“As moedas caídas do céu”, conto infantil das Histórias do Arco da Velha

4 08 2015

 

7af64c476092e9afb5e62d2fbe52a602Cartão de Natal, década de 1950.

 

As moedas caídas do céu

 

Conceição era uma pobre mas interessante menina, cujos pais haviam morrido. Era tão pobre, que não tinha nem um quarto, nem cama para se deitar; não possuía senão os vestidos que tinha sobre o corpo e um pequeno pedaço de pão que uma alma caridosa lhe havia dado; era, porém, boa e piedosa.

Como se achava abandonada de todo o mundo, pôs-se em viagem, confiando-se à guarda do bom Deus.

No caminho encontrou um pobre homem, que lhe disse:

— Ai de mim! Tenho muita fome! Dai-me um pouco de comer.

A menina deu-lhe o pai, dizendo:

— Deus te auxilie. — e continuou a caminhar.

Depois encontrou um menino que chorava, dizendo:

— Tenho frio, dai-me alguma coisa para cobrir-me.

Ela tirou o gorro e deu-lho.

Mais tarde ainda viu outro que estava trânsido de frio por falta de uma camisola, e deu-lhe a sua. Finalmente, um último pediu-lhe a saia, que ela deu também.

Caindo a noite, chegou a um bosque pedindo-lhe a camisa outro menino. A piedosa menina pensou:

— É noite escura, ninguém me verá. Posso bem dar-lhe a minha camisa. E deu-lha.

Assim nada mais possuía no mundo. Mas no mesmo instante as estrelas do céu puseram-se a cair e no chão elas se transformaram em belas moedas reluzentes. E embora ela tivesse tirado a camisa, tinha uma completamente nova, do mais fino tecido. Ela apanhou o dinheiro e ficou rica para o resto de sua vida.

 

 

Em: Histórias do Arco da Velha — Livro para crianças, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Quaresma: 1947,pp: 91-92.





Gato pensa? poesia infantil de Ferreira Gullar

3 08 2015

 

 

7 gatinhosIlustração anônima.

 

Gato pensa?

 

Ferreira Gullar

 

Dizem que gato não pensa
mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
como é que se vai saber?

A verdade é que o Gatinho,
quando mija na almofada,
vai depressa se esconder:
sabe que fez coisa errada.

E se a comida está quente,
ele, antes de comer,
muito calculadamente,
toca com a pata pra ver.

Só quando a temperatura
da comida está normal,
vem ele e come afinal.

E você pode explicar
como é que ele sabia
que ela ia esfriar?





Trova da felicidade

31 07 2015

 

 

almoço ao ar livre, steven dohanosAlmoço ao ar livre, Steven Dohanos.

 

 

Amigo, na sua idade,

não conte a idade a ninguém,

mas conte a felicidade

pelos amigos que tem.

 

(Edmilson Ferreira Macedo)





O circo, poema de Santos Moraes

29 07 2015

 

 

circo chegou, Russell Sambrook (1891 – 1956)Ilustração de Rusell Sambrook.

 

 

O circo

 

Santos Moraes

 

Na praça antiga da Matriz havia

Um circo que chegara bem recente.

Eu, menino, julgava-o ingenuamente

O palácio encantado da alegria.

 

Todas as noites, coração ardente,

Àquele mundo de ilusões corria,

E rindo do palhaço eu me sentia

Um ser extraordinário de contente.

 

Hoje, o circo perdido na distância

Tantas vezes  me vem da alma à tona

Que refloresce em mim a leda infância.

 

Encantamentos vãos que a mente afaga!

Sonhos que o peito avaro aprisiona

E o coração por alto preço os paga!

 

 

Em: Tempo e Espuma, Santos Moraes, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p. 23-24





A volta, texto de Pedro Nava

22 07 2015

 

 

MANOEL SANTIAGO Paisagem com ferrovia Teresópolis O.S.T. 53 x 69 cm 1945 a.c.i.e.Paisagem com ferrovia, Teresópolis, 1945

Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)

óleo sobre tela, 53 x 69 cm

 

 

“COMO NO DIA DA MINHA CHEGADA, cinco anos antes, no meu embarque para Belo Horizonte, tive a assistência do Modesto. Levou-me à estação. Eu ia galgar o nosso Caminho Novo de noturno. Vi desfilarem os subúrbios, depois a baixada com seu ar de fogo, comecei a subir a Serra do Mar. Eu estava num momento de grande euforia. Vencera uma página da vida, flutuava dentro dum ar azul entre duas etapas. Pensava que tudo continuaria em Belo Horizonte e na Faculdade, fácil e doce como tinha sido naqueles anos de Pedro II entrecortados de férias paradisíacas.  Mal sabia eu o que ia sofrer na Rua da Bahia, no Bar-do-Ponto, na Praça da Liberdade, na Rua Guaicurus, na Rua Niquelina, na Lagoinha, Quartel e Serra: o martírio, paixão, morte e ressurreição do moço mineiro Pedro da Silva Nava ainda descuidado das lambadas, dos escárnios, das quedas e das sete chagas de sua Via Dolorosa. Eu ia aprender aos poucos, à minha custa, os búfalos nadantes e os crocodilos; as panteras e toda a casta de bestas-feras. O noturno subia para Minas Gerais. Passou estações. Parou muito tempo em Juiz de Fora e fiquei na janela do carro apreciando o Cristo Redentor todo iluminado. Foi quando dormi na madrugada mineira. Vi amanhecer no meu Estado cortado instante a instante pelas curvas do Paraopeba. A máquina puxava cada vez mais. De repente Brumadinho surgiu dentro de moitas cheias de gotas d’água dum sereno que o sol ainda não secara. Se o futuro iluminasse eu compreenderia que estava chegando ao campo de concentração e aos fornos crematórios dos meus sonhos de adolescente. As estações se sucediam. Fecho do Funil. Treblinka. Birkenau. Sarzedo. Ibirité. Ibirité. Bergen-Belsen. Auschwitz. Barreiros. Gameleira, Calafate, Belsen-Belo, Belo Belo Belo Belo. A máquina agora ia devagar, batendo sino, atravessando a cidade sob um céu rival do céu da Úmbria. Belo Horizonte, Belorizonte, Belorizonte. Desci na estação. Minha Mãe. Fomos juntos para a Serra. Pisei novamente minha Serra. Sua terra de ricos pardos começou a me penetrar. Dela respirei. Dela sujei meus sapatos. Seu colorido era tão polpa que enganava não parecia mineral, antes vegetal. Variava de cores. Tinha do castanheiro, do tojo, do ulmo, da nogueira, da tília clara e da tuia escura. Entretanto era ferro. Chão de Ferro.”

 

 

 

Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, p. 273-4





Trova da luz da lua

21 07 2015

 

 

LUA 2011_03_12_17_30_52 F. HARDYCartão postal com ilustração de F. Hardy.

 

 

A lua, que nos clareia,

é diferente de quem,

recebendo luz alheia,

não ilumina…ninguém!

 

(João Freire Filho)





Trova para o dia dos Pais

15 07 2015

 

 

pai e filho algebraDesconheço a autoria da ilustração.

 

É força que vem comigo

e no tempo não se esvai:

– Sempre que eu falo de amigo

eu me lembro de meu pai!

 

 

(Rodolpho Abbud)





O café, poema de Armindo Rodrigues

15 07 2015

 

 

David Azuz (Israel 1942) serigrafia ParisCafé em Montparnasse, Paris

David Azuz (Israel, 1942)

Serigrafia

 

 

O Café

 

Armindo Rodrigues

 

 

Aqui, no café, sabe-se tudo

e junta-se gente vinda

de todos os cantos do mundo.

 

Aqui, no café, esquece-se o tempo

e nascem ideias extraordinárias

até dos gestos irrefletidos.

 

Aqui, no café, sonho mais à vontade

que sou tudo o que sonho

e não tenho medo de nada.

 

Aqui, no café, todos sabem que sou

um homem como outro qualquer

que vem aqui todas as tardes.

 

 

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 53





A lanterna mágica, poesia de Cassiano Ricardo

14 07 2015

 

 

vagalumes e criança

 

A lanterna mágica

 

Cassiano Ricardo

 

 

E foi

tão grande o seu desespero

na encruzilhada

e a noite era tão escura

na floresta e nos campos,

que o próprio Currupira

ficou com pena

e lhe arranjou uma lanterna

de pirilampos.

 

“Pouco importa

que a noite seja escura,

porque foi apanhar água

no ribeirão

e quebrou seu pote branco

numa pedra do barranco

fazendo essa escuridão.

 

Vá por aqui, direitinho,

com esta lanterna

na mão, alumiando o caminho…

e você encontrará o que procura!”

 

E ele saiu pelo sertão,

procurando o sol da Terra

com uma lanterna de pirilampos

na mão.

 

 

Em: Martim Cererê, Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974, 13ª edição, p. 76.





Mulheres notáveis: Galla Placídia, texto de Francisco da Silveira Bueno

10 07 2015

 

 

Aelia_Galla_PlacidiaRetrato atribuído a Galla Placídia, séc. III a V

Pintura em miniatura, medalhão de vidro

Museu Cívico Cristão, Bréscia

 

 

Galla Placídia

 

Se do pai tinha sangue espanhol, tinha sangue oriental, pelo lado materno, e dessa mistura saiu tão raro tipo de mulher política, administradora, de grande visão artística e sumamente religiosa. A sua entrada no mundo político de Roma foi, justamente, num momento angustioso da Cidade Eterna: Alarico vencia os romanos, ele que aprendera os segredos da guerra sob as ordens de Teodósio, saqueava e devastava toda a Itália com as suas hordas de visigodos. O momento era trágico e dentre as cinzas e labaredas da destruição de Roma, surge Galla Placídia para vencer, sozinha, esses bárbaros. E de que jeito? Pelo sacrifício de todo o seu orgulho. Ela, filha de Teodósio, o Grande, grega pelo nascimento, aceita casar-se com Ataulfo, cunhado de Alarico, com uma condição, os visigodos iriam para a Espanha a fim de destruir os Vândalos. Era o ano 414. Integrada agora na gente visigótica, acompanha Ataulfo: os Vândalos são batidos, expulsos, jogados da Espanha para o norte da África. Mas na batalha final, no ano 415, morre Ataulfo e Placídia está livre. De volta a Roma, onde seu irmão Honório é o imperador, casa-se com Constâncio, o maior capitão do momento. Nascem-lhe dois filhos: Honória e Valentiniano. Escolhida Ravena para capital do império romano pelo próprio Honório, ei-la que aí sonha o seu sonho maior: colocar no trono o seu próprio filho. Era uma criança, como seria possível? A sua tenacidade, a sua habilidade, jogando contra as próprias ideias do irmão todo poderoso, prepara toda a ascensão de Valentiniano. A morte de Honório vem ajudar os seus projetos: Valentiniano sobre ao trono, mas quem reina, de verdade, é a Galla Placídia e reinará por trinta – cinco anos.

 

Em: Pelas estradas do sol, Francisco da Silveira Bueno, São Paulo, Saraiva: 1967, pp. 108-109.