Foi o Príncipe D. Pedro
Altivo, forte e leal,
Quem tornou independente
A nossa Terra Natal!
(Walter Nieble de Freitas)
Foi o Príncipe D. Pedro
Altivo, forte e leal,
Quem tornou independente
A nossa Terra Natal!
(Walter Nieble de Freitas)
—
ENVELHECER
Wilson Frade
Embora todos os pretensos à velhice
se agarrem ao espírito,
o tédio chega e vai ficando.
As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho
e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.
O verde já não é tão verde
e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.
Amamos com maior cautela,
menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.
Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,
mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso
possa terminar.
Os fios de cabelos brancos já não nos castigam
porque descobrimos mais a lua e as estrelas,
e curtimos aquele chinelo velho
em extremo desuso.
Prestamos mais atenção aos passarinhos
e no riacho que corre,
e tornamo-nos mais íntimos da morte.
Fingimos que ela é nossa amante
para que não nos leve assim tão de repente.
e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.
Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991
Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.
***
Romance ingênuo de duas linhas paralelas
José Fanha
Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente de infinito a infinito
Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim…!
Diz a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!”
Não se dando por achada
Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.
—
José Fanha
José Fanha (Portugal, 1951) Formado em arquitetura é hoje professor do ensino médio e trabalha também para a televisão e o cinema. Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro e, também pintor nos tempos livres.
Obras:
Eu sou português aqui
Breve tratado das coisas da arte e do amor
A porta
Elogio dos peixes, das pedras e dos simples
Alex Ponto Com – Uma aventura virtual
Diário Inventado de Um Menino Já Crescido
Os Novos Mistérios de Sintra de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira
O Dia em Que o Mar Desapareceu
Poemas da Natureza + CD-Áudio
Abril 30 Anos Trinta
De Palavra em Punho
Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade de José Jorge Letria, José Fanha
Tempo Azul
Poemas Com Animais
Cantigas e Cânticos
Baal
Cem Poemas Portugueses Sobre a Infância de José Jorge Letria, José Fanha
Cem Poemas Portugueses Sobre Portugal e o Mar de José Jorge Letria, José Fanha
O Código D’Avintes de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira
—
*** NOTA: Acredite, na ilustração inicial deste poema só há quadrados perfeitos e linhas paralelas.
Antônio Bandeira ( Brasil, 1922-1967)
óleo sobre madeira
Ainda às voltas com a mudança, hoje me dediquei à organização de papelada. Re-encontrei a uma seleção – feita há algum tempo — de gemas dos versos-pensamento de Carlos Nejar, que selecionei como memoráveis. Acho que vale a pena lembrá-los.
Quero locar/ minha ambição/ aos loucos. [Aluguel]
Aventura humana: a esperança. / Não há outra couraça/ ou fortuna. [Aventura]
O medo rói. [Ruminação]
Amar é a mais alta constelação. [Aqui ficam as coisas – XII]
Todas as minhas raízes estão contigo. [Aqui ficam as coisas – X]
É preciso esperar contra a esperança. [Contra a esperança]
Bem-aventurados os pássaros,/ as nuvens, as madrugadas. [ Bem-aventuranças]
Abram alas,/ que a vida vem chegando. [Cortejo]
Pássaros somos/ sem o menor retorno. [ Alforria]
Só a loucura nos salva/ onde a razão lança as redes. [Derrubada]
Levo esta vida/ ou esta morte/ sem cobrar frete/ ou transporte. [Carregamento]
O homem se reconhece/ mesmo sem identidade. [Espelho]
Sobretudo nos tropeços, / o homem se reconhece. [ Espelho]
Entupimos/ o pensamento/ com a mania de pensar. [Rasante]
Os dias / são caminhos ou rodízios. [Freqüência]
Em: Três livros: árvore do mundo & o chapéu das estações & o poço do calabouço, Carlos Nejar, Círculo do Livro, São Paulo, s/d. Páginas: 38, 130, 216, 249, 260, 267, 270, 278, 284, 300, 306, 328, 335.
Luís Carlos Verzoni Nejar, também usou o pseudônimo: Verne de Luca ( RS, 1939) Poeta, tradutor, diplomado em direito (1962), procurador da justiça, membro da ABL (1989), prêmio Jorge de Lima – INL (1970), Fernando Chináglia – UBE (1974), Luísa Cláudio de Sousa – Pen Clube Brasil (1977).
Obras:
50 Poemas Escolhidos pelo Autor, 2004
A Chama é um Fogo Úmido: Reflexões sobre a Poesia Contemporânea, 1994
A Engenhosa Letícia do Pontal , 2003
A Espuma do Fogo, 2002
A Formiga Metafísica, 1987
A Genealogia da Palavra, 1989
A Idade da Aurora, 1990
A Idade da Noite 2002
Amar, a Mais Alta Constelação 1991
Aquém da Infância 1995
Arca da Aliança 1995
Árvore do Mundo 1977
As Águas que Conversavam 2003
As Uvas e o Vento 2004
Caderno de Fogo 2000
Canga 1971
Carta aos Loucos 1998
Casa dos Arreios 1973
Cem Sonetos de Amor 1999
Cinco Poemas Dramáticos 1983
Danações 1969
De “Sélesis” a “Danações” 1975
Eduardo Portella : Ação e Argumentação : Trinta Anos de Vida Intelectual 1985
Elza dos Pássaros ou A Ordem dos Planetas 1993
Era um Vento muito Branco 1987
Escritos com a Pedra e a Chuva: Entre a Poesia e a Ficção 2000
Ficções 1972
Jerico soletrava ao Sol 1986
Livro de Gazéis 1984
Livro de Silbion 1963
Livro do Tempo 1965
Memórias do Porão 1985
O Campeador e o Vento 1966
O Chapéu das Estações 1978
O Elogio da Sombra 1971
O Evangelho Segundo o Vento 2002
O grande vento 1998
O Livro do Peregrino 2002
O menino-rio 1984
O Pai das Coisas 1985
O Poço do Calabouço 1974
O Selo da Agonia : Livro dos Cavalos 2001
O Túnel Perfeito 1994
Ordenações 1969
Ordenações 1971
Os Dias Pelos Dias 1997
Os Sobreviventes 1979
Os Viventes 1979
Riopampa 2000
Sélesis 1960
Simón Vento Bolívar 1993
Somos Poucos 1976
Sonetos do Paiol: ao Sul da Aurora 1997
Todas as Fontes Estão em Ti 2000
Tratado de Bom Governo 2004
Ulalume 2001
Um Certo Jaques Netan 1991
Um País, o Coração 1980
Vozes do Brasil: Auto de Romaria 1984
Zão 1988
—-
Antônio Bandeira, ( Fortaleza 1922-Paris 1967) Desenhista, gravador e pintor.
Autodidata. Trabalhou com Clidenor Capibaribe, o Barrica e Mário Barata que o orientaram no inicio de sua carreira. Em 1944 fundou a «Sociedade Cearense de Belas Artes», com Inimá de Paula, Aldemir Martins, João Maria Siqueira e Francisco Barbosa Leite, entre outros. Ganhou bolsa de estudos na França (1946-1950) pela exposição no Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro e freqüentou a Escola Superior de Belas Artes e a Académie de La Grande Chaumière. Passa então de pintor figurativo a pintor abstrato.
A palavra é tão sublime,
tem tamanha divindade,
que deveria ser crime
usá-la contra a verdade.
(Luiz Evandro Inocêncio)
Capa de revista, 1939
EM CAMINHO
Zalina Rolim
SOU filha de lavradores;
Moro longe da cidade;
Amo os pássaros e as flores
E tenho oito anos de idade.
Quereis seguir-me à campina?
A tarde convida e chama,
O calor do sol declina,
E o horizonte é um panorama.
Neste samburá de vime
Levo coisa apetitosa;
mas, ai! que ninguém se anime
A meter-lhe a mão curiosa.
É o jantar do papaizinho;
Manjares de fino gosto;
Carne, legumes, toucinho,
Tudo fresco e bem disposto.
Papai trabalha na roça;
O dia inteiro labuta;
Tem a pele rija e grossa
E a alma afeita à luta.
Mas leal, franco, modesto
Como ele, não há no mundo:
Vive de trabalho honesto,
Cavando o solo fecundo.
Acorda ao nascer da aurora,
Abre a janela de manso,
E o campo e os ares explora
Da vista aguda num lanço.
Depois, nos ombros a enxada,
Abraça a Mamãe, sorrindo,
Beija-me a face rosada
E vai-se ao labor infindo.
Em casa também se lida
Daqui, dali, todo o instante,
Que o trabalho é lei da vida
E nada tem de humilhante.
Depois do trabalho, estudo;
Abro os meus livros e leio;
Eles me falam de tudo
O que eu desejo e receio.
Contam-me histórias bonitas,
Falam da terra e dos ares,
De vastidões infinitas,
De rios, campos e mares.
Mamãe diz que são modelos
De amigos leais e finos;
Que a gente deve atendê-los
Como aos maternais ensinos.
E agora, adeus, até breve.
Eis-me de novo a caminho:
Não esfrie o vento leve
O jantar do papaizinho.
Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.
Obras:
1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)
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Henriqueta Lisboa
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Coraçãozinho que bate
tic-tic
Reloginho de Papai
tic-tac
Vamos fazer uma troca
tic-tic-tic-tac
Relógio fica comigo
tic-tic
dou coração a Papai
tic-tic-tac.
Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta, tradutora professora de literatura, Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
Obras:
Fogo-fátuo (1925)
Enternecimento (1929)
Velário (1936)
Prisioneira da noite (1941)
O menino poeta (1943)
A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano
Flor da morte (1949)
Madrinha Lua (1952)
Azul profundo (1955);
Lírica (1958)
Montanha viva (1959)
Além da imagem (1963)
Nova Lírica ((1971)
Belo Horizonte bem querer (1972)
O alvo humano (1973)
Reverberações (1976)
Miradouro e outros poemas (1976)
Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)
Pousada do ser (1982)
Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento
–
Giuseppe Artidoro Ghiaroni
–
Meu pai está tão velhinho,
tem a mão branca e comprida,
parecendo a sua vida,
longa vida que se esvai.
–
E eu o lembro quando moço
de uma atlética altivez.
Ah! Tinha força por três!
Você se lembra, papai?
–
Menino, ouvia dizer
que você era um gigante.
Eu ficava radiante
e também me agigantava.
–
Porque toda madrugada,
eu quentinho do agasalho,
ao sair para o trabalho
o gigante me beijava.
–
Sua grande mão de ferro
parecia leve, leve
naquela carícia breve
que da memória não sai.
–
Depois… um beijo em mamãe
e o meu gigante partia.
E a casa toda tremia
com os passos de papai.
–
Mas agora o seu retrato
muito moço, muito antigo,
se parece mais comigo
do que mesmo com você.
–
Você já lembra vovô
e, à medida que envelhece,
papai, você se parece
com mamãe, não sei por quê.
–
Você se lembra, papai?
Quando mamãe, de repente,
caiu de cama, doente,
era o pai quem cozinhava.
–
Tão grande e desajeitado
a varrer… Quando eu o via
de avental, papai, eu ria;
eu ria e mamãe chorava.
–
Eu quis deixar o ginásio
para ganhar ordenado,
ajudar meu pai cansado,
mas tal não aconteceu.
–
Papai disse estas palavras:
Sou um operário obscuro,
mas você terá futuro,
será melhor do que eu.
–
Eu? Melhor que este velhinho
a quem devo o pão e o estudo?
Que é pobre porque deu tudo
à Família, à Pátria, à Fé?
–
Meu pai, com todo o diploma,
com toda a universidade,
quisera eu ser a metade
daquilo que você é.
–
E quero que você saiba
que, entre amigos, conversando,
meu assunto vai girando
e no seu nome recai.
–
Da sua força, coragem,
bondade eu conto uma história.
Todos vêem que a minha glória
é ser filho de meu pai.
–
“Um dia eu fui tomar banho
no rio que estava cheio.
Quando a correnteza veio,
vi a morte aparecer.
–
Papai saltou dentro d’água
nadando mais do que um peixe,
salvou-me e disse:_ Não deixe!
Não deixe mamãe saber!”.
–
Assim foi meu pai, o forte
que respeitava a fraqueza.
Nunca humilhou a pobreza,
nunca a riqueza o humilhou.
–
Estava bem com os homens
e com Deus estava bem.
Nunca fez mal a ninguém
e o que sofreu perdoou.
–
Perdoa então se lhe falo
Daquilo que não se esquece.
E a minha voz estremece
e há uma lágrima que cai.
–
Hoje sou eu o gigante
e você é pequenino.
Hoje sou eu que me inclino.
Papai… a bênção, papai.
–
–
Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor; Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista. Faleceu em 2008 aos 89 anos.
Obras:
O Dia da Existência, 1941
A Graça de Deus, 1945
Canção do Vagabundo, 1948
A Máquina de Escrever, 1997
Pai — nome bem pequenino
Que encerra tanto valor:
Traduz confiança, carinho,
Força, Bondade e Amor.
(Walter Nieble de Freitas)
Ilustração de Paul Hesse. Anúncio para pneus FISK.
Vocês
Gentil Camargo
É ele sim: conheço o seu passinho;
E o suave cheiro que ele tem, conheço;
Mas fecho os olhos, finjo que adormeço:
Quero sentir melhor o seu carinho.
O livro em que da vida inglória esqueço,
Retira-me das mãos, tão de mansinho,
— “Papai…” me chama; e dá-me o seu beijinho,
Compensação de tudo o que padeço.
Depois se afasta. Deixa-me pensando
Em quando ele for grande; e mesmo quando
Todos forem crescidos de uma vez,
Continuarei a vê-los bem pequenos,
Buscando até, em coisas de somenos,
A maior alegria de vocês.
———
Gentil Eugênio de Camargo Leite (Taubaté, SP 1900- SP1983) , professor e jornalista, folclorista colaborou para jornais e revistas de São Paulo, do Rio de Janeiro e do interior do estado de São Paulo: “O Norte”, “Correio de Taubaté”, “O Momento”. Recebeu por sua valiosa participação jornalística, o Diploma de Honra da A.P.I. (Associação Paulista de Imprensa) concedido em 01.05.1958. Um dos fundadores da “Sociedade de História e Folclore de Taubaté. Compôs várias músicas, entre elas “Taubaté tem visgo” e “Hino a Santa Terezinha”.