Mui decentes eu não acho
teus vestidos minha prima:
são altos demais em baixo,
são baixos demais em cima!
(Belmiro Braga)
Mui decentes eu não acho
teus vestidos minha prima:
são altos demais em baixo,
são baixos demais em cima!
(Belmiro Braga)

Olavo Bilac
Ano-Bom. De madrugada,
Bebê desperta, e, assustada,
Avista um vulto na cama.
Que será? Que medo! E, tonta,
Eis que Bebê se amedronta,
Chora, grita, chama, chama…
Mas, quando se abre a cortina,
Quando o quarto se ilumina,
Bebê, de pasmo ferida
Vê que o medo não é justo:
Pois a causa de seu susto
É uma boneca vestida.
Que linda! é gorda e corada,
Tem cabeleira dourada
E olhos cor do firmamento…
Põe-na no colo a criança,
E de olhá-la não se cansa,
Beijando-a a todo o momento.
Nisto a mamãe aparece.
Como Bebê lhe agradece,
Com beijos, risos e abraços!
— Porém, logo, de repente,
Diz à mamãe, tristemente,
Prendendo-a muito nos braços:
“Mamãe! como sou ingrata!
“Com tantos mimos me trata,
“Tão boa, tão dedicada!
“Dá-me vestidos e fitas,
“Dá-me bonecas bonitas,
“E eu, mamãe, não lhe dou nada!…
“Tolinha! (a mãe diz, num beijo)
“As festas que eu mais desejo,
“Ó minha filha, são estas:
“A tua meiga bondade
“E a tua felicidade…
“Não quero melhores festas!”
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 98-100
Não te desvies da estrada,
buscando atalhos bisonhos;
a vida não vale nada
se sufocares teus sonhos…
(Ercy Maria Marques de Faria)
O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.
(Dorothy Jansson Moretti)
Bastos Tigre
—Ora um beijo… afinal que custa um beijo?
Eu não digo que o dês a toda gente;
Porém a mim, se se apresenta o ensejo,
Por que mo negas, peremptoriamente?
Lábios juntos… zás-trás! E o meu desejo
Satisfeito! É tão rápido!… Consente!
Nenhum grande pecado eu nisso vejo;
E que fosse! O bom Deus é complacente…
— Não dou, já disse! E grito se mo deres!
— Bem, não faças tamanho espalhafato…
(Beijos não faltarão, haja mulheres!)
Mas, meu benzinho, vamos ser cordatos;
Como é que a dar-me um beijo, tu preferes
Dá-los na boca ignóbil dos teus gatos?!…
Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, Volume 2, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982, pp, 389-90
O casamento, [A boda], 1792
Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)
óleo sobre tela, 269 x 396 cm
Museu do Prado
Reynaldo Valinho Alvarez
Diante de Goya, no Museu do Prado,
vejo sombras que as sombras circundantes
parecem reencarnar. Voltando à rua,
vou para o centro velho. Nestes rostos
que me fitam ou não, há retrarados
do mesmo Goya. Sombras tão goyescas
quanto as sombras que vi entre outras sombras.
Assombra-me o prodígio ao sol ardente
de uma Espanha estival. Que liame estreita
os vínculos dos tempos num só tempo?
Que força une as cadeias com que Cronos
ligou as mãos de tantos entre os séculos?
Agora encaro a praça e vou contando,
como os níqueis do bolso, tantos Goyas.
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59
NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.
Jardim
Henriqueta Lisboa
— Menina faceira
de laço de fita
não vás tão bonita
sozinha ao jardim.
Se pensar Beija-Flor
que teu laço é flor,
pelos ares levará
um anel dos teus cabelos.
— Mamãe, não tenha cuidado,
eu sei dar laço bem dado.
— Menina trigueira
de faces vermelhas
no jardim sem teu irmão
não fiques, não.
Se Beija-Flor imagina
que teu rosto é flor,
menina, minha menina,
de certo um beijo te dá.
— Quando ele me der um beijo,
nas minhas mãos estará.
Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66
Telefonei-te, outro dia
e ninguém me respondeu.
Confundi-me, que ironia!
— Teu telefone era o meu.
(Alberto Lima)
Henriqueta Lisboa
Chegam de manso, de manso,
finos pescoços esticam,
deslizando, deslizando,
ferem o espaço com o bico,
deslizando
na superfícies do vidro.
O espelho da água que ondula
reflete frocos de arminho
(arminho, paina, algodão).
E as nódoas brancas no azul
são delicadas carícias,
recordam jardins de inverno
quando há lã, cristais e neve.
Na lagoa muito fria,
sob o ouro do sol que brilha,
mora um céu:
navegam nuvens, navegam …
Doçura da hora que escoa
vagarosa, deslizando
como um pato na lagoa…
Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60