A pesca das estrelas — Wilson W. Rodrigues

11 07 2008

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

 

Hoje, arrumando uma prateleira de livros que quase não uso, deparei-me com um volume comprado num sebo, de Wilson W. Rodrigues, poeta brasileiro, sobre quem sei muito pouco.  Não tenho nenhuma de suas poesias, mas além de poeta, Wilson W. Rodrigues foi um folclorista, arrecadando histórias e compilando-as.  Aproveito para repassar aqui um trechinho mínimo encontrado pela manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

A PESCA DAS ESTRELAS

 

            Pai João menino foi à pescaria.  E estava alegre porque os negros diziam que iam pescar estrelas na lagoa onde morrera o Quiçambé.

            Quando chegaram, as águas do lago estavam cheinhas de estrelas.  Tomaram as canoas e jogaram as redes.

            — A pesca vai ser boa.

            O moleque só queria uma estrela ou uma estrelinha.

            Quando puxaram a rede, ela veio cheia, mas todas as estrelas se transformaram em peixes.

 

 

Pai João menino, de Wilson W. Rodrigues, Editora Publicitan (Coleção Mãe Maria, vol.2): s/d, Rio de Janeiro, página 97.  [texto datado, Distrito Federal, 1949]

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 

 





João Bolinha virou gente: Apresentação – Vicente Guimarães

8 07 2008

 

 

João Bolina não quer estudar  -- Ilustração de Rodolfo

João Bolinha não quer estudar -- Ilustração de Rodolfo

APRESENTAÇÃO

 

Sabem quem eu sou?  João Bolinha,

Boneco desengonçado;

Com quem brincar eu não tinha.

Pois vivia desprezado.

 

Entre a turma tagarela

Era um boneco prudente;

Um dia, que coisa bela!

Com a luz do sol, virei gente.

 

De boneco de bolinha

Passei a ser um menino,

Mudou-se toda, todinha

A rota do meu destino.

 

Terei lucrado ou perdido?

Não posso lhe responder:

Depois de o livro ter lido,

Tudo você vai saber.

 

Que lhe sirva de lição

Esta simples vida minha;

Eis o que, de coração,

Lhe deseja o João Bolinha.

 

 

João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães (Vovô Felício), Editora Minerva: s/d,  Rio de Janeiro, página 5.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração:  Rodolfo, Rio de Janeiro

 

Vicente de Paulo Guimarães ( MG 1906-1981) Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977).

 

 





Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão

7 07 2008

 

Frei franciscano,

Frei franciscano por José Cisneros, Cortesia da Comissão Histórica do condado de Bexar, Texas

Aniversário de morte –  em 7 de julho de 1779, morreu em Salvador,  Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, um dos nossos primeiros historiadores. Brasileiro, nasceu em Santo Amaro do Jaboatão, 1695 – Recife.   Frade franciscano, professou fé,  em 12 de dezembro de 1717, ordenando-se em 1725 no convento de  Santo Antonio do Paraguaçu,  em Salvador na Bahia.  Depois voltou a Pernambuco.    Ocupou vários cargos dentro da ordem franciscana.  Foi um genealogista, historiador, orador, poeta e cronista brasileiro.  Sua principal obra é o Novo Orbe Seráfico Brasílico também chamado de Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil (1761).  Deixou outras obras, algumas inéditas.   Entre as publicadas, (sempre em Lisboa) estão:  Discurso histórico, geográfico, genealógico, político e encomiástico, recitado em a nova celebridade, que dedicaram os pardos de Pernambuco ao santo da sua cor o B. Gonçalo Garcia ( 1751);  Sermão de Santo Antonio, em o dia do Corpo de Deus, Lisboa (1751);  Sermão de S. Pedro Martyr, pregado na matriz do Corpo Santo do Recife, Lisboa (1751);  Jaboatão Místico” (coletânea de sermões) (1761); “Catálogo Genealógico das Famílias Brasileiras” (1768).

 

Hoje: Patrono da Cadeira n° 2 da Academia Pernambucana de Letras.

 

 

 

Fonte: Dicionário brasileiro de datas históricas, ed. José Teixeira de Oliveira, ed. Vozes:2002, Petrópolis

 

 

 

Décimas

 

 

 

 

                                                           Por Colbert e Sebastião

                                                           Duas grandes monarquias,

                                                           Em Letras e Regalias

                                                           Famosas no mundo estão:

                                                           Portugal e França, são;

                                                           E sendo lá, como o é,

                                                           Primeiro o douto Colbert,

                                                           Em pontos de bom reger,

                                                           Cá também o deve ser

                                                           Um Sebastião José.

 

 

                                                           Ministros de um Reino tais

                                                           Zelosos e verdadeiros,

                                                           Assim como são primeiros,

                                                           Deviam ser imortais;

                                                           Vindo ser glórias fatais

                                                           Lá o Rei Cristianíssimo,

                                                           Cá o nosso Fidelíssimo

                                                           Por este que o Céu lhe deu,

                                                           Faz que seja por troféu

                                                           Seu governo felicíssimo.

 

 

                                                           Oh que dita singular!

                                                           Para a nossa Academia

                                                           Alto Padrão na Bahia,

                                                           Vejo a Fama levantar!

                                                            Nele se lê sem notar

                                                            Das outras as várias cenas,

                                                           Que a nossa com outras penas,

                                                           Faça eterna a sua glória,

                                                           Viva sempre na memória,

                                                           Pois tem tão grande Mecenas.

 





Suícidio ou assassinato de Cláudio Manoel da Costa?

4 07 2008
Maysa de Castro

Mariana, MG — foto: Maysa de Castro

 

Hoje é aniversário de morte  — 219 anos — de Cláudio Manoel da Costa, (Mariana, MG, 5/6/1729 — Ouro Preto, MG, 4/7/1789),  poeta brasileiro e inconfidente.  Nasceu nos arredores da cidade de Mariana, no Sítio de Vargem do Itacolomi, em Ribeirão do Carmo. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; veio depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas.  Aos 20 anos, foi estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Cânones, em 1753.   Exerceu a advocacia, tornando-se excelente jurista, bastante renomado e abastado fazendeiro, senhor de três fazendas.  Foi juiz medidor de terras da Câmara de Vila Rica.  Exerceu o cargo de procurador da Coroa e desembargador.  Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu termo” em 1758. Foi secretário do Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, ( Alentejo, 1685 — Rio de Janeiro, 1763), militar português e governador de Minas Gerais.  Cláudio Manoel da Costa, também escreveu sob o cognome de Glauceste Satúrnnio, nome árcade, que adotou depois de fundar a Arcádia Ultramarina.  Membro da Conspiração Mineira, que pregava a independência de Minas Gerais do domínio português, acusado pela Devassa, foi preso e interrogado uma só vez pelos juizes de Alçada, no dia 2 de julho de 1789.   Morreu na prisão, na Casa de Contos, em Vila Rica hoje, Ouro Preto.  Se foi assassinado ou se realmente cometeu o suicídio aos 60 anos enforcando-se na cadeia, ainda é um assunto debatido por historiadores até os dias de hoje.   Excelente poeta, Cláudio Manoel da Costa, mantém  a tradição de Luiz Vaz de Camões na poesia, mas serve de conexão entre a poesia Barroca brasileira e o Arcadismo.

 

É o patrono da Cadeira n. 8, na Academia Brasileira de Letras,  por escolha do fundador Alberto de Oliveira.

Morreu solteiro.  Deixou filhos naturais.

TRÊS SONETOS 

 

 

LXXX

 

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

 

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

 

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

 

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

 

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

XXXIII

 

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

Cláudio Manuel da Costa

VII

 

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

 

Cláudio Manuel da Costa

 





É fácil escrever para crianças?

3 07 2008
Um idéia brilhante, Walt Disney!

Um idéia brilhante! Ilustração, Walt Disney

Desde o sucesso da série Harry Potter, de JK Rowling que o mercado de livros infantis parece ter esquentado nos EUA apesar dos livreiros naquele país estarem com as vendas de livros infantis estacionadas há três anos.   Mas poucos aspirantes a escritores do gênero reconhecem esta situação.  E acreditam que para eles milhões e milhões de dólares estão só à sua espera.  O caminho seria as idéias que tiveram para histórias infantis.  Foi como se de repente centenas de pessoas se lembrassem de que havia um nicho ainda não explorado.   A procura por editoras especializadas no gênero aumentou, mas com um mercado sem expansão é difícil para um autor conseguir publicar seus livros.  Só os menos avisados acreditam que publicar um livro para crianças deve ser muito fácil.

 

Autores que já são conhecidos, autores que lutaram muito para que seus livros fossem publicados,  se encontram hoje entediados, saturados mesmo com o número de pessoas que lhes contata, dizendo terem uma ótima idéia para um livro infantil.

 

Baseado nestes dados entedemos bem a anedota recontada há quase um ano, em setembro de 2007, na revista Ed Magazine: the magazine of the Harvard School of Education.  Num artigo sobre a popularidade dos livros infantis, e  o número de autores em potencial que surgiu,  Mary Tamer menciona a ocasião em que Bill Roorbach,  conhecido autor infantil, do livro Big Bend,  foi abordado por um neurocirurgião que havia acabado de assistir a uma palestra que o escritor dera no estado de Maine.  O neurocirurgião, muito feliz de poder se encontrar com um escritor de sucesso, assim que congratulou Bill Roorbach disse:  Foi sensacional ouvir  sua palestra.  Planejo no momento tirar uma licença de seis meses e escrever um livro infantil.”   Após um breve pausa, Roobarch respondeu:  Mas isto é tão estranho, eu também estava pensando em tirar seis meses de licença, para me tornar um neurocirurgião. 

 

Não é fácil escrever um livro.  E só porque o livro é para crianças, e nós contamos histórias para nossos filhos, netos, sobrinhos e vizinhos, não quer dizer que saibamos escrever um livro que interesse e faça a imaginação dos pequerruchos se engajar.  Crianças e adolescentes são freqüentemente mais exigentes do que imaginamos.

 

 





Ernest Hemingway um favorito das americanas

1 07 2008

 

Uma pesquisa em 2002 pelo National Endowment for the Arts, descobriu que nos EUA 80%  dos leitores de ficção são mulheres.  E que as mulheres lêem mais que os homens em todos os gêneros com exceção de história e de biografia.  Nestes dois gêneros os homens ultrapassam as mulheres.  No entanto, mais meninos leram a série de livros do Harry Potter  de J. K. Rowling do que meninas. 

 

Estes números não significam que mulheres só lêem o que é chamado chick-lit ou seja literatura para mulherezinhas.  Não, não, não…  Ernest Hemingway está entre os escritores de ficção mais lidos por mulheres.

 

Um dado interessante também encontrado pela mesma pesquisa é que mulheres compreendem o maior numero de bloguistas sobre leitura e literatura.  Uma diferença mais ressaltada ainda quando consideramos que os velhos e respeitados papas da crítica literária e da literatura são em sua maioria homens.

 

Uma mulher nos EUA lê em média nove livros por anos.  Um homem menos que a metade: quatro.  

Madame Min prepara o jantar. Walt Disney.





Mulheres lêem mais do que os homens

1 07 2008

 

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

 

 

 

 

José Ferraz de Almeida Jr. (Brasil, 1850-1899) Moça com livro, 1879, óleo sobre tela, Museu de Arte de São Paulo

 

Hoje li pela segunda vez o relatório Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, uma pesquisa feita sobre os hábitos de leitura no Brasil, incluindo o perfil do leitor brasileiro.  Não fiquei surpresa ao saber que no Brasil, assim como no resto do mundo, as mulheres lêem mais que os homens.  Aqui, a nossa percentagem é de 55% de leitoras mulheres para 45% de leitores homens.  

 

Na verdade esta diferença entre leitores e leitoras é tão conhecida que o escritor inglês Ian McEwan  se sobressaiu numa entrevista publicada no jornal The Guardian, de Londres, em 2000, quando sabendo-se conhecedor  destes números e sendo avisado que as mulheres lêem mais ficção do que os homens, declarou: A conclusão inevitável é que no dia que as mulheres deixarem de ler, o romance terá desaparecido.

 

Este tipo de pesquisa, estes tipos de números são sempre fonte para muita especulação.  Muitos estudos ainda virão a ser feitos, muitas teses de doutoramento e pesquisas similares para justificar esta diferença.  Há as explicações biológicas, comparando os cérebros entre os dois sexos e há também aqueles que acreditam que isto se deve às meninas em geral serem alfabetizadas e apresentadas à leitura numa idade mais tenra do que os meninos.  

 

Mas não deixa de me trazer um sorriso irônico nos lábios ao constatar que esta diferença também existe no Brasil.  Porque até bem pouco tempo as mulheres não eram nem consideradas para a alfabetização.  Lembrei-me disso quando ontem à noite, passando uma vista d’olhos no romance de Ana Miranda intitulado O retrato do rei, uma passagem prendeu minha atenção.  Uma passagem que ilustra as raízes culturais que levaram em parte ao atraso na alfabetização das mulheres brasileiras, e a uma perda cultural imensa para a nós.  Ana Miranda assim descreve nossa heroína, vivendo em 1707, no Rio de Janeiro.

 

 

Tarsila do Amaral (Brasil 1890-1973) Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara. “Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.

 

O retrato do rei, Ana Miranda, Companhia das Letras: 1991, São Paulo, páginas 23-24

 

ACIMA:  Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973), Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

 

Mariana não era uma qualquer.  Mariana era prima do governador da capitania do Rio de Janeiro.  Em outras palavras, ela não era analfabeta por não ter dinheiro, meios de se educar.  Era analfabeta porque era mulher.

 

Antes que se conclua que isto acontecia só no século XVIII, o que não é verdade, pode mos saltar no tempo e ler um livro também de ficção, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, retratando um caso parecido.  Em seu romance Concerto campestre, situado no século XIX, a filha de um fazendeiro, rico o suficiente para contratar um músico com o intuito de formar uma orquestra, é mantida analfabeta por razões semelhantes às expressadas no livro de Ana Miranda.

 

Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, LP&M:1997, Porto Alegre.

O que seria dos nossos escritores, dos nossos editores e das nossas livrarias, dos nossos filhos, se não tivéssemos mudado de valores?  Haveria uma literatura brasileira? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Passarinhos — um poema de Zalina Rolim

1 07 2008

paisagem

 

A um passarinho que andava

Cantando pelo jardim,

Foi perguntar Elisinha

  Quem é que te cuida assim?

 

Onde achas doce alimento,

Coisas nutritivas, sãs?

— Tenho bichinhos gostosos

Figos, laranjas, romãs.

 

— E quando estás fatigado,

Onde é que vais descansar?

— Qual de nós não tem seu ninho?

Nosso ninho é o nosso lar.

 

— E sede não sentes nunca?

— Tenho rio e ribeirão,

E gotinhas de sereno,

Que as folhas verdes me dão.

 

— E no inverno não te falta

Agasalho contra o frio?

— Tenho penas que me cobrem,

Tenho agasalho macio.

 

— E quando não há bichinhos,

Grãos e frutinhas não há?

— Há uma boa criancinha

Que pão e alpiste me dá.

 

 

Passarinhos, de Zalina Rolim  (Brasil, 1869-1961)

 

 

Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)

 

 

 





Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





À beleza negra — Luiz de Camões

29 06 2008

 

Bela, s.d., de Michele Cammarano (Itália, 1835-1920), o/t Col. Part.

Bela s/d

Michele Cammarano

(Itália, 1835-1920)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Freddie Booker Carson & Simon Carson

 

A leitura do livro de Agualusa, Um estranho em Goa, mencionado na postagem anterior, lembrou-me que o autor cita, uma parte de um dos mais belos poemas de Luiz de Camões, uma redondilha de sua Obra Lírica.  Aproveito para reproduzir aqui e relembrá-lo com os meus amigos.  Mais conhecido por seu primeiro verso,  Aquela Cativa,  foi feito para Bárbara, uma escrava em Goa.

 

 

 

 

 

Aquela cativa

 

Luiz Vaz de Camões

 

 

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Ũa graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E, pois nela vivo,

É força que viva.

 

 

Aquela cativa  (1595 – redondilha 106)