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Fani Bracher ( Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 73 x 92 cm
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À noite
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…………………………………………………, le ciel
Se ferme lentementcomme une grande alcove,
Et l´homme impatient se change en bête fauve.
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Chamamos treva à noite. A noite vem do Oriente como a luz. Adiante, voam-lhe os gênios da sombra, distribuindo estrelas e pirilampos. A noite, soberana, desce. Por estranha magia revelam-se os fantasmas de súbito.
Saem as paixões más e obscenas; a hipocrisia descasca-se e aparece; levantam-se no escuro as vesgas traições, crispando os punhos ao cabo dos punhais; à sombra do bosque e nas ruas ermas, a alma perversa e a alma bestial encontram-se como amantes apalavrados; tresanda o miasma da orgia e da maldade — suja o ambiente; cada nova lâmpada que se acende, cada lâmpada que expira é um olhar torvo ou um olhar lúbrico; familiares e insolentes, dão-se as mãos o vício e o crime — dois bêbados.
Longe daí a gemedora maternidade elabora a certeza das orgias vindouras.
E a escuridão, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra.
Chamamos treva à noite — noite que nos revela a subnatureza dos homens e o espetáculo incomparável das estrelas.
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Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edition, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional: 1951.
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Raul Pompéia ( Angra dos Reis, 1863 — Rio de Janeiro 1893) Cursou o Colégio Pedro II. Advogado, cursou incialmente o curso de Direito na Faculdade de São Paulo mas concluiu o curso no Recife. Fervente abolicionista, nunca deixou de publicar textos à favor da causa. Foi diretor de estatística do Diário Oficial e diretor da Biblioteca Nacional, ambos os cargos depois da Proclamação da República. Sua reputação literária deve-se sobretudo ao romance O Ateneu.
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Obras:
Uma tragédia no Amazonas, romance, 1880
As jóias da coroa, panfleto satírico, 1882
Canções sem metro, prosa, 1883
O Ateneu, romance, 1888







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