Helen Simonson e “O Major Pettigrew”, um revolucionário dos costumes sociais

28 10 2012

Aldeia inglesa

Peta Carley ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Uma preciosa contribuição à ficção inglesa contemporânea foi feita por Helen Simonson na aventura  passada no interior da Inglaterra, onde um major do exército britânico de 68 anos, aposentado e viúvo, se encontra, para surpresa própria, na expectativa de um novo romance com a dona de uma loja de conveniência em um pequeno vilarejo em Sussex.   A última façanha do Major Pettigrew [Rocco: 2010] é uma narrativa recheada de grande senso de humor, que nos leva do sorriso à gargalhada sonora; onde testemunhamos as dificuldades das decisões apropriadas e os tropeços sociais do protagonista, que por timidez, por limitações da boa educação atrapalha-se quando mais quer impressionar, numa clássica tensão entre desejo de acerto e comportamento social antagônico, como rege a comédia inglesa.

Ainda que pertencente à tradição da comédia de costumes tão bem explorada por Jane Austen,  Major Pettigrew divide com “Mr. Darcy” do romance do século XIX algumas poucas  características: o interesse pela pessoa inesperada; aptidão de ignorar os costumes sociais da época; inabilidade de se expressar da melhor maneira possível em circunstâncias delicadas e a galhardia.   Enquanto em Orgulho e Preconceito sorrimos mentalmente com as observações de “Lizzie”, neste romance, podemos rir às gargalhadas com a deficiência de coordenação entre a vontade e a ação do herói e pretendente amoroso.

A tensão nessa comédia é grande, causada pelo frequente embaraço do personagem.  A pressão entre a situação vivida e a vontade do Major é tanta que muitas vezes Pettigrew lembra em seu comportamento Basil Fawlty, personagem principal do programa Fawlty Towers da BBC, da década de 1970, onde no texto escrito e desempenhado por John Cleese há descompasso semelhante, se bem que na comédia para a televisão as ambições de Basil Fawlty, gerenciando seu pequeno hotel não tenham nada em comum com as situações vividas pelo major aposentado.

Muitos são os herdeiros literários de Jane Austen e eles se diferenciam não só pelo nível da crítica social como também pela época em que escrevem, porque as caracterizações na comédia de costumes dependem disso.  No século XX tivemos, entre outros, duas grandes mestras nessa arte: Barbara Pym e Elizabeth Bowen.  Helen Simonson parece mais relacionada a Barbara Pym.  Não tem o tom às vezes soturno de Elizabeth Bowen.  Como Barbara Pym, Helen Simonson manteve a trama na pequena aldeia, em personagens comuns aos vilarejos ingleses e ainda na característica de que a realidade e os planos feitos pelos personagens quase sempre têm somente um certo grau de sucesso e frequentemente aquele que não era esperado. A arte de retratar as pequenas frustrações do cotidiano de qualquer individuo, sem cair no dramalhão ou no ridículo é uma das características mais cativantes da literatura inglesa desse gênero.  Vidas prescritas pelas circunstâncias sociais, a traição de segredos mantidos a sete chaves, a transformação das vidas de personagens quando forças incontidas sobem à superfície são alguns dos pontos em comum entre todas essas escritoras.  A mestria das meias-palavras, do ofuscamento, das reticências, tão tipicamente ingleses, são nuances que nem sempre conseguem ser transportadas para outra língua ou cultura.  E aqui se faz necessário aplaudir a excelente tradução de Waldéa Barcellos que não poupa esforços para transmitir a insinuação maldosa dos personagens, o artifício literário  do não dito pelo dito.

Helen Simonson

Além do tremendo senso de humor, da análise sagaz de tipos que todos nós conhecemos, há outros aspectos que fazem dessa publicação um deleite.  Este romance é sobretudo contemporâneo nas situações, nos preconceitos, na realidade de uma Inglaterra pós império colonial.  Ter que aceitar súditos de países colonizados está na agenda social de todos  os países europeus colonizadores que no final do século XX, por causa da integração na Comunidade Europeia, tiveram que abdicar de suas colônias na África e na Ásia.  Cada um fechou o domínio colonial de maneira diferente, mas todos tiveram que aceitar em seu território muitos cidadãos que não tinham o perfil visual e cultural dos países sede.  Consequentemente temos na Europa hoje a abundância de coloridos de peles, de religiões outrora estrangeiras, de costumes alimentares diferenciados.  Como essa aceitação se faz na Inglaterra é um dos assuntos tratados por Helen Simonson, assim como: problemas de heranças, entre pais e filhos, e expectativas que temos de amigos e que eles têm de nós.  Tudo  habilmente administrado por uma escritora que diverte e dá ao leitor uma pausa e espaço para refletir sobre esse novo mundo: uma bem-vinda moratória aos jargões óbvios do politicamente correto.  Por tudo isso,  este é um livro para ser lido e degustado.





A dama e o unicórnio de Tracy Chevalier, uma leitura leve

15 10 2012

Tapeçaria da Série A Dama e o Unicórnio, c. 1470-1475

Museu de Arte Medieval, França

Tracy Chevalier me encantou há alguns anos com sua Moça com Brinco de Pérola, que li muito antes do filme ter chegado aos cinemas.  Mais tarde li o romance  Viva Chama, que apesar de interessante já não me pareceu tão evocativo de uma era.   Por isso mesmo deixei passar um bom tempo para ler A dama e o unicórnio.  Raramente a boa experiência de leitura de um autor se duplica na leitura seguinte se ainda estou sob o feitiço do primeiro encontro.  E temi que este livro sobre as famosas tapeçarias francesas da proto-renascença  pudesse me trazer descontentamento.   Posso garantir no entanto que este é um livro charmoso, agradável e um testemunho da grande criatividade da autora que se revela muito hábil ao imaginar as situações que poderiam ter levado à produção das tapeçarias assim como as vidas dos artesãos que as teceram.

O encanto do livro Moça com brinco de pérola não se repetiu.  Mas também não saí ao final dessa leitura desapontada: esta é uma narrativa leve, sensual, que tem o mérito de respeitar aquilo que se sabe hoje sobre as tapeçarias em questão. E ainda, este é um romance que traz aos olhos do século XXI, aos não historiadores, a quem não precisa refletir sobre as condições de vida e de trabalho no século XV, uma perspectiva de como seria a vida de então, com suas restrições, suas liberdades, as regras das guildas artesanais, o papel do monastério de freiras na vida de uma mulher.  Porque sua pesquisa foi bem feita, Tracy Chavalier instrui ao mesmo tempo que assume o papel de uma Sherazade.

Se por um lado a trama é tênue e previsível, por outro ela se salva pela acuidade na representação do trabalho artesão e de fatos históricos.  Isso  releva quaisquer faltas no comportamento quase licencioso retratado em alguns personagens femininos, comportamento  inexato pelo que se sabe serem as normas vigentes na época.  Não obstante,  A dama e o unicórnio oferece um entretenimento leve e informativo.





E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho

29 09 2012

Rua de Jerusalem, s/d

Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)

aquarela e lápis sobre cartão, 38  x 27 cm

Coleção Particular

No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012).  Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa.  Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.

E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim.  Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz.  Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.

Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito.  Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel.  Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente.   E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior.  Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato  e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir —  é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo.  É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver  à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e  dá a sensação de estarmos vivos.  VIVOS!  Alertas!  Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada  é viciante, porque a adrenalina se faz presente  e transforma a nossa percepção do mundo ao redor.  Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a  certeza de que preciso de pouco para viver bem.  Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia.  É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.

Alexandra Lucas Coelho

Este é um romance leve, o retrato de uma paixão.  Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo.  No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat.  Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas.  Passamos  simplesmente a acompanhar  o caso amoroso.  É aí que o ritmo da leitura se desacelera.  Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece.  Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável.  Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.





O feitiço de Dulce Maria Cardoso em O Retorno

11 08 2012

Paisagem de cidade portuguesa

Lewis Schnellmann (EUA, contemp.)

Acrílica sobre tela, 60 x 90 cm

www.schnellmanfredi.net

Acabo de ler O Retorno, da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso.  Estou encantada.  Bati o livro como se fosse manjar dos céus.  É poético.  Tem uma linguagem singular que se saboreia como poucas e canta melodias sonoras aos nossos ouvidos.  O mundo descrito pelos olhos adolescentes de Rui também tem deslumbramento, lições de vida, sabedoria, solidão e surpresa. Além, é claro, de um retrato peculiar de diversos subprodutos da colonização, sobretudo os preconceitos.  Estes vemos de maneira generalizada: de toda parte, dos brancos, dos pretos, dos portugueses da Europa e dos que procuraram dias melhores para suas famílias nas terras das colônias.  O preconceito, qualquer que seja é fartamente ilustrado nessa obra.  Filhos do medo, do futuro, do desconhecido, medo do presente e do passado, preconceitos afligem a todos os personagens brancos, pretos, portugueses de colônia e da metrópole, sãos e doentes, comunistas e revolucionários.  Todos, sem exceção sofrem do mal. Que lição a escritora nos dá!

E tudo é retratado com palavra precisa e sutil. Delicada, quase inocente, pelos olhos de quem está aprendendo sobre a vida e a mostra com o frescor do descobrimento, da habilidade de superação, da destemida inocência dos adolescentes.

São poucos os livros de amadurecimento, livros de “passagem” como se diz em inglês,  significando passagem da vida de adolescente à adulta,  que conseguem seduzir tanto.  Dulce Maria Cardoso domina a narrativa como poucos escritores o fazem.  Envolve, segura, puxa, carrega e administra o leitor com mestria através dos sentimentos antagônicos de emigrantes e de retornados, de colonizadores e colonizados.  Esse é um tema riquíssimo que dominou  grande produção da literatura do século XX  e que certamente ainda estará no seio da literatura contemporânea pois trata de identidade, da plenitude da existência, das questões do ser.  Encontrei nesse romance uma das mais vívidas descrições das dezenas de facetas do deslocamento emocional entre imigrantes e colonizados. Entre emigrantes e aqueles que permanecem em suas terras natais.  Narrado com uma linguagem excepcionalmente bela, cantante, sonora que traz a beleza de trinos de passarinhos, O Retorno é um concerto especial aos nossos ouvidos, trazendo um português casto, entremeado de expressões angolanas — algumas delas velhas conhecidas dos romances de Agualusa e de Ondjaki —  que reverberam nessa narrativa como uma lembrança constante da riqueza dessa nossa, sim de nós todos, língua portuguesa.

Dulce Maria Cardoso

Uma leitura saborosa que descortina o complexo feixe de sentimentos daqueles que emigram para a sobrevivência, adotam uma terra desconhecida, uma cultura diferente para enraizar a família e se descobrem à beira do abismo quando, o que consideravam seu, por direito de trabalho suado e honesto, são obrigados a deixar para trás e  ao retornarem à terra natal ainda não são considerados bem-vindos.  Uma situação complexa, moderna e gritantemente injusta.  O dilema dos “retornados” em Portugal foi dilacerante aos corações dos que voltaram.  Seria interessante, do ponto de vista antropológico, ver como a independência de antigas colônias europeias foi encarada em outros países colonizadores como Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, na segunda metade do século XX.

Ainda teremos muito que ler sobre o assunto e outros escritores europeus, tenho certeza, se dedicarão ao tema.  Isso não tira, no entanto, a importância da indicação de O Retorno para a introdução dessa problemática aos leitores brasileiros.  No Brasil, o livro sai numa edição primorosa da Tinta da China, em capa dura, com fitinha de cetim para marcar a leitura e a preços compatíveis com o mercado, competindo de igual para igual com livros produzidos com muito menos cuidado.  Foi um prazer total, desde o volume em si à leitura desde texto impecável. Recomendo a todos os leitores, universalmente, jovens e adultos.  É um romance delicioso e significativo.  Um tesouro!

VEJA ENTREVISTA COM A AUTORA






Ingredientes para um best-seller!

12 05 2012

O leitor, 1856

Ferdinand Heilbuth ( França, 1828-1889)

óleo sobre tela, 32 x 40 cm

Então, J.K. Rowling lançará seu primeiro romance para adultos em setembro deste ano e ele já está prometido para chegar às nossas livrarias, traduzido, o mais rápido possível de preferência antes do Natal, pela editora Nova Fronteira.  Há grande expectativa de sucesso.  Será que ela conseguirá fazer de leitores adultos um grupo tão fiel quanto conseguiu ter com os leitores adolescentes?  Essa notícia estampada nos jornais da semana me levou a considerar o que faz um romance ter sucesso? O que faz um romance ser um best seller? Será que a fórmula para agradar a adolescentes seria diferente da fórmula para adultos?

Muitos já se preocuparam como o assunto, mas o professor de literatura James W. Hall conseguiu encontrar 12 pontos que todos os best-sellers têm em comum, a lista e sua discussão estão bem elaboradas no livro Hit Lit: Cracking the Code of the Twentieth Century’a Biggest Bestsellers. A lista se refere aos best sellers nos Estados Unidos.  Entre as descobertas estão algumas que até parecem óbvias demais e que nos fazem questionar se realmente prestamos atenção quando nos envolvemos na leitura de um best-seller.  Por exemplo, seguem 3 pontos quase óbvios, depois que pensamos sobre o assunto:

1) todos os heróis dos grandes sucessos de vendas em livros do século XX, são personagens que passam muito pouco tempo pensando, são heróis de ação, do quais sabemos muito pouco de seus passados, só o estritamente essencial, sem grande profundidade nas suas complexidades emocionais.

2) os personagens principais estão em geral envolvidos em questões sociais que são o tópico “quente” da época em que esses livros são publicados, tais como racismo, sexo e política.  Vejamos os exemplos: O sol é para todos de Harper Lee, ou  E o vento levou de Margaret Mitchell com o tópico de racismo em primeiro plano. O vale das bonecas de Jacqueline Susann é o exemplo do sexo como assunto “quente” de época, enquanto que A caçada ao outubro vermelho de Tom Clancy, seria um excelente exemplo do tópico de preocupação política na época de sua publicação.

3) as histórias principais dos best-selles podem ser resumidas em poucas palavras, são histórias cujo “problema” a ser resolvido é relativamente simples, mas que estão sempre colocados num ambiente bastante complexo, envolvidas no tecido social cujo tópico é de interesse no momento, como descrito acima.

Para quem pretende escrever um best-seller este é um livro que pode ajudar.





“Um caso de verão” de Elin Hilderbrand: um mundo de transgressões

26 04 2012

Os valsistas, s/d

Jack Vettriano (Inglaterra, 1953)

Raramente escrevo sobre um livro sobre o qual me sinto tão ambivalente.  Mas há alguns aspectos em  Um caso de verão, de Elin Hilderbrand [Bertrand 2011] que superam as características de que não gosto: 1) parece ter sido escrito com a possibilidade de um filme no futuro, de fácil revisão para um roteiro cinematográfico; 2) há quase tantos diálogos quanto narrativa e frequentemente esses diálogos não trazem informações necessárias, estão ali para imprimir uma leveza, um ritmo de leitura considerado mais fácil;  3)  tem todo o jeito de livro de mulherzinha.  No entanto, suas qualidades superam as birras com que convivi durante a leitura, e por isso, me posiciono aqui para explicar.

É um livro que demonstra as diferenças entre o amor e a paixão: no que se baseiam esses sentimentos, como eles se expressam e o que eles nos fazem fazer.  Paixão e amor são contrastados do início ao fim do romance através de Claire, nossa heroína, o único personagem realmente tridimensional na história.  Não estamos falando simplesmente de uma paixão amorosa, mas paixão pela profissão, pela sua arte, paixão por aquilo que nos tira o sono e  ao que nos dedicamos sem contar horas ou esforço; paixão que leva ao descontrole sobre nossas ações ou emoções.  Como o título retrata, Claire, dona de casa, mãe de quatro filhos, artista de vidro, bem conceituada, com peças em importantes coleções e museus do país, bem casada e ainda enamorada de seu marido, tem um caso, desenvolve, inexplicavelmente, uma paixão por outro homem com quem mantém um relacionamento extraconjugal.

As razões para isso, ainda que não especificamente mencionadas, são pequenas e provavelmente teriam sido contornáveis se Claire não estivesse passando por um momento de grande fragilidade emocional por ser considerada, e se sentir,  culpada pelo nascimento prematuro do último filho, consequência atribuída ao excesso de trabalho.  Mas seu trabalho, sua vocação, era sua paixão e percebemos isso quando depois de meses sem entrar no ateliê  para fazer esculturas de vidro ela se aproxima dele com reverência e volúpia, passando horas desenhando e pensando nas possíveis soluções para a encomenda que recebera.  A justificada permissão para trabalhar vem como uma dádiva, das mãos de quem aprecia sua arte, de um colecionador de arte, e era uma obra beneficente.  Ele, um benfeitor, um mecenas.  Quem não sabe que amar o meu trabalho é me amar?  Quem resistiria à uma pequena transgressão?

Ao fundo, nos relacionamentos do dia a dia, nas viradas de sorte corriqueiras do cotidiano temos um mundo de outros personagens que, como Claire, são transgressores de grande ou pequeno porte:  perdem dinheiro no jogo, bebem, coletam uma pequena fortuna em roubos de colarinho branco; personagens que se revelam na inveja e na maledicência.  Quem merece ser punido?  E como?  Por que motivo?  O padre católico não é capaz de responder aos questionamentos de Claire…  E assim, essa mulher, que tenta manter simultaneamente uma família e uma profissão, procura um ponto de equilíbrio entre o que faz e aquilo que acredita ser correto, vivendo, por um ano, no olho do furacão, no eixo centrífugo de um território transgressor.

Elin Hilderbrand

Frágil, meio-morta, meio-viva, Claire necessitava de algo mais do que a sua família para se sentir satisfeita, bem consigo mesma e sem culpa pelo nascimento prematuro de seu bebê, sem essa mesma culpa que a impulsionou à transgressão.  Claire toma suas decisões no final do livro, mas fica evidente que ninguém tem a resposta certa e que essa vai depender de cada um.  Por esse questionamento, por essas posições, sim, esse romance cresce e ganha em impacto.

Este livro foi a escolha do meu grupo de leitura para o mês de maio.  Andávamos muito cansadas de sagas familiares, de ficção histórica, da Segunda Guerra Mundial, de antissemitismo, enfim de uma série de livros pesados, que nos pareciam todos variações sobre um mesmo tópico.  Um caso de verão foi escolhido para virar uma esquina, para dar uma mexida num caminho que parecia repleto de desgostos sem fim e, de fato, ele nos trouxe uma dinâmica diferente e válida, principalmente por trazer à tona aspectos psicológicos importantes com os quais convivemos diariamente.  É leitura boa, rápida e ideal para um bom fim de semana chuvoso.





A lebre com olhos de âmbar, um livro inesquecível de Edmund de Waal

11 04 2012

Songoku, o Rei Macaco e a Lebre com pedras preciosas ao luar, 1891

Tsukioka Yoshitoshi (Japão, 1839 – 1892)

xilogravura policromada, 24 x 35 cm

Museu de Arte de Brooklyn, Nova York

Texto com contexto, biografias e memórias, uma saga familiar que conta a história do mundo no século XX: este é um livro inesquecível; uma série de biografias que leem como romance, uma memória familiar escrita através de um processo detetivesco.  Não há melhor combinação de elementos para seduzir o leitor ainda mais quando se trata de uma narrativa bem escrita, sensível, desapegada quando poderia ser melodramática,  quase irônica como todo bom inglês consegue ser.  Em um parágrafo: isso é  A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal [Intrínseca: 2011].

O autor recebe de herança uma coleção de netsuquês –  pequenas esculturas-botões de acabamento de artigos de vestuário japonês.  Herda-os de seu tio-avô embrulhados em histórias de família, em aventuras  transcontinentais e perseguição nazista.  Inicialmente, quando meus amigos me falaram desse livro, suspeitei que se tratasse de algo semelhante a Memórias do Livro de Geraldine Brooks, [Ediouro: 2008] onde participamos de uma pseudo-arqueologia da Hagadá de Sarajevo, ou até mesmo a saga de uma família judia vista através da passagem de um espelho, de geração em geração, como aconteceu com o livro da brasileira Chaia Zisman, O Espelho [Sete Letras: 2006].   Hesitei inicialmente porque me pareceu que eu iria embarcar em um modismo narrativo e tudo indicava que me exporia mais uma vez a um truque ficcional que já se achava “cansado” antes mesmo da primeira página ser lida.  Mas me enganei.

Antes de escrever essa resenha procurei entrevistas com o autor, que até a publicação desse livro não era um escritor, mas um afamado ceramista, conhecido e respeitado internacionalmente.  Reconheço que ele se sai melhor com a palavra escrita, pensada e bem colocada do que com a palavra falada, sobre a qual sua timidez parece levar a melhor…  No entanto, foi através dos vídeos de entrevistas com o autor que vim a conhecer sua grande familiaridade com os trabalhos do escritor francês Proust.  Não só porque Proust foi amigo do primeiro colecionador de netsuquês e tetravô do Edmund de Waal, mas porque de Waal, formou-se em inglês, e admitiu ter-se apaixonado,  lido e relido, os volumes de Proust, através dos anos.  Esse conhecimento não só justifica a prosa límpida, delicada e precisa de que se utiliza na composição das biografias a que se dedica, como explica a visão de “Busca do tempo perdido” que transmite através de seu texto.

Netsuquê da lebre com olhos de âmbar da coleção do autor.

Digo isso porque parte do charme dessa narrativa é a sensação que o leitor tem de que presencia, através de pequenos detalhes do cotidiano, a vida como ela era no último quarto do século XIX em Paris, no início do século XX em Viena, durante a ocupação nazista da Áustria e durante os anos de reconstrução do Japão após a Segunda Guerra Mundial.  Os detalhes baseados em pesquisa incansável dos diversos membros da família retratada nos dão a sensação de conhecer o dia a dia dos bem-sucedidos protagonistas.  E entramos sem nos darmos conta, num mundo semelhante ao dos contos de fadas, dos multimilionários banqueiros, de suas paixões e de sua magnanimidade.  Esse texto, bem escrito e detalhista, é fascinante, não importa que geração se encontre retratada.  E o contexto vem nas entrelinhas, nas reticências e meias palavras, mais eloquentes do que se poderia imaginar, que descrevem o preconceito antissemita tecido nas sociedades da época, até mesmo por aqueles cujas vidas e sobrevidas dependiam do patrocínio, do mecenato, da tutela dessas mãos judias.

Quando pensamos na história do século XX temos a tendência a vê-lo partido ao meio: antes e depois da Segunda Guerra Mundial.  Podemos datar quase todos os aspectos sociais, políticos e artísticos pela guerra. E aqui, nesse volume, tratando de episódios que começam mais de cem anos antes e que se desenvolvem por mais de cinquenta anos depois, descobrimos que de fato, só há um único assunto que caracteriza o século XX: o preconceito generalizado, indiscriminado, politizado.   A guerra não foi o ponto da virada que acabou redimindo as últimas décadas do século XX.  Ela foi a essência do que veio antes e do que foi feito depois.   Assim como a loucura coletiva da Inquisição caracterizou o século XVI, o século XX comungou da mesma fonte, fazendo seu, um  único tema, o antissemitismo.  Todo o resto, aspectos políticos, sociais, emocionais, financeiros, de uma maneira ou de outra se encontram nesse preconceito.  Mesmo que ele não seja abordado diretamente como acontece nesse livro, ele é visivelmente, a “éminence grise”, o “modus operandi”, a força motora que impulsionou o mundo.

Edmund de Waal

Edmund de Waal não escreveu esse livro para que descobríssemos a essência do século XX.  Ele escreveu de maneira encantadora a história da vida de seus antepassados usando a coleção que netsuquês, que os unia, como ponto de partida e de ligação entre gerações.  E elas o foram, todas essas 264 mini esculturas japonesas.  Mas talvez pela compactação dos eventos em poucas páginas, pela delicadeza da narrativa, pela riqueza de detalhes apresentados nos episódios, nas décadas, no século retratado, a leitura de A lebre com olhos de âmbar pede uma observação com um ponto de vista mais distante que abrace, de uma só vez, todas as situações complexas e ache o denominador comum, o fio da meada do que está sendo apresentado.   De modo que a biografia particular se torna uma história do mundo ocidental visto por olhos quase neutros de um escritor que é ceramista, de um descendente de banqueiros que trabalha para sobreviver, de um inglês, membro da igreja anglicana que se volta para seus antepassados judeus.  É estamos, de fato, diante da história do século XX.





O pintor de letreiros, de R. K. Narayan, o conflito entre o novo e o velho

14 01 2012

Dia de feira, s/d
G. D. Thyaga Raj ( Índia, 1922-1981)
aquarela

Foi com grande prazer que descobri, no final do ano passado, o lançamento do romance O pintor de letreiros, de R. K. Narayan (Índia, 1906-2001), publicado pela Editora Guarda-Chuva:2011.   A apresentação de Narayan ao público brasileiro era devida e necessária.  Sua obra já está alinhada entre os clássicos da literatura indiana assim como da literatura de língua inglesa.  [Para ilustrar, a minha edição desse romance, em inglês – The Painter of Signs ––  foi publicada pela Penguin, coleção Clássicos do século XX, em 1982], tal é sua importância.

Muito de sua obra me atrai, mas principalmente o fato de não haver respostas aos problemas apresentados, não haver soluções fáceis.  Os romances de Narayan têm a característica de apresentarem no cotidiano, enfrentados por pessoas comuns, moradoras da fictícia Malgudi — um vilarejo que cresce, cresce até formar uma pequena cidade, isso através de volumes de sua obra –  e terminarem sem respostas fáceis.  Narayan é um daqueles escritores indianos formados na época em que a Índia ainda fazia parte da Comunidade de Nações Britânicas.  Sente-se em sua narrativa o contato íntimo com o melhor da literatura inglesa.   Entre essas características está o descrever de um todo, de um problema complexo, às vezes até político-social, pelos conflitos e resoluções de personagens menores,  mas que no final são quem realmente irão resolver, no dia a dia de suas fainas,  as mudanças necessárias para uma solução aceitável.  É o indivíduo, o homem comum, com todas as suas idiossincrasias que aparece agindo pelo todo.   É como se os romances fossem a respeito de nada, porque não há eventos, ações,  momentos grandiosos.  Não há heróis, nem grandes conquistas. Tudo parece muito corriqueiro e diário, mesmo quando se trata de uma mudança de grandeza social.  É com o homem comum, com a pessoa de pequeno porte, a formiguinha trabalhadora e mantenedora dos princípios sociais, religiosos e morais, é através desses personagens, tomando pequenas decisões, que  o romance e os leitores  se transformam.


E é o humor de Narayan que serve de porta de entrada ao nosso mundo e nos transforma. Com uma narrativa irônica e bem-humorada vemos, em O pintor de letreiros, as dificuldades de Raman.  Participamos de suas dúvidas, de seus anseios e principalmente de sua incompreensão a respeito da mulher amada.  Isso porque solteiro inveterado, na terceira década de vida, esse pintor de cartazes, educado na universidade, vê sua existência como exemplo de um ser pensante de uma racionalidade quase cartesiana.  Mas em seu destino aparece Daisy, a moderna, independente jovem trabalhadora que, com zelo missionário, tenta educar, persuadir e revolucionar os habitantes de pequenas cidades e vilarejos a usarem de planejamento familiar para controlar com sucesso os números do crescimento populacional da Índia.  Esta é a vida moderna.  A Índia de hoje.  Raman, não tem dificuldade nenhuma em aceitá-la.  Apaixona-se por ela… Moderna, instigante, livre, dedicada e inescrutável. Mas será que ela se apaixonaria também por alguém tão pouco fervoroso sobre o futuro?

Em casa, Raman tem o exemplo de outra nação.  Lá está diariamente sua tia, que dedicou toda sua vida à educação e ao crescimento de Raman emocional e intelectual, que se sacrificou pela família, pelos valores  e pela memória dos antepassados.  Com suas idas diárias ao templo, sua comida em forno de barro, com suas  histórias do passado, ela é o mundo de onde ele veio, a Índia com toda a tradição cultural milenar.  Preso entre dois amores, seu mundo desaba, não sem antes termos deliciosos momentos de humor e ironia na trama.

R. K. Narayan

Narayan nos dá a dimensão precisa das mudanças que ocorrem na Índia da década de 1970, quando por esforço governamental de grande magnitude, a necessidade de controle da natalidade foi colocada em destaque.  Ele nos mostra como a tradicional cultura indiana recebe essas mudanças.  São abordados assuntos complexos tratado numa linguagem clara, límpida, sem rebuscados artifícios.  Justamente por isso conseguimos pensar na complexidade de pequenas decisões diárias que afetam ou são afetadas pelo todo.   O charme de O pintor de letreiros é característico do autor: não está na trama – que é de uma simplicidade quase ingênua – mas nos retratos dos personagens, nas descrições que nos levam de início ao fim, às vezes com um tênue sorriso nos lábios, ocasionalmente um riso comedido e espontâneo, até o fim da leitura.

A publicação em português está excelente.  Vale a pena enriquecer as suas férias, os seus dias de verão, com essa leitura leve e significativa de um clássico autor indiano.





O veado na fonte, fábula de Loqman

10 01 2012

O veado na fonte

Loqman *

Um veado sedento veio a uma fonte para beber, mas quando percebeu sua imagem refletida na água, sentiu-se tomado de melancolia por causa da magreza de seus pés, mas, por outro lado, orgulhava-se da beleza e da grandeza de seus cornos.  Pouco depois, os caçadores puseram-se em sua perseguição.  Enquanto fugia pelas planícies não puderam nada contra ele, mas quando atingiu a floresta da montanha, sua corrida foi retardada por seus cornos que se embaraçavam entre as moitas e os galhos.  Os caçadores então se apoderaram dele sem dificuldade e mataram-no.  Mas antes de exalar o último suspiro o veado gritou:

— Coitado de mim que subestimei o que me salvou a vida e só tive elogios para o que me causou a morte.

Em: Contos Árabes, Jamil Almansur Haddad, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: s/d

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* Loqman – [também conhecido como Loqman, o sábio] – foi um fabulista muitas vezes confundido com Esopo.  Muitas vezes suas fábulas também apareceram como sendo de Esopo.  A primeira tradução de suas fábulas para a Europa foi feita por Erpenius em 1615.





Uma professora diferente!

23 12 2011

Ilustração, T. J. Overnell.

Raramente leio livro de contos, mas fiquei muito feliz de ter tomado conhecimento dessa autora americana, Sarah Shun-lien Bynum, por indicação da livreira a quem recorro quando “não tenho nada para ler”, mesmo que as prateleiras de minhas estantes estejam repletas de volumes novos ainda por serem degustados.

Este é um conjunto de contos, eu hesito em dizer contos, pois que raramente têm um início, meio e fim, como imaginaríamos, mas um grupo de narrativas da vida de uma professora da 7ª série.  Juntos eles nos dão um breve retrato das interações e considerações da professora frente aos alunos, às suas escolhas e à sua vida amorosa.  São facetas de uma vida, em diferentes anos, diferentes ocasiões que nos permitem preencher o perfil de uma jovem professora de história.

O que surpreende, e precisa ser colocado em destaque, é o ponto de vista dessas histórias, as observações colocadas de maneira nova, refrescante sobre assuntos corriqueiros.  Isso adicionado a uma escrita límpida e precisa, a um tom quase britânico, dá um charme especial ao trabalho dessa autora que está naqueles nomes escolhidos pela revista The New Yorker, entre os 20 mais promissores escritores da atualidade, com menos de 40 anos de idade, nos Estados Unidos.

Vale a apresentação, e espero com ansiedade seu primeiro romance no Brasil.

Sarah Shun-lien Bynum