Ambição do Pingo d’água — poesia de Jacy Pacheco, para uso escolar

9 08 2011

 

Ambição do Pingo D’Água 


                                                      Jacy Pacheco


A noite esqueceu
no côncavo de uma folha
vizinha de um riacho,
um pingo d’água.

Veio o sol
como uma rosa grande ardendo em febre
envolveu a pequenina gota
num punhado de cores.

Pingo d’água acordou,
olhou para baixo,
gostou do riacho…
Sonhou ser assim,
ser riacho também…

E correr,
e crescer,
ir além…
ser um rio bem grande,
maior do que ninguém…

veio o vento
de repente
e desgarrou da folha o pingo d’água.
Pingo d’água morreu.
Pingo d’água perdeu-se no riacho.

Pingo d’água sou eu.


Jacy
de Freitas Pacheco nasceu em Monerat, no estado do Rio de Janeiro, em 1910.  Poeta e escritor. Autor de músicas e letras  que nunca foram gravadas.   Faleceu em Niterói em 1989.





Noite, texto de Raul Pompéia

8 08 2011

As luas de maio

Fani Bracher ( Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 73 x 92 cm

www.fanibracher.com.br

À noite

…………………………………………………, le ciel

Se ferme lentementcomme une grande alcove,

Et l´homme impatient se change en bête fauve.

Chamamos treva à noite.  A noite vem do Oriente como a luz.  Adiante, voam-lhe os gênios da sombra, distribuindo estrelas e pirilampos.  A noite, soberana, desce.  Por estranha magia revelam-se os fantasmas de súbito.

Saem as paixões más e obscenas; a hipocrisia descasca-se e aparece; levantam-se no escuro as vesgas traições, crispando os punhos ao cabo dos punhais; à sombra do bosque e nas ruas ermas, a alma perversa e  a alma bestial encontram-se como amantes apalavrados; tresanda o miasma da orgia e da maldade — suja o ambiente; cada nova lâmpada que se acende, cada lâmpada que expira é um olhar torvo ou um olhar lúbrico; familiares e insolentes, dão-se as mãos o vício e o crime — dois bêbados.

Longe daí a gemedora maternidade elabora a certeza  das orgias vindouras.

E a escuridão, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra.

Chamamos treva à noite — noite que nos revela a subnatureza dos homens e o espetáculo incomparável das estrelas.

Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edition, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951.

Raul Pompéia ( Angra dos Reis, 1863 — Rio de Janeiro 1893) Cursou o Colégio Pedro II.  Advogado, cursou incialmente o curso de Direito na Faculdade de São Paulo mas concluiu o curso no Recife.  Fervente abolicionista, nunca deixou de publicar textos à favor da causa.   Foi diretor de estatística do Diário Oficial e diretor da Biblioteca Nacional, ambos os cargos depois da Proclamação da República.  Sua reputação literária deve-se sobretudo ao romance O Ateneu.

Obras:

Uma tragédia no Amazonas, romance, 1880

As jóias da coroa, panfleto satírico, 1882

Canções sem metro, prosa, 1883

O Ateneu, romance, 1888





Um dia, romance de David Nicholls, uma excepcional viagem pela vida

8 08 2011

Regent Street, Londres, 2009

Keith Hornblower ( Inglaterra, contemporâneo)

aquarela

http://keithhornblower.wordpress.com

Quando uma amiga sugeriu que eu lesse Um dia de David Nicholls e descreveu esse romance como uma história que se passava no mesmo dia de diferentes anos, pensei imediatamente no filme de Robert Mulligan, Tudo bem no ano que vem,  [Same time next year], [1978] sucesso comprovado como filme e peça teatral. Lendo na orelha do livro [Intrínseca:2011] o envolvimento do autor britânico com o teatro comecei a leitura desconfiada de que estaria me envolvendo com uma alusão, uma paródia, uma re-adaptação da peça do autor canadense Bernard  Slate.  Erro meu!  Este romance é completamente diferente.  E, tem mais, é mais profundo, significativo do que a comédia a que me referi.  Como na peça teatral, este romance também tem um humor inerente.  Como na peça teatral, vemos os mesmos personagens crescerem, se desenvolverem: atores de comédias urbanas que se desenvolvem através do trabalho, dos casamentos, das desventuras amorosas. Mas estas são as únicas semelhanças.

Hoje são raros os livros que me emocionam de uma maneira profunda, que me levam às lagrimas como esse fez em seus capítulos finais.  Muita leitura, a dose normal de descontentamento, experiência acumulada têm contribuído para que seja difícil encontrar um autor que me comova, sem que eu sinta que minhas emoções foram manipuladas inescrupulosamente.  Mas esse romance, que parece sem pretensões,  com uma narrativa entremeada por diálogos corriqueiros, com grande dinamismo, removeu barreiras à minha sensibilidade e se tornou pessoal.  Com um desenrolar inesperado ele atinge o leitor como um soco no estômago.  E essa leitora, se encontrou ao final, depois de reler o último capítulo, como Dexter, um dos personagens da trama, controlando um pequeno ataque de pânico, como se meus pés estivessem se apoiando numa fina camada de gelo prestes a se partir.  O abismo está aqui, em qualquer lugar, a qualquer hora.

É possível que com esse romance, David Nicholls possa vir a ser considerado o retratista de uma geração.  Mas acredito que ele seja mais do que isso, pois sua mensagem: Carpe Diem é universal e não tem prazo de validade.  Mas, afinal, o que é este romance?  É a vida de dois personagens, através de vinte anos.  Passa-se na Inglaterra.  Um homem e uma mulher, que se conhecem no dia da colação de grau na faculdade, têm um mundo de possibilidades, um horizonte aberto, um número irrestrito de escolhas a fazer.  Eles se conhecem e mantêm um relacionamento ora estreito, ora distante através dos anos.  Aos poucos, no passo da vida, testemunhamos suas opções, o aproveitamento que fazem do que lhes é ofertado, o que procuram e o que ignoram.  Acompanhamos o desenrolar de suas vidas e nos afeiçoamos a eles, mesmo que o retrato de Emma e Dexter, a cada passagem do dia 15 de julho, data da formatura universitária, seja feito com candura fotográfica.

David Nicholls

Torna-se impossível, no entanto, para o leitor não refletir sobre sua própria vida, suas escolhas, oportunidades e medos.  Ler Um dia pede um exame de consciência, um exercício de terapia psicológica.  Temos que encarar nossa cronologia, nossos passos.  E depois ainda perguntar:  E agora?  Por esses questionamentos, esse é um romance a ser lido e pensado.  Conversado e debatido.  Será a minha sugestão para o meu grupo de leitura no próximo mês.  Imperdível.





A música dos anjos na Candelária

7 08 2011

Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda, concerto na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro.

Hoje, arcanjos cantaram na Candelária e foram acompanhados por uma notável orquestra de violoncelos e contrabaixos.  Experiência única: ouvirmos o contraste de vozes  humanas acariciadas pelos sons de uma orquestra tão singular.   Não sou novata.  Este não é entusiasmo de quem ouve um concerto pela primeira vez.  Mas música dos anjos foi a maneira encontrei para descrever a emoção suscitada em mim e na platéia à minha volta quando da apresentação da Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda sob a direção da maestrina Sarah Higino.   Não foram poucos os olhos marejados ao final do programa, cuja apresentação fez parte da 17ª edição do Rio International Cello Encounter, um evento que reúne alguns dos maiores violoncelistas do mundo.

A Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda faz parte do projeto “Volta Redonda Cidade da Música”, criado pelo maestro Nicolau Martins de Oliveira  e mantido pela prefeitura.  Ele envolve cerca de 4.000 alunos das escolas municipais da cidade.   Se você ainda não conhece esta orquestra, precisa fazê-lo.  Aproveite as diversas apresentações desses músicos no estado.  Oportunidades existem aqui no Rio de Janeiro, assim como em outras localidades.  Decida ir.  Você não se arrependerá.

Deixo aqui abaixo o único vídeo da Orquestra de Cordas de Volta Redonda que inclui os 50 membros da orquestra de violoncelos e contrabaixos.  Foi o único vídeo que encontrei na rede.  Não apresenta os números do concerto da tarde de hoje, mas mostra a excelência de execução desses jovens integrantes.






Imagem de leitura — John Singer Sargent

4 08 2011

Homem lendo, c. 1910

John Singer Sargent (EUA, 1856-1925)

Aquarela sobre carvão sobre papel,  35 x 53 cm

Fogg Art Museum, Cambrisge, Massachusetts

John Singer Sargent , nasceu em Florença na Itália, filho de pais americanos.  Estudou na Academia de Belas Artes de Florença de 1870 a 1874.   Logo depois partiu para a França, onde estudou com Emile Auguste Carolus Duran.   Mais tarde mudou-se definitivamente para Londres.  Um dos maiores retratistas da virada do século XIX e XX, John Singer Sargent foi um pintor prolífico produzindo mais de 900 óleos e mais de 2000 aquarelas, meio de pintura que favoreceu a vida inteira.  Al´me de retratista da sociedade influente européia, Sargent ficou também conhecido por suas maravilhosas aquarelas e sketches a carvão e lápis das grandes viagens a lugares exóticos que fez.   Com o passar dos anos tornou-se mais amplo em seus interesses passando a pintar paisagens e a fazer pinturas murais.  Morreu em 1925 em Londres.





Herança Paterna — poema de Vicente de Paula Reis, pelo Dia dos Pais

3 08 2011




Herança paterna

                                      Vicente de Paula Reis

De meu pai, como herança que bendigo,

Recebi, neste vale de amargura,

Um tesouro do qual não me desligo

E o guardo avaramente, com ternura.

Escudando-me nele é que consigo,

Tornando a minha vida menos dura,

Impávido, vencer qualquer perigo,

Sobrepondo-me à própria desventura.

Essa herança, meu pai, que me legaste,

Tem suavizado muito a minha vida,

Dos espinhos do mundo mal ferida!

E essa prenda moral, que me deixaste,

É toda essa riqueza de ser pobre!

É toda essa grandeza de ser nobre!

Vicente de Paula Reis ( Rio de Janeiro 1895-?) Professor de português do Colégio Pedro II e jornalista com colunas em diversos periódicos do Rio de Janeiro.

Obra:

Esparsos, poesia, s/d





A medida do mundo, de Daniel Kehlmann

2 08 2011

Vista das cordilheiras e dos monumentos dos povos indígenas da América, Paris, 1810, Alexandre von Humboldt.

Férias são para se fazer o que não se faz no cotidiano, para alargar horizontes, experimentar novos caminhos.  Apesar de não ter tirado férias, formalmente, passei o mês de julho brincando fora da caixa.  Minhas pseudo-férias incluíram uma vida repleta de  exposições de arte, festival do cinema feminino, mesas-redondas literárias e científicas, concertos, visitas com amigos que há tempos não via.  Um julho delicioso,  cheio de atividades que me tiraram da rotina, alimentaram o descanso, aliviaram a tensão.  Foi assim que encontrei e acabei me deliciando com o romance de Daniel Kehlmann,  A medida do mundo, [Cia das Letras: 2007].

Talvez tenha sido sincronicidade ler esse romance alemão um dia depois de ter assistido ao arrebatador filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris [2011].  O que une estas duas obras é justamente a visita que se faz a uma época passada [cada qual num século e em países diferentes], a um específico local que borbulha com novas idéias, teorias.  Em ambas as obras sentimos a eletricidade dos principais pensadores que se interconectam, trocam idéias, se referem uns aos outros e nos fazem desejar que tivéssemos sido contemporâneos de seus protagonistas: Kant, Daguerre, Goethe, entram e saem das páginas desse romance com a facilidade com que uma limusine leva Gil [Owen Wilson] das ruas de Paris contemporânea aos encontros com os mais famosos escritores e artistas radicados naquela cidade nas primeiras décadas do século XX.

A medida do mundo é um romance baseado nas biografias de dois dos maiores cientistas que por razões diferentes saem de suas zonas de conforto e medem o mundo:  Humboldt vem para a América do Sul e mede tudo o que vê, das montanhas às margens dos rios.  Sua procura é incessante.  Ambientada no Novo Mundo a narrativa assume característica de uma aventura exacerbada por um realismo fantástico.  Gauss, por outro lado, nunca saiu de seu torrão natal: mede o mundo através de equações matemáticas ancoradas nas estrelas e por indução.  Assim como a narrativa de Humboldt parece espelhar a aventura sul-americana, o estilo literário que envolve a vida de Gauss reflete sua vida mais precisamente dimensionada. Suas vidas aparecem em capítulos intercalados, com uma narrativa bem-humorada e cativante, não se tem em nenhum momento a sensação de estranheza, mesmo tendo o autor deliberadamente diferenciado a maneira de retratá-los.

Daniel Kehlmann

Daniel Kehlmann trata todo o texto com cativante ironia e humor, além de fazer com poucas e precisas pinceladas, um retrato da efervescência intelectual da época.  Acabamos percebendo que mentes brilhantes podem vir em qualquer formato. As vidas de Gauss e Humboldt são comparadas e contrastadas dando-nos uma visão generosa das diferentes maneiras de se atingir objetivos pessoais. Esse não é um livro em que descobrimos detalhes biográficos da vida de cada cientista: essa não é a proposta.  Temos sim, ao final do romance, uma percepção rica das dificuldades corriqueiras da época, fartamente adubadas pela extraordinária imaginação do autor que nos lembra de cheiros e sons; do desconforto das viagens em carruagens, das dores de noites dormidas em desconfortáveis colchões;  da arrogância da nobreza e de sua filantropia.  Tudo retratado com leveza e ironia.  Uma leitura deliciosa diferente do que se poderia esperar de um romance histórico, de uma biografia ou até mesmo de um livro sobre cientistas.  Invista nessa leitura, não se arrependerá.





Meus tiranos, poema de Frederico Trotta, em homenagem ao Dia dos Avós

26 07 2011

Cena de interior, 1901

[também chamado  O Polichinelo]

Alessandro Sani (Itália, 1870,1950)

óleo sobre tela, 36 x 85cm

Meus Tiranos

Frederico Trotta

                          (aos meus sete netos)

Oh!  filhos de meus filhos, meus tiranos,

que a casa me invadis, alacremente,

na expansão natural dos tenros anos,

como um bando de pássaros, contente!

Não deixais sossegados móveis, panos,

em tudo remexeis alegremente.

Sois meigos, vivos, bons, não causais danos

e a tristeza espantais, jocosamente!

E junto da avó, em grupo tagarela,

à larga expandis os corações,

formando um cromo, cândida aquarela,

tal qual Branca de Neve e os sete anões!

Adoro essa balbúrdia domingueira,

de brincos infantis e risos castos,

de suave sabor patriarcal!

Vós me tornais feliz de tal maneira

que, praza aos céus, na hora derradeira,

ao fechar para sempre os olhos gastos,

cerrando sobre a vida espesso véu,

ouça invadir a casa toda inteira,

vosso clamor;

fanfarra triunfal,

a conduzir-me à porta azul do céu!

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 291.

Frederico Trotta

Frederico Trotta (1899-1980), advogado, militar, político, jornalista, poeta.  Como poeta começou publicando poesias soltas, em 1920 na revista Boa Noite.  Como jornalista fez contribuições para  O Jornal e Manhã.  Foi diretor-secretário de ATarde, de Curitiba em 1932,  Em 1950 teve uma coluna diária para o Diário do Povo.

Obras literárias:

Mãe, antologia sentimental, 1957

Meu pai, meu bom amigo, antologia sentimental, 1957

O talismã do Cabo Pierre, contos, 1957

Um roseiral para alegrar a vista, poesias, 1957





Imagem de leitura — Anthony Stewart

21 07 2011


Climax, s/d

Anthony Stewart (EUA, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 45 x 60 cm

http://anthonystewartfineart.com

 





Um senhor documentário: A FAMÍLIA BRAZ

21 07 2011

Tempo de férias.   Ainda bem que fazemos coisas diferentes e fora do hábito comum.  Neste período de julho, estou curtindo férias na minha cidade, dando uma chance de me recarregar saindo quase todos os dias para fazer coisas de que gosto nos horários mais diversos.  Estou com a agenda cheia.  Muito mais cheia do que esperava.  Há muito que fazer, que ver, que compartilhar.  E os amigos, sabendo dessa abertura, estão telefonando, batendo à porta.  Um prazer!  Será que me acostumo a rotina de sempre, mais tarde?

Entre as surpresas dessa temporada o está o maravilhoso documentário A Família Braz: dois tempos, de Arthur Fontes e Dorrit Harazin,  eleito o Melhor Filme no festival de cinema É Tudo Verdade.  O filme retrata uma família que mora em Brasilândia, na periferia de São Paulo.  Um casal e seus quatro filhos.  Esse retrato é feito em 2 épocas diferentes com 10 anos de intervalo.  Por causa disso criamos uma afinidade com cada um dos retratados, já que somos apresentados aos seus sonhos e desejos do passado e a realidade em 2010.   Poderia ter sido uma experiência desastrosa…  Mas, ao contrário, é uma experiência maravilhosa, ver como cada um deles conseguiu ir muito além do que esperava…

A família, que poderia se considerar de classe média baixa, com o pai trabalhando sem carteira assinada como bombeiro hidráulico e a mãe dona de casa, é composta de 4 filhos, que no primeiro retrato estavam entre 14 e 24 anos.  Hoje, bem estabelecida na classe média paulistana, está a caminho de sonhos muito maiores do que aqueles imaginados em 2000.  As conquistas – de todos – são o resultado de muito esforço, de muito estudo e trabalho.  Mas são evidentes.  E é um prazer acompanhá-los.

Sem cunho político – o que é um alívio – o documentário mostra o Brasil que queremos ter.  Se você está precisando daquela força para acreditar que tudo vai dar certo.  Se a sua confiança no futuro desse país está num momento de fragilidade – e todos nós temos isso, porque não faltam razões – vá assistir a esse documentário.  Tenho certeza de que você voltará para casa com as suas energias renovadas.