Escuta, poesia de João Dantas de Souza

24 01 2025
Moça sentada com chapéu de palha, Giselle, ilustração de Elizabeth Shippen Green, 1916

 

Escuta

 

João Dantas de Sousa

 

(N’um Álbum.)

 

Vem cá, feiticeira, vem junto a meu lado,

Pois quero ao ouvido dizer-te um segredo…

Esquiva tu foges?… não fujas, louquinha;

Não vejo o que possa causar-te assim medo.

 

Tu dizes qu’eu fale? – já tu, por ventura,

Ouviste dizer-se segredos assim!

Há coisas que ao mundo ser devem ocultas;

Vem, pois, queridinha, não fujas de mim.

 

Sorris-te! Não brinques…- Se assim continuas

Então meu segredo não quero contar-te.

Escuta se queres; — são poucas palavras;

E julgo com elas não hei de enfadar-te…

 

Ao fim te chegaste…. Bem hajas! — Agora,

Escuta o segredo de teu trovador:

Eu te amo….» Que vejo? … tu foges corando!

Pois foge, que ao menos ouviste o melhor.

 

(1859)

 

Em: Poesias, João Dantas de Souza, Editora de Almeida, 1859.





Trova do sonho…

21 01 2025
Sonhos, Capa da Revista Saturday Evening Post, 15 de agosto de1959, ilustração de Constantin Alajalov.

 

 

Muitas vezes, embebido

em cismas tenho sonhado

que a vida é um sonho comprido

que a gente sonha acordado!

(Ferreira Gullar)





Cartas que me devolveste rasgadas, soneto de Alfredo de Barros

18 01 2025

Els Bleekrode lendo na cama,1936

Meijer Bleekrode (Holanda,1896-1943)

óleo sobre tela, 101 x 78 cm

 

 

Cartas que me devolveste rasgadas

 

Alfredo de Barros

 

Se é tudo quanto tens pra me dizer,

Fora melhor calar essa atitude.

Tinha mais graça e tinha mais virtude

Se m’o desses apenas a entender.

 

Se em teu amor por vezes eu não pude

O sentido dum gesto compreender,

— Propósitos de nunca responder

Têm um alcance que a ninguém ilude.

 

Tranquilamente, como sol que finda,

Morria o sonho sem olhar ainda

Para o rasto deixado antes de si. . .

 

Assim, talvez jamais acreditasse

Que só por ter beijado a tua face

Andei louco de amor atrás de ti.

 

 

Em: Versos de cinzas, Alfredo de Barros, Lourenço Marques {Maputo], 1946





Historinha, poesia infantil de Galvão Queiroz

13 01 2025
Historinha

 

Galvão Queiroz

 

Mamãe lavava a gilete

que o Papai vinha de usar,

na pia junto ao toalete,

para, depois, ir guardar.

 

Chacuca que observava

tudo o que a mamãe fazia,

muito pensativo olhava

a água jorrando na pia.

 

De repente diz: Mãezinha,

quando eu crescer, vou usar,

como o Pai, essa enxadinha

pra meu queixo capinar?

 

Em: Almanaque Tiquinho, 1955, página 61





Esboço, poesia de Fausto Guedes Teixeira

9 01 2025
Ilustração de Charlotte Harding (EUA, 1873-1951)
 
Esboço

 

Fausto Guedes Teixeira

 

Negro o cabelo, a fronte iluminada,

O nariz curvo, a boca pequenina,

Nos olhos escuríssimos cravada

Uma estrela no fundo da retina.

Nas faces uma rosa desmaiada

E outra rosa nos lábios purpurina,

Seus pequeninos pés os duma fada

E o seu corpo um corpinho de menina.

Todos os traços cheios de expressão,

Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,

Porque eu lhe pus nas mãos o coração.

Eis o esboço rápido daquela

Que, sempre que na vida alguém a veja,

Nunca mais vê ninguém senão a ela!





Trova do caminho

6 01 2025
Ilustração, 2007,  Yan Nascimbene (França)

 

 

Quando há pedras nos caminhos,
não fujo rumo aos atalhos,
sou daqueles passarinhos
que não temem espantalhos.

(Ney Damasceno)





Para o Ano Novo: Cântico XIII de Cecília Meireles

3 01 2025

Leitura matutina, 2010

Roberto Ploeg (Holanda,Brasil, 1955)

óleo sobre tela

 

Cântico XIII

 

Cecília Meireles

 

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

 

Em: Cânticos, Cecília Meireles, São Paulo, Moderna: 1981





Prêmio Leitura com Chocolate: Melhor de poesias do ano 2024!

2 01 2025

O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024.  Muitíssimo obrigada!





Meu ano de leituras visto pelo Goodreads

19 12 2024

Ontem eu recebi como sempre recebo o relatório das minhas leituras de acordo com o Goodreads.  Infelizmente esse relatório não inclui alguns livros que li, de autores brasileiros que não adicionaram ou que suas editoras não se deram ao trabalho de adicionar seus livros no cabedal do portal.  Então, menos esses livros que escaparam, li até dia 5 de dezembro de 2024, 46 livros como podem ver, para um total de 11.806 páginas.  Estou entre os 25% de leitores que mais leem.  Não sei minha posição nesses 25%, mas não deve estar no topo, por mais que possa parecer que li muito.  Conheço bem outros leitores inveterados.

 

 

O livro mais longo que li em 2024 foi a ficção científica, excepcional de Stephen King, chamada 22 de Novembro de 1963, que foi o dia do assassinato do Presidente Kennedy nos Estados Unidos. O livro tem como estrutura realidade quântica. Vamos e voltamos dessa data aos dias de hoje com alguma frequência e prende a atenção como nenhum outro livro. Devora-se suas 1200+ páginas sem receio.

Na lista deles, tenho seis livros a que dei cinco estrelas, ou seja o máximo que poderia ter dado. Na verdade em dezembro entrei com outro livro, mas esse deve ser considerado no ano que vem, imagino.

Descobriram também que dos 46 livros lidos, os meu favoritos caem nos seguintes segmentos: Ficção, Não ficção e Ficção Histórica.

Pertenço também ao portal brasileiro Skoob que é semelhante ao Goodreads. Mas o Skoob não nos manda um relatório das nossas leituras ao final do ano. Pelo menos nunca me mandaram. No Skoob, no momento eu tenho 1022 livros lidos e 347 resenhas.

E você? Tem sua página em algum desses dois portais? Se gostam de ler, não seria bom ter um relatório de tudo que você leu durante o ano?

Fica aqui a sugestão.





Poema com pena, de Almir Correa

17 12 2024
Poema com pena

Almir Correa

 

Fiz um poema

e não sei se vale a pena

poemar.

É um poema com pena

pena do céu

pena da terra

pena do mar.

Não tem mais pena de índio

Porque índio já não se acha em nenhum lugar.

Mas ainda tem

pena de arara azul

pena de galinha sem cabeça

pena de pato pateta.

Tem tanta pena

pena até de travesseiro.

Só não tem pena nenhuma do burro

porque burro não tem pena.

 

Em: Poemas Malandrinhos, Almir Correa, São Paulo, Atual:1992