Sua paixão
Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014
Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.
–
©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014
Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)
Óleo sobre tela, 54x 72 cm
Coleção Particular
Leblon. Fim de madrugada. Manhã escura de outono. O sol às minhas costas acorda preguiçoso. De onde estou não distingo nem mar, nem céu. Só escuridão. Diversos tons de cinza me envolvem. O horizonte se apaga na distância. Resta a sombra assustadora, enegrecida e fria, soturna e altaneira do penhasco Dois Irmãos. Será um belo dia, céu limpo. E, no entanto, quando a luz se faz brilhar, não consigo esquecer a impávida presença da pedra fria, fatídica, nefasta, molhada, sinistra e escarpada, guardiã eterna do meu paraíso.
Nem tudo é festa no Rio de Janeiro.
©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2014
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Clotilde gosta de um dia de sol, ilustração Maurício de Sousa.–
Estava chuvoso o dia,
e veio o sol de repente,
assim, como uma alegria
entrando na alma da gente.
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(Augusta Campos)
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Chico Bento está triste, ilustração de Maurício de Sousa.–
Tudo passa nesse mundo,
tudo na vida tem fim,
só não terminam as horas
que vives longe de mim.
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(Geraldo Alvim)
Ilustração Belli Studio.
Jorge Sousa Braga
Ele sabe palrar
Cacarejar
Arrulhar
Gorjear
Mugir
Vagir
Zunir
Latir
Berrar
Miar
Bramar
Chiar
Uivar
Ladrar
Rosnar
Grunhir
Zumbir
Rugir
Balir
Zurrar
Coachar
Chilrear
Grasnar
Cricrilar
Crocitar
E também sabe
Falar
Seja a língua que for
Até já o contrataram
Para o jardim zoológico
Como tradutor
Em: Poemas com Asas, Lisboa, Assírio & Alvim: 2001
Uma jovem de classe, s.d.
William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)
Aquarela e lápis sobre papel
J. Dantas de Sousa
Por que em tua face angélica,
Meiga donzela formosa,
A cor purpúrea da rosa
Foi gratamente pairar
Quando outro dia eu em dúvida
Junto de ti quase a medo
Fui de minh’alma um segredo
Em segredo te falar?
Com sorriso terno e cândido,
No seio a fronte pendida,
Dizes não saber, querida,
Porque mudas-te de cor;
Pois eu sei: — mimosa, ingênua,
Tu coraste, feiticeira,
Por essa a vez primeira
Que ouvias falar d’ amor.
Dize agora: se os meus lábios
Abrasados de desejos
Aos teus furtarem mil beijos
Hás de corar como então?…
Ai, não respondes; mas, lânguidos,
Dizem teus olhos brejeiros
Que hás de corar…aos primeiros:
Mas aos segundos — já não…
(Setembro de 1859)
Em: O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17, 23 de outubro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 107.
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Falta de educação, cartão postal de Margret Boriss.–
Não tenho medo, em verdade,
do corisco ou do trovão;
bem mais forte é a tempestade
que trago no coração! …
–
(Eva Reis)
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Ilustração para o Festival de San Remo, de Walter Molino, Corriere della Sera, Fevereiro 1961.–
Marcados por desenganos,
na busca de um céu aberto,
meus olhos são quais ciganos,
nunca têm destino certo.
–
(Ilza Tostes)
Henriqueta Lisboa
Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.