Trova da conquista difícil

3 02 2015

 

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Êta mulher jogo duro!

Por mais que eu implore e tente,

não me garante o futuro…

Só quer saber de … presente!

 

(João Costa)





Trova do crédito duvidoso

27 01 2015

 

loja homemIlustração Roger Wilkerson.

 

Nas lojas sempre envolvido,

não tem crédito jamais…

– ou por ser desconhecido,

ou conhecido demais !…

 

 

(Rodolpho Abbud)





Sob o esplendor do céu da Guanabara, poema de Rômulo C. Wanderley

20 01 2015

 

ARAUJO LIMA - Baia da Guanabara, vista do Morro Dona Marta óleo sobre tela, 32X44cmBaía de Guanabara vista do Morro D. Marta, s/d

Araújo Lima (Portugal/Brasil, 1883-1958)

óleo sobre tela, 32 x 44 cm

 

 

Sob o esplendor do céu da Guanabara

 

Rômulo C. Wanderley

 

 

Seria para mim uma aventura rara

se o Destino, ficando mais amigo,

deixasse contigo

viver, tranquilamente, o nosso amor,

sob o edênico esplendor

do céu da Guanabara.

 

Céu azul, que recorda o Norte do Brasil,

e, às vezes, a manhãs da fria Escandinávia…

E como um artista apaixonado, eu traçaria

o teu gracioso perfil

junto à Pedra da Gávea.

 

Depois,

bem felizes os dois,

inebriados diante da paisagem,

e ardendo ao calor desse profundo amor,

cairíamos febris, em frente ao mar,

para amar…

para amar…

 

Rio – Novembro 1950

 

Em: Panorama da Poesia Norte- Rio-Grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 83





A pedidos, poesia de Flora Figueiredo

18 01 2015

 

Sidney Neuwirth, jovem ruiva escrevendo, aquarela 75 x 60 cmJovem ruiva escrevendo

Sydney Anne Neuwirth (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel, 75 x 60 cm

www.sydneyneuwirth.com

 

 

A pedidos

 

Flora Figueiredo

 

 

Querem um verso,

mas não sou capaz.

Vejo a palavra fraturar

as entrelinhas,

tento soldá-las,

ma não são minhas.

Rompeu-se o verbo

e me deixou para trás.

 

 

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 49

 





Precisa-se de uma bola de cristal, poesia de Roseana Murray

10 01 2015

 

waterhouse_the_crystal_ball_skullA bola de cristal, 1902

John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Precisa-se de uma bola de cristal

que mostre um futuro grávido de paz:

que a paz brilhe no escuro

com o brilho especial que algumas

palavras possuem

mas que seja mais do que a palavra,

mais do que promessa:

seja como uma chuva que sacia  a sede da terra.

 

 

Em: Classificados Poéticos, Roseana Murray, Belo Horizonte, Miguilim:1984, 17ª edição, p. 38





Viagem, poesia de Odylo Costa Filho

27 12 2014

 

 

Eduardo Cambuí Figueiredo Junior (Brasil, contemporâneo)Av. Paulista com Rua Pamplona, 2004, Óleo sobre tela - 150 x 60 cm - 2004Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004

Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 150 x 60 cm

 

 

Viagem

 

Odylo Costa Filho

 

Mote:
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Alphonsus de Guimarães Filho

 

 

Veste o terno mais velho, e vai-te embora.

Atravessa o quintal e pula o muro.

E entre morte do luar e a luz da aurora

parte na antemanhã, ainda no escuro.

 

Bebe as velhas fachadas, as cidades

que a água penetra, ameiga e acaricia;

e nelas o sinal de outras idades

gosto de vinho velho em novo dia.

 

Quando cessar a febre das viagens

e cansares de tudo — das paisagens,

de ignotas gentes e de virgens praias —

 

volta aos brejos natais. Arma tua rede

em pleno campo. E mata tua sede

de pureza nas grandes sapucaias.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58

 

NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.

 





Trova da despedida

22 12 2014

 

adeus. susan jaekel

Adeus, Ilustração de Susan Jaekel.

 

É comum nas despedidas

depois dos risos e abraços,

ficarem almas feridas

e corações em pedaços.

 

(Décio Valente)





Poema de Natal, Jorge de Lima

21 12 2014

 

Aldemir Martins, natividade, ost, 1969Natividade, 1969

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

 

 

Poema de Natal

Jorge de Lima

 

 

ERA UM POEMA frequente,

repetido,

com o menino nos braços

de uma virgem.

Desse poema presente

e sempre ouvido,

os tempos e os espaços tinham origem,

 

pois à origem do poema

sempre havia

essa virgem e o infante

e a poesia.

E era o início e era a extrema

da criação,

era o eterno e era o instante

da canção.

 

Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58





A formiga e a cigarra, poesia de Afonso Louzada

18 12 2014

 

la cigale et la fourmiIlustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.

 

 

A formiga e a cigarra

 

Afonso Louzada

 

 

Depois de acumular barras e barras de ouro,

a formiga, afinal, sentiu o último alento,

pesarosa, talvez, como bom avarento,

de não poder levar consigo o seu tesouro.

 

–“A minha vida foi um trabalho incessante!

Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

 

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,

exausta de cantar, a boêmia da cigarra

o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,

à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

 

— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,

que a vida é só amor; o resto não é nada!”

 

E, juntas, para o céu elas foram subindo.

A cigarra cantava, estuante de alegria:

— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”

— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

 

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;

o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”

 

— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,

a alegria da vida, a alegria do amor”.

 

— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”

Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

 

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.

Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

 

sob a fascinação do canto da cigarra)

se levaste, afinal, uma vida bizarra

 

alegraste, porém os corações aflitos

que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

 

…  E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,

abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

 

 

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.

 





Trova do meu bem

16 12 2014

 

Mulher, 1905,Stanislaw Wyspianski, esposa do pintor,pastel, 36x36Mulher, 1905

[esposa do pintor]

Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)

pastel sobre papel, 36 x 36 cm

 

 

Eu não explico a ninguém,

pois ainda não compreendi

porque te chamo meu bem

se sofro tanto por ti.

 

(Gilka Machado)