O medo, poesia de Henrique Simas

3 09 2010

O grito, 1893

Edward Münch ( Noruega, 1863 – 1944 )

óleo, têmpera e pastel sobre papelão

91 x 74cm

Galeria Nacional, Oslo, Noruega

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O medo

Henrique Simas

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É o gigante da alma que me segue

Marcando-me por dentro, todo e sempre

(Como os sonhos, os donos de mim mesmo).

Não consigo afastá-lo do caminho;

Pergunto-me, duvido, adio, fujo

Conhecendo-me nunca intimamente.

São dezenas de sonhos, são projetos

De rasgos voluntários sem começo,

São estrelas perdidas no escuro

De uma infância culpada do presente,

Cordilheira dos Andes do futuro.

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Em: Horizonte vertical, Rio de Janeiro, Olimpica: 1967, p.25

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Henrique Simas ( Belém, PA, 1922) poeta, diplomado em direito, professor e advogado.

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Obras:

Instabilidade do canto, poesia, 1963

Horizonte Vertical, poesia, 1967

1949 não terminou, prosa, 1977

Cresce menino cresce, prosa, 1989

Encantamentos, 1994

Branca de Neve, prosa, 1999





Imagem de leitura — Nicolai Fechin

2 09 2010

A atriz Lillian Gish, como Romola,  1925

Nicolai Fechin ( Rússia, 1881- EUA, 1955)

Óleo sobre tela,  125 x 114 cm

Coleção Particular

Nicolai Ivanovitch Fechin nasceu em Kazan, Rússia, em 1881.  Aos treze anos  tornou-se aluno na Escola de Arte de Kazan, que era uma filial da Academia Imperial de Arte de São Petersburgo, para onde foi depois de completar os seus estudos em Kazan.  Lá, foi um aluno brilhante e por isso mesmo teve bolsas de estudos por seis anos consecutivos.  Logo atingiu fama internacional.  No início da revolução comunista na Rússia, sua fama lhe valeu e recebeu ajuda em sair do país de colecionadores internacionais principalmente de seus colecionadores nos EUA.  Emigrando, estabeleceu-se em Nova York, onde ensinou na Academia de Arte de Nova York.   Em 1924 ganhou primeiro prêmio de retrato da Exposição da National Academy.    Mas a tuberculose não o deixou residir num local tão frio e mudou-se com a família para o clima seco do Novo México.  Mais tarde depois de seu divórcio, Nicolai Fechin se estabelece em Los Angeles na Califórnia.  Seu sucesso em solo americano permitiu que o pintor viajasse extensamente  pelo sudeste asiático onde tentou residir, mas retornou à Califórnia onde permaneceu até a morte, em 1955.





Quer melhorar o desempenho do seu filho? Mande-o para a horta

1 09 2010

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Uma pesquisa desenvolvida pela Royal Horticultural Society com o apoio da National Foundation for Educational Research (NFER) indica que crianças que tem contato com hortas nas escolas alcançam um melhor desempenho acadêmico, físico e social em comparação com alunos que não ter acesso a esses ambientes.

Segundo o estudo, essas crianças ainda apresentam maior facilidade durante a alfabetização e se tornam mais preparadas para os desafios da vida adulta. Para chegar ao resultado, o grupo entrevistou mais de 1,3 mil professores de 10 escolas diferentes. “O objetivo primordial da pesquisa é traçar o perfil das hortas como um recurso natural, sustentável e que tem a capacidade de ofertar benefícios curricular, social e emocional aos alunos“, diz o texto introdutório do estudo.

Entre os resultados mais significativos citados pelo artigo estão: maior conhecimento e compreensão científica; literacia e numeracia reforçadas, incluindo a utilização de um vocabulário mais amplo e maior habilidades orais; aumento da sensibilização sobre as estações do ano e da compreensão do processo de produção de alimentos; aumento da confiança, da resiliência e da auto-estima; desenvolvimento de habilidades físicas, incluindo habilidades motoras de alta complexidade; desenvolvimento de senso de responsabilidade; desenvolvimento de uma atitude positiva sobre escolhas alimentares saudáveis; desenvolvimento de comportamento positivo; melhorias no bem-estar emocional.

A pesquisa indica ainda que os benefícios das hortas não se limitaram aos alunos. Professores, assistentes, reitores e demais membros da comunidade escolar também sentiram mudanças positivas após a implantação dos espaços.

Fonte: Terra





Amo o Brasil, poesia de Bastos Tigre para a semana da pátria

31 08 2010

Mickey e Pateta vão ao Brasil, Ilustração Walt Disney.

 

Amo o Brasil

                                     Bastos Tigre

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Amo este céu constelado

Céu do Brasil — manto azul —

Sobre ele, em ouro bordado,

Vê-se o Cruzeiro do Sul.

Amo estas matas virentes

Verdes, de eterno verdor

Onde há frutos recendentes,

De delicioso sabor.

Amo esta água cristalina

Dos rios, viva, a correr,

Fazendo mato e campina

Serra e vale florescer.

As belas árvores amo,

Povoadas de passarinhos,

Onde a vida em cada ramo

Palpita em flores e ninhos.

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Água e mata, céu e terra

Flores do campo gentis,

Amo tudo quanto encerra

Meu grande e belo País.

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Amo as amáveis cantigas

Que ouvi, criancinha, a cantar,

 Em doces vozes amigas,

No berço me acalentar.

Amo a nossa gente boa

Feita só de coração,

Que, por vingança, perdoa

E esquece por compaixão.

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Amo os nomes bem-fadados,

Dos que lutaram por nós;

Dos nossos antepassados,

Avós dos nossos avós.

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Poetas, sábios e guerreiros

Que a história em seus livros traz,

Nobres heróis brasilleiros

Grandes na guerra e na paz.

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Em tudo que amo e bendigo

A minha pátria se vê.

Amo, porque amo!  Não digo

Nem que me perguntem por quê.

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Amo os meus pais.  Necessito

Dizer por que amo os meus pais?

Assim proclamo, assim grito:

Amo o Brasil!  Nada mais.

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Sinto-o em mim, no mais profundo

Da minh’alma juvenil.

Adoro a Deus; e no mundo

Amo, adoro o meu Brasil.

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Em: Antologia Poética, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982

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Que lembranças você deixará para os seus sobreviventes?

30 08 2010

Gerânios em potes, ilustração sem nome do autor.

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Recentemente participei de uma reunião de família lembrando a data de aniversário de uma tia que se estivesse viva faria cem anos. Duas gerações se recordaram de momentos em que tia Maria-Emília havia tido um papel importante: por um gesto, uma palavra, uma série de atitudes; por seus quitutes – Quadradinhos Norma, de longe o favorito da família: certamente o meu, além de suas Barquetes de queijo. Depois de algumas semanas desse encontro, nem sei a razão, vim a me lembrar de outra faceta, outro aspecto de sua influência nas minhas memórias, que não cheguei a relatar naquela noite: o seu jardim, mais especificamente seus gerânios.

Essa foi a minha única tia que morava em casa com jardim. Cidadã urbana, crescendo no Rio de Janeiro, num edifício de apartamentos, jardins sempre foram, para mim, entidades de outro mundo, mantidas por jardineiros, mais ou menos capazes, que dobravam como porteiros, ou vice-versa. Sempre gostei de jardins, mas sua manutenção era algo altamente misterioso.

Um dos meus primeiros encontros com os mistérios do jardim de tia Maria-Emília foi quando, aluna da terceira série, tive como dever de casa levar uma plantinha para a sala de aula, colocá-la na janela e cuidar dela. Já tínhamos a essa altura, criado feijão em algodão molhado, e batatas doces em água, cujas folhas caíam felizes de vasos pendurados na parede da escola. Com o novo projeto em mente rumamos, mamãe e eu, à casa de titia. Lá, encantada com as avencas, plantinhas mimosas que cresciam na pedra úmida do morro por trás da casa, recebi das mãos de minha tia meu primeiro projeto de jardinagem. Foram na verdade três avencas levadas para a escola em sucessivos projetos de jardinagem frustrados. Consegui matar a todas três durante o ano letivo. Mamãe já estava sem graça de pedir mudas à minha tia… Paramos o projeto. Papai me arranjou um cacto que não cresceu nem morreu. Simplesmente existiu pelo resto do ano. Achei daí por diante que não tinha muita afinidade com jardins além de apreciar sua sombra, suas flores e seus perfumes. Isso eu sabia fazer!

Das curiosidades marcantes do jardim de titia havia a abundância das flores azuis da Bela-Emília, arbustos que ladeavam a escada de entrada. Até hoje, quando passo pela praça Antero de Quental no Leblon e vejo Belas-Emílias florindo em profusão passa-me pela mente a casa de titia. Havia também uma grande bananeira na frente da casa – só decorativa: um leque gigante de plumagem verde, cujos frutos não eram comestíveis e um cantinho, numa jardineira alta, fazendo divisa com a casa ao lado, onde titia plantava gerânios: coloridas bolotas de flores vermelho alaranjadas. Como eu gostava daquelas flores e de seu perfume!

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Cartão Postal de felicidades, originário da Holanda

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Minha tia Maria-Emília visitou a Europa comigo. Não fisicamente. Mas esteve presente nos meus pensamentos quando passei pelos Alpes austríacos, onde, num início de primavera, muitas jardineiras, penduradas logo abaixo dos peitoris das janelas, apareciam cheias de gerânios. Essas flores arredondadas ajudavam a decorar as casas de madeira do Tirol, feitas já bastante alegres pelas pinturas de guirlandas coloridas em seus exteriores. Nessa mesma viajem, mais tarde, quando atravessei para a Itália, logo apareceu tia Maria-Emília, de novo, apreciando comigo os gerânios que cascateavam pelas paredes de estuque antigo, caindo das sacadas de Veneza.

Quando finalmente tive minha primeira casa com jardim, na época em que morei nos Estados Unidos, resolvi logo, logo, plantar gerânios em vasos de barro colocados em pontos de grande visibilidade na varanda de madeira — um deck – que arrematava os fundos da casa e de onde podíamos inspecionar o quintal. Gostaria naquele momento de ter tido o conselho de tia Maria-Emília. Principalmente depois que descobri ser alérgica ao gerânio. Alérgica ao óleo perfumado de suas folhas aveludadas. Alergia de contato, só. Facilmente resolvido com um par de luvas ou até mesmo, quando o desejo de tocar na maciez de suas folhas arredondadas e crespinhas na borda me tiravam do sério, com uma lavagem das mãos, rápida, com sabonete, imediatamente depois do toque sedutor. Mesmo assim, insisti nesse passatempo. Mas o gerânio não se dá bem durante o inverno americano. Deixado do lado de fora, morre com o frio. Trazido para dentro de casa, tampouco sobrevive, não recebe luz suficiente pelos meses de outono/inverno para permanecer saudável. Não tinha jeito.

Essas lembranças me assaltaram quando decidi, recentemente, no meio de uma noite mal dormida, com algumas horas em claro, na madrugada carioca, colocar alguns gerânios no peitoril da janela de meu quarto. Tenho certeza de que esta decisão me levará a lembrar daqueles ótimos momentos de uma infância feliz e despreocupada, e muitas vezes ainda me lembrarei de minha tia.

Nunca sabemos pelo que seremos lembrados depois de nossa morte. Nem se chegaremos a ser lembrados — bem ou mal —     pelas pessoas que nos conheceram.  Dizem que continuamos vivos enquanto somos lembrados pelos que aqui ainda se encontram. Às vezes achamos que seremos lembrados por alguns ditos, por nossos escritos, mas raramente imaginamos que nossos pequenos projetos sejam causa das recordações que deixamos para trás.  Mas acredito que é o que se faz com paixão, por puro prazer, aquilo que nos imortaliza, nem que seja por uma ou duas mais gerações.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2010





Cantiga — poesia infantil de Maria de Sousa da Silveira

16 08 2010
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Cantiga

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                                                                Maria de Sousa da Silveira

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Ô peixe, peixinho,

Me ensina a nadar,

Quero ver belezas

Do fundo do mar.

Vem tu, passarinho,

As asas me dar

Para eu ir bem alto

A voar, voar.

Já estou enjoado

De na terra andar;

Novas aventuras

Eu quero tentar.

Não, não, ó peixinho,~

Não quero nadar;

Pesacdor malvado

Me pode matar.

Não, não passarinho,

Não quero voar;

Caçador malvado

Me pode matar.

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É melhor na terra

Eu querer ficar,

E com o que tenho

Eu me contentar.

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Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

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Maria de Sousa da Silveira (`Petrópolis, RJ 1914).  Curso o Colégio Sion no Rio de Janeiro.  Poeta principalmente de poesias infantis.

Obras:

A Coelhinha Branca

O País Encantadoda Robustez e do Bom Humor

O casaco do vovôzinho

As quatro meninas

Um sonho extraordinário

A famílias rezende, prosa

Para gente miúda recitar, poesia

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Quadrinha infantil da galinha

14 08 2010

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Logo que bota seu ovo,

A galinha, que é a tal,

Para fazer propaganda

Arma um barulho infernal.

(Walter Nieble de Freitas)





Uma das mais belas declarações de amor…

13 08 2010

 

Escrevendo, s/d

Daniel F. Gerhartz ( EUA, 1965)

Óleo sobre tela

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Uma das melhores declarações de amor que já li na literatura contemporânea encontrei no livro Eu a amava, cuja resenha já foi publicada nesse blog.  Como emprestei o meu livro para diversas amigas e só agora ele me voltou às mãos, vou postar aqui esta declaração que outras leitoras também acharam o ponto alto desse romance de Anna Gavalda.  A declaração em questão tem a forma de uma carta escrita por uma mulher:

…………

“—Por que você está me escrevendo?

“ – Oh, na verdade não estou escrevendo, escrevo o que tenho vontade de fazer com você…

“Havia folhas por toda parte.  Em volta dela, nos pés, na cama.  Peguei uma ao acaso:

“… fazer piquenique, fazer a sesta na beira de um rio, comer pêssegos, camarões, croissants, arroz de sushi, nadar, dançar, comprar sapatos para mim, lingerie, perfume, ler o jornal, olhar as vitrines, pegar o metrô, vigiar a hora, empurrá-lo quando você toma o espaço todo , estender a roupa, ir à Ópera, ao Beyruth, a Viena, às compras, ao supermercado, fazer churrasco, reclamar porque você esqueceu o carvão, escovar os dentes ao mesmo tempo que você, comprar cuecas para você, cortar a grama, ler o jornal por cima do seu ombro, não deixar você comer amendoim, visitar as caves do Loire, e as do Hunter Valley, dar uma de boba, matraquear, apresentar-lhe Martha e Tino, colher amoras, cozinhar, voltar ao Vietnã, vestir um sári, cuidar do jardim, acordá-lo de novo porque está roncando, ir ao zoológico, ao Mercado das Pulgas, a Paris, a Londres, a Melrose, a Picadilly, cantar para você, parar de fumar, pedir-lhe para me cortar as unhas, comprar louça, bobagens, coisas que não servem para nada, tomar sorvete, olhar as pessoas, ganhar de você no xadrez, escutar jazz, reggae, dançar mambo e chachachá, me entediar, ter caprichos, amarrar a cara, rir, ter você na palma da mão, procurar uma casa com vista para as vacas, encher carrinhos de supermercado até a boca, pintar o teto, fazer cortinas, ficar horas à mesa conversando com gente interessante, segurá-lo pelo laço, cortar os seus cabelos, arrancar o mato, lavar o carro, olhar o mar, rever filmes horrorosos, chamá-lo de novo, falar sem meias palavras, aprender a tricotar, tricotar uma echarpe para você, desfazer esse horror, recolher gatos, cães, papagaios, elefantes, alugar bicicletas, não usá-las, ficar numa rede, reler os Bicot* da minha avó, rever os vestidos de Suzy, beber margaritas na sombra, trapacear, aprender a usar um ferro de passar, jogar o ferro de passar pela janela, cantar debaixo da chuva, fugir dos turistas, me embebedar, lhe dizer toda a verdade, me lembrar de que nem toda verdade deve ser dita, escutá-lo, dar-lhe a mão, pegar de volta o ferro de passar, escutar as letras das músicas, pôr o despertador, esquecer as malas, parar de correr,esvaziar a lata de lixo,perguntar-lhe se ainda me ama,  conversar com a vizinha, contar-lhe minha infância em Bahrein, os anéis da minha babá, o cheiro de hena e os bolinhos de âmbar, molhar o pão no leite, fazer etiquetas para os potes de geléia…”

 

— E continuava assim durante páginas e páginas. Páginas e páginas… 

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* Revista em quadrinhos dos anos 20 ( Nota do tradutor).

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Em: Eu a amava, Anna Gavalda, Rio de Janeiro, Record: 2004, tradução de Procópio Abreu, páginas 151-153.





Uma visita à galeria do Sr. Walter em Bel-Ami de Guy de Maupassant

9 08 2010

 

Conde Ludovico Lepic e senhoras vendo uma exposição, s/d

Julius LeBlanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 39 x 28 cm

Coleção Particular

Há uma passagem no romance de Guy de Maupassant, Bel-Ami, que se tornou extremamente  sedutora para mim.  Ela conta da visita que o personagem principal, Duroy, faz a um conhecido, e do prazer e orgulho que o dono da casa tem em mostrar a Duroy sua coleção de quadros.   Li e reli o trecho, várias vezes.  Os pintores são todos conhecidos, ativos em Paris no final do século XIX.   Só os quadros mencionados, esses sim, parecem ser produtos da imaginação de Guy de Maupassant.  No entanto, o escritor mostra grande familiaridade com o mundo artístico da época:  todos os títulos e  descrições das cenas representadas na coleção do Senhor Walter, que visitamos juntamente com Duroy, se encaixam perfeitamente com os temas e os  títulos e, digamos assim, preocupações estéticas de cada pintor mencionado.  A minha curiosidade venceu e contra qualquer aspiração que eu poderia ter de mostrar bom senso resolvi a todo custo achar representações de quadros equivalentes aos da suposta coleção de arte do Sr. Walter.  Como não poderia deixar de ser, não há caçada que se preze sem mostra das presas, assim, coloco aqui não só a passagem do livro mas sobretudo as telas que encontrei que seriam equivalentes — na maneira do possível — as que formariam o acervo do colecionador retratado por Maupassant. 

***

Duroy havia levantado os olhos para as paredes, à falta de outra ocupação, e o Senhor Walter lhe gritou de longe, num visível desejo de fazer valer seus objetos: — Está olhando meus quadros? — O meus destacou-se. — Vou mostrá-los. — E apanhou um candelabro para que ficassem visíveis todos os detalhes.

— Aqui, as paisagens — disse ele.

No centro da parede, via-se uma grande tela de Guillemet, uma praia na Normandia, sob um céu de borrasca.  Por baixo, um bosque, de Harpignies, depois uma planície da Argélia por Guillemet, com um camelo no horizonte, um grande camelo de pernas longas, semelhante a um estranho monumento.

Paisagem costeira com figuras, s/d

Jean Baptiste Antoine Guillemet (França, 1843-1918)

óleo sobre tela

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Paisagem, s/d

Henri-Joseph Harpignies ( França, 1819-1916)

Óleo sobre tela

Walter passou à parede seguinte e anunciou com um tom sério, de mestre-de-cerimônias:  — A grande pintura. — Eram quatro telas:  Uma visita ao hospital, de Gervex.  A ceifeira, por Bastien-Lepage; Uma viúva, por Bouguereau, e Execução, por Jean-Paul Laurens.  Esta última obra representava um padre sendo fuzilado na parede de sua igreja, por um destacamento de azuis.

A colheita, 1880

Bastien Lepage (França, 1848-1884)

Óleo sobre tela

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O dia dos mortos, 1859

William Adolphe Bouguereau ( França, 1825-1905)

Óleo sobre tela

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A execução do Duque d’Enghien, s/d

Jean-Paul Laurens (França, 1838-1921)

Um sorriso passou pela figura grave de Walter ao indicar a parede seguinte: — Aqui os fantasistas, — Via-se em primeiro lugar uma pequena tela de Jean Béraud, intitulada O alto e o baixo.  Era uma parisiense bonita subindo a escada dum bonde em marcha.  Sua cabeça parecia no nível do tejadilho, e os senhores sentados nos bancos descobriam, com satisfação ávida, o rosto jovem que vinha ao encontro deles, enquanto os homens, de pé na plataforma de baixo, olhavam as pernas da moça, com expressões diferentes de despeito e desejo.

Jovem mulher atravessando a rua, s/d

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre tela

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Walter segurava a lâmpada no alto e repetia rindo, com um trejeito maroto: — Hein?  não é engraçado?  não é engraçãdo?

Depois iluminou um Salvamento de Lambert.

No meio de uma mesa vazia, um gatinho sentado sobre o traseiro, examinava com espanto e perplexidade uma mosca afogando-se num copo d’água.  Tinha uma pata levantada, pronta a apanhar o inseto com um golpe rápido.  Mas não estava completamente decidido.  Hesitava.  Que Faria?

Depois do jantar, s/d

Louis Eugène Lambert ( França, 1825-1900)

óleo sobre tela

O patrão mostrou depois um Detaille: A lição, que representava um soldado na caserna, ensinando a um cãozinho a tocar tambor, e declarou: — Aqui há espírito!

Duroy ria com um riso aprovador e extasiava-se: — Como é encantador, como é encantador, encan… — Parou bruscamente, ao ouvir, por trás dele, a voz da Senhora de Marelle, que acabava de entrar.

1806: Ponto avançado da cavalaria,  sem data

Jean-Baptiste Edouard Detaille ( França 1848-1912)

óleo sobre tela.

O diretor continuava a iluminar as telas e explicá-las. 

Mostrava agora uma aquarela de Maurice Leloir: O obstáculo.  Era uma cadeirinha parada, por se achar a rua obstruída por uma luta entre dois homens do povo, dois valentões, brigando como Hércules.  E pela janela da cadeirinha, via-se um lindo rosto de mulher que olhava… que olhava… sem impaciência, sem medo, e com certa admiração, o combate dos dois brutos.

A última visita de Voltaire a Paris, s/d

Maurice Leloir ( França, 1853-1940)

Walter continuava dizendo sempre: — tenho outros nas outras peças seguintes, mas são de gente menos conhecida, menos classificada.  Aqui é o meu salão.  Compro dos jovens do momento, dos mais jovens, e ponho-os de reserva nos quartos mais internos, esperando os autores tornarem-se célebres.  — Depois disse, muito baixo: — É a hora de comprar quadros.  Os pintores morrem de fome.  Não têm dinheiro, não têm dinheiro…

Em: Bel-Ami, Guy de Maupassant, São Paulo, Editora Abril:1981, tradução de Clóvis Ramalhete, pp: 111-113





Comemorando o Dia dos Pais com um desenho do Pica-pau

8 08 2010