Os melhores livros do ano, pela Peregrina

14 12 2016

 

59c63e62cc4743b775aed6e9994006eaDesconheço a autoria da ilustração, parece russa, certamente Europa Oriental.
Livros lidos em 2016

(esta lista inclui livros lidos na última semana de 2015, depois do Natal)

A rainha da neve, Michael Cunningham

O livro secreto, Gregory Samak

Beije-me onde o sol não alcança, Mary del Priore

A jornada de Felícia, William Trevor

Nora Webster, Colm Tóibin

Memórias de um casamento, Louis Begley

O pescoço da girafa, Judith Schalansky

Mudança de clima, Hilary Mantel

Um homem chamado Ove, Fredrik Backman

Euforia, Lily King

O rouxinol, Kristin Hannah

Amor e memória, Ayelet Waldman

Isso também vai passar, Milena Busquets

Bonita Avenue, Peter Buwalda

A caderneta vermelha,  Antoine Laurain

O ruído das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez

As aventuras de um coração humano, William Boyd

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

O romance inacabado de Sofia Stern, Ronaldo Wrobel

As mulheres do meu pai, José Eduardo Agualusa

Setembros de Shiraz, Dalia Sofer

A maleta da Sra. Sinclair, Louise Walters

A delicadeza, David Foenkinos

A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir

Uma história de solidão, John Boyne

Esnobes, Julian Fellowes

Que ninguém nos ouça, Leila Ferreira e Cris Guerra

Meu nome é Lucy Barton, Elizabeth Strout

Dom Quixote, de Cervantes

A última palavra, Hanif Kureishi

A garota de Boston, Anita Diamant

Imperatriz Orquídea, Anchee Min

Cavalos roubados, Per Petterson

A garota no trem, Paula Hawkins

Pequena abelha de Chris Cleave

Guerra das Gueixas, Nagai Kafu

Cinco esquinas, Mario Vargas Llosa

Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie

O último amigo, Tahar Ben Jelloun

O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman

O fuzil de caça, Yasushi Inoue

Enclausurado,  Ian McEwan

Sapiens, Yuval Noah Harari

Moça com chapéu de palha, Menalton Braff

Toda lista é falha.  Há filtros: o que você já leu antes, seu momento emocional; se é um autor de quem você já gostou e se sente mais afável ao ler seu novo livro ou se é uma obra que toca em assuntos que são particularmente desconfortáveis. Tudo acaba entrando no julgamento.  Foram 44 livros, até dia 15 de dezembro de 2016. Aqui ficam os livros que permanecerão comigo, em minha memória, reverberando suas emoções, ensinamentos. Memórias gravadas.

as_aventuras_de_um_coracao_humano_1258491923bAs aventuras de um coração humano

William Boyd (UK, 1952)

Editora Rocco: 2008, 512 páginas

Sinopse

Um diário é escrito para reunir as várias facetas de uma personalidade. E, se comprometido com a verdade, mostra uma realidade conturbada e caótica, afinal, toda vida é feita de altos e baixos uma gangorra demasiadamente humana. Assim são os relatos do fictício Logan Gonzago Mountstuart, lembranças remendadas de uma vida que atravessou todas as décadas do século XX e que contam As aventuras de um coração humano.
Viajando o mundo Uruguai, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, EUA, Bahamas, Suíça, Nigéria a bordo das experiências do protagonista, Boyd constrói um personagem cativante e que seduz por completo o leitor com a sua trajetória, que alterna bons e maus momentos, como a de qualquer pessoa. Sob a forma de diários ficcionais compilados, com uma prosa fluida, situações verossímeis e entremeadas por fatos e pessoas reais, reflexões e riqueza de cenários, o livro traz um William Boyd em alto estilo, entretendo o leitor com ousadia.

o_ultimo_amigo_1327443063bO último amigo

Tahar Ben Jelloun (Marrocos, 1944)

Editora Bertrand: 2006, 128 páginas

Sinopse

Aconteceu em Tânger, cidade cosmopolita, no final dos anos 1950. Dois adolescentes, Ali e Mamed, conhecem-se no Liceu Francês, passam a andar juntos e se tornam amigos. Durante quase trinta anos, essa relação será afetada por mal-entendidos, duras provações sofridas juntos, ciúme disfarçado e traição. Essa amizade arrebatadora quase chega a se assemelhar a uma história de amor de final infeliz.

cavalos_roubados_1297118469bCavalos Roubados

Per Petterson (Noruega, 1962)

Editora Verus: 2010, 253 páginas

Sinopse

Neste romance contido e envolvente, Trond Sander, um homem de 67 anos, muda para uma região remota da Noruega, em busca da vida de contemplação silenciosa que sempre desejou. Um encontro casual com um vizinho – irmão, como ele descobre mais tarde, de seu amigo de infância Jon – lhe traz à memória o verão de 1948, que passou com seu adorado pai.
As lembranças de Trond se concentram em uma tarde em que ele e Jon saem para roubar cavalos de uma fazenda próxima. O que começa como uma emocionante aventura adolescente termina de forma abrupta e traumática. Confrontado com a descoberta do erotismo, da morte e da falsa harmonia familiar, Trond passa da adolescência à idade adulta em um único e fatídico verão.
“Cavalos Roubados” é um livro de rara intensidade dramática, habilmente construído em torno de segredos, buscas e perdas. As reminiscências do narrador no crepúsculo da vida e sua evocação de um verão inesquecível são líricas e vigorosas, revelando a prosa precisa e irresistível de um mestre da literatura.

12443009_1121336827886049_827048097_nO romance inacabado de Sofia Stern

Ronaldo Wrobel (Brasil, 1968)

Editora Record: 2016, 256 páginas

Sinopse

Autor de Traduzindo Hannah, livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, Ronaldo Wrobel constrói um thriller instigante neste novo romance. Na trama, o protagonista Ronaldo vive com a avó, Sofia Stern, em Copacabana. Ela é uma refugiada da guerra: nasceu na Alemanha em 1919 e veio para o Brasil às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Quando Ronaldo encontra um diário da avó perdido no apartamento, percebe que as histórias de sua juventude revelam paixões, traições e conflitos. Ele decide trazer os fatos à tona e embarca numa viagem para preencher as lacunas do relato.

o_fuzil_de_caca_1271098405bO fuzil de caça

Yasushi Inoue (Japão, 1907-1991)

Editora Estação Liberdade: 2010, 102 páginas

Sinopse

No Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa contemporânea.

Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.

O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.

sapiens__uma_breve_historia_d_1452391838439373sk1452391838bSapiens: uma breve história da humanidade

Yuval Noah Harari (Israel, 1976)

Ediitora L&PM:2015, 464 páginas

Sinopse

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo. O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Yuval Noah Harari aborda de forma brilhante estas e muitas outras questões da nossa evolução. Ele repassa a história da humanidade, relacionando com questões do presente. E consegue isso de maneira surpreendente. Doutor em história pela Universidade de Oxford e professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu livro não entrou por acaso nas listas dos mais vendidos de 40 países para os quais foi traduzido. Sapiens impressiona pela quantidade de informação, oferecida em linguagem acessível, atraente e espirituosa. Tanto que, na primeira semana de lançamento nos Estados Unidos, já figurava entre os mais vendidos na lista do The New York Times. Em Sapiens, Harari nos oferece não apenas conhecimento evolutivo, mas também sociológico, antropológico e até mesmo econômico. Ele se baseia nas mais recentes descobertas de diferentes campos como paleontologia, biologia e antropologia. E, especialmente para a edição brasileira, realizou algumas atualizações no final de 2014. Esta edição traz dezenas de imagens, mapas e tabelas que o deixam ainda mais dinâmico.

Quero ressaltar outros livros que foram do meu agrado, dos quais guardo boas lembranças, em ordem alfabética pelo título:

Enclausurado,  Ian McEwan

Esnobes, Julian Fellowes

A garota de Boston, Anita Diamant

Guerra das Gueixas, Nagai Kafu

Um homem chamado Ove, Fredrik Backman

Nora Webster, Colm Tóibin

O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman

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Resenha: “Balzac e a costureirinha chinesa”, Dai Sijie

28 11 2016

 

 

63-cao-quantang-mountain-villageAldeia montanhosa

Cao Quantang (China, 1957)

Aquarela e guache sobre papel

 

 

 

Reli neste fim de ano o livro Balzac e a costureirinha chinesa de Dai Sijie. Estou envolvida no projeto Eu também leio e uma das minhas funções é selecionar textos que adolescentes ou jovens adultos possam achar interessantes, fora das escolhas óbvias desse nicho de mercado.  Minha memória não anda tão má assim, este é um livro de que muitos jovens adultos poderão gostar.

Trata-se de dois rapazes de dezessete anos, citadinos, com famílias exercendo profissões liberais, que se encontram numa aldeia montanhosa, distante de tudo, ao serem mandados pelo regime de Mao Tse Tung  para trabalhos forçados, participando, contra a vontade, do sistema de re-educação conhecido como ‘Revolução Cultural’ da década de 1960 na China.

 

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São rapazes comuns.  Trazem com eles um conhecimento rudimentar da cultura ocidental. A esta altura tudo ocidental é proibido pela ditadura chinesa. Um deles toca violino, não muito bem.  Outro tem grande habilidade de contar histórias.  São essas pequenas habilidades, mal-ajambradas, e referências com o mundo ocidental, que os levam a aventuras em meio a um povo brutalizado pelo trabalho árduo e muita pobreza.  Nesse meio tempo os jovens conhecem a bela costureirinha da aldeia, assim como outro rapaz, filho de gente importante, que como eles faz o trabalho forçado de re-educação.  Mas este tem um segredo: acesso a livros de literatura ocidental, que trouxe escondido.

Muitas peripécias levam os rapazes a ter acesso a uma pequena obra  Balzac: Úrsula Mirouët.  Atraídos pela bela jovem costureira, eles se dispõem a recontar a história do romance que havia sido traduzido para o chinês, mas era obra proibida durante o governo de Mao.  O efeito da literatura ocidental, principalmente francesa é sentido quase imediatamente.   Mais tarde outros livros são lidos que semeiam a procura da felicidade e um sentido de liberdade na jovem costureira.

 

dai-sijieDai Sijie

 

A literatura como redentora não chega a ser um tema fora do comum.  Leitores e escritores estão cientes desse poder e com frequência gostam de reparti-lo, como acontece com os personagens dessa obra. Tudo indica que tem muitas passagens da própria vida do autor que, além de escritor, é diretor de cinema.  A importância da literatura francesa é  uma reflexão da própria vida do autor, que nascido na China, reside na França desde 1984.  Balzac e a costureirinha chinesa é leitura rápida, sem grande expectativa literária.  Agradável e pequeno, o livro serve para lembrar o poder da palavra escrita, e o poder de se conhecer outros mundos, vidas e personagens através dos livros.  Já faz mais do que muita coisa publicada por aí.

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Resenha: “O fuzil de caça” de Yasushi Inoe

22 11 2016

 

 

utamaro_-_kashi-bukuro_wo_motsu_san_bijinTrês mulheres japonesas, c. 1793

Kitagawa Utamaro (Japão, 1786-1864)

xilogravura policromada, 54 x 94 cm

 

 

2016 trouxe-me alguns livros pequeninos e impactantes.  Belos e sucintos.  Simples na aparência, complexos no que entregam. O fuzil de caça do escritor japonês Yasushi Inoue é um deles. Uma pequena obra prima, um diamante facetado pelas cinco vozes que o constroem.

Um poeta publica numa revista de caça, um poema-prosa, baseado na figura de um homem desconhecido que viu um dia numa paisagem de inverno com um fuzil nas costas.  Ele dá ao poema-prosa o nome: O fuzil de caça.  (Curiosamente o mesmo título da obra que temos em mãos.) O  poema pouco tem a ver com a temática da revista em que apareceu. O tempo passa. Eis que o poeta recebe uma carta de um leitor se identificando como o personagem daquele poema.  A carta e sucinta e direta não deixando muita informação sobre seu autor.  No entanto, ele recomenda ao poeta que leia as cartas num pacote que mandará em futuro próximo. para que entenda o que pensava naquela manhã de inverno. Dias depois o poeta recebe um pacote com cartas de três mulheres diferentes que endereçadas ao caçador descrevem-no de acordo com cada uma de suas visões: a sobrinha,a amante e a esposa.

 

o_fuzil_de_caca_1271098405b

 

É um jogo de espelhos.  Primeiro temos a visão do poeta sobre um homem desconhecido.  Lemos o poema-prosa e nós mesmos construímos um personagem, vagamente baseado no poema. Depois alguém se reconhece naquele poema.  E assim como o poeta, cujo nome não é revelado, fazemos novos conceitos sobre esse caçador através primeiro, de sua formalidade ao se comunicar depois nas vozes de três mulheres distintas, que a ele se dirigiam.  O jogo epistolar é fascinante e Josuke Misugi, personagem principal, emerge multifacetado. Que isso seja compreendido em 102 paginas é fenomenal.

 

yasushi-inoueYasushi Inoue

 

Esse foi o primeiro livro do autor que li.  E agora Yasushi Inoue irá para a lista de autores que preciso ler.  É autor de quase cinquenta obras e poucas estão traduzidas para o português, mas há muitas em inglês.  Não só ele me seduziu pela complexa construção dessa obra, pela ambiguidade deixada entre o texto publicado na revista e aquele que lemos, pelas vozes individuais de cada uma das mulheres; como ele também me impressionou pela beleza da linguagem e pelas elipses necessárias para construir em três dimensões o enigmático caçador.

Recomendo com prazer essa pequena obra.

 

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Resenha: “A garota no trem” de Paula Hawkins

18 11 2016

 

 

mujer_ventana_ysernMulher à janela do trem

Pere Ysern y Alié (Espanha, 1875-1946)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

A garota do trem de Paula Hawkins é um bom entretenimento, uma leitura rápida para um fim de semana chuvoso, com linguagem fácil e tema contemporâneo.  É história de suspense, que se baseia em grande parte nos problemas de memória da personagem principal  causados pelo excesso de bebida.  Divorciada, com autoestima em rápido declínio, Rachel passa os dias indo para um trabalho inexistente, com medo de admitir a outros e a si mesma que havia perdido o emprego.

Como tantos de nós, Rachel,  faz o mesmo caminho todos os dias.  Aos poucos começa a notar um casal que mora numa casa próxima ao caminho do trem e no mesmo bairro em que ela e o ex-marido também moravam.  Rachel imagina uma vida idealizada para eles.  Uma vida sonhada, com tudo o que poderia querer para si mesma.  Quando é surpreendida pelo desaparecimento da mulher, resolve entrar em cena e ajudar a polícia a resolver o mistério. Mas sua ajuda é atrapalhada em muito por sua falta de memória, consequência do permanente estado de embriaguez em que se encontra.

 

 

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É justamente esse problema que faz Rachel e o leitor não saberem desde o início as possibilidades de resolução do enigma sobre o desaparecimento da jovem que Rachel observava do trem.  A história, contada pelas três protagonistas: Rachel, a moça observada por ela e a nova esposa de seu ex-marido, rodopia à volta de um assunto igualmente importante para as três mulheres: maternidade. O desejo ou não de ser mãe;  a capacidade ou não de ser fértil são os temas que servem de gatilho para quase todas as ações das personagens femininas da obra.

Em contrapartida,  há no pano de fundo sinais de abuso que as três mulheres parecem sofrer ou ter sofrido. A mão carinhosa e protetora de um marido na nuca de sua esposa pode ser visto como um carinho, da distância de uma janela do trem, mas pode também ser o gesto ameaçador de um homem autoritário lembrando sua mulher da força física a que pode recorrer.  Ficamos sem saber, por  muito tempo como ler os sinais que nos afligem.

 

imagesPaula Hawkins

 

Tudo isso faz parte do suspense psicológico que anima esse thriller. Bem construído, de rápida leitura, é uma obra que entretém.  Mas não ficará na memória por muito tempo.  Sem consequência. Acredito que meu desapontamento venha também do fato de bem antes do mistério ter sido resolvido, eu tenha tido certeza do que acontecera.  Talvez não nos detalhes, mas no todo.  Está de férias, vai viajar de avião, precisa de um livro?  Leia esse. Ou melhor, vá ver o filme que não é nada mal.

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As possessões da classe alta, texto de Julian Fellowes

15 11 2016

 

 

antiquárioClarabela vai ao antiquário © Walt Disney.

 

 

“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.

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Resenha, “Guerra de gueixas” de Nagai Kafu

13 11 2016

 

 

kiseru-woodblock-print-geisha-dinner-1916Jantar de gueixas, 1916

Reprodução de gravura de Utagawa Toyokuni (Japão, 1769-1825)

xilogravura policromada, 17 x 26 cm

 

 

Não posso me considerar conhecedora de literatura japonesa. Kawabata, Murakami, Tanizaki, Kawakami, Matsuoka, Kirino, Inoue foram os únicos escritores lidos. Uma dúzia de obras, não me faz conhecedora. Particularmente quando se trata de uma de civilização milenar, repleta de biombos culturais, sussurros de entonação e gestos estudados.  Mas já li o suficiente para sentir que em Guerra de gueixas há uma diferença. A trama é contada com ritmo avançado, clareza de expressão, narrativa direta e descrições cândidas. Nagai Kafū economizou nas metáforas e tradicionais insinuações orientais. O resultado foi uma bela obra sobre um pequeno evento colocado num contexto franco e arrojado.

Depois de enviuvar Komayo, que havia sido gueixa, retorna à vida que tivera antes do casamento e participa da disputa por clientes para garantir boa sobrevivência no futuro. Nessa procura envolve-se com três homens e se vê no centro de uma competição com outras gueixas que, como ela, pensam em assegurar uma vida estável, nos dias em que a idade se mostrar como obstáculo. Procuram um único patrocinador. Komayo se depara, nessa competição, com uma escolha: proteção financeira sem amor ou uma paixão. Sozinha, suas escolhas determinarão o futuro. Não pode errar. Suas conquistas são objeto de ciúmes e inveja.

 

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Grande parte do que conheço sobre Shimbashi, o bairro das gueixas em Tóquio, veio através de obras de autores ocidentais, mais ou menos fascinados com o exotismo das gueixas, dos cerimoniais nas casas de chá, do teatro kabuki. Um grande livro que alargou o meu conhecimento sobre o assunto foi do escritor inglês Kazuo Ishiguro, Um artista do Mundo Flutuante. Mas Ishiguro escreveu também com conhecimento de segunda mão, já que passou a vida desde de os cinco anos  de idade na Inglaterra.  Pois, foi na obra de Nagai Kafū que vi o retrato do mundo flutuante por um escritor japonês descrito com desembaraço semelhante ao encontrado em muitas xilogravuras Ukiyo, abertamente sexuais. Em Guerra de gueixas a vida diária de Shimbashi é retratada sem romantismo, numa ostensiva rebeldia à habitual discrição sobre o assunto na terra do sol nascente.

Um dos pontos altos deste livro é o retratar das mudanças de comportamento na sociedade japonesa com a influência ocidental. A obra, lançada em 1916, é enraizada justamente nesse período de grande pujança econômica do país. Mas não faz qualquer menção aos grandes sacrifícios da população que caracterizaram a época entre o final do século XIX e a entrada do país na Segunda Guerra Mundial: as guerras contra a China e contra a Rússia. Isso só não empobrece o texto porque Nagai Kafū não se propôs a escrever um romance histórico, mas um obra de gênero. O que descobrimos são as pequenas maneiras em que a ocidentalização se dá na vida cotidiana da cidade.

 

nagai-kafuNagai Kafū

Guerra de gueixas é considerado um clássico da literatura japonesa moderna. Tem todo jeito de ser uma obra de transição, de um período em que a estética literária de Yasunari Kawabata se desloca para a de um Haruki Murakami. Ainda que Kawabata seja mais jovem, sua obra me parece mais ligada às tradições literárias nipônicas do que a de Nagai Kafū que o precedeu. Talvez isso seja só a visão de quem lê com os olhos do ocidente.  Mas sou pretensiosa ao fazer essa afirmação, consciente de meu conhecimento superficial de uma rica tradição literária.  A leitura de Guerra de gueixas é rápida, cheia de passagens memoráveis e de interessantes observações.  É leve. Tem um gosto de século XIX.  Mas vale muito a pena.  Devo ressaltar a bela edição da Estação Liberdade que dá gosto à leitura.  Recomendo.

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Resenha: “A última palavra” de Hanif Kureishi

10 11 2016

 

 

edward-burne-jones-gra-bretanha-1833-1898-georgianaGeorgiana, 1883

Edward Burne-Jones (Inglaterra, 1833-1898)

óleo sobre tela, 76 x 53 cm

 

 

Hanif Kureishi me conquistou, ainda na década de noventa, com The Buddha of Suburbia.  Seu humor rascante pareceu uma nova vertente na literatura inglesa contemporânea, diferente da que eu conhecia.  Nele combinavam típica ironia inglesa e crítica esfuziante desenvolvida por aqueles que sendo de casa ainda conseguem ver a sociedade com os olhos de fora, como acontece com membros da primeira geração pós imigração.  Tempos depois, soube que ele era o autor do roteiro de My Beautiful Laundrette um filme inesquecível.

Desde então me aproximo dos livros de Kureishi com simpatia e corri a ler A última palavra porque achei pela sinopse que a veia irônica do autor seria o tom preciso para gerenciar um tópico fascinante: um escritor jovem, ainda sem uma carreira definida, é chamado por um editor a fazer a biografia de um escritor famoso cujo brilho parece ter-se ofuscado nos últimos tempos.

Imediatamente percebi a riqueza do tópico.  Um jogo de espelhos deveria se desenrolar e como poderia ser revelador!  Uma obra sobre o significado e a criação da arte.  Hanif Kureishi é um desses escritores que fornecem maravilhosas citações. É comum ter frases ou parágrafos de sabedoria salpicadas em seus textos como pérolas de um colar desfeito. E realmente isso se tornou realidade durante essa leitura. Dezenas de pequenos lembretes post-it, coloridos, enfeitam hoje o texto do meu exemplar de A última palavra. Tenho uma enormidade de frases bem humoradas sobre diversos assuntos para uso posterior.  Hanif Kureishi entregou aquilo que sempre beneficiou seus textos: o pensamento crítico, a visão ácida.

 

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Exploramos com ele o confronto entre dois escritores, com projetos de vida diametralmente opostos. Um é velho e famoso.  Seu contraponto é jovem, à procura de fama: simpático e sociável; o oposto do biografado que se esconde do público. Enquanto um necessita bisbilhotar a vida do outro; esse se diverte ao esconder-se atrás de cortinas de fumaça. Ambos são insaciáveis no amor e ambos se representam a si próprios com os atributos do outro.

No entanto, a obra com humor ferino, crítica de costumes singular e retrato do mundo editorial implacável, que tinha potencial de ser inesquecível, não coalesce.  Fica longe do trabalho memorável da minha expectativa.  Ela se arrasta e se perde no caminho.  Entedia.  Não fosse eu uma dedicada leitora deste autor, poderia tê-la deixado de lado sem lástima. O texto é redundante.

 

hanif_kureishiHanif Kureishi

 

Talvez seu maior pecado seja uma trama bastante solta.  Nada prende o leitor. A obra, se fosse de alguém menos conhecido, teria dificuldade de ser publicada.  Pareceu escrita às pressas e sem o cuidado de seus outros livros.  Tem um fim inesperado que quase salva o esforço.  Se você nunca leu um livro do autor, este não deve ser o seu primeiro. Não o representa bem.  Mesmo assim, cheguei até o fim, o que é mais do que muitos livros que me atraem.





Quantos escritores suecos você já leu?

6 11 2016

Lido

moca-lendo-no-quarto-2012-johan-patricny-suecia-1976-ostMoça lendo no quarto, 2012

Johan Patricny (Suécia, 1976)

óleo sobre tela

Depois do grande sucesso do escritor sueco Stieg Larsson, quase ficou na moda lermos autores daquele país.  Hoje, rodando por aí me deparei com uma lista dos 10 livros que um site sueco considera “leitura obrigatória”.  Pensei que não fosse encontrar ninguém que eu conhecesse, nem nenhuma obra que eu tivesse lido.  Engano meu.

Aqui está a lista:

1 — “Feiticeira de Abril“, de Majgull Axelsson. Não encontrei em tradução no Brasil.

2 — “Simão e os Carvalhos” de Marianne Fredriksson.  Primeira surpresa, pois já li outro livro desta escritora em português, que é uma excelente história sobre três gerações de mulheres na Suécia. Chama-se Hanna e suas filhas, lido por meu grupo de leitura, Papalivros em 2004. E por coincidência tenho outra obra da escritora aqui em casa: edição americana, Simon’s Family, que ainda não li.  Está na fila de espera. Mas não tenho Simão e os Carvalhos que é outra obra.  Também traduzida para o inglês.

3 — “O ancião que saiu pela janela e desapareceu“, Jonas Jonasson.  Esse sim, lido. Também uma escolha do grupo de leitura. Lido em 2013.

4 — “A saga de Gösta Berling” de Selma Lagerlöf.  Procuras na internet me dizem que este título existe.  Mas não o encontrei nem à venda nas livrarias nem nos sebos.  Portanto acredito que este livro em particular tenha sido traduzido em Portugal e este seja o nome da obra do outro lado do Atlântico.  Mas… diversas obras de Selma Lagerlöf foram traduzidas, publicadas no Brasil e se encontram à venda em sebos, pois a autora foi ganhadora do Nobel de literatura em 1914.  Vou colocá-la na minha lista de futuras leituras.

5 — “Deixe ela entrar” de John Ajvide Lindqvist.  Surpresa.  Não o conheço.  Mas há uma meia dúzia de seus livros traduzidos, publicados e à venda no Brasil. Interessante.

6 — “A estrada” de Harry Martinsson, foi outra surpresa.  Mas diferente.  Não encontrei tradução de nenhuma de suas obras no Brasil e, no entanto, ele recebeu junto com o escritor Eyvind Johnson, também sueco, o Prêmio Nobel de 1949.  Aparentemente os editores brasileiros concordaram com os rumores de que havia algo não muito correto neste prêmio e não se deram ao trabalho de traduzir um título sequer.

7 — “Música Popular de Vittula” de Mikael Niemi é o próximo livro mencionado na lista.  Traduzido para o inglês como Popular Music, não tem edição brasileira.

8 — “Deixe-me cantar músicas suaves para você” é o título do livro de Linda Olsson que tampouco encontra publicação no Brasil, ainda que a autora tenha diversos livros publicados nos Estados Unidos.

9 — “Gente de Hemso” é o título da obra de August Strindberg escolhida como leitura essencial da Suécia. O autor já foi vastamente traduzido no Brasil.  Diversos de seus títulos encontram-se à venda.

10 — “Jogo sério”  de Hjalmar Söderberg é o título escolhido para essa lista.  Esta obra não se encontra em português, aqui no Brasil. Mas em 2014 foi publicada outra obra do autor, aqui no Brasil, que recebeu o título de Doutor Glas.  Traduzida provavelmente por seu conteúdo controverso abrangendo a eutanásia.

Ficam aqui essas sugestões de leitura.  Se você é como eu, está sempre à procura de alguma coisa interessante, diferente e boa para ler.  Talvez esse seja um começo interessante para nos aprofundarmos na Suécia.  Quero lembrar a lista está ordenada alfabeticamente pela inicial do último nome do escritor e não pelo conteúdo dos livros.

Querendo dar uma olhadinha no site: 10 swedish must read books.

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Palavras para lembrar — Francis Carco

31 10 2016

 

 

maria-sherbinina-moscou-russia-1965Lendo, 2005

Maria Sherbinina(Rússia, 1965)

óleo sobre tela, 72 x 80 cm

 

 

“Escrever aos vinte anos, é ter vinte anos. Escrever aos quarenta, é ser poeta.”

 

Francis Carco

 





Minutos de sabedoria: Nagai Kafu

24 10 2016

 

 

arie-azeneisrael-mulher-lendoMulher lendo

Arie Azene (Israel, 1934)

óleo sobre tela

 

 

“Não é arte se não tiver essa espécie de mágica que se cria no encontro entre o artista e o público.”

 

 

Nagai Kafu

 

nagai-kafuNagai Kafu (1879-1959)

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