A pomba e a formiga, fábula de Esopo

5 06 2011

Ilustração, Amy Hintze ( EUA, contemporânea)

A pomba e a formiga

Uma pombinha branca, que estava com sede, desceu à beira de um riacho. Procurava um bom lugar para beber água.  Eis que avista uma formiguinha debatendo-se nas águas do riacho, prestes a se afogar.

A pombinha ficou com pena da formiga.  Depressa, apanhou um galho seco, levou-o até próximo à formiga que se salvou, agarrando-se nele com vontade.

Pouco depois, um caçador passou por ali.  Vendo a pombinha numa árvore, resolveu caçá-la para o almoço.   Rapidamente apontou a espingarda para matar a pobrezinha.

Mas a formiga, que ainda estava ali perto, resolveu ajudar a pombinha.  Subiu no pé do caçador e deu uma boa ferroada.   Surpreso, o caçador ao sentir a dor, perdeu a pontaria.  E não acertou a pombinha.

A pombinha voou para longe e a formiga voltou ao seu formigueiro.

Moral:  Amor com amor se paga.

Texto adaptado da versão de Theobaldo Miranda Santos em Leituras Infantis, 2º livro, Rio de Janeiro, Agir:1962





História Pátria, poema de Oswald de Andrade

2 06 2011

Marinha, 1986

José Paulo Moreira da Fonseca (Brasil, 1922-2004)

óleo sobre tela, 20 x 60 cm

História Pátria

………..Oswald de Andrade

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Aventureiros

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Bacharéis

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Cruzes de Cristo

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Donatários

Lá vai uma barquinha carregada de

…………………………………….Espanhóis

…………………………………….Paga prenda

…………………………………….Prenda os espanhóis.

Lá vai uma barquinha carregada de

…………………………………….Flibusteiros

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Governadores

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Holandeses

Lá vai uma barquinha cheinha de índios

Outra de degredados

Outra de pau de tinta

……….Até que o mar inteiro

……….Se coalhou de transatlânticos

……….E as barquinhas ficaram

……….Jogando prenda com raça misturada

……….No litoral azul do meu Brasil.

Retrato de Oswald de Andrade, 1922

Tarsila do Amaral ( Brasil 1886-1973)

óleo sobre tela

 

 

José Oswald de Sousa de Andrade Nogueira (São Paulo,1890 — São Paulo, 1954) foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro.  Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro.

Obras:

Os Condenados (trilogia), romance, 1922-1934

Memórias Sentimentais de João Miramar, romance, 1924

Pau-Brasil, poesia, 1925

Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade,poesia, 1927

Serafim Ponte Grande, romance, 1933

O Homem e o Cavalo, teatro, 1934

A Morta, teatro, 1937

Rei da Vela, teatro, 1937

 Marco Zero à Revolução Melancólica, romance, 1943

 Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão, poesia, 1945

 O Escaravelho de Ouro, poesia, 1945

 O Cavalo Azul, poesia,1947

Manhã, poesia, 1947





Biblioteca no metrô, um programa de sucesso

27 05 2011

Compatimento C, trem 293, 1938

Edward Hopper ( EUA,1882-1967)

óleo sobre tela,  50 x 45

IBM Corporation, Armonk, Nova York

Ler em público, no metrô, na sala de espera, na fila do banco ainda é um comportamento mais raro no Rio de Janeiro do que na maioria das cidades americanas, inglesas e de muitos países da Europa continental. É interessante notar, no entanto, que cada vez mais vemos pessoas lendo em lugares públicos, bem mais do que se via algum tempo atrás quando comecei uma brincadeira de fotografar pessoas lendo em público.  Quem está familiarizado com este blog sabe que no seu primeiro ano de existência – 2008 – ainda postei muitas fotos que eu mesma tirei de pessoas lendo em lugares públicos.  Acho que uma alavanca para essa leitura em lugar público deva-se em parte ao sucesso dos projetos de bibliotecas públicas localizadas nos metrôs das grandes cidades brasileiras.

No metrô do Rio de Janeiro a Biblioteca Livros & Trilhos já funciona há mais de 4 anos, e está localizada na estação do metrô da Central.  O projeto é fruto de uma parceria de três elementosMetrô Rio, Instituto Brasil Leitor e da iniciativa privada.  No final de 2010 esta biblioteca contava com 8.000 sócios e próximo de 80.000 empréstimos.

Aconchego, 1976

Beryl Cook ( Inglaterra, 1926 – 2008)

Óleo sobre madeira e colagem de jornal

www.berylcook.org

A Biblioteca Livros e Trilhos foi inspirada pelas Bibliotecas Embarque na Leitura do metrô paulista, que hoje conta com 5 bibliotecas nas estações Santa Cecília, Luz, Tatuapé, Paraíso e Brás (CPTM) que também são fruto do Instituto Brasil Leitor.

O sucesso dessas bibliotecas é muito claro quando se contabiliza o número de sócios e  o número de empréstimos, mas o exemplo mais concreto desse sucesso pode ser visto no menino Lucas Reis de Lima Silva, 9 anos, morador de Osasco, região metropolitana de São Paulo.   Esse menino, que adora nadar e fazer educação física durante as tardes, depois da escola, ganhou no mês passado, o título de campeão das Bibliotecas Embarque na Leitura, de São Paulo.  Entre o público de sua faixa etária, Lucas foi o que mais tomou livros emprestados: 190 livros em 2 anos.

Lucas pega livros emprestado na biblioteca do Metrô instalada na Estação Santa Cecília, Foto: Tiago Queiroz/AE

Lucas, que passa pela estação Santa Cecília todos os dias com a mãe, foi quem pediu  para que ambos se tornassem sócios da biblioteca.   D. Valéria, sua mãe, é uma grande incentivadora da leitura. Ambos logo se acostumaram a retirar livros na estação, mas quando se trata de volume de leitura, Lucas passa sua mãe, que em média tira 2 livros por mês para ler.  Ele mesmo admite que a leitura tem o ajudado bastante na escola.  “Quando tem ditado na escola, aparecem palavras que já li nos livros e acerto tudo.”

É maravilhoso ver que um jornal do porte do O Estado de São Paulo tenha dedicado seu espaço para a divulgação de tão boas novas, no mês passado.  Depois algumas semanas conturbadas com notícias sobre cartilhas escolares distribuídas pelo governo repletas de erros gramaticais; depois das reportagens na televisão sobre a precariedade de grande parte das escolas brasileiras, é bom voltarmos atrás só uns poucos dias, para nos lembrarmos que ainda há esperança…  de que ainda há crianças que lêem e pais que se preocupam com a educação de seus filhos… que nem tudo parece estar à beira do abismo.

FONTE; Estadão On Line





A omeleta, poesia infantil de Maria de Lourdes Figueiredo

26 05 2011

A omeleta

Maria de Lourdes Figueiredo

Vou fazer uma omeleta

pra botar dentro do pão,

e, para isto, é preciso

que eu preste toda atenção.

Primeiro bater os ovos;

depois, fritar no fogão.

Virá-la, então, com cuidado…

Escapuliu!  Foi ao chão!…

Em: O mundo das crianças: poemas e rimas, vol 1,  Rio de Janeiro, Delta: 1975, p. 110





Leitura infantil: Lenda da noite

25 05 2011

Noite, ilustração de Anton Pieck (Holanda, 1895-1987).

Lenda da noite

                                              Theobaldo Miranda Santos

A filha da Cobra Grande casou-se e disse ao marido:

— Meu esposo, tenho muita vontado de ver a noite.

Minha mulher, só existe o dia, respondeu-lhe o marido.

— A noite existe sim!  Meu pai guarda-a no fundo das águas.  Mande seus criados buscá-la, suplicou a moça.

Os criados partiram ligeiros em busca da noite.  E transmitiram ao pai o pedido da filha.  A Cobra Grande então entregou-lhe um coco de tucumã, avisando-os:

— Muito cuidado com este coco!  Se ele for aberto, tudo escurecerá e todas as coisas se perderão.

Durante a viagem, os criados ouviram, dentro do coco, um barulhinho assim: xê-xê-xê, tem-tem-tem…  Curiosos, os criados abriram o coco e tudo escureceu.

A moça disse então ao marido: — Meu esposo, os criados soltaram a noite.  Agora tudo ficará escuro e todas as coisas se perderão.

O marido, espantado, perguntou-lhe: Que faremos!  Precisamos salvar o dia!

A filha da Cobra Grande, então, arrancou um fio de seus cabelos e disse:  Com este fio, vou separar o dia da noite.  Feche os olhos, meu esposo…  Agora pode abri-los e reparar.  A madrugada já vem chegando.  os pássaros cantam anunciando o sol.

Mas quando os criados voltaram, a filha da Cobra Grande os transformou em macacos, por sua infidelidade.  Assim nasceu a noite.  Assim surgiram os macacos.

Em: Leitura infantis:  2º livro,  para as escolas primárias, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1962





Gemedeira dos pássaros , poesia de Roberto Pontes

18 05 2011

Gemedeira dos pássaros

                                       Roberto Pontes

                                                     Para Gracia Levine

Onde é que ficaram as praças

E os meus doces passarinhos

Da infância inesquecida?

Na aragem dos caminhos?

— As flores murcharam cedo

E os passarinhos com medo

Ai! ai! uui! ui!

Foram viver sozinhos.

Deixaram algum recado

Nos canteiros ressequidos?

Na trança tenra dos ninhos

O trinar pros meus ouvidos?

— O tziu levou seus filhos

A murta fechou seus cílios

Ai! ai! ui! ui!

Tão breve adormecidos.

Meus canteiros carregados

Minhas jandaias de sonho

O passado onde eu regava

E ainda  hoje amanho.

Jardins como um vasto véu

E asas pardas pelo céu

Ai! ai! ui! ui!

Vocês me põem tristonho.

Em: Poesia simplesmente, coletânea de diversos poetas, Edição independente, 1999.

Francisco Roberto Silveira de Pontes Medeiros, nasceu em Fortaleza, Ceará (04/02/1944). Cursou Direito (1964) e mestrado em Literatura Brasileira (1991) na UFC. 

Dados biográficos: Antônio Miranda





As velhas negras, poema de Gonçalves Crespo, no dia 13 de maio, comemoração da Lei Áurea

13 05 2011

Mulata Quitandeira, 1893-1905

Antônio Ferrigno ( Itália, 1863-1940)

óleo sobre tela,  179 x 135 cm

Pinacoteca do Estado de São Paulo

As velhas negras

Gonçalves Crespo

                                           A Mme Aline de Gusmão

As velhas negras, coitadas,

Ao longe tão assentadas

Do batuque folgazão.

Pulam crioulas faceiras

Em derredor das fogueiras

E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremeluzem pirilampos

No verde-escuro dos campos

E nos côncavos do val.

Que noite de paz!  que noite!

Não se ouve o estalar do açoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cansadas

Num letárgico torpor!

E cismam: outrora, e dantes

Havia também descantes,

E o tempo era tão feliz!

Ai!  que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas matas do seu país!

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Ressurge e chora o passado

— Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez…

E pensam nos seus amores

Efêmeros como as flores

Que o sol queima no sertão…

Os filhos quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguém sabe onde estão.

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto sono

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas,

E agora inúteis, curvadas,

Numa velhice imbecil!

No entanto o luar de prata

Envolve a colina e a mata

E os cafezais ao redor!

E os negros mostrando os dentes,

Saltam lépidos, contentes,

No batuque estrugidor.

No espaço e amplo terreiro

A filha do Fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo-recém-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

E ela avista entre sorrisos,

De uns longínquos paraísos

A tentadora visão…

No entanto as velhas, coitadas,

Em

Cismam ao longe assentadas

Do batuque folgazão…

 –

Em: Obras Completas de Gonçalves Crespo, Rio de Janeiro, Livros de Portugal: 1942

Antônio Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 1846 — Lisboa, 1883), jurista e poeta, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do final  do século XIX. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo colaborado em diversos periódicos, entre os quais O Ocidente e a Folha, o jornal de que era director João Penha, o poeta que introduziu em Portugal o Parnasianismo. Naturalizou-se português quando precisou ter cidadania portuguesa para exerger a advocacia.  Casou-se com a escritora e poetisa portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Faleceu aos 37 anos de tuberculose, em 1883.

Nota da Peregrina:  Tenho uma grande admiração por esse poeta luso-brasileiro.  Dos poetas do século XIX Gonçalves Crespo está entre os meus favoritos.  Acho que deveríamos conhecê-lo melhor no Brasil.





O cometa, poesia infantil de João de Deus Souto Filho

10 05 2011

Cometa, século XVI.

Desenho de astrônomo turco, anônimo,

Do livro Tarcuma-I Cifr, de Maomé Kamalladin.

Univerisdades Rektolugu-Istambul

Turquia

O    cometa

João de Deus Souto Filho


O Cometa não é estrela
Nem planeta,
O Cometa é viajante
Estelar,
Grande rei andarilho,
De bela coroa
E cauda a brilhar…

Em: Jornal de Poesia

João de Deus Souto Filho, Geólogo e educador. Nasceu em 1957 na cidade de Carolina, MA.  É formado em Geologia pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Geo-Engenharia de Reservatórios de Petróleo pela UNICAMP (1994), Formado em Letras (Licenciatura) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1999). Desenvolve trabalho sobre a importância da formação de uma consciência de preservação dos recursos hídricos.

Obras infantis:

O quintal do Seu Nicolau, 1992

O aprendiz de jardineiro, teatro, 1992

O passeio da Cinderela, teatro, 1992

Brincadeira de palavras, inédito

Na ponta da pena, inédito.





Quadrinha para o Dia das Mães

24 04 2011
Ilustração, mãe e filho, Frederick Richardson, 1975.

Tudo o que fui e que sou

devo ao seu zelo e carinho.

— Mãezinha, você plantou

roseiras no meu caminho!

( Pedro Peixoto de Aguiar)





A banana, poema de Sônia Carneiro Leão

11 04 2011

Campo de Batalha 5 , 1973

Antônio Henrique Amaral ( Brasil, 1935-2015)

óleo sobre tela, 182 x 234cm

A banana

Sônia Carneiro Leão

A fruta mais descarada

da espécie vegetal,

exibicionista, safada,

a mais amada,

preferência nacional.

Nasce, assim, sem respeito,

em qualquer parte,

de qualquer jeito,

em qualquer quintal

onde houver

um sol tropical.

Em terras baianas,

pernambucanas,

nossa República das Bananas.

Verdadeiro tesouro:

banana-prata, banana-ouro.

Chiquita bacana.

Banana querida,

banana amiga,

da nossa barriga.

Banana brasileira,

te como toda,

te como inteira.

Em: Respostas ao criador das frutas, Sônia Carneiro Leão, Recife: 2010.

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.