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Cartão postal virada do século XX.
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“Ao ano passado pertence a linguagem do ano passado
E as palavras do próximo ano esperam por uma nova voz.”
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T.S. Eliot
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Cartão postal virada do século XX.–
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T.S. Eliot
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Caçadores no bosque, 1880
Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)
Óleo sobre tela, 127 x 170cm
Christie’s Auction House, junho 2009
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Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância. A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação. Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles. O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro, leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio, ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que levou ao término da amizade.
Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres, Henrik explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa. A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas. Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.
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No entanto há uma extensa metáfora nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro. Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar. Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria. Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações? E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.
Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa. Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik. Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas. Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.
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Sándor Márai
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Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.
Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad. Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário, documento íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário. Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois. Que versão adotar?
As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos. A considerar as desventuras do ser humano. É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento. De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.
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Prinsengracht, Amsterdam, 2009
Mark Christian Soetebier (Holanda, contemporâneo)
Aquarela sobre papel
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Amsterdam* é um romance centrado em dois personagens, o editor de um jornal, Vernon Halliday e o compositor Clive Linley, um verdadeiro par de personalidades que se assemelham mais do que imaginamos a principio e cujas reações se complementam, movendo a trama do romance num crescendo cantábile até um final surpreendente. Apesar de parecerem distintos, com profissões, estados civis e temperamentos diversos, esses dois amigos de longa data se completam. Conhecemos a dupla, logo na abertura da narrativa, no enterro de Molly, a amante que ambos tiveram em comum. Daí em diante começamos a compreender as diversas maneiras em que esses homens de meia idade tiveram suas vidas emaranhadas num labirinto de interconexões.
Usando desse artífice Ian McEwan consegue em meras 184 páginas fazer um verdadeiro ensaio na forma de ficção sobre alguns problemas éticos que nos afligem. A que custo devemos perseguir o sucesso profissional? Quando a ambição passa dos limites? Temos direito à censura antecipada? O que separa a vida privada da vida pública? Testemunhar uma tentativa de crime incorre em obrigações sociais? A eutanásia pode ser encomendada? Esses e outros assuntos estão constantemente nos assediando. Enquanto escrevo essa resenha acompanho no rádio o caso do ex-diretor do CIA que pediu demissão por uma traição amorosa, enquanto o jornal da manhã mostrava a diretoria da BBC embaraçada com os escândalos de pedofilia. E na semana passada o Congresso brasileiro passou a lei Carolina Dieckmann de proteção à privacidade de pessoas públicas na internet. Esses são assuntos de hoje, do dia a dia, que já estavam na pauta de Ian McEwan em 1998, quando esse romance foi publicado.
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Toda a tensão nesse romance tem como base o pequeno número de personagens. Em primeiro plano aparecem as conturbadas emoções manifestadas pelos desejos de Vernon e Clive. É grande a ambição de ambos, que já chegaram ao ápice de suas carreiras e podem olhar para o futuro ocaso de suas vidas com o sentimento de dever cumprido. Mas a morte de Molly, ainda jovem, os desestabiliza. São obrigados a incluir em seus horizontes seus próprios fins. Vemos também se imiscuir entre eles recalques e desejos deixados de lado e agora relembrados nessa amizade. Em comum eles têm não só a mesma amante mas a traição, já que ambos conheciam e eram amigos do marido de Molly.
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Ian McEwan
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Esta é uma amizade repleta de inveja, raiva, fidelidade, ódio, culpa; de uma gama enorme de sentimentos contraditórios e complementares. Essas emoções que os unem, inicialmente aparecem em cores brandas, se intensificando à medida que o romance se desenvolve. Mas é a competitividade entre eles, já existente desde os tempos de Molly, que eventualmente os arma e prova até o último momento o quanto esses dois amigos se assemelham. Amsterdam é um excelente ensaio sobre as emoções que afligem o ser humano de hoje, homens complexos e destemidos, ambiciosos e egoístas. É uma janela na alma humana corroída pela liberação de antigas regras éticas.
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* Os dicionários nos dizem que a forma Amsterdam – com a letra “m” no final não existe em português. O correto seria Amsterdã, no Brasil, ou Amsterdão em Portugal. Essa grafia é um anglicismo inútil, porque não adiciona nenhuma outra conotação para uma palavra muito bem grafada em português, e fica a pergunta: por que um livro editado no Brasil a usa? Depois reclamamos que as pessoas não sabem mais escrever … é por essas e outras.
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Peta Carley ( EUA, contemporânea)
óleo sobre tela
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Uma preciosa contribuição à ficção inglesa contemporânea foi feita por Helen Simonson na aventura passada no interior da Inglaterra, onde um major do exército britânico de 68 anos, aposentado e viúvo, se encontra, para surpresa própria, na expectativa de um novo romance com a dona de uma loja de conveniência em um pequeno vilarejo em Sussex. A última façanha do Major Pettigrew [Rocco: 2010] é uma narrativa recheada de grande senso de humor, que nos leva do sorriso à gargalhada sonora; onde testemunhamos as dificuldades das decisões apropriadas e os tropeços sociais do protagonista, que por timidez, por limitações da boa educação atrapalha-se quando mais quer impressionar, numa clássica tensão entre desejo de acerto e comportamento social antagônico, como rege a comédia inglesa.
Ainda que pertencente à tradição da comédia de costumes tão bem explorada por Jane Austen, Major Pettigrew divide com “Mr. Darcy” do romance do século XIX algumas poucas características: o interesse pela pessoa inesperada; aptidão de ignorar os costumes sociais da época; inabilidade de se expressar da melhor maneira possível em circunstâncias delicadas e a galhardia. Enquanto em Orgulho e Preconceito sorrimos mentalmente com as observações de “Lizzie”, neste romance, podemos rir às gargalhadas com a deficiência de coordenação entre a vontade e a ação do herói e pretendente amoroso.
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A tensão nessa comédia é grande, causada pelo frequente embaraço do personagem. A pressão entre a situação vivida e a vontade do Major é tanta que muitas vezes Pettigrew lembra em seu comportamento Basil Fawlty, personagem principal do programa Fawlty Towers da BBC, da década de 1970, onde no texto escrito e desempenhado por John Cleese há descompasso semelhante, se bem que na comédia para a televisão as ambições de Basil Fawlty, gerenciando seu pequeno hotel não tenham nada em comum com as situações vividas pelo major aposentado.
Muitos são os herdeiros literários de Jane Austen e eles se diferenciam não só pelo nível da crítica social como também pela época em que escrevem, porque as caracterizações na comédia de costumes dependem disso. No século XX tivemos, entre outros, duas grandes mestras nessa arte: Barbara Pym e Elizabeth Bowen. Helen Simonson parece mais relacionada a Barbara Pym. Não tem o tom às vezes soturno de Elizabeth Bowen. Como Barbara Pym, Helen Simonson manteve a trama na pequena aldeia, em personagens comuns aos vilarejos ingleses e ainda na característica de que a realidade e os planos feitos pelos personagens quase sempre têm somente um certo grau de sucesso e frequentemente aquele que não era esperado. A arte de retratar as pequenas frustrações do cotidiano de qualquer individuo, sem cair no dramalhão ou no ridículo é uma das características mais cativantes da literatura inglesa desse gênero. Vidas prescritas pelas circunstâncias sociais, a traição de segredos mantidos a sete chaves, a transformação das vidas de personagens quando forças incontidas sobem à superfície são alguns dos pontos em comum entre todas essas escritoras. A mestria das meias-palavras, do ofuscamento, das reticências, tão tipicamente ingleses, são nuances que nem sempre conseguem ser transportadas para outra língua ou cultura. E aqui se faz necessário aplaudir a excelente tradução de Waldéa Barcellos que não poupa esforços para transmitir a insinuação maldosa dos personagens, o artifício literário do não dito pelo dito.
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Helen Simonson
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Além do tremendo senso de humor, da análise sagaz de tipos que todos nós conhecemos, há outros aspectos que fazem dessa publicação um deleite. Este romance é sobretudo contemporâneo nas situações, nos preconceitos, na realidade de uma Inglaterra pós império colonial. Ter que aceitar súditos de países colonizados está na agenda social de todos os países europeus colonizadores que no final do século XX, por causa da integração na Comunidade Europeia, tiveram que abdicar de suas colônias na África e na Ásia. Cada um fechou o domínio colonial de maneira diferente, mas todos tiveram que aceitar em seu território muitos cidadãos que não tinham o perfil visual e cultural dos países sede. Consequentemente temos na Europa hoje a abundância de coloridos de peles, de religiões outrora estrangeiras, de costumes alimentares diferenciados. Como essa aceitação se faz na Inglaterra é um dos assuntos tratados por Helen Simonson, assim como: problemas de heranças, entre pais e filhos, e expectativas que temos de amigos e que eles têm de nós. Tudo habilmente administrado por uma escritora que diverte e dá ao leitor uma pausa e espaço para refletir sobre esse novo mundo: uma bem-vinda moratória aos jargões óbvios do politicamente correto. Por tudo isso, este é um livro para ser lido e degustado.
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Tapeçaria da Série A Dama e o Unicórnio, c. 1470-1475
Museu de Arte Medieval, França
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Tracy Chevalier me encantou há alguns anos com sua Moça com Brinco de Pérola, que li muito antes do filme ter chegado aos cinemas. Mais tarde li o romance Viva Chama, que apesar de interessante já não me pareceu tão evocativo de uma era. Por isso mesmo deixei passar um bom tempo para ler A dama e o unicórnio. Raramente a boa experiência de leitura de um autor se duplica na leitura seguinte se ainda estou sob o feitiço do primeiro encontro. E temi que este livro sobre as famosas tapeçarias francesas da proto-renascença pudesse me trazer descontentamento. Posso garantir no entanto que este é um livro charmoso, agradável e um testemunho da grande criatividade da autora que se revela muito hábil ao imaginar as situações que poderiam ter levado à produção das tapeçarias assim como as vidas dos artesãos que as teceram.
O encanto do livro Moça com brinco de pérola não se repetiu. Mas também não saí ao final dessa leitura desapontada: esta é uma narrativa leve, sensual, que tem o mérito de respeitar aquilo que se sabe hoje sobre as tapeçarias em questão. E ainda, este é um romance que traz aos olhos do século XXI, aos não historiadores, a quem não precisa refletir sobre as condições de vida e de trabalho no século XV, uma perspectiva de como seria a vida de então, com suas restrições, suas liberdades, as regras das guildas artesanais, o papel do monastério de freiras na vida de uma mulher. Porque sua pesquisa foi bem feita, Tracy Chavalier instrui ao mesmo tempo que assume o papel de uma Sherazade.
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Se por um lado a trama é tênue e previsível, por outro ela se salva pela acuidade na representação do trabalho artesão e de fatos históricos. Isso releva quaisquer faltas no comportamento quase licencioso retratado em alguns personagens femininos, comportamento inexato pelo que se sabe serem as normas vigentes na época. Não obstante, A dama e o unicórnio oferece um entretenimento leve e informativo.
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Rua de Jerusalem, s/d
Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)
aquarela e lápis sobre cartão, 38 x 27 cm
Coleção Particular
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No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012). Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa. Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.
E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim. Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz. Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.
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Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito. Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel. Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente. E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior. Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir — é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo. É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e dá a sensação de estarmos vivos. VIVOS! Alertas! Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada é viciante, porque a adrenalina se faz presente e transforma a nossa percepção do mundo ao redor. Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a certeza de que preciso de pouco para viver bem. Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia. É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.
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Este é um romance leve, o retrato de uma paixão. Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo. No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat. Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas. Passamos simplesmente a acompanhar o caso amoroso. É aí que o ritmo da leitura se desacelera. Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece. Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável. Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.
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Lewis Schnellmann (EUA, contemp.)
Acrílica sobre tela, 60 x 90 cm
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Acabo de ler O Retorno, da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso. Estou encantada. Bati o livro como se fosse manjar dos céus. É poético. Tem uma linguagem singular que se saboreia como poucas e canta melodias sonoras aos nossos ouvidos. O mundo descrito pelos olhos adolescentes de Rui também tem deslumbramento, lições de vida, sabedoria, solidão e surpresa. Além, é claro, de um retrato peculiar de diversos subprodutos da colonização, sobretudo os preconceitos. Estes vemos de maneira generalizada: de toda parte, dos brancos, dos pretos, dos portugueses da Europa e dos que procuraram dias melhores para suas famílias nas terras das colônias. O preconceito, qualquer que seja é fartamente ilustrado nessa obra. Filhos do medo, do futuro, do desconhecido, medo do presente e do passado, preconceitos afligem a todos os personagens brancos, pretos, portugueses de colônia e da metrópole, sãos e doentes, comunistas e revolucionários. Todos, sem exceção sofrem do mal. Que lição a escritora nos dá!
E tudo é retratado com palavra precisa e sutil. Delicada, quase inocente, pelos olhos de quem está aprendendo sobre a vida e a mostra com o frescor do descobrimento, da habilidade de superação, da destemida inocência dos adolescentes.
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São poucos os livros de amadurecimento, livros de “passagem” como se diz em inglês, significando passagem da vida de adolescente à adulta, que conseguem seduzir tanto. Dulce Maria Cardoso domina a narrativa como poucos escritores o fazem. Envolve, segura, puxa, carrega e administra o leitor com mestria através dos sentimentos antagônicos de emigrantes e de retornados, de colonizadores e colonizados. Esse é um tema riquíssimo que dominou grande produção da literatura do século XX e que certamente ainda estará no seio da literatura contemporânea pois trata de identidade, da plenitude da existência, das questões do ser. Encontrei nesse romance uma das mais vívidas descrições das dezenas de facetas do deslocamento emocional entre imigrantes e colonizados. Entre emigrantes e aqueles que permanecem em suas terras natais. Narrado com uma linguagem excepcionalmente bela, cantante, sonora que traz a beleza de trinos de passarinhos, O Retorno é um concerto especial aos nossos ouvidos, trazendo um português casto, entremeado de expressões angolanas — algumas delas velhas conhecidas dos romances de Agualusa e de Ondjaki — que reverberam nessa narrativa como uma lembrança constante da riqueza dessa nossa, sim de nós todos, língua portuguesa.
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Uma leitura saborosa que descortina o complexo feixe de sentimentos daqueles que emigram para a sobrevivência, adotam uma terra desconhecida, uma cultura diferente para enraizar a família e se descobrem à beira do abismo quando, o que consideravam seu, por direito de trabalho suado e honesto, são obrigados a deixar para trás e ao retornarem à terra natal ainda não são considerados bem-vindos. Uma situação complexa, moderna e gritantemente injusta. O dilema dos “retornados” em Portugal foi dilacerante aos corações dos que voltaram. Seria interessante, do ponto de vista antropológico, ver como a independência de antigas colônias europeias foi encarada em outros países colonizadores como Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, na segunda metade do século XX.
Ainda teremos muito que ler sobre o assunto e outros escritores europeus, tenho certeza, se dedicarão ao tema. Isso não tira, no entanto, a importância da indicação de O Retorno para a introdução dessa problemática aos leitores brasileiros. No Brasil, o livro sai numa edição primorosa da Tinta da China, em capa dura, com fitinha de cetim para marcar a leitura e a preços compatíveis com o mercado, competindo de igual para igual com livros produzidos com muito menos cuidado. Foi um prazer total, desde o volume em si à leitura desde texto impecável. Recomendo a todos os leitores, universalmente, jovens e adultos. É um romance delicioso e significativo. Um tesouro!
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VEJA ENTREVISTA COM A AUTORA
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Ferdinand Heilbuth ( França, 1828-1889)
óleo sobre tela, 32 x 40 cm
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Então, J.K. Rowling lançará seu primeiro romance para adultos em setembro deste ano e ele já está prometido para chegar às nossas livrarias, traduzido, o mais rápido possível de preferência antes do Natal, pela editora Nova Fronteira. Há grande expectativa de sucesso. Será que ela conseguirá fazer de leitores adultos um grupo tão fiel quanto conseguiu ter com os leitores adolescentes? Essa notícia estampada nos jornais da semana me levou a considerar o que faz um romance ter sucesso? O que faz um romance ser um best seller? Será que a fórmula para agradar a adolescentes seria diferente da fórmula para adultos?
Muitos já se preocuparam como o assunto, mas o professor de literatura James W. Hall conseguiu encontrar 12 pontos que todos os best-sellers têm em comum, a lista e sua discussão estão bem elaboradas no livro Hit Lit: Cracking the Code of the Twentieth Century’a Biggest Bestsellers. A lista se refere aos best sellers nos Estados Unidos. Entre as descobertas estão algumas que até parecem óbvias demais e que nos fazem questionar se realmente prestamos atenção quando nos envolvemos na leitura de um best-seller. Por exemplo, seguem 3 pontos quase óbvios, depois que pensamos sobre o assunto:
1) todos os heróis dos grandes sucessos de vendas em livros do século XX, são personagens que passam muito pouco tempo pensando, são heróis de ação, do quais sabemos muito pouco de seus passados, só o estritamente essencial, sem grande profundidade nas suas complexidades emocionais.
2) os personagens principais estão em geral envolvidos em questões sociais que são o tópico “quente” da época em que esses livros são publicados, tais como racismo, sexo e política. Vejamos os exemplos: O sol é para todos de Harper Lee, ou E o vento levou de Margaret Mitchell com o tópico de racismo em primeiro plano. O vale das bonecas de Jacqueline Susann é o exemplo do sexo como assunto “quente” de época, enquanto que A caçada ao outubro vermelho de Tom Clancy, seria um excelente exemplo do tópico de preocupação política na época de sua publicação.
3) as histórias principais dos best-selles podem ser resumidas em poucas palavras, são histórias cujo “problema” a ser resolvido é relativamente simples, mas que estão sempre colocados num ambiente bastante complexo, envolvidas no tecido social cujo tópico é de interesse no momento, como descrito acima.
Para quem pretende escrever um best-seller este é um livro que pode ajudar.
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Jack Vettriano (Inglaterra, 1953)
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Raramente escrevo sobre um livro sobre o qual me sinto tão ambivalente. Mas há alguns aspectos em Um caso de verão, de Elin Hilderbrand [Bertrand 2011] que superam as características de que não gosto: 1) parece ter sido escrito com a possibilidade de um filme no futuro, de fácil revisão para um roteiro cinematográfico; 2) há quase tantos diálogos quanto narrativa e frequentemente esses diálogos não trazem informações necessárias, estão ali para imprimir uma leveza, um ritmo de leitura considerado mais fácil; 3) tem todo o jeito de livro de mulherzinha. No entanto, suas qualidades superam as birras com que convivi durante a leitura, e por isso, me posiciono aqui para explicar.
É um livro que demonstra as diferenças entre o amor e a paixão: no que se baseiam esses sentimentos, como eles se expressam e o que eles nos fazem fazer. Paixão e amor são contrastados do início ao fim do romance através de Claire, nossa heroína, o único personagem realmente tridimensional na história. Não estamos falando simplesmente de uma paixão amorosa, mas paixão pela profissão, pela sua arte, paixão por aquilo que nos tira o sono e ao que nos dedicamos sem contar horas ou esforço; paixão que leva ao descontrole sobre nossas ações ou emoções. Como o título retrata, Claire, dona de casa, mãe de quatro filhos, artista de vidro, bem conceituada, com peças em importantes coleções e museus do país, bem casada e ainda enamorada de seu marido, tem um caso, desenvolve, inexplicavelmente, uma paixão por outro homem com quem mantém um relacionamento extraconjugal.
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As razões para isso, ainda que não especificamente mencionadas, são pequenas e provavelmente teriam sido contornáveis se Claire não estivesse passando por um momento de grande fragilidade emocional por ser considerada, e se sentir, culpada pelo nascimento prematuro do último filho, consequência atribuída ao excesso de trabalho. Mas seu trabalho, sua vocação, era sua paixão e percebemos isso quando depois de meses sem entrar no ateliê para fazer esculturas de vidro ela se aproxima dele com reverência e volúpia, passando horas desenhando e pensando nas possíveis soluções para a encomenda que recebera. A justificada permissão para trabalhar vem como uma dádiva, das mãos de quem aprecia sua arte, de um colecionador de arte, e era uma obra beneficente. Ele, um benfeitor, um mecenas. Quem não sabe que amar o meu trabalho é me amar? Quem resistiria à uma pequena transgressão?
Ao fundo, nos relacionamentos do dia a dia, nas viradas de sorte corriqueiras do cotidiano temos um mundo de outros personagens que, como Claire, são transgressores de grande ou pequeno porte: perdem dinheiro no jogo, bebem, coletam uma pequena fortuna em roubos de colarinho branco; personagens que se revelam na inveja e na maledicência. Quem merece ser punido? E como? Por que motivo? O padre católico não é capaz de responder aos questionamentos de Claire… E assim, essa mulher, que tenta manter simultaneamente uma família e uma profissão, procura um ponto de equilíbrio entre o que faz e aquilo que acredita ser correto, vivendo, por um ano, no olho do furacão, no eixo centrífugo de um território transgressor.
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Frágil, meio-morta, meio-viva, Claire necessitava de algo mais do que a sua família para se sentir satisfeita, bem consigo mesma e sem culpa pelo nascimento prematuro de seu bebê, sem essa mesma culpa que a impulsionou à transgressão. Claire toma suas decisões no final do livro, mas fica evidente que ninguém tem a resposta certa e que essa vai depender de cada um. Por esse questionamento, por essas posições, sim, esse romance cresce e ganha em impacto.
Este livro foi a escolha do meu grupo de leitura para o mês de maio. Andávamos muito cansadas de sagas familiares, de ficção histórica, da Segunda Guerra Mundial, de antissemitismo, enfim de uma série de livros pesados, que nos pareciam todos variações sobre um mesmo tópico. Um caso de verão foi escolhido para virar uma esquina, para dar uma mexida num caminho que parecia repleto de desgostos sem fim e, de fato, ele nos trouxe uma dinâmica diferente e válida, principalmente por trazer à tona aspectos psicológicos importantes com os quais convivemos diariamente. É leitura boa, rápida e ideal para um bom fim de semana chuvoso.
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Songoku, o Rei Macaco e a Lebre com pedras preciosas ao luar, 1891
Tsukioka Yoshitoshi (Japão, 1839 – 1892)
xilogravura policromada, 24 x 35 cm
Museu de Arte de Brooklyn, Nova York
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Texto com contexto, biografias e memórias, uma saga familiar que conta a história do mundo no século XX: este é um livro inesquecível; uma série de biografias que leem como romance, uma memória familiar escrita através de um processo detetivesco. Não há melhor combinação de elementos para seduzir o leitor ainda mais quando se trata de uma narrativa bem escrita, sensível, desapegada quando poderia ser melodramática, quase irônica como todo bom inglês consegue ser. Em um parágrafo: isso é A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal [Intrínseca: 2011].
O autor recebe de herança uma coleção de netsuquês – pequenas esculturas-botões de acabamento de artigos de vestuário japonês. Herda-os de seu tio-avô embrulhados em histórias de família, em aventuras transcontinentais e perseguição nazista. Inicialmente, quando meus amigos me falaram desse livro, suspeitei que se tratasse de algo semelhante a Memórias do Livro de Geraldine Brooks, [Ediouro: 2008] onde participamos de uma pseudo-arqueologia da Hagadá de Sarajevo, ou até mesmo a saga de uma família judia vista através da passagem de um espelho, de geração em geração, como aconteceu com o livro da brasileira Chaia Zisman, O Espelho [Sete Letras: 2006]. Hesitei inicialmente porque me pareceu que eu iria embarcar em um modismo narrativo e tudo indicava que me exporia mais uma vez a um truque ficcional que já se achava “cansado” antes mesmo da primeira página ser lida. Mas me enganei.
Antes de escrever essa resenha procurei entrevistas com o autor, que até a publicação desse livro não era um escritor, mas um afamado ceramista, conhecido e respeitado internacionalmente. Reconheço que ele se sai melhor com a palavra escrita, pensada e bem colocada do que com a palavra falada, sobre a qual sua timidez parece levar a melhor… No entanto, foi através dos vídeos de entrevistas com o autor que vim a conhecer sua grande familiaridade com os trabalhos do escritor francês Proust. Não só porque Proust foi amigo do primeiro colecionador de netsuquês e tetravô do Edmund de Waal, mas porque de Waal, formou-se em inglês, e admitiu ter-se apaixonado, lido e relido, os volumes de Proust, através dos anos. Esse conhecimento não só justifica a prosa límpida, delicada e precisa de que se utiliza na composição das biografias a que se dedica, como explica a visão de “Busca do tempo perdido” que transmite através de seu texto.
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Netsuquê da lebre com olhos de âmbar da coleção do autor.Digo isso porque parte do charme dessa narrativa é a sensação que o leitor tem de que presencia, através de pequenos detalhes do cotidiano, a vida como ela era no último quarto do século XIX em Paris, no início do século XX em Viena, durante a ocupação nazista da Áustria e durante os anos de reconstrução do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Os detalhes baseados em pesquisa incansável dos diversos membros da família retratada nos dão a sensação de conhecer o dia a dia dos bem-sucedidos protagonistas. E entramos sem nos darmos conta, num mundo semelhante ao dos contos de fadas, dos multimilionários banqueiros, de suas paixões e de sua magnanimidade. Esse texto, bem escrito e detalhista, é fascinante, não importa que geração se encontre retratada. E o contexto vem nas entrelinhas, nas reticências e meias palavras, mais eloquentes do que se poderia imaginar, que descrevem o preconceito antissemita tecido nas sociedades da época, até mesmo por aqueles cujas vidas e sobrevidas dependiam do patrocínio, do mecenato, da tutela dessas mãos judias.
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Quando pensamos na história do século XX temos a tendência a vê-lo partido ao meio: antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Podemos datar quase todos os aspectos sociais, políticos e artísticos pela guerra. E aqui, nesse volume, tratando de episódios que começam mais de cem anos antes e que se desenvolvem por mais de cinquenta anos depois, descobrimos que de fato, só há um único assunto que caracteriza o século XX: o preconceito generalizado, indiscriminado, politizado. A guerra não foi o ponto da virada que acabou redimindo as últimas décadas do século XX. Ela foi a essência do que veio antes e do que foi feito depois. Assim como a loucura coletiva da Inquisição caracterizou o século XVI, o século XX comungou da mesma fonte, fazendo seu, um único tema, o antissemitismo. Todo o resto, aspectos políticos, sociais, emocionais, financeiros, de uma maneira ou de outra se encontram nesse preconceito. Mesmo que ele não seja abordado diretamente como acontece nesse livro, ele é visivelmente, a “éminence grise”, o “modus operandi”, a força motora que impulsionou o mundo.
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Edmund de Waal não escreveu esse livro para que descobríssemos a essência do século XX. Ele escreveu de maneira encantadora a história da vida de seus antepassados usando a coleção que netsuquês, que os unia, como ponto de partida e de ligação entre gerações. E elas o foram, todas essas 264 mini esculturas japonesas. Mas talvez pela compactação dos eventos em poucas páginas, pela delicadeza da narrativa, pela riqueza de detalhes apresentados nos episódios, nas décadas, no século retratado, a leitura de A lebre com olhos de âmbar pede uma observação com um ponto de vista mais distante que abrace, de uma só vez, todas as situações complexas e ache o denominador comum, o fio da meada do que está sendo apresentado. De modo que a biografia particular se torna uma história do mundo ocidental visto por olhos quase neutros de um escritor que é ceramista, de um descendente de banqueiros que trabalha para sobreviver, de um inglês, membro da igreja anglicana que se volta para seus antepassados judeus. É estamos, de fato, diante da história do século XX.