Leitura infantil: Lenda da noite

25 05 2011

Noite, ilustração de Anton Pieck (Holanda, 1895-1987).

Lenda da noite

                                              Theobaldo Miranda Santos

A filha da Cobra Grande casou-se e disse ao marido:

— Meu esposo, tenho muita vontado de ver a noite.

Minha mulher, só existe o dia, respondeu-lhe o marido.

— A noite existe sim!  Meu pai guarda-a no fundo das águas.  Mande seus criados buscá-la, suplicou a moça.

Os criados partiram ligeiros em busca da noite.  E transmitiram ao pai o pedido da filha.  A Cobra Grande então entregou-lhe um coco de tucumã, avisando-os:

— Muito cuidado com este coco!  Se ele for aberto, tudo escurecerá e todas as coisas se perderão.

Durante a viagem, os criados ouviram, dentro do coco, um barulhinho assim: xê-xê-xê, tem-tem-tem…  Curiosos, os criados abriram o coco e tudo escureceu.

A moça disse então ao marido: — Meu esposo, os criados soltaram a noite.  Agora tudo ficará escuro e todas as coisas se perderão.

O marido, espantado, perguntou-lhe: Que faremos!  Precisamos salvar o dia!

A filha da Cobra Grande, então, arrancou um fio de seus cabelos e disse:  Com este fio, vou separar o dia da noite.  Feche os olhos, meu esposo…  Agora pode abri-los e reparar.  A madrugada já vem chegando.  os pássaros cantam anunciando o sol.

Mas quando os criados voltaram, a filha da Cobra Grande os transformou em macacos, por sua infidelidade.  Assim nasceu a noite.  Assim surgiram os macacos.

Em: Leitura infantis:  2º livro,  para as escolas primárias, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1962





Seis tumbas abertas ao turismo em Gizé, no Egito

24 05 2011

 

Foto: Associated Press.

No Egito, esta semana, Zagi Hawass, ministro para assuntos arqueológicos, abriu para visitações o Cemitério do Estado Moderno, em Gizé. Um dos destaques é a tumba de Pay, guardião do harém do faraó Tutancâmon.  Estas tumbas, que até agora não estavam abertas ao público, poderão de agora em diante dar uma melhor idéia ainda de como era a vida, milhares de anos atrás. 

Ao todo são seis tumbas à disposição do visitante.  Entre elas estão a de Maya, ministro das finanças do faraó e sua esposa Merit e a de Horemheb, comandante do exército egípcio durante o reinado de Tutancâmon, que mais tarde subiu ao trono.   “Maya e Horemb foram homens de grande importância política numa das épocas mais conturbadas do período Amarna”, descreve assim o informe distribuído à imprense pelo Supremo Conselho de Antiguidades do Egito,  “nessa época, o faraó Akenaton fechou os mais importantes templos de Luxor e mudou a capital para um local no meio do deserto, chamado Tell el-Amarna.”  A capital do reino só voltou para Luxor, depois da morte de Akenaton, quando seu filho, Rei Tutancâmon,  decidiu por ordem no reino, abandonar Tell el-Amarna e levar de volta a capital para sua antiga morada, Luxor.  Para conseguir fazer essas mudanças, Tutancâmon precisou de apoio e dos conselhos de duas pessoas cujas tumbas foram postas à visitação: de seu general Horemheb e do tesoureiro do reino, Maya.

Foto: Associated Press

A importância de Maya e por extensão sua esposa Merit pode ser avaliada quando vemos suas efígies no pátio desse cemitério.  Maya, como tesoureiro de Tutancâmon, foi uma figura importantíssima para a reconstrução do Egito depois do período de Amarna.  Ele ajudou o rei a reabrir os templos em Luxor e a construir novos templos e altares to Amon, tudo para mostrar como Tutancâmon estava dedicado a restaurar a ordem no país.  Maya se dedicou a estabelecer ordem dentro do país, enquanto que Horemheb trabalhou em estabelecer a ordem fora das fronteiras egípcias.  Ainda que a tumba de Maya nunca tenho sido acabada, o visitante pode ver a coluna de terracota com relevos, com Maya e Merit recebendo oferendas. 

Foto: Associated Press.

Outras tumbas que foram abertas para o publico nesse mesmo complexo incluem:

Merneith –  organizador e escrivão do templo de Aten, durante o reino de Akenaton.  Mais tarde foi alto sacerdote de Aten e do Templo de Neith;  Sua eumba foi construída com tijolos de terracota recobertos por blocos de calcário.  Nos fundos da tumba há três capelas para oferendas.  A capela central tem uma cena de ferreiros trabalhando e tem também as bases de duas pequenas colunas, onde provavelmente se apoiava uma pequena pirâmide de terracota.  

Ptahemwia – conhecido como o “Mordomo Real, o que tem mãos limpas”, que serviu tanto a Kenaton como a Tutancâmon.  Ele foi o responsável por trazer a comida e as bebidas ao rei.  Sua tumba, que tem a inscrição “Amado pelo Rei”, também é de tijolos de tarracota recobertos como blocos de calcário e tem três capelas. . 

Tia – teve um alto posto no reinados de Ramsés II, além de ser o supervisor do tesouro.  Casou-se som uma das irmãs de Ramsés, também chamada de Tia.  Sua tumba também foi usada com um templo mortuário para Osíris e tem representações de Tia e sua esposa fazendo peregrinação  a Abidos, o centro do culto a Osiris.

Pay e seu filho Raia – Pay era o guardião do harém de Tutancâmon.  Sua tumba tinha uma capela inicial dando para um pátio com colunas que por sua vez tinham três capelas para oferendas.  O filho de Pay, Raia, começou sua carreira como soldado, mas assumiu o posto de seu pai depois que este morreu.  Raia adicionou pátio e duas estelas; renovou a tumba antes de morrer e lá ser enterrado.  As estelas foram levadas para Berlim quando o egiptólogo Karl Richard Lepsius as descobriu em 1928.

Foto: Associated Press

Ao longo do processo de excavação 56  ataúdes da era do Novo Reinado doram encontrados, a maioria dos quais de crianças. 

Na abertura dessas tumbas ao public Zagi Hawass lembrou que o projeto de restauração incluía renovação detalhada e trabalho de arquitetura além da volta para o local de artefatos que no momento não se encontram lá.  Os tetos e as paredes de todas as tumbas foram recobertos com plexiglass para proteger do grande número de turistas esperado nas visitas, as cores e os desenhos em relevo, principalmente aqueles que adornam as tumbas de Maya e Tia.  Além disso, portas de madeira e de metal foram instaladas para proteger as tumbas, e caminhos pavimentados com pedras foram feitos para facilitar o acesso.

O complexo funerário fica a 30 km ao sul de Cairo e abriga também as tumbas dos nobres Merineiz e Ptahemuia, que viveram durante o reinado de Aketanon (de 1.361 a.C a 1.352 a.C).  Algumas dessas tumbas foram descobertas em 1843 pelo explorador alemão Richard Lepsiu, mas não foram completamente excavadas até 1975, quando uma missão anglo-holandesa recomeçou as excavações.  Hoje um grupo de arqueólogos holandeses da universidade de Leiden excava o sítio arqueológico e também tem restaurado as tumbas.

Fontes: Almasriyalyoum e Scrollpost





Imagem de leitura — Nicole Etiènne Powell

18 05 2011

Manhã de domingo

Nicole Etiènne (EUA, 1974)

Óleo sobre tela

Nicole Etienne Powell ( EUA, 1974). Nasceu na Califórnia, filha de uma pintora.  Começou desde cedo a experimentar com tintas. Estudou na Universidade da Califórnia-Santa Bárbara e depois na Universidade da Califórnia-Santa Cruz, de onde se graduou em 1997.   Estudou também na Itália, na Escola Lorenzo de Médici, continuando seus estudos com um mestrado em arte na  Academia de Arte de Nova York.  Atualmente mora em Nova York. www.nicoleetiennepowell.com





Gemedeira dos pássaros , poesia de Roberto Pontes

18 05 2011

Gemedeira dos pássaros

                                       Roberto Pontes

                                                     Para Gracia Levine

Onde é que ficaram as praças

E os meus doces passarinhos

Da infância inesquecida?

Na aragem dos caminhos?

— As flores murcharam cedo

E os passarinhos com medo

Ai! ai! uui! ui!

Foram viver sozinhos.

Deixaram algum recado

Nos canteiros ressequidos?

Na trança tenra dos ninhos

O trinar pros meus ouvidos?

— O tziu levou seus filhos

A murta fechou seus cílios

Ai! ai! ui! ui!

Tão breve adormecidos.

Meus canteiros carregados

Minhas jandaias de sonho

O passado onde eu regava

E ainda  hoje amanho.

Jardins como um vasto véu

E asas pardas pelo céu

Ai! ai! ui! ui!

Vocês me põem tristonho.

Em: Poesia simplesmente, coletânea de diversos poetas, Edição independente, 1999.

Francisco Roberto Silveira de Pontes Medeiros, nasceu em Fortaleza, Ceará (04/02/1944). Cursou Direito (1964) e mestrado em Literatura Brasileira (1991) na UFC. 

Dados biográficos: Antônio Miranda





O oficial dos casamentos, de Anthony Capella: as muitas formas de sedução

17 05 2011

Ilustração de capa de revista, Coby Whitmore (EUA, 1913-1988)

O oficial dos casamentos, de Anthony Capella [Record: 2011] em primeira leitura parece mais um livro feito para as férias, para ser lido na praia, sob a sombra de uma barraca, maresia salgando a pele e um copo de mate gelado na mão.  Parece leve, cheio de humor, quase inconseqüente.  Sua narrativa é rápida, ritmada e transporta o leitor facilmente pelos aromas da culinária italiana [um perigo ler esse livro se você está de dieta], e também evoca com facilidade a paisagem napolitana, assim como o charme e a beleza das mulheres nativas. Chega perto de poder ser lido, simplesmente assim, sem compromisso.  Afinal, o tema central, parece ser o romance entre a italiana Lívia Pertini e o oficial inglês James Gould.  

A narrativa faz jus à tradição literária inglesa iniciada no século XVIII em que o narrador descreve as observações de um estranho quer na cidade de Londres, quer num país até então desconhecido.  Suas observações do povo local, dos costumes e hábitos que lhes são caros, interpretados pela perspectiva do visitante são fonte de grande entretenimento, humor e surpresa quanto aos costumes locais levados a sério pela população.   Um dos mais radicais exemplos desse gênero literário está exemplificado nas Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, cuja primeira publicação data de 1726.  

 

No texto de Anthony Capella, acompanhamos as observações de James Gould sobre a Itália, a vida em Nápoles, os costumes locais.  Membro das forças inglesas que lutavam com os aliados contra os nazistas no sul da Itália, James Gould se encontra subitamente responsável pelas entrevistas que permitiriam ou não a oficiais ingleses se casarem com italianas.  A necessidade dessa função surge do enorme número de oficiais britânicos que se enamoram das belas italianas e pedem permissão para casar.  Por sua vez, as autoridades inglesas não vêem com bons olhos esses casamentos por acharem que um homem casado não iria lutar com o mesmo empenho que um solteiro. 

Eis que a viúva e maître de cozinha, Lívia Pertini entra em sua vida, como cozinheira de James.  E suas delícias culinárias, os aromas de sua comida, a textura de sua massa, a excentricidade de suas bebidas abrem, para ele, as portas de um mundo novo e inebriante onde todos os sentidos parecem se imiscuir em uma única e plena experiência sensual.  Nessa aventura culinária ecos de outro escritor inglês setecentista, Henry Fielding com seu A História de Tom Jones publicado em 1749 vêm à mente nas cenas em que Lívia ensina James a comer ervilhas ou escargots.

Mas, há uma mudança de tom e uma mudança de atmosfera mais ou menos a três quartos do fim.  Até então tudo parece uma comédia romântica.  De um momento para o outro, como aconteceu na vida real, com a explosão do Vesúvio, o romance dá uma virada, deixa de ser tão bem humorado.  A guerra chega ao primeiro plano e com ela vêm outras seduções.  Talvez melhor descritas como o lado negro, o reverso do que até então se apresentara.  E aparece a sedução pela exploração, a sedução por extorsão, a sedução como arma de guerra.

Anthony Capella

Não é surpresa saber que esse romance já está a caminho de se tornar um filme.  De fato, por ser uma história passada na guerra, por seu alto astral e bom humor, tudo nela lembra os filmes dos anos 40 do século passado – também de guerra – com Katherine Hepburn, Cary Grant e outras estrelas Hollywoodianas das telas em preto e branco, em que romances bem humorados com fox-trot na vitrola, aconteciam inesperadamente.   Há quem possa comparar esse livro a dois outros romances, também ingleses, da década de 90, O bandolim de Corelli, de Louis de Bernières, publicado em 1994  [no Brasil, Record:1998] e de Chocolate, de Joanne Harris, publicado em 1999 [ no Brasil, Record: 2001],  que também viraram filmes.  Mas acho essas comparações superficiais.  Porque nenhum desses dois títulos parece ter o cuidado de um subtexto como o que transparece no romance de Capella.

O Oficial de casamentos examina o tema da sedução de diversos pontos de vista e se torna até mesmo um curioso quebra-cabeças para o leitor atento diferenciar todos os tipos de sedução retratados no romance, tal como nos distraímos quando temos em frente de nós um desenho com a pergunta: quantos triângulos você vê na figura acima?   Este é um bom romance, de fácil leitura.  Bom entretenimento.  E a gente ainda aprende uma ou duas coisas sobre a história da Segunda Guerra na Itália.   Bem documentado.  Para maiores detalhes o autor também colocou documentos na sua página na web. [ www.anthonycapella.com]  Recomendo.





Imagem de leitura — Felice Casorati

16 05 2011

Menina no tapete vermelho, 1912

Felice Casorati ( Itália 1883-1963)

óleo sobre tela

Felice Casorati ( Novara, Itália, 1833 – Turin, Itália, 1963) foi um pintor, escultor e gravurista italiano conhecido por suas perspectivas fora do comum.  Desde cedo ele mostrou grande interesse em música e nas artes visuais.  Apesar de tentar uma outra carreira, a pedido dos pais, cursando a Universidade de Pádua, Felice abandonou os estudos em 1907 quando um de seus quadros foi aceito na Bienal de Veneza.  Casorati teve uma vida agitada, movida pelo amor à arte e à política.  Já estava bem estabelecido como artista plástico quando participou da Primeira Guerra Mundial.  De volta recomeçou a carreira artística estabelecendo um estilo próprio baseando o mundo natural em formas geométricas.  Dedicou-se à pintura de gênero, retratos e naturezas mortas.





Um tesouro, a biblioteca Valmadona, ainda errante e sem destino final

13 05 2011

Dois intelectuais judeus lendo as notícias, 1998

Maher Morcos (Egito, 1952)

Em dezembro de 2010 o patrimônio da Biblioteca Valmadona foi a leilão na Southeby´s de Nova York.  O arrematante, anônimo, pagou bem mais do que os USD $25.000.000,00 – vinte e cinco milhões de dólares de reserva — para adquirir uma das mais espetaculares bibliotecas judaicas.  Intelectuais do mundo inteiro e principalmente aqueles cujas especialidades requerem o conhecimento de textos judaicos incomuns sofreram até hoje por não saber onde foi parar essa coleção assombrosa que havia  tomado as estantes – montadas para este evento – nas paredes dos salões de 220m² da exposição pré-venda da casa de leilões.  Nessas estantes estavam alinhados aproximadamente 13.000 livros e manuscritos colecionados por um só homem: Jack V. Lunzer.  Nascido na Antuérpia em 1924, Lunzer, que hoje vive em Londres, enriqueceu no comércio dos diamantes industriais.  Mas ao longo dos anos foi também colecionando textos escritos e impressos em hebraico.

A coleção que leva o nome de Valmadona – em homenagem à cidade na Itália dos antepassados de Lunzer – é considerada uma mais completas coleções do mundo de textos em hebraico.  Dentre suas curiosidades estão uma Bíblia Hebraica, escrita à mão do ano de 1189 – o único texto inglês em hebraico de antes de 1290, quando o rei Eduardo I expulsou os judeus.  Cabe lembrar que em 1190 os judeus da cidade de York foram massacrados, e seus pertences – entre eles muitos livros, manuscritos – foram roubados e vendidos fora da Inglaterra, onde este texto foi encontrado pelo colecionador.

Exposição pré-venda da Biblioteca Valmadona, Foto: The New York Times.

Outra curiosidade não só pelo volume, mas também pela história de sua aquisição é  uma edição do Talmude da Babilônia, datando de 1519-1523, impresso em Veneza, pelo editor cristão Daniel Bomberg.   O primeiro contato de Lunzer com este volume, foi na Abadia de Westminster, em Londres, onde o achou cheio de poeira, de alguns séculos provavelmente.  Eventualmente veio a adquiri-lo por uma permuta com a abadia, oferecendo em troca uma velha cópia do Registro Original da abadia , um documento com mais de 900 anos de idade.

Surpresas parecem estar escondidas em muitos desses livros.  Quem poderia acreditar, por exemplo, que máximas tais como:  Faça dos seus livros seus companheiros, ou Deixe sua estante de livros ser o seu jardim, já eram conselhos pertinentes no século XII, como está gravado no manuscrito judeu-espanhol do estudioso Judah Ibn Tibbon, em um volume dessa coleção?

Para se ter noção de quão abrangente é a coleção da Biblioteca de Valmadona, talvez valha lembrar, que apesar de a prensa móvel ter sido inventada na Alemanha por Gutenberg, por volta de 1439, e de sua primeira publicação ter sido a Bíblia – hoje chamada a Bíblia de Gutenberg — , judeus  no século XV não podiam ser membros das guildas de imprensa, na Alemanha.  Por causa disso, os livros publicados em hebreu através da prensa móvel apareceram primeiro na Itália, a começar por Roma em 1470.  Depois disso, diversas outras cidades italianas deram licenças para a impressão de livros em hebreu.  Mas essas permissões eram dadas e retiradas com grande facilidade, ao bel-prazer dos dirigentes locais.  Um exemplo disso vem da cidade de Cremona, onde a permissão para a impressão de textos durou só 10 anos, de 1550 a 1560.  Pois cada um dos livros publicados nesse período em hebreu está presente na coleção arrebanhada por Lunzer.

Foto: The New York Times.

Quando se fala dessa coleção espetacular temos também que lembrar das vicissitudes que circundaram os textos hebraicos.  No artigo do The New York Times, A Lifetime’s Collection of Texts in Hebrew, at Sotheby’s Edward Rothstein, nota que só o Talmude, por exemplo, foi objeto de grandes perseguições; esses textos legais, foram confiscados em Paris em 1240, na Alemanha em 1509, e queimados por decreto papal na Itália em 1553.  Que ainda haja cópias intactas e que uma pertença a uma coleção de judaica é uma demonstração não só da persistência que Lunzer demonstrou ao coletar esses textos, mas também da raridade de alguns exemplares da produção intelectual de um povo.

Lunzer  não se interessou nunca pelas publicações em hebreu das Américas.  Sua atenção estava voltada para a documentação das várias comunidades judias no mundo, efêmeras, publicações de séculos passados, de comunidades que produziram textos em hebraico. Como ele mesmo lembra, no artigo mencionado acima, cada um desses volumes só foi impresso quando alguém deu  permissão para ser impresso.  “Cada um deles chora sua própria história.”  Mas hoje, aos 86 anos, Lunzer quer ter certeza de que sua busca, compra e a arrecadação desses textos, servirá para futuras gerações de estudiosos.  Esse será um de seus legados.

Foto: The New York Times.

Grande ansiedade tomou conta dos estudiosos  desde a conclusão do leilão da Biblioteca Valmadona, pela Southeby’s em dezembro de 2010.  O que todos se perguntavam até recentemente era: onde foram parar esses livros, esses documentos da nossa herança cultural?  O arrematante continuava anônimo e uma grande dúvida pairava no ar, até que neste início de maio, através de um artigo de Paul Berger, no The Jewish Daily Forward, Treasured Judaica Library, Feared Lost, Is Back On the Market, ficou-se sabendo que a compra não foi efetuada.  Na verdade, a coleção inteira, todos os seus 13.000 volumes, ainda estão na casa de leilões em Nova York.  Aparentemente o comprador não conseguiu provar para satisfação da Fundação da Biblioteca Valmadona, que as condições de compra iriam ser cumpridas.

E quais são essas condições?

A coleção precisa ser mantida junta, sem venda de qualquer texto, por mais insignificante que pudesse ser considerado.  Essas condições foram claramente enunciadas antes do leilão, e foi justamente para proteger esse patrimônio que a Fundação da Biblioteca Valmadona foi criada. No entanto, após o leilão, o comprador se viu forçado a retirar seu lance, uma vez que não pode demonstrar satisfatoriamente para os interessados que tinha interesse, poder e o compromisso de manter as condições estipuladas pré-venda.

Jack V. Lunzer, foto: The New York Times.

Todo mundo sabe que a coleção Valmadona oferece uma oportunidade sem igual de se adquirir uma das grandes bibliotecas judaicas privadas”, admite Sharon Lieberman Mintz, curadora de arte judaica da Biblioteca Teológica Judaica de Nova York e que também é consultora-sênior de arte judaica da Southeby’s.  A julgar pelo número de visitantes da exposição pré-venda, mais de 4.000 pessoas por dia, formando filas em volta do quarteirão, Sharon Lieberman Mintz  mostra que está certa, o grande público já se conscientizou do valor do trabalho de aquisição a que Lunzer se dedicou nos últimos 50 anos.  E não é por falta de interesse que bibliotecas do mundo inteiro continuam tentando levantar fundos para adquirir este tesouro.  A Biblioteca do Congresso nos Estados Unidos ofereceu, em 2002,  USD 20.000.000 – vinte milhões de dólares, para a biblioteca que estava avaliada na época em USD 30.000.000.  Apesar de negociações dos dois lados, o acordo de compra não foi validado.  Há ainda muitas outras instituições interessadas,. Entre elas conta-se  a Biblioteca Nacional de Israel, os departamentos de Estudos Judaicos tanto da Universidade de Columbia em Nova York assim como seus equivalentes da Universidade de Pensilvânia, Universidade de Nova York, entre outras.

O custo parece ser até agora o obstáculo mais mencionado. Talvez seja um símbolo dos interesses de nossa época, se levarmos em consideração que ontem, dia 12 de maio de 2011, um único quadro do artista Andy Wharol, LIZ NUMBER 5  [um retrato da artista Elizabeth Taylor] vendeu em leilão na Phillips de Nova York, por USD $ 27.000.000 – vinte e sete milhões de dólares.  É uma pena que uma coleção com 13.000 manuscritos históricos não consiga levantar o mínimo de USD$ 25.000.000 – vinte e cinco milhões de dólares necessários para sua aquisição.

Mas a esperança de que essa coleção ainda vá ser comprada por uma instituição pública não morreu. Desde que a notícia circulou pelos meios intelectuais sobre a venda frustrada, e sobre a volta ao mercado dessa coleção, o interesse na Biblioteca Valmadona parece ter re-acendido.  Seria uma grande aquisição para qualquer biblioteca do mundo, em qualquer lugar.  Porque a história dos judeus está tecida na história do mundo ocidental de maneira inescapável, e uma biblioteca como essa certamente tornará qualquer cidade, em que a coleção se estabeleça, num grande centro de pesquisa internacionalmente aclamado.





O cometa, poesia infantil de João de Deus Souto Filho

10 05 2011

Cometa, século XVI.

Desenho de astrônomo turco, anônimo,

Do livro Tarcuma-I Cifr, de Maomé Kamalladin.

Univerisdades Rektolugu-Istambul

Turquia

O    cometa

João de Deus Souto Filho


O Cometa não é estrela
Nem planeta,
O Cometa é viajante
Estelar,
Grande rei andarilho,
De bela coroa
E cauda a brilhar…

Em: Jornal de Poesia

João de Deus Souto Filho, Geólogo e educador. Nasceu em 1957 na cidade de Carolina, MA.  É formado em Geologia pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Geo-Engenharia de Reservatórios de Petróleo pela UNICAMP (1994), Formado em Letras (Licenciatura) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1999). Desenvolve trabalho sobre a importância da formação de uma consciência de preservação dos recursos hídricos.

Obras infantis:

O quintal do Seu Nicolau, 1992

O aprendiz de jardineiro, teatro, 1992

O passeio da Cinderela, teatro, 1992

Brincadeira de palavras, inédito

Na ponta da pena, inédito.





Papa-livros, leitura para maio: O oficial dos casamentos, Anthony Capella

9 05 2011

Leitora reclinada, s/d

Imre Goth ( Hungria, 1893-1982)

óleo sobre tela, 99 x 75 cm

Leitura para MAIO, discussão a partir do dia 16


O oficial dos casamentos, Anthony Capella

SINOPSE

Durante a ocupação da Itália, na Segunda Guerra Mundial, o capitão inglês James Gould é enviado a Nápoles com uma missão curiosa: desencorajar os oficiais britânicos a se casarem com as italianas. O exército teme que os soldados percam a vontade de lutar se tiverem uma linda signorina à espera deles. Assim, Gould, o oficial dos casamentos, chega a uma cidade devastada e caótica, onde as regras são flexíveis demais para seus rígidos valores britânicos, e acaba se tornando um obstáculo aos matrimônios.

Criada sob a sombra ameaçadora do Vesúvio, Livia Pertini é uma cozinheira brilhante que encanta o pequeno vilarejo de Fiscinno com seus pratos. Ela se casa com um soldado de Mussolini, mas a guerra a torna viúva. Assediada por um homem a quem despreza e sob o duro racionamento de alimentos, a jovem vai para Nápoles a procura de emprego e, graças à manipulação dos habitantes da cidade, cansados das restrições aos casamentos, acaba na cozinha de Gould. Afinal, para os italianos, um homem bem-alimentado é feliz, e, claro, só pode desejar que os outros também sejam.

Apesar de todos os esforços de James, e do temperamento impetuoso de Livia, aos poucos as resistências de ambos são quebradas e eles se apaixonam. A moça o apresentará a universos até então desconhecidos: a culinária e o amor.

O oficial dos casamentos consegue extrair humor da tragicidade da guerra, contando com os tropeços do idioma e com uma leve malícia para arrancar boas risadas do leitor. A Itália surge com todas as suas cores e sabores em uma leitura de dar água na boca.

EDITORA: Record

Ano: 2011

Número de páginas: 496





Quadrinha pelo Dia das Mães

4 05 2011

Ilustração, Walter Crane.

Se Deus atendesse, um dia,

minha prece ingênua e doce,

quem fosse mãe não morria,

por mais velhinha que fosse.

(Archimino Lapagesse)