Em meu jardim, poesia de Afonso Louzada

22 09 2015

 

 

jardinagem, jardim, carrinho, Joseph B. Platt,House and Garden 1925-03Ilustração de Joseph B. Platt, Revista House and Garden, março de 1925.

 

 

Em meu jardim

 

Afonso Louzada

 

Artista jardineiro, enamorado

do encanto policrômico das cores,

em meu jardim plantei todas as flores

a que dei meu amor mais desvelado:

 

rosas de um rubro vivo, das mil dores

do acicate cruento do pecado;

lírios de um branco puro, imaculado,

da virginal pureza dos amores.

 

E sob o meu carinho, todo dia,

como nenhum outro jamais faria,

tudo medrou, cresceu, floriu, enfim.

 

Só vós que sois das flores a princesa,

entre rosas e lírios, com certeza

não quisestes florir no meu jardim.

 

 

Em: Templo Abandonado, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1945, p. 31





Cântico das árvores, poesia de Olavo Bilac, no Dia da Árvore

21 09 2015

 

 

Plantar, Britta Barlow, GoodHousekeeping1927-05Ilustração de Britta Barlow, Revista Good Housekeeping, maio de 1927.

 

 

Cântico das árvores

 

Olavo Bilac

 

 

Quem planta uma árvore enriquece

A terra, mãe piedosa e boa:

E a terra aos homens agradece,

A mãe os filhos abençoa.

 

A árvore, alçando o colo, cheio

De seiva forte e de esplendor

Deixa cair do verde seio,

A flor e o fruto, a sombra e o amor.

 

Crescei, crescei na grande festa

Da luz, de aroma e da bondade,

Árvores, glória da floresta!

Árvores vida da cidade!

 

Crescei, crescei sobre os caminhos,

Árvores belas, maternais,

Dando morada aos passarinhos,

Dando alimento aos animais!

 

Outros verão os vossos pomos:

Se hoje sois fracas e crianças,

Nós, esperanças também somos

Plantamos outras esperanças!

 

Para o futuro trabalhamos:

Pois, no porvir, novos irmãos,

Hão de cantar sob estes ramos,

E bendizer as nossas mãos!

 

-x-

Este poema foi musicado pelo maestro Francisco Braga.

 

Em:  Apologia da árvore, Leonam de Azeredo Penna, Rio de Janeiro, IBDF: 1973, p. 137.

 





Trova de sua ofensa

18 09 2015

 

 

casal enamorado

 

 

Ser seu amigo é um valor

que para mim não compensa,

para quem deseja o amor,

a amizade é quase ofensa.

 

(Arlindo Tadeu Hagen)





Escola, poesia de Armindo Rodrigues

17 09 2015

 

 

ESCOLA Michael Peter Ancher (1849 – 1927, Danish) a-village-school-in-skagenEscola em vilarejo de Skagen

Michael Peter Ancher (Dinamarca, 1849-1927)

óleo sobre tela

 

 

Escola

 

Armindo Rodrigues

 

 

Os meninos estão sentados

com um ar baço de tédio

e entre os meninos eu,

eu de mim, menino, lembrado,

mas já distante sem remédio.

 

De novo, menino, oiço

a voz vagarosa e dura

do professor a repetir.

a repetir, como um baloiço,

a mesma pergunta obscura.

 

De novo, menino, fujo,

embora imaginariamente,

da aula monótona e parada

e me perco no pó da estrada

à minha própria procura.

 

 

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 55





Trova das borboletas

14 09 2015

 

menina com flores, phyllis m purserIlustração Phyllis M. Purser.

 

 

Tão lindas, de várias cores,

vivem na terra e no ar:

as borboletas são flores

que aprenderam a voar.

 

(Edmilson Ferreira Macedo)





Dois ursos, poema do mestre Sufi, Hafiz

12 09 2015

 

 

m_Tricycle-Bear_tIlustração de Jenny Keith Hughes.  [www.jennykeithhughes.com]

 

 

Dois ursos

Hafiz  (Pérsia, 1320-1389)

 

 

 

Uma vez

Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos

Dois ursos se sentaram em silêncio

Em uma bela paisagem

Observando o sol se por

E se sentindo profundamente gratos

Pela vida.

 

Mas, depois de algum tempo

Uma conversa interessante começou

Versando o tópico da

Fama.

 

Um dos ursos disse,

“Você ouvir falar do Rustam?

Ele ficou famoso

E viaja de cidade em cidade

Numa jaula dourada;

 

Ele faz exibições para centenas de pessoas

Que riem e aplaudem

Suas piruetas

No circo.”

 

O outro urso pensou

Por alguns segundos

 

Então começou

A chorar.

 

 

Tradução Ladyce West, do inglês

 

Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.





Andorinha, poesia de B. Lopes

1 09 2015

 

 

SwallowOcean-GraphicsFairy1Cartão postal, virada do século XX.

 

 

Andorinha

 

Bernardino Lopes

 

Estes versos já passaram pela boca estelífera da minha amada, aos acordes doces e trêmulos do violão chorando sob seus dedos…

 

Andorinha que fizeste

Ninho em minh’alma, uma tarde,

E que andas no azul celeste

Cantando e fazendo alarde;

 

Que, em horas de forte calma,

Bebeste das crenças minhas,

Fazendo assim de minh’alma

Ribeirão das andorinhas;

 

Dize lá: por que não voltas

Ao teu recôndito abrigo,

Peregrina de asas soltas

Que pelas nuvens eu sigo?

 

Por que vives pelos ares,

Oh! alma de pirilampo!

Quando há frutos nos pomares

E tanta flor pelo campo?

 

Foge do pranto e do frio,

As leves penas abrindo…

Olha o teu ninho vazio,

Sonho emplumado, e vem vindo…

 

Vem, recortando  os espaços,

Num saudoso devaneio,

Cair tremente em meus braços,

Dormir tranquila em meu seio!

 

Ah! já não vens, de asa espalma,

Saciar-te em mim, como vinhas…

Era então esta minh’alma

Ribeirão das andorinhas!

 

(Val de Lírios, Laemmert & Cia., Rio de Janeiro, 1900, pág. 119-121)

 

Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 132-133.





“Advinha”, de Leonel Neves

24 08 2015

 

 

coelhinho  tibúrcio com cenoura, Belli StudioCoelhinho Tibúrcio com cenoura, ilustração Belli Studio.

 

Advinha

 

Leonel Neves

 

Com quatro patinhas, o rabo curtinho,
Orelhas compridas, peludo – é verdade –
E sempre a mexer o nariz quando come,
Louco por cenouras e alfaces, louquinho,
Há tanto no campo como na cidade.

 

O nome não digo. Qual é o seu nome?

 

 

Em: Bichos de trazer por casa: poemas para crianças, Lisboa, Livros Horizonte: 1981, 3ª ed.





Cantiga da lavadeira, poesia de Mauro Mota

19 08 2015

 

 

Homero Massena (Brasil, 1886-1969) Lavadeiras, ost, sdLavadeiras, s.d.

Homero Massena (Brasil, 1886-1974)

óleo sobre tela

 

 

Cantiga da Lavadeira

 

Mauro Mota

 

 

Libertos da trouxa tremem

as calças e os paletós.

Doem na pedra pano e carne

sem anotações no rol.

 

Canto azul da lavadeira

lavado na ventania.

Mistura de corpos gastos,

de sabão, espuma e anil.

 

O suor da blusa operária

(chora o lenço de Maria)

Transita o amor pela anágua.

geme o lençol de agonia.

 

O sonho dorme na fronha,

a camisa precordial,

nódoas da fome da criança

na toalha da mesa oval.

 

Nas águas têxteis do rio,

há sabor de sangue e sal.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 80.

 





Quadrinha da laranjada

12 08 2015

 

lanche, leonard shortallIlustração, Leonard Shortall.

 

Quando faz muito calor

Em lugar de água gelada

É melhor para a saúde

Uma boa laranjada

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965