Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





Cantiga, poema de Jair Amorim

6 09 2014

 

moça com sombrinha, Neysa McMein,AmericanMagazine 1925-08Moça com sombrinha, Ilustração de Neysa McMein, American Magazine, Agosto de 1925 [DETALHE].

 

 

Cantiga

 

Jair Amorim

 

Pensamento, pensamento,

mais veloz que um pé de vento

mais sonhador que um detento

mais duro que um sofrimento

mais forte que um juramento

mais feroz e violento

que o pranto de um sentimento.

Pensamento, pensamento,

cadê forças, onde o alento,

para tirar um momento

a amada do pensamento?

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995 (?), p. 41

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Trova da sabedoria do xadrez

5 09 2014

 

Diana de Méridor. Chess is ArtDiana de Meridor (personagem de Alexandre Dumas) em jogo… Ilustração de autoria desconhecida.

 

 

O xadrez repete a vida

em sucessivas lições:

quando a nobreza é atingida

sacrificam-se os peões.

 

(Sinval Emílio da Cruz)





Trova das nossas mentiras

3 09 2014

 

espera, ilustração de Blanche Fisher WrightIlustração Blanche Fisher Wright.

 

 

Eu volto um dia — juraste.

Não te espero — me zanguei.

— Mentiste: nunca voltaste…

Menti: eu sempre esperei…

 

(Cícero Acaiaba)

 

 





Caboclo Espirituoso, história contada em versos

1 09 2014

 

 

péChico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.

 

Caboclo Espirituoso

[de uma história contada por meus avós]

 

 

Walter Nieble de Freitas

 

 

“Nhô” Vicente, certo dia,

Montando o lindo alazão,

Foi fazer uma visita

Ao compadre Sebastião.

 

Cavalgou horas e horas,

Chegou ao entardecer:

Sua barriga roncava

De vontade de comer!

 

Ao vê-lo abrir a porteira,

“Nhô” Sebastião diz contente:

— Até que um dia compadre,

Você se lembrou da gente!

 

Apeie, vamos chegar.

Não repare na palhoça.

Como é que vai a comadre?

Vá entrando que a casa é nossa!

 

Tenho muito o que contar,

Sente-se aí no banquinho.

Você sabe que morreu

A mulher do Vadozinho?…

 

Também, a sogra do Zeca,

A jararaca mordeu:

A velha não sentiu nada

E a pobre cobra morreu!…

 

Sem perceber que a visita,

De fome quase morria,

“Nhô” Sebastião, na conversa,

Longas horas consumia…

 

“Nhô” Vicente paciencioso,

Tudo ouvia sem falar;

Porém, a sua barriga

Não parava de roncar!

 

Notando que seu amigo

Parecia nada ouvir,

Sentiu, o dono da casa,

Que o melhor era dormir.

 

Nesta altura, perguntou-lhe

Numa rural cortesia:

— O compadre lava os pés?

Vou mandar vir a bacia.

 

Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,

— Isso não! de modo algum!

Acho muito perigoso

Lavar os pés em jejum.

 

 

Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.





Trova do tempo passado

28 08 2014

 

 

cha das cincoChá das cinco, ilustração de autor desconhecido, provavelmente inglês seguidor de Walter Crane.

 

 

Esse tempo que passou

de trabalho e de fadiga,

também sorrisos deixou

em nossas vidas, amiga.

 

(Alice de Oliveira)





O Príncipe, conto de Wilson W. Rodrigues, uso escolar

27 08 2014

 

WTBendaIlustração de W.T. Benda para capa da revista LIFE de agosto de 1923.

 

 

O Príncipe

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

As feições do príncipe eram desconhecidas.

Jamais alguém vira o seu rosto.

Em sua corte trabalhavam os artesãos mais hábeis, os melhores desenhistas, as costureiras mais famosas.

A observação era invariável:

— É preciso que essa máscara fique mais bela; do contrário, o Príncipe recusará.

As máscaras deviam ser sempre mais belas, pois, desde menino, o Príncipe usava todos os dias, uma nova máscara.

Dir-se-ia que elas o fascinavam, pois sempre parecia feliz.

Um dia, quando tomava parte numa caçada, o Príncipe afastou-se de sua gente e se perdeu.

Pela noite inteira, ninguém o encontrou.

De manhã, quando cruzava o vale, o Príncipe avistou uma donzela que voltava da fonte, bilha ao ombro.

Estava sedento, pediu:

— Posso beber da tua bilha?

A jovem reconheceu o Príncipe Mascarado, e com galanteria ofereceu:

Só se beberes na concha das minhas mãos.

O Príncipe desmontou. Em terra, curvou-se; nesse instante, ela, num gesto tão rápido quanto impensado, arrancou-lhe a máscara, e deu um grito de espanto.

— Sou tão feio assim?

— Não. Tu és mais belo que todas as tuas máscaras.

 *****

Em: Contos do Rei do Sol, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro [Estado da Guanabara], Editora Torre: s/d, pp: 21-26

 





Trova do galo

25 08 2014

Galo, Mary Ann CaryGalo, ilustração de Mary Ann Cary.

Bem cedinho o galo canta,

molhado ainda de orvalho.

A roça, ouvindo-o, levanta

e entoa um hino ao trabalho.

(A. A. de Assis)

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Trova da igualdade

24 08 2014

 

amigas de escola com uniforme

 

 

Quer na alegria ou na dor,

entre sorrisos e ais,

para mim não existe cor:

brancos… pretos… são iguais.

 

(Alice de Oliveira)





Os nomes — poesia infantil de Maria Alberta Menéres

21 08 2014

 

 

crianças na árvore, Ingela P ArrheniusIlustração de Ingela P. Arrhenius.

 

 

 

Os Nomes

 

Maria Alberta Menéres

 

Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida.

 

 

Em: Conversas com versos, Maria Alberta Menéres, Lisboa, Edições Asa:2005