Êta mulher jogo duro!
Por mais que eu implore e tente,
não me garante o futuro…
Só quer saber de … presente!
(João Costa)
Êta mulher jogo duro!
Por mais que eu implore e tente,
não me garante o futuro…
Só quer saber de … presente!
(João Costa)
Ilustração Roger Wilkerson.
Nas lojas sempre envolvido,
não tem crédito jamais…
– ou por ser desconhecido,
ou conhecido demais !…
(Rodolpho Abbud)
Sydney Anne Neuwirth (EUA, contemporânea)
aquarela sobre papel, 75 x 60 cm
Flora Figueiredo
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
ma não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou para trás.
Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 49
John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Precisa-se de uma bola de cristal
que mostre um futuro grávido de paz:
que a paz brilhe no escuro
com o brilho especial que algumas
palavras possuem
mas que seja mais do que a palavra,
mais do que promessa:
seja como uma chuva que sacia a sede da terra.
Em: Classificados Poéticos, Roseana Murray, Belo Horizonte, Miguilim:1984, 17ª edição, p. 38
Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004
Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 150 x 60 cm
Odylo Costa Filho
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Atravessa o quintal e pula o muro.
E entre morte do luar e a luz da aurora
parte na antemanhã, ainda no escuro.
Bebe as velhas fachadas, as cidades
que a água penetra, ameiga e acaricia;
e nelas o sinal de outras idades
gosto de vinho velho em novo dia.
Quando cessar a febre das viagens
e cansares de tudo — das paisagens,
de ignotas gentes e de virgens praias —
volta aos brejos natais. Arma tua rede
em pleno campo. E mata tua sede
de pureza nas grandes sapucaias.
Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58
NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.
É comum nas despedidas
depois dos risos e abraços,
ficarem almas feridas
e corações em pedaços.
(Décio Valente)
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela
Jorge de Lima
ERA UM POEMA frequente,
repetido,
com o menino nos braços
de uma virgem.
Desse poema presente
e sempre ouvido,
os tempos e os espaços tinham origem,
pois à origem do poema
sempre havia
essa virgem e o infante
e a poesia.
E era o início e era a extrema
da criação,
era o eterno e era o instante
da canção.
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58
Ilustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.
Afonso Louzada
Depois de acumular barras e barras de ouro,
a formiga, afinal, sentiu o último alento,
pesarosa, talvez, como bom avarento,
de não poder levar consigo o seu tesouro.
–“A minha vida foi um trabalho incessante!
Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”
Naquele mesmo dia, estranha coincidência,
exausta de cantar, a boêmia da cigarra
o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,
à vida que levara, ao léu, sempre na farra.
— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,
que a vida é só amor; o resto não é nada!”
E, juntas, para o céu elas foram subindo.
A cigarra cantava, estuante de alegria:
— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”
— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.
Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;
o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”
— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,
a alegria da vida, a alegria do amor”.
— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”
Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:
–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.
Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,
sob a fascinação do canto da cigarra)
se levaste, afinal, uma vida bizarra
alegraste, porém os corações aflitos
que sangravam de dor, dos humanos precitos”.
… E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,
abriu para a cigarra as portas do Paraíso.
Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.
[esposa do pintor]
Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)
pastel sobre papel, 36 x 36 cm
Eu não explico a ninguém,
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(Gilka Machado)