Viagem, poesia de Odylo Costa Filho

27 12 2014

 

 

Eduardo Cambuí Figueiredo Junior (Brasil, contemporâneo)Av. Paulista com Rua Pamplona, 2004, Óleo sobre tela - 150 x 60 cm - 2004Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004

Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 150 x 60 cm

 

 

Viagem

 

Odylo Costa Filho

 

Mote:
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Alphonsus de Guimarães Filho

 

 

Veste o terno mais velho, e vai-te embora.

Atravessa o quintal e pula o muro.

E entre morte do luar e a luz da aurora

parte na antemanhã, ainda no escuro.

 

Bebe as velhas fachadas, as cidades

que a água penetra, ameiga e acaricia;

e nelas o sinal de outras idades

gosto de vinho velho em novo dia.

 

Quando cessar a febre das viagens

e cansares de tudo — das paisagens,

de ignotas gentes e de virgens praias —

 

volta aos brejos natais. Arma tua rede

em pleno campo. E mata tua sede

de pureza nas grandes sapucaias.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58

 

NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.

 





Trova da despedida

22 12 2014

 

adeus. susan jaekel

Adeus, Ilustração de Susan Jaekel.

 

É comum nas despedidas

depois dos risos e abraços,

ficarem almas feridas

e corações em pedaços.

 

(Décio Valente)





Poema de Natal, Jorge de Lima

21 12 2014

 

Aldemir Martins, natividade, ost, 1969Natividade, 1969

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

 

 

Poema de Natal

Jorge de Lima

 

 

ERA UM POEMA frequente,

repetido,

com o menino nos braços

de uma virgem.

Desse poema presente

e sempre ouvido,

os tempos e os espaços tinham origem,

 

pois à origem do poema

sempre havia

essa virgem e o infante

e a poesia.

E era o início e era a extrema

da criação,

era o eterno e era o instante

da canção.

 

Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58





A formiga e a cigarra, poesia de Afonso Louzada

18 12 2014

 

la cigale et la fourmiIlustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.

 

 

A formiga e a cigarra

 

Afonso Louzada

 

 

Depois de acumular barras e barras de ouro,

a formiga, afinal, sentiu o último alento,

pesarosa, talvez, como bom avarento,

de não poder levar consigo o seu tesouro.

 

–“A minha vida foi um trabalho incessante!

Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

 

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,

exausta de cantar, a boêmia da cigarra

o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,

à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

 

— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,

que a vida é só amor; o resto não é nada!”

 

E, juntas, para o céu elas foram subindo.

A cigarra cantava, estuante de alegria:

— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”

— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

 

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;

o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”

 

— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,

a alegria da vida, a alegria do amor”.

 

— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”

Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

 

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.

Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

 

sob a fascinação do canto da cigarra)

se levaste, afinal, uma vida bizarra

 

alegraste, porém os corações aflitos

que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

 

…  E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,

abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

 

 

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.

 





Trova do meu bem

16 12 2014

 

Mulher, 1905,Stanislaw Wyspianski, esposa do pintor,pastel, 36x36Mulher, 1905

[esposa do pintor]

Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)

pastel sobre papel, 36 x 36 cm

 

 

Eu não explico a ninguém,

pois ainda não compreendi

porque te chamo meu bem

se sofro tanto por ti.

 

(Gilka Machado)





Desafio #poemaday nº 7 — as margaridas

8 12 2014

 

OldDesignShop_Daisies1904

 

Margarida

 

Ladyce West

 

Margarida
Singela
De miolo amarelo
E coroa dobrada
Amarela, branca, rosada.
Nome de mulher-flor.
Não se parece a outras tais,
Orquídea, Hortênsia,
Petúnia, Íris e Zínia,
Dália, Rosa, Magnólia,
Violeta ou Verônica
lindas flores-mulher.
Como a Rosa
Santa é.
Em inglês sobe à nobreza
Lá, Margaret é princesa.
Também é pata famosa
Com sobrinhas orgulhosas.
Mas sua grande função
É a divinação …. do amor.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Quadrinha do poeta

26 11 2014

escritor computador, Amadeu, disneyAmadeu é escritor, ilustração de Walt Disney.

Meu destino é fazer versos.

Fazer versos, correr mundo…

Para os bons, eu sou poeta;

para os maus, sou vagabundo…

(Nidoval Reis)





Amanhecera, poema de Bernardino Lopes

25 11 2014

José Marques Campão Cavalgada 17 x 24 cm – OSM Ass. CIE e Dat. 1947Cavalgada, 1947

José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)

óleo sobre madeira, 17 x 24 cm

IX

Bernardino Lopes

Amanhecera. O tropeiro

Passa, cantando na estrada;

No seu casebre o roceiro

Prepara as foices e a enxada.

Ao rumor a luz casada

Enche de vida o terreiro;

Parecem bruma cerrada

As flores, lá! do espinheiro…

Aspira-se o olor suave

Do bom café… Alto e grave

Bate o pilão nas cozinhas.

Há junto à horta uns barrancos

Onde a  mulher de tamancos,

Distribui milho às galinhas.

Em: Cromos, 1881





Trova do chapéu

22 11 2014

 

chapéu amarelo, al parkerChapéu amarelo, ilustração de Al Parker.

 

Que chapéu extravagante

dessa madame travessa!

Virou moda de elegante

– por chapéu sem ter cabeça!

 

(Eva Reis)

 





Belém, soneto de Correa Pinto

18 11 2014

 

 

Landi-catedraldoparaA Catedral de Belém do Pará, gravura.

 

Belém

 

Correa Pinto

 

Três séculos e meio tens de idade

Mas, ao beijo do sol equatorial,

Reconquistas a eterna mocidade

Como a Iara em seu banho matinal.

 

Enfeitiçante e cálida cidade!

Encerras um mistério sem igual:

Longe de ti morre-se de saudade

Como quem lembra uma paixão sensual.

 

Na verde alcova de tuas avenidas

Ao capitoso aroma das mangueiras,

Como é romântico, Belém, te amar

 

Cidade em flor, que ao êxtase convida,

Bendigo as fortes gerações primeiras,

Que te plantaram entre o rio e o mar!

 

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 91-92

 

 

Augusto Correa Pinto Filho poeta, ensaísta, contista. Nasceu em Óbidos, Pará, em 1915. Faleceu em 1976 no Rio de Janeiro.

Obras:

Fascinação, poesia, 1943

Sonetos, poesia, 1964

Exaltação a Portugal, 1964

Oração da Humanidade, 1951

Perfil de Paulo Maranhão, 1956

Machado de Assis, ensaio, 1958

Belém: Imagens e Evocações, 1968

Fim, Análise de um Mundo que Morre, 1961.