Resenha: “Meio sol amarelo” de Chimamanda Ngozi Adichie

8 11 2015

 

 

biafraGuerra de Biafra
Muraina Oyelami (Nigéria,1940)
Óleo sobre papel colado em painel, 75 x 183 cm

 

 

Chimamanda Ngozi Adichie parece determinada a abordar temas complexos e comentá-los com a visão da vida comum, do dia a dia de quem os enfrenta. Assim foi com Americanah, livro pelo qual conheci a autora nigeriana, onde as nuances do racismo, de todas as cores e aspectos dentro e fora do território nigeriano, foram exploradas. O mesmo processo foi usado em Meio Sol Amarelo, um trabalho anterior, retratando a guerra pela independência do sudeste da Nigéria, ocupado pela cultura Ibo, que tentava estabelecer a República de Biafra. O título por si só telegrafa o período mais importante em que a história se desenvolve, os três anos da guerra de 1967 a 1970 pois a bandeira do futuro estado independente de Biafra tinha no centro meio sol amarelo com onze raios, cada um representando as onze regiões do território Ibo.

Sem se deter em muitos detalhes políticos ou culturais para a guerra da independência, Chimamanda Ngozi Adichie retrata como diferentes pessoas reagem quando o conflito começa. A guerra é, portanto, mostrada através do efeito que ela tem sobre os membros da sociedade Ibo. O texto dá ao leitor a oportunidade de entender aqueles que fogem para a Grã-Bretanha; aqueles que ficam e conseguem tirar proveito da guerra; os que a ela se dedicam com fervorosa coragem; e a grande maioria, quase indiferente, inocente, ignorante e cativa dos processos governamentais, para quem a sobrevivência é o que importa. Adichie consegue retratar todas essas pessoas sem crítica, com um olhar independente, ainda que a grande saga se encontre entre os idealistas revolucionários que seguimos com observação cautelosa e ímpar. Concentrada no retrato de uma família da classe média alta, nigeriana de origem Ibo, afluente, educada, intelectualizada, parte do estabelecimento pré-guerra, mas com membros revolucionários, que se encontram no coração do conflito, a narrativa passa por todas as possíveis e diversas reações que cada um desenvolve ao conflito.

 

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A Guerra da Independência de Biafra foi a primeira guerra televisionada no mundo, mas nem por isso bem compreendida. A Nigéria, como a maioria dos países no continente africano, teve seu território desenhado por europeus – britânicos nesse caso – que ao colonizarem o país juntaram indiscriminadamente três grupos culturais (Hauçá, Ioruba e Ibo) com línguas, modos de governo e religiões diversas sob uma única bandeira. Impuseram o sistema político e a língua inglesa. À medida que o poder britânico se enfraqueceu depois da Segunda Guerra Mundial conflitos entre as diferentes etnias dentro da mesma fronteira se acentuaram. A tentativa de independência do povo Ibo foi uma consequência natural do processo. No entanto, o resto do país, auxiliado pelos ingleses, fez um cerco ao território de Biafra impedindo a independência dos Ibos. O território era rico em petróleo e não poderia passar para as mãos de outro governo. Para isso proibiram até mesmo a entrada de gêneros alimentícios e produtos de primeira necessidade ao território rebelde. O mundo ocidental teve então a oportunidade de ver quase que em tempo real, através da televisão, fotos e imagens da fome, do desespero dos refugiados, no conforto de sua própria casa pela primeira vez. Foi um abalo geral. Chimamanda Ngozi Adichie não se concentra nessas imagens ainda que elas façam parte integral da narrativa. A solução brilhante que conseguiu para retratar a guerra foi a multiplicidade de narrativas. Cada pessoa de uma mesma família e de seus dependentes tem a oportunidade de reagir à desumanização do conflito.  E o faz de diferentes maneiras. Até mesmo um “comentarista” inglês consegue ser inserido na narrativa, nesse núcleo familiar, dando ao leitor de hoje, uma visão simultânea de fora e de dentro do campo de batalha.

 

chimamandaChimamanda Ngozi Adichie

 

Meio Sol Amarelo é uma tentativa de recuperação do passado. A autora lembra a importância de se manter a memória da guerra, do ideal de independência, do sacrifício da geração de seus pais, da tentativa de extermínio de uma etnia, do sofrimento do povo Ibo. E com isso mantém também os parâmetros da identidade cultural. Até hoje, os conflitos étnicos e religiosos da Nigéria não foram resolvidos. A recente onda de ataques de extremistas muçulmanos no país trazem a tona mais uma vez a fragilidade da coesão nigeriana. Por isso mesmo uma narrativa com o escopo e qualidade encontrados nesse livro chega na hora certa. Uma obra ambiciosa e muito bem executada.

 

 





Resenha: “A noite do Mi’raj” de Zoë Ferraris

13 10 2015

 

 

tania beaumont (GB, 1949) veiled womanMulher com burca

Tania Beaumont (GB, 1949)

Desenho sobre papel

 

Este livro é uma história detetivesca passada na Arábia Saudita. Um crime ocorre e algumas pessoas ligadas à família da vítima se dispõem a descobrir o que aconteceu. Mas a verdadeira intenção da autora é mostrar a vida naquele país, o dia a dia na vida dos habitantes numa teocracia baseada na interpretação dos textos muçulmanos. E por mais que a autora se esforce para mostrar as razões das restrições sobre homens e mulheres o cerceamento de suas liberdades básicas é ressaltado.

Recomendo o livro a quem queira conhecer melhor uma sociedade com regras muito restritas às mulheres. Morei por um ano em um país muçulmano. Não tão liberal quanto a Turquia, nem tão restrito quanto a Arábia Saudita. Saí de lá convencida de que qualquer mulher que tivesse nascido no mundo ocidental não conseguiria se adaptar às regras que lhe são impostas. Este não é um mundo em que as mulheres podem florescer. A Arábia Saudita não é a exceção, as regras aplicadas por lá são mais ou menos seguidas por outras sociedades afins.

 

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A noite do Mi’raj tem como personagem principal um devoto guia palestino, Nayir ash-Sharqi, que é tão puro e tão religioso que não consegue olhar para uma mulher sem pecar. Enquanto esta pureza pode ter algum charme, ela na verdade denota um preconceito tão grande, que torna Nayir ash-Sharqi numa caricatura, ainda que homens como ele existam mais numerosos e frequentes do que imaginamos. Na verdade as mulheres, para esses religiosos, são tão perigosas que a pureza de espírito de um homem é ofendida por sua mera presença.

 

Zoe_FerrarisZoë Ferraris

 

Este livro foi premiado duas vezes: 2009, Alex Award e 2008, Los Angeles Times Book Prize — Primeiro Livro de Ficção. Para mim sua melhor faceta é descrição da vida na Arábia Saudita. A trama de suspense com a resolução do crime só começou a me cativar da metade do livro em diante.  Uma leitura de puro entretenimento. Três estrelas de cinco como o máximo.





Resenha: “Tirza” de Arnon Grunberg

1 10 2015

 

Leonid Afremov, The Gateway to Amsterdam, 2000s, oil on canvas, [no dimensions], Private CollectionPorta de entrada para Amsterdã, 2000

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Há muito tempo não leio um autor que demonstra tamanho domínio de seu texto como Arnon Grunberg. Ele brinca com o leitor sem que este o perceba. Ele nos envolve, nos seduz, nos puxa pela mão, mostra o que quer, esconde o que não precisa ser contado. Brinca. Cria. Joga xadrez conosco. Não percebemos a manipulação. Muito pelo contrário, queremos mais. Queremos mais de tudo, e as páginas são lidas com sofreguidão. O que as embala é uma sensação de que algo está para acontecer, algo será revelado a qualquer momento. A tensão é semelhante a de um filme de Alfred Hitchcock. Não se trata de uma história de uma centena de páginas. São 464 páginas em que o autor constrói aos poucos, deliberadamente, detalhes das personalidades envolvidas na narrativa, fazendo-nos íntimos dos membros da família Hofmeester. Ficamos familiarizados principalmente com Jörgen Hofmeester, pai de duas meninas, marido de uma artista plástica que entra e sai de sua vida à vontade, editor de ficção estrangeira de uma casa editorial em Amsterdã, homem em idade próxima à da aposentadoria, que mora num bairro da cidade de fazer inveja aos amigos, que possui uma casa de veraneio, que junta economias e as investe na Suíça, um homem, que tenta, porque tenta, sem colocar quaisquer barreiras, fazer aquilo que é certo e esperado dele. E, no entanto, há uma tensão imensa dentro desse pai de família. Tudo nele é quase obsessivo, mas sob controle. A perfeição é sua meta quer na cozinha, onde aprende a cozinhar quando sua mulher o deixa para “se encontrar”, quer no controle financeiro de sua vida, com a intenção de deixar um patrimônio sólido para as filhas.

 

TIRZA

 

Tirza é o nome da filha caçula de Jörgen Hofmeester, sua filha preferida, aquela que completa 18 anos e está pronta para entrar na universidade. Para comemorar essa passagem decide viajar pela África, e uma festa colocará o ponto final na vida anterior e marcará o início de sua nova aventura. Seu pai prepara a festa com cuidado, fazendo, ele mesmo, os quitutes, arranjando as bebidas. Durante esses preparativos aprendemos sobre a família. Sobre a mãe, as meninas, Ibi, a irmã que já não mora na Holanda e, sobretudo, conhecemos Jörgen. Apesar de um tanto fora da norma, nossa identificação com ele é inevitável. Conhecemos seus desejos, seus desapontamentos. Sua absoluta solidão. Há humor nessa narrativa, muito humor, porque entendemos sua visão do absurdo. Ocasionalmente a vida parece caótica e surreal, mas o humor vem mesmo das situações cotidianas, daquelas pequenas decisões que não dão certo, das expectativas frustradas,de sua inépcia social.

 

 

Arnon+Grunberg+©+RingelGoslinga+2013+-+RV+smallArnon Grunberg

 

Mas, há sempre a sensação de algo oculto. Há uma expectativa subjacente. Uma perturbação que nos deixa alerta. Há a sensação de que algo já aconteceu, mas não sabemos o que, há um ponto cego: incesto? Violência no casamento? O que? É como se tivéssemos sido as rãs numa panela com a água quente e não percebemos que a água ferveu. Esse mistério, essa dúvida só se esclarece nas últimas páginas. E é surpreendente. Um final estarrecedor. Imprevisível. Vale todas as horas dedicadas à leitura.

Este está, para mim, entre os melhores livros lidos neste ano e tem tudo para estar entre os meus favoritos de todos os tempos. É impossível discuti-lo sem revelar mais do que deveria. Mas recomendo sem constrangimento sua leitura para todos os leitores.





Resenha: “Norwegian Wood” de Haruki Murakami

20 09 2015

 

 

UWSrams1TokyoMarketRua do Mercado em Tokio, c. 2012

Ian Ramsey (GB, contemporâneo)

aquarela, 48 x 50 cm

Ian Ramsey

 

 

Toru é um herói como qualquer outro rapaz vivendo no final da década de 1960. Bom menino, educado, respeitador dos mais velhos. Vivendo pela primeira vez fora de casa, está aberto à experimentação. A história se passa no final da década de 1960. Tudo está em mudança da França, aos Estados Unidos, ao Japão. Experimento de vida nada tem a ver com radicalismo. Mas com a vontade de explorar as possibilidades. E é assim que encontramos Toru Watanabe pela primeira vez. Sua independência, sua busca, passa pela vida num dormitório, pelas novas amizades de rapazes que como ele procuram um caminho. Tem o ímpeto de dedicar-se às matérias que provavelmente serão úteis no teatro, carreira na qual imagina o seu futuro, mas procura acima de tudo o amor. Sair da casa paterna teve seu peso, mas a vida deixou de ser segura e previsível para ele desde a morte de seu melhor amigo Kizuki. Com ele e a namorada dele, Naoko formavam um trio de amigos inseparáveis. No entanto, Kizuki se suicida e Toru acaba se apaixonando pela namorada do amigo.

Para crescer emocionalmente e finalmente tornar-se o adulto que almeja ser há de fazer escolhas. Para isso precisa experimentar. Como Nagasawa, um amigo do dormitório explica: “Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa” [43]. E Toru experimenta, não só novas amizades masculinas, pessoas com quem jamais imaginara pudesse se relacionar, como com garotas nos bares, numa incessante procura de satisfação sexual. Não leva muito tempo para descobrir que pelo menos essa busca deixa o sexo insosso e sem sentido. À medida que se abre para conhecer novas pessoas Toru desenvolve seu próprio julgamento.

 

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Mais do que um romance de passagem da adolescência para a vida adulta Haruki Murakami retrata uma era. Talvez a melhor representação do período que eu já encontrei na literatura contemporânea. Não importa que seja situada no Japão. Este é um retrato de uma geração inteira, chamada no ocidente de baby-boomers, que chegou à idade adulta antes de 1974, do final da Guerra do Vietnã. E o título, referência à música dos Beatles do mesmo nome, não é coincidência. A letra de “Norwegian Wood” é um paralelo bem feito à trama – ou falta dela – no romance.

Diferente de muitos não achei a história deprimente, nostálgica, nem achei as cenas de sexo despropositadas. Fiquei encantada ao ler os capítulos sobre o retiro nas montanhas. Só ali deu para perceber o que Murakami iria eventualmente desenvolver até chegar à sua extraordinária obra 1Q84.

 

haruki-murakamiHaruki Murakami

 

Eu poderia dar a minha interpretação aqui sobre as três mulheres da vida de Toru. Mas não quero me alongar para não revelar mais do que o necessário. Mas são três as mulheres importantes em sua vida: uma – um sonho inatingível; outra contato com a realidade, uma união com a terra, com o sólido e seguro. E a terceira um sopro de vida, fértil de possibilidades. Ele faz a escolha certa.

Maravilhoso.





Resenha: “Na Praia”, de Ian McEwan

15 09 2015

 

(c) Roger Gilmore Ward; Supplied by The Public Catalogue FoundationPraia Chesil, no inverno, Dorset

Philip Leslie Moffat Ward (GB, 1888-1978)

óleo sobre placa, 46 x 61 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum

 

 

Quanta impaciência! Quanta falta de comunicação! Quanta dor! Na praia aborda o processo de encantamento de dois jovens de 22 anos, vivendo no início da década de 1960. O período é anterior ao assassinato de John F. Kennedy nos EUA (1963) e na Inglaterra, onde a história se desenvolve, Harold MacMillan é o primeiro ministro. São esses os parâmetros políticos que enquadram o período de alguma insatisfação sociopolítica que resulta no encontro das duas pessoas que provavelmente jamais se encontrariam em circunstâncias normais, não fosse uma demonstração política: Florence, a violinista e Edward, o historiador, sem rumo certo. A paixão toma conta dos dois. Eles indubitavelmente se amam. E se casam.

Ambos mantêm diversos aspectos de suas vidas sob véus de discrição. Edward tem um espírito volátil. Entra em brigas físicas com facilidade, o que lhe causa alívio e vergonha. Este é um homem que se mantém em permanente tensão. O namoro com Florence retrata a tensão sexual a que se submete, numa época em que o sexo pré-nupcial não é aceitável. Florence por outro lado é uma mulher com uma grande paixão, a música. E aos 22 anos ainda não conseguiu expressar paixão fora do ambiente musical. Na verdade tem uma grande aversão ao sexo. É possível que tenha havido um caso de abuso quando ela tinha doze para treze anos, mas isso não fica claro. No dia de seu casamento, no entanto, ainda não conseguiu dominar o asco que sente sobre todo o processo do amor físico. Por não conversarem. Por não conseguirem se abrir sobre esses problemas, a surpresa na noite de núpcias, quando Na praia inicia, tem consequências imprevisíveis.

 

na-praia

 

Quer uma pessoa tenha experiência ou não, o primeiro encontro sexual, repleto de emoções quando os parceiros já se amam, pode ser um momento de grande sensibilidade, e pode revelar mais do que cada um imagina. No caso de Florence e Edward, ambos virgens, essa sensibilidade é levada a um grau muito elevado, e ambos, sem saberem como se comportar nesse momento de rendição total, acabam por levar as conseqüências dessa noite a extremos que eles mesmos não poderiam ter antecipado. Há para o leitor do século XXI uma experiência de catarse, de alívio, ao reconhecer que muitos dos entraves a que esses dois personagens se submetem não existem mais, há barreiras sociais que hoje são impensáveis. Não fosse a mestria de narrativa de Ian McEwan, ao demonstrar as sensibilidades, as nuances da vida de cada um dos personagens, os fatos que precedem esse momento, no pequenino romance de 130 páginas, não seriam compreendidos pelo leitor moderno.

 

ian-mcewanIan McEwan

 

Este romance não trata só dos hábitos diferentes, costumes de outras eras. Retrata a impaciência da juventude, decisões e atitudes que presumem mais do que devem. O desencontro é inevitável, pois nenhum dos personagens é honesto. E consequências acabam também sendo passionais, com uma virada de ponta-cabeça. Tudo isso maravilhosamente narrado em detalhe, de maneira elegante e fria, por um mestre da insinuação, da meia-palavra. Vale uma tarde de leitura que certamente se tornará inesquecível para o leitor.





Dois ursos, poema do mestre Sufi, Hafiz

12 09 2015

 

 

m_Tricycle-Bear_tIlustração de Jenny Keith Hughes.  [www.jennykeithhughes.com]

 

 

Dois ursos

Hafiz  (Pérsia, 1320-1389)

 

 

 

Uma vez

Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos

Dois ursos se sentaram em silêncio

Em uma bela paisagem

Observando o sol se por

E se sentindo profundamente gratos

Pela vida.

 

Mas, depois de algum tempo

Uma conversa interessante começou

Versando o tópico da

Fama.

 

Um dos ursos disse,

“Você ouvir falar do Rustam?

Ele ficou famoso

E viaja de cidade em cidade

Numa jaula dourada;

 

Ele faz exibições para centenas de pessoas

Que riem e aplaudem

Suas piruetas

No circo.”

 

O outro urso pensou

Por alguns segundos

 

Então começou

A chorar.

 

 

Tradução Ladyce West, do inglês

 

Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.





Resenha: “O corpo humano” de Paolo Giordano

31 08 2015

 

foglian7Barracas de soldados, c.1330

[DETALHE]

Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano

Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)

Afresco, 340 x 960 cm

Palazzo Publico, Siena, Itália

 

 

Com um título que mais lembra compêndios científicos para a sala de aula, O corpo humano de início não me atraiu. Mas vinha assinado por Paolo Giordano, autor de um dos mais sensíveis livros que li em 2010, A solidão dos números primos. Além disso, aprendi, há algum tempo, a desconfiar de segundos livros de autores cujas primeiras publicações achei espetaculares. Em geral, as segundas tentativas desapontam. Por isso posterguei a leitura. Mas felizmente meus medos não se realizaram dessa vez. Pelo contrário, Paolo Giordano consegue mais uma vez, abordar temas que invadem o nosso dia a dia, de uma maneira sensível, e por um ângulo inusitado.

Sim, esse é um livro de guerra. Guerra no Afeganistão. Mas não se trata do exército americano, como a situação poderia nos levar a crer. Trata-se de soldados italianos que fazem parte dos esforços da OTAN naquele país. E em lugar da narrativa se concentrar na guerra, ela nos mostra o dia a dia de um grupo de soldados, e não só acompanha os homens desde antes da guerra, como lá, no estrangeiro, em local minado por perigo. Somos expostos aos dilemas diários desses homens, jovens, sem muita experiência, como se comportam e se exasperam, o que os limita física e emocionalmente. Daí, o corpo humano, essa máquina orgânica que nos prende, limita, nos trai e suporta.

 

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Paolo Giordano surpreende mais uma vez por conseguir retratar a angústia pessoal de cada um de seus personagens, cada qual com seu problema íntimo — aqui, neste livro, problemas deixados para trás nos vilarejos ou cidades de onde vieram — com sensibilidade e distanciamento. Isso permite o leitor de se interessar pelo que pode acontecer a cada um, com o que parece ser um envolvimento mínimo. No entanto, quando finalmente um evento muda radicalmente a perspectiva dos soldados, é um choque perceber o quanto nos envolvemos com cada um deles e o quanto sabemos de seus desejo e frustrações e o fervor com que torcemos para que cada consiga ultrapassar os obstáculos físicos e emocionais.

 

 

Paolo GiordanoPaolo Giordano ©Niko Giovanni Coniglio

 

Não considero O corpo humano um livro de guerra nos moldes tradicionais. Ele é um livro sobre o ser humano, seus desejos, sonhos, experiências, necessidades, desilusões, decepções: emocionais e físicas. Ele nos mostra como ou porque chegamos a atos de audácia, fazemos juízo, nos mostramos corajosos, decididos e firmes. E ele nos mostra a chama, o piloto de energia que, no âmago, se incendeia quando cada um de nós age, decide, se droga, se perde, se desintegra, se constrói. Por isso mesmo Paolo Giordano passa a ser para mim, um dos autores que melhor se dedica ao entendimento do ser humano.

 

Recomendo a todos, amantes ou não dos livros de guerra

 

foglian2Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano, c. 1330
Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)
Afresco, 340 x 960 cm
Palazzo Pubblico, Siena, Itália




Resenha: Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr

16 08 2015

 

 

maurice prendergast, lighthouse-at-st-maloFarol em Saint-Malo, c. 1907

Maurice Prendergast (EUA, 1858-1924)

óleo sobre tela, 51 x 62 cm

William Benton Museum of Art

 

 

Ando com a doença do século XXI: pouca paciência para histórias com detalhes intermináveis. Foi o que pensei quando cheguei à pagina 286 das 520 de Toda luz que não podemos ver.  Tive a impressão de estar às voltas com uma narrativa dos oitocentos, da família de Dickens, Dumas, Scott ou Verne, que aliás é mencionado com frequência pelo autor.  Não estivesse esse livro já separado em cenas para filmagem, com direito a flashbacks em diversas datas; não fosse menos direcionado ao cinema, onde certamente fará sucesso com belos e promissores atores adolescentes; tivesse ele uma linguagem mais consistente, ao invés da língua padrão semeada por sentenças com a função de  torná-lo mais literário, esse livro teria no mínimo metade das páginas, metade do peso, e seria ainda mais interessante de ser lido.

Não posso negar que a história prendeu a minha atenção.  Li até o final e isso já é de grande valia.  Sem dúvida, minha curiosidade foi despertada.  As divisões em pequeníssimos capítulos que já antecipam as cenas para um futuro cinematográfico, ajudaram.  Mas é de estranhar que a trama central, a noção de conflito, de um problema a ser resolvido, não se desenvolva antes que se chegue à segunda metade da obra.

 

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A história se passa durante a Segunda Guerra Mundial.  É protagonizada pelos adolescentes: Marie-Laure e Werner, ela francesa, ele alemão, que só se encontram no final da narrativa, ainda que o leitor tenha tido todas as deixas de que esse encontro não só será inevitável mas o ápice da trama delineada. Rica em artimanhas e ardis, de um diamante gigante com sósias de vidro a mensagens secretas passadas no miolo de pães, à imitação dos biscoitos da sorte chineses, Toda luz que não podemos ver nos mostra também práticas e caprichos do treinamento de jovens no nazismo. Aliás, é justamente o tratamento do personagem Werner  — entender seu desejo e decisão de ser escolhido para o treinamento nazista, suas dúvidas e sua decisão de não ver o que é óbvio —  uma das diferenças que distingue esse livro de outros sobre o mesmo período. Tanto Werner quanto Marie-Laure são extraordinários seres humanos. São heróis.  São maiores que a vida, sofrem com dignidade e tenacidade. E assim preenchem a necessidade tipicamente americana de “se ver a luz que não podemos ver”, de superar obstáculos apesar das circunstâncias.  E é justamente por preencher essa necessidade cultural de fechamento, de conclusão, que o livro ainda se torna um pouco mais irritante:  todos os personagens são mostrados um a um, em interminável sequência, com seus respectivos finais.  Amarrar essas pontas era desnecessário, é exagero.

 

 

anthony doerr Anthony Doerr

 

Apesar de todas as negativas acima, este não é um mau romance. Para aqueles que desejam numa leitura uma forma de entretenimento, esta será uma boa escolha. Mas está longe de ser o que eu esperaria de um vencedor do Prêmio Pulitzer.  Já li melhores descrições do dia a dia durante a Ocupação. Se você não espera que sua leitura pose questões intrigantes de sobrevivência emocional ou psicológica, que cubra verdadeiras soluções éticas, estéticas, literárias ou pessoais esse livro é para você.  Entretenha-se.

 

 





Resenha: “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata

31 07 2015

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roario mangaRosario Mangá.

 

Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores.  Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece.  E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando.  Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas.  Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.

Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível.  Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.

 

 

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O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje.  Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição.  Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.

 

kawabataYasunari Kawabata

 

Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais.  Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente.  Não é uma questão de ser politicamente correto.  É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos.  É isso.





Michel Houellebecq sobre literatura

27 07 2015

 

 

bramine-hubrecht-lecture Alphons Joseph Marie Antoine Grandmont lendo para duas jovens italianas, década de 1900  [DETALHE]

Bramine Hubrecht (Holanda, 1855-1913)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

Rijksmuseum, Amsterdam

 

“Quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato,presente em seus livros…”

 

Submissão, Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, p.11