mas não leio muito bem em espanhol.  Então, quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro achei interessante ver que havia acabado de ser lançado no Brasil.  Não conhecendo o autor, resolvi comprá-lo como uma recordação da minha viagem.  E ainda levei um tempinho para lê-lo principalmente porque seu título não me interessava: ênfase no tamanho ou no peso de uma mulher era um assunto que me repelia.  Mas, acabei enfrentando a fera.  Como gostei!  É um excelente livro e descobri, chegando ao final, e algumas horas depois e alguns dias mais tarde, que é um livro que fica enraizado na nossa imaginação; que mantem um diálogo vivo com os nossos botões.  Gosto de livros que me fazem pensar.

Duas adolescents são amigas de escola.  Esta amizade é muito importante para cada uma delas, enquanto a amizade durou.  Anos mais tarde, elas se encontram, já adultas.  Cada qual bem sucedida na sua vida, cada qual com sua parcela de sucesso e sorte.  À medida que elas voltam a se comunicar, descobrem não só como são importantes as emoções que cada qual guarda a respeito da amizade que teve, mas também recordam o evento trágico que separou-as, que destruiu o que haviam construído: uma amizade que era importante para cada uma delas.

A narrativa é clara, assim como a maneira em que os personagens são retratados.  Há muita atenção nos detalhes do dia a dia, coisa que no início parecia inconseqüente, talvez até um maneirismo do autor, mas que mostra ser essencial para detalhar as emoções, para retratar  a vida interioir de cada personagem, vida essa submersa nos detalhes corriqueiros.

Com um excelente ritmo, texto coloquial e moderno, Alonso Cueto se mostra em domínio total da narrativa, do inicio ao fim.  À medida que estas duas mulheres rememoram suas vidas, descobrimos suas fraquezas e principalmente a necessidade de cada uma de “pertencer” de “fazer parte” de um grupo.  E nos lembramos também de como os adolescentes podem ser cruéis consigo mesmos e com seus amigos e colegas.   E aos poucos percebemos como podem ser profundas as feridas sentidas nestes anos de formação, assim como a dificuldade de cada um, de superá-las.

Depois de ler este romance de Alonso Cueto, não me surpreendi ao descobrir que ele é um autor peruano muito conhecido, com mais de uma dúzia de títulos publicados e que já recebeu diversos prêmios literários inclusive o Prêmio Viracocha, em 1985, com o livro Tigre Branco;  em 2005 ganhou o prêmio Herralde com o livro Hora Azul.  Em 2002 ele recebeu a bolsa para escritores da Guggenheim e em 2003 seu livro Grandes Moradas tornou-se um filme de Francisco Lombardi.

Alonso Cueto

Este é um livro sobre amizade, lealdade, ira e vingança.  Retrata as almas sofridas e as técnicas de sobrevivência usadas por aqueles que carregam feridas emocionais por muito tempo.  É um romance com um final surpreendente:  iconográfico e belo.  Sutil.  Não é supresa, então, que tenha sido um livro finalista para o Prêmio Planeta – Romance Ibero-americano – em 2007.  Recomendo com entusiasmo a leitura deste romance.

31/01/2008

Esta resenha apareceu em:  Living in the Postcard; e na Amazon.  Ambas em inglês.  Tradução e adaptação, minhas.





Mais algumas sugestões de livros para jovens e adolescentes

14 12 2009

 

Então, está na hora de comprar o presente de Natal para o seu amigo, sua amiga, seu sobrinho, seu neto que adora ler e já leu tudo o que você pensou em dar.   Todos os volumes de Harry Potter,  a trilogia de Christopher Paolinio, os quatro volumes da autora de Crepúsculo… e todos os outros que seus amigos recomendaram.   Não se aflija.

Estive nas livrarias do bairro, perguntando pelo popularidade de alguns livros, pelo gosto expresso pelos clientes, e tudo indica, que se você conhece um pouco do seu jovem adulto  ainda há muitos livros interessantes com os quais o presentear.  

Não há ordem de prefeência nos livros citados abaixo.

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Gregor: o guerreiro da superfície

de Suzanne Collins, Editora Galera Record: 2008, 304 páginas

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SINOPSE:  O pai de Gregor, que tem 11 anos de idade, desapareceu há mais de dois anos, o que tornou a vida do menino muito difícil. Mas tudo se complica ainda mais quando ele cai através de um duto de ventilação na lavanderia do prédio onde mora, e encontra um incrível universo desconhecido sob a cidade de Nova York. Agora, apesar de seus protestos, o menino precisa liderar um estranho grupo de humanos e animais gigantes numa missão que pode salvar o Subterrâneo além de ser a única saída para encontrar seu pai.

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Os últimos dias

de Scott Westerfeld, Editora  Galera Record: 2009, 336 páginas

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SINOPSE:  A cidade de Nova York está sendo assolada por uma doença estranha, que todos pressentem mas poucos conhecem de fato. Lixo se acumula nos becos, cada vez mais pessoas fogem da cidade e gatos estão sendo vistos acompanhados por bandos enormes de ratos. Ainda assim, dois jovens se unem por acaso para salvar uma linda guitarra de ser despedaçada por sua ex-dona raivosa. Agora, eles vão criar uma banda que vai revolucionar o mundo. Eles só não sabem o quanto.

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Muitos desses livros, seguem a tradição recente de serem em série.  Cada livro tem uma história completa.  Mas em um outro volume os mesmo personagens aparecem em novas aventuras.  Nessa tradição estão os livros que seguem.  Independentes mas em série.

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O Despertar

Diários do Vampiro – Vol. 1, de  L. J. Smith, RJ, Editora Record:2009, 240 páginas.

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SINOPSE:  Um triângulo amoroso entre dois vampiros e uma bela jovem conquistou uma enorme legião de leitores nos anos 1990. “O Despertar”, primeiro volume da série de L. J. Smith lançado originalmente em 1991, deu origem à série de televisão Vampire Diaries, escrita e produzida por Kevin Williamson, roteirista de Dawson’s Creek.

Irmãos e inimigos mortais, Damon e Stefan Salvatore são assombrados por um passado trágico. Vivendo nas sombras desde a Renascença italiana, eles estão condenados a uma vida solitária: são vampiros. Séculos mais tarde, o destino parece levá-los a percorrer o mesmo caminho que um dia os conduziu àquela vida amaldiçoada e eterna.

Em Fell’s Church, na Virgínia, Stefan conhece Elena Gilbert, uma adolescente bela e popular. No encalço de Stefan, Damon procura vingança, e logo Elena se verá divida entre os dois irmãos — e entre o amor e o perigo.

“O Despertar” é o primeiro volume da série best seller Diários do vampiro, de L. J. Smith, há m uitos meses na lista de mais vendidos do The New York Times.

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O Confronto

Diários do Vampiro – Vol. 2, de  L. J. Smith, RJ, Editora Record:2009, 224 páginas

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SINOPSE:   Elena está apaixonada e tem certeza de que Stefan é um amor para a eternidade. Mas a cada vez que Damon se aproxima, fica evidente um vínculo profundo entre os dois. Determinado a conquistar Elena, Damon se infiltra no cotidiano de Fell?s Church. Ameaçado pelo irmão, Stefan não suporta a ideia de perder Elena – e está disposto a arriscar tudo e ir contra seus próprios princípios para protegê-la. A série de TV Vampire Diaries, escrita e produzida por Kevin Williamson (Dawson?s Creek) foi a maior estreia da temporada norte-americana, com 4 milhões de espectadores. L. J. Smith tem duas séries entre as mais vendidas do New York Times: Vampire Diaries e The Night World.

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Ilustração Maurício de Sousa.

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Coleção MORADA DA NOITE [House of Night]:   MORADA DA NOITE é um dos maiores sucessos da atualidade nos Estados Unidos com mais de 3 milhões de livros vendidos em todo o mundo.  Ela é composta até agora de três livros: Marcada, Traída e Escolhida.

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Marcada

de P. C. Cast & Kristin Cast, Editora Novo Século:2009, 328 páginas

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SINOPSE:  Zoey, uma adolescente de 16 anos, acaba de ser marcada como uma vampira, o que significa o início de uma nova vida, longe de seus amigos e de sua vida atual. Isso se seu corpo suportar o período de transformação, caso contrário ela morrerá.   A menina vai se transformar em vampira e usufruir de poderes que nem imaginava possuir. Mas para isso ela precisa suportar o difícil período de transformação, caso contrário morrerá.   As autoras já anunciaram que a série Morada da Noite  será formada por 9 livros.

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Traída

de P. C. Cast & Kristin Cast, Editora Novo Século:2009, 344 páginas

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Zoey se estabelece na Morada da Noite. Finalmente sente-se incluída e aprende a controlar os seus poderes. Agora ela supera novos desafios, luta contra a morte que se abate sobre adolescentes humanos e sobre a própria Morada da Noite e, de repente, percebe que seu coração e sua alma acabam de ser partidos por uma grande traição.   Nesse segundo livro da série Morada da Noite depare-se com novos mistérios, surpreendentes emoções e muita sensualidade.
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Escolhida

de P. C. Cast & Kristin Cast, Editora Novo Século:2009, 296 páginas

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SINOPSE:  Neste terceiro livro da série MORADA DA NOITE os acontecimentos tomam um rumo misterioso e perturbador. Zoey tenta encontrar uma solução para ajudar Steve Rae, que luta para manter sua frágil humanidade, antes que ela se transforme em um monstro. Entretanto, salvar sua melhor amiga significa ir contra Neferet, e para conseguir o que quer, Zoey acaba se aliando a uma inesperada pessoa, tornando-se sua confidente e parceira. Para complicar, o horror atinge a Morada da Noite quando dois assassinatos ocorrem. Zoey se vê num drama pessoal e numa posição realmente delicada. Deve guardar segredos, até mesmo de seus amigos, tomar decisões muito importantes, e agora que acabou se envolvendo com um terceiro cara, deverá lidar com os três, já que não consegue se decidir entre eles.

 

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Dragões de Éter: Corações de Neve

de Raphael Draccon Editora Leya:2009, 498 páginas

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SINOPSE:  Nova Ether é um mundo protegido por poderosos avatares em forma de fadas-amazonas. Um dia, porém, cansadas das falhas dos seres racionais, algumas delas se voltaram contra as antigas raças. E assim nasceu a Era Antiga. Hoje, Arzallum, o Maior dos Reinos, tem um novo rei, e a esperada Era Nova se inicia.
Entretanto, coisas estranhas continuam a acontecer… Uma adolescente desenvolve uma iniciação mística proibida, despertando dons extraordinários que tocam nos dois lados da vida. Dois irmãos descobrem uma ligação de família com antigos laços de magia negra, que lhes são cobrados. Duas antigas sociedades secretas que deveriam estar exterminadas renascem como uma única, extremamente furiosa.
Após duas décadas preso e prestes a completar 40 anos, um ex-prisioneiro reconhecido mundialmente pelas ideias de rebeldia e divisão justa dos bens roubados de ricos entre pobres é libertado, desenterrando velhas feridas, ressentimentos entre monarcas e canções de guerra perigosas. O último príncipe de Arzallum resgata sombrios segredos familiares e enfrenta o torneio de pugilismo mais famoso do mundo, despertando na jornada poderosas forças malignas e benignas além de seu controle e compreensão.
E a tecnologia do Oriente chega de maneira devastadora ao Grande Paço, dando início a um processo que irá unir magia e ciência, modificando todo o conhecimento científico que o Ocidente imaginava possuir.
E o mundo mudará. Mais uma vez.

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Para os adolescentes que já estavam encantados com a série do autor Rick Riordan de Percy Jackson e os olimpianos, lembro que o terceiro volume da série foi publicado no Brasil recentemente.  Os dois primeiros livros já foram descritos aqui neste blog,  sob o título de:  Mais livros de aventuras para jovens leitores II.   O terceiro volume A Maldição do Titã continua a maravilhosa narrativa encontrada nos dois primeiros volumes.

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A Maldição do Titã
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de Rick Riordan, Editora Intrinseca: 2009, 336 páginas.
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 SINOPSE:  Aguardado com ansiedade pela grande rede de fãs da série Percy Jackson e os Olimpianos, A Maldição do Titã dá continuidade à elogiada combinação de mitologia, aventura e muita ação que se tornou sucesso entre o público jovem brasileiro.   Nesse terceiro livro da série, um chamado do amigo Grover deixa Percy a postos para mais uma missão: dois novos meios-sangues foram encontrados, e sua ascendência ainda é desconhecida. Como sempre, Percy sabe que precisará contar com o poder de seus aliados heróis, com sua leal espada Contracorrente… e com uma caroninha da mãe. O que eles ainda não sabem é que os jovens descobertos não são os únicos em perigo: Cronos, o Senhor dos Titãs, arquitetou um de seus planos mais traiçoeiros, e os meios-sangues estarão frente a frente com o maior desafio de suas vidas: A Maldição do Titã.

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E  para surpresa de muitos adultos, um dos livros mais procurados por adolescentes e jovens leitores, assim como leitores de outras idades que se fascinaram com a série da escritora Stephenie Meyer é um clássico da literatura inglesa que está desbancando muito livro moderno para jovens.  Trata-se de O Morro dos Ventos Uivantes, o livro favorito do casal do momento: Bella e Edward!

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O livro O Morro dos Ventos Uivantes está em domínio público há muito tempo.  Foi originalmente publicado em 1847.  Consequentemente há diversas publicações deste romance, por várias editoras.  Aqui incluo esta edição de uma nova editora atuando no Brasil, a editora Leya.  Mas há outras edições.

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O Morro dos Ventos Uivantes

 de Emile Brontë, Leya: 2009, 200 páginas.

Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. “Meu amor por Heathcliff é como uma rocha eterna. Eu sou Heathcliff“, diz a apaixonada Cathy. O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais belas de todos os tempos, O morro dos ventos uivantes é um clássico da literatura inglesa e tornou-se o livro favorito de milhares de pessoas, inclusive dos belos personagens de Stephenie Meyer.

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Esta lista não tem a intenção de cobrir todos os livros mais populares.  Não trabalho no meio editorial para saber.  Tenho, no entanto, bastante contato com jovens que leem e compram ou pedem livros.  Espero que possa ajudá-los mais uma vez na escolha de um bom presente de Natal. 





Gastronomia literária: Muriel Barbery

1 11 2009

camarão

Um camarão, 2009

Robin J.  Mitchell ( Canadá)

óleo sobre madeira,  17,5 cm x 25 cm

http://robinjmitchell.blogspot.com

 

Lavou com cuidado o arroz tailandês numa pequena peneira prateada, escorreu-o, jogou-o na panela, cobriu-o com um volume e meio de água salgada, tampou, deixou cozinhar.  Os camarões jaziam numa tigela de louça.  Sempre conversando comigo, essencialmente sobre meu artigo e meus projetos, descascou-os com uma meticulosidade concentrada.  Nem um instante acelerou a cadência, nem um instante a diminuiu. Quando o último pequeno arabesco ficou despojado de sua ganga protetora, lavou conscienciosamente as mãos, com um sabonete que cheirava a leite.  Com a mesma serena uniformidade pôs uma frigideira de ferro no fogo, despejou um fio de azeite, deixou-o aquecer, jogou uma chuva de camarões descascados.  Com jeito, a espátula de madeira os manipulava, não deixando às pequenas meias-luas escapatória, dourando-as de todos os lados, fazendo-as valsar sobre a grelha perfumada.  Depois, caril. Nem demais nem muito pouco.  Uma nuvem sensual embelezando com seu dourado exótico o cobre rosado dos crustáceos: o Oriente reinventado.  Sal, pimenta.  Com a tesoura cortou um ramo de coentro em cima da preparação.  Por último, rapidamente, o conteúdo de uma tampinha de conhaque, o fósforo; do recipiente jorrou uma longa chama rabugenta, como um chamado ou um grito que afinal se liberta, suspiro furioso que se apaga tão depressa quanto se levantou.  

Na mesa de mármore aguardavam pacientes um prato de porcelana, um copo de cristal, uma prataria fantástica e um guardanapo de linho bordado.  No prato dispôs cuidadosamente, com a colher de pau, a metade dos camarões, o arroz previamente comprimido numa minúscula tigela e desenformado como uma pequena cúpula tendo no alto uma folha de hortelã.  No copo, serviu-se generosamente de um líquido cor de trigo transparente.

“Sirvo-lhe um copo de sancerre?”

Fiz que não com a cabeça.  Sentou-se à mesa.

Fazer uma boquinha.  Era o que Jacques Desterres chamava de fazer uma boquinha.  Eu sabia que não brincava, que todo dia preparava assim uma pequena dose de paraíso, que desconhecia o requinte de seu ordinário, verdadeiro gourmet, real esteta na ausência de encenação que caracterizava seu dia a dia.  Eu o observava comer, sem tocar no prato que ele preparara diante de meus olhos, comer com o mesmo cuidado distanciado e sutil que empregara ao cozinhar, e essa refeição que não provei foi uma das melhores de minha vida.

Degustar é um ato de prazer, descrever esse prazer é um fato artístico, mas a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro. O almoço de Jacques Desterres revestia-se de perfeição porque não era o meu, porque não transbordava para o antes e depois do meu cotidiano, e, unidade fechada e auto-suficiente, poderia ficar em minha memória, momento único gravado fora do tempo e do espaço, pérola de meu espírito liberado dos sentimentos de minha vida.  Como contemplamos uma peça que se reflete num espelho redondo, e que se torna um quadro, não por estar mais aberto para outra coisa, mas por sugerir todo um mundo sem outros lugares, inscrito estritamente entre as bordas do espelho e exilado da vida ao redor, a refeição do outro é encerrada no quadro de nossa contemplação e isenta da linha de fuga infinita de nossas lembranças ou de nossos projetos. Gostaria de viver aquela vida, aquela que o espelho ou o prato de Jacques me sugeriam, uma vida sem perspectivas por onde se esvai a possibilidade que ela se torne uma obra de arte, uma vida sem outrora nem amanhã, sem arredores nem horizonte: aqui e agora, é belo, é pleno, é fechado.

 

Em: A morte do gourmet, Muriel Barbery,  São Paulo, Cia das Letras: 2009, p. 59-60.  Tradução de Rosa Freire D’ Aguiar.

 





Papa-livros: A costa do mosquito, Paul Theroux

28 10 2009

Henri Rousseau, Floresta Tropical com macacos, 1910, Tate Gallery, LondresFloresta Tropical com macacos, 1910

Henri Rousseau ( França, 1844-1910)

óleo sobre tela

National Gallery, Washington DC

Há uma semana tento escrever sobre o livro A costa do mosquito de Paul Theroux, (Rio de Janeiro, Alfaguara: 2009), romance eleito para discussão no mês de outubro no grupo de leitura Papa-livros.  A razão da minha dificuldade está na tensão que sinto entre dois opostos: um excelente romance, com uma narrativa extraordinária, de um lado e do outro lado, personagens totalmente detestáveis com exceção do narrador, um menino se aproximando da adolescência, pelo qual sinto total indiferença.  Esta combinação tem me deixado paralisada. 

O enredo é bastante simples: um homem, um inventor, quase genial, insatisfeito com a moderna sociedade americana, empacota suas coisas e família mudando-se para a América Central, onde pretende instalar numa região remota os rudimentos de uma sociedade perfeita.  É a história de um psicopata, um “survivalist”, egocêntrico, que submete os 4 filhos e sua esposa a um grande sofrimento, na esperança sem base realística de que poderá “re-inventar” o mundo, a sociedade, a maneira de viver.  Seu relacionamento amoroso, com filhos e mulher, se queda no parâmetro da insensibilidade.  Sempre com desculpas para qualquer fracasso, tende a colocar a culpa em outros ou na sociedade que o cerca.  Nunca sente arrependimento ou remorso e leva sua prole a sofrer, física e mentalmente, às vezes quase que se divertindo com seu sofrimento, mostrando continuamente um comportamento anti-social, em prol de um benefício que só ele parece perceber.

É difícil decidir qual dos personagens é mais detestável nessa trama:  Se Allie Fox, cativo de sua condição mental, aparentemente são, mesmo que suas ações revelem o contrário; ou se “Mãe”, sua cara-metade, que aceita o comportamento esdrúxulo  do marido, facilitando sua performance, mesmo que esta se realize em detrimento da educação, do desenvolvimento, da segurança e da saúde de sua prole.

O resultado do romance é esmagador, enfurecedor,  revoltante.  Reconheço que houve momentos em que tive que colocar o livro de lado, tal minha agonia quanto ao comportamento dos dois adultos desta perigosa família.  Se consegui terminar o livro foi por exclusiva admiração ao autor, à sua habilidade com a escrita e em respeito ao seu trabalho anterior.

A Costa De Mosquito

Paul Theroux sempre me encantou com sua facilidade descritiva e aqui continua a mostrar uma narrativa cheia de imagens ricas e inovadoras.  Continua sensacional.  Vejamos por exemplo este parágrafo no início do livro, quando Charles decide sair de casa para ver onde estaria seu pai, no campo, à noite:

Nossa casa era rodeada de campos lavrados.  Arvoredos cresciam nas extremidades de cada um, para quebrar o vento. O milho e o tabaco já começavam a brotar e embora fosse mais fácil caminhar entre os sulcos, mantive-me na trilha, com os braços à frente do rosto, para me proteger dos galhos.  Pior que eles, as teias de aranha atravessavam o caminho e se prendiam em meus cílios.  Os bosques eram cheios de charcos, e o som dominante na noite era a algazarra das rãs arborícolas – pequenas, escorregadias e lustrosas como iscas de peixe.   As árvores, azuis e negras, lembravam enormes bruxas… [p. 20]

Ou, esta passagem, bem mais no fim do livro:

Jerônimo parecia ter sido bombardeada.  Era principalmente pó, um bolsão de cinzas ardentes.  As árvores ao redor tinham se transformado em estacas.  Como o fogo se espalhara, a clareira se tornara maior, semelhante a uma cratera.   Os encanamentos do Menino Gordo haviam desmoronado – e estavam embranquecidos como ossos.  As bombas tinham caído.  Nenhuma casa ou abrigo ficara de pé.  As plantações estavam carbonizadas. Alguns caules restantes estavam empolados como carne queimada.  O milharal estava arrasado.  As abóboras e os tomates haviam explodido e minavam suco – tinham sido cozidos até apodrecer.  Algumas frutas se pareciam com bolsas esfarrapadas.

Mas as ruínas e as cinzas não eram nada comparadas ao silêncio.  Estávamos acostumados aos gorjeios e aos grasnidos dos pássaros, e com o ciciar retumbante das cigarras.  Não havia som, nem movimento.  Toda a vida existente em Jerônimo fora consumida pelo fogo.  Os pássaros que víamos estavam mortos, carbonizados, encolhidos, depenados, com asas minúsculas e cabecinhas ridículas, não mais do que bolotas.  Peixes viscosos boiavam na superfície do tanque.  Ao sol da tarde, tudo estava morto, silencioso e malcheiroso.  Algumas pilhas de escombros ainda fumegavam. [p. 321]

Minha familiaridade com Paul Theroux é baseada tanto nos livros de  ficção quanto nos seus livros de viagem.  Na ficção, lembro-me com muito gosto de Saint Jack, The consul’s file e Hotel Honolulu, livros que li quando morava fora do Brasil.  A costa do mosquito, no entanto, está na lista daqueles não lidos no original, apesar de ter sido um romance transformado em filme em 1986, dirigido por Peter Weir.  É difícil imaginar Harrison Ford, um galã de primeira linha, fazer o personagem principal desta saga familiar, porque Allie Fox, o papel que desempenha no filme, é um dos homens mais detestáveis da literatura americana!  Mais difícil ainda, é imaginar a fantástica atriz inglesa Helen Mirren, que parece ter sempre papéis de mulheres fortes, vestir-se na pele de “Mãe” – personagem casada com Allie Fox e talvez ainda mais desprezível que seu marido pela silenciosa  aderência aos planos do marido, por ser a facilitadora de um tipo de abuso sofrido pela ela mesma e por seus filhos, sem nunca se revoltar.

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Cena do filme A Costa do Mosquito, com Harrison Ford.

Com freqüência, durante a leitura de A costa do mosquito, lembrei-me de um outro livro que li há um pouco mais de um ano, também americano, chamado O castelo de vidro, de Jeannette Walls — uma leitura escolhida pelo grupo Papa-livros em março de 2008.  Este, baseado na verdadeira história da autora.   As circunstâncias de uma família disfuncional, com pais irresponsáveis, beirando a loucura, também são descritas nessa autobiografia.  Lá também temos um pai com comportamento anormal e uma mãe facilitadora.  Em ambos leva muito tempo para os filhos perceberem a situação de extrema dependência em que se encontram e fazerem o que é necessário para se salvarem.    Em ambos os livros, quer na ficção, quer na autobiografia, seus narradores,  — uma criança em cada uma das famílias – mostram grande fascinação por seus pais, fascinação mesclada por medo indistinto.   São crianças aterrorizadas pelos adultos dos quais dependem, e que não conseguem refrear seu amor e dedicação aos pais, como se só eles pudessem entender o gênio que se esconde por trás da loucura.    Há momentos em que Charles, em A costa do mosquito, filho mais velho, parece estar a ponto de descobrir a loucura de seu pai, mas tudo não passa de um vislumbre e se despedaça em segundos. 

Charles não chega a se lembrar, como nós leitores o fazemos,  nem mesmo de uma história contada, só para ele,  pelo Sr. Polski.  Uma história que preconiza o futuro de Charles.  Nela, um rapaz que sofreu na infância pelas manias do pai, morde-lhe fora uma orelha como parte de seu último desejo à beira da morte.  Esta história, contada como a dvertência ao menino pelo futuro nefasto que poderia ter, só encontra raízes no leitor, que naquela hora [p.69] sabe como a história de Charles se solucionará.  Mas o menino  leva muito tempo para que a imensidão do abuso a que foi submetido venha a trazer a revolta e fruir os resultados que o liberarão.  Vejamos um exemplo da estranha mistura de loucura e fascinação que Allie Fox exerce, pela descrição de Charles sobre o comportamento de seu pai:

 A prova disso é que estávamos em uma pipanto de quatro metros, seguindo rapidamente em direção à costa.  Não passava de uma canoa de fundo chato, mas tínhamos sombra, assentos e fumaça para espantar mosquitos. O Pai tinha convertido aquilo em alguma coisa veloz e confortável. Falava de forma desenfreada, mas sua loquacidade era criativa.  Durante todo o percurso rio abaixo, não parou de falar.  Estivera preocupado.  Ontem, havia chorado; hoje vociferava contra sua experiência e sobre o fim do mundo.  Parecia faminto.  Estava muito agitado e, agora, mais previsível do que nunca.  Mas não havia no mundo ninguém mais engenhoso. [p. 335]

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Paul Theroux

Com os vaivens das minhas opiniões sobre este romance, só o recomendaria a quem estivesse interessado em um estudo da personalidade psicopata.  Se o seu objetivo, no entanto, é conhecer o excelente escritor Paul Theroux, recomendo que se entregue de corpo e alma à leitura de algum outro de seus títulos.





Matriz esparsa: Chamfort, Da pressa…

8 10 2009

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Nos dias de hoje, um pintor faz o nosso retrato em sete minutos;  outro nos ensina a pintar em três dias; um terceiro homem ensina inglês em quarenta lições.  Há quem queira nos ensinar oito idiomas com gravuras que representam as coisas e têm embaixo os seus nomes.  Enfim, se fosse possível colocar todos juntos,  os prazeres, os sentmentos, ou as idéias de uma vida inteira, e reuní-los num espaço de 24 horas , eles fariam isso:; fariam com que engolíssemos essa pílula e nos diriam: “Pronto, pode ir embora.”

Em: Máximas e pensamentos, Chamfort, Rio de Janeiro, José Olympio:2007

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Sebastien-Roch-Nicholas Chamfort ( França,  1740-1794)





Papa-livros: leitura para outubro

24 09 2009

costa do mosquito

 

Esta é a seleção de leitura para o mês de outubro de 2009. 

 

A costa do mosquito

 

Autor: PAUL THEROUX

Editora: Objetiva

ISBN: 9788560281909

Edição: 1ª 2009

Número de páginas: 456

 

Discussão para o dia 18 de outubro de 2009.  Resenha aparecerá aqui depois desta data, quem quiser debater o conteúdo será bem-vindo, depois de 18 de outubro.

Boa leitura!