Filhotes fofos — Panda

4 09 2011

O filhote de panda gigante Fu Hu (que significa tigre com sorte) comemorou seu primeiro aniversário no zoológico de Viena, na Áustria. Ele nasceu no próprio zoológico no dia 23 de agosto de 2010. Em seu aniversário, ganhou caixas recheadas de legumes.

Os pais de Fu Hu são um casal de pandas emprestados da China que chegaram à Áustria em 2003 e devem ficar no zoo por mais dois anos. Ao nascer, o panda pesa apenas cerca de 300g, mas quando adulto, ele chega a 90 kg e 1,5 m de altura. O panda gigante é uma espécie sob forte risco de extinção. Sua maior ameaça é a caça ilegal.

Fonte: Terra

 





Quadrinha infantil sobre o sorriso

3 09 2011

“Muito riso e pouco sizo”,

diz-nos o velho ditado.

Mas eu digo que um sorriso

sempre dá bom resultado…

(Lucina Long)

 





Céu azul, poema de Roberto de Almeida Júnior, para a Semana da Pátria

2 09 2011

Cartão postal, 1928

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

óleo sobre tela,  127 x 42 cm

Céu azul

Roberto de Almeida Júnior

Céu azul de minha terra,

de minha terra natal

que eu amo e estremeço tanto…

Com tua beleza e encanto,

que tanta grandeza encerra,

não há no mundo outro igual!

Céu azul de minha terra,

da terra de Santa Cruz

que a alma estrangeira encanta,

onde o Cruzeiro do Sul,

como um diadema de luz,

é uma bênção sacrossanta!

E ao ver este céu sem par

— azul da cor da pureza,

tão cehios de encantos mil

que nenhum outro suplanta,

— a gente fica a cismar:

Com certeza

o manto da Virgem Santa

foi talhado de um retalho

do lindo céu do Brasil!

Em: Criança Brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949





Canto de minha terra, poesia de Olegário Mariano, para a Semana da Pátria

1 09 2011

Simplicidade, s/d

Reinaldo de Almeida Barros ( Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre papel

Reinaldo de Almeida Barros

Canto de minha terra

Olegário Mariano

Amo-te, ó minha terra, por tudo o que me tens dado:

Pelo azul do teu céu,  pelas tuas árvores, pelo teu mar;

Pelas estrelas do Cruzeiro que me deixam anestesiado,

Pelos crepúsculos profundos que põem lágrimas no meu olhar.

Pelo canto harmonioso dos teus pássaros, pelo cehiro

Das tuas matas virgens, pelo mugido dos teus bois;

Pelos raios do sol, do grande sol que eu vi primeiro…

Pelas sombras das tuas noites, noites ermas que eu vi depois.

Pela esmeralda líquida dos teus rios cristalinos,

Pela pureza das tuas fontes, pelo brilho dos teus arrebóis;

Pelas tuas igrejas que respiram pelos pulmões dos sinos,

Pelas tuas casa lendárias, onde amaram nossos avós;

Pelo ouro que o lavrador  arranca de tuas entranhas,

Pela bênção que o poeta recebe do teu céu azul.

Pela tristeza infinita, infinita das tuas montanhas,

Pelas lendas que vêm do norte, pelas glórias que vêm do sul.

Pelo trapo da bandeira que flamula ao vento sereno,

Pelo teu seio maternal onde a cabeça adormeci,

Sinto a dor angustiada de ter o coração pequeno

Para conter a onda sonora que canta de mor por ti.

Em: Criança brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Brasil, 1889 — 1958) Usou também o pseudônimo João da Avenida, poeta, político e diplomata brasileiro.  Em 1938, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros,  substituindo Alberto de Oliveira que morrera e que, por sua vez, havia substituído Olavo Bilac.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Angelus , 1911

Sonetos, 1921

Evangelho da sombra e do silêncio, 1913

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac, 1917

Últimas Cigarras, 1920

Castelos na areia, 1922

Cidade maravilhosa, 1923

Bataclan, crônicas em verso, 1927

Canto da minha terra, 1931

Destino, 1931

Poemas de amor e de saudade, 1932

Teatro, 1932

Antologia de tradutores, 1932

Poesias escolhidas, 1932

O amor na poesia brasileira, 1933

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso, 1933

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas, 1937

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência, 1939

Em louvor da língua portuguesa, 1940

A vida que já vivi, memórias, 1945

Quando vem baixando o crepúsculo, 1945

Cantigas de encurtar caminho, 1949

Tangará conta histórias, poesia infantil, 1953

Toda uma vida de poesia, 2 vols., 1957





Bebês bilingues aprendem mais rapidamente

1 09 2011
Bebê, ilustração de Charlotte Becker.

Os bebês criados em famílias bilíngues têm maior capacidade de aprendizagem linguística se comparados com crianças que só foram expostas a uma única língua.  Esta foi a conclusão de um estudo do Instituto de Ciências do Cérebro e Aprendizagem da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.  Outros estudos, anteriores, já haviam mostrado que as crianças têm habilidades especiais para aprender um segundo idioma.  No entanto essa capacidade começa a desaparecer a partir do primeiro ano de idade.

A pesquisa levou em conta o tempo de exposição dos bebês ao vocabulário de dois idiomas – inglês e espanhol – e constatou que essas crianças têm prolongado, exatamente esse período, descoberto anteriormente,  em que podem aprender um outro idioma, principalmente se elas são expostas em casa a muitas palavras em ambas as línguas.

O cérebro bilíngue é fascinante,  já que reflete as capacidades dos seres humanos para o pensamento flexível.  As crianças bilíngues aprendem que os objetos e eventos no mundo têm dois nomes e têm flexibilidade de alternar entre essas etiquetas, dando ao cérebro um bom exercício “, disse Patricia Kuhl, coautora do estudo e codiretora do Instituto de Ciências do Cérebro e Aprendizagem da universidade.

Os cientistas que trabalharam no estudo pesquisam os mecanismos cerebrais que contribuem para a habilidade dos bebês na aprendizagem de idiomas.  Eles esperam que os resultados dessa pesquisa venham a impulsionar o bilinguismo entre  adultos.  Estudos prévios de Kuhl mostraram que entre o oitavo e o décimo mês de idade, os bebês monolingues são cada vez mais capazes de distinguir os sons da fala de sua língua materna, enquanto sua capacidade para distinguir sons de uma língua estrangeira diminui.

Por exemplo, entre os oito e dez meses de idade, os bebês expostos ao inglês detectam melhor a diferença entre os sons “r” e “l” que os bebês japoneses, que não estão tão expostos a ouvir esses sons em seu idioma. “O cérebro infantil se sintoniza com os sons da língua durante este período sensível no desenvolvimento, e estamos tentando pesquisar exatamente como isso acontece. Saber como a experiência molda o cérebro nos diz algo que vai muito além da linguagem“, destacou Kuhl.

Esta diferença no desenvolvimento sugere que os bebês bilíngues “podem ter um calendário diferente para se comprometer neurologicamente com uma linguagem”  se comparados com os bebês monolingues, ressaltou Adrián García-Sierra, autor do estudo.

Quando o cérebro está exposto a dois idiomas, e não só um, responde adaptando-se a permanecer aberto durante mais tempo antes de mostrar o estreitamento da percepção que as crianças monolingues costumam mostrar no final do primeiro ano de vida“, explicou García-Sierra.

 –

Fontes: Terra, Science Daily





Brasil, trecho do poema de Humberto de Campos

31 08 2011

Bandeira do Brasil, feita com pintura de mãos de crianças do Instituto La Fontaine, Belo Horizonte, MG.

http://institutolafontaine.blogspot.com

Brasil

 –

                                                         Humberto de Campos

Verde pátria que, em sono profundo,

Escondias teu régio esplendor,

Vem mostrar, para espanto do mundo,

Teus tesouros de força e de amor.

Salve, terra dos rios enormes,

— Virgem berço da raça tupi!

Anda, acorda, desperta, se dormes,

Que teus filhos já chamam por ti!

Se teus rios que empolam as águas,

À distância as do Oceano comtêm,

Saberemos, poupando-te mágoas,

Repelir o estrangeiro, também.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Se nas cores que tremem nos mastros

As estrelas enfeitam teu véu,

Hás de tê-las bem alto, entre os astros,

Entre as outras estrelas do Céu!

Salve, terra dos rios enormes,

— Virgem berço da raça tupi!

Anda, acorda, desperta, se dormes,

Que teus filhos já chamam por ti!

Humberto de Campos Veras (Brasil, 1886 — 1934), também trabalhou com os psudônimos: Conselheiro XX, Almirante Justino Ribas,  Luís PhocaJoão Caetano, Giovani MorelliBatu-Allah, Micromegas e Hélios.  Foi jornalista, político, ensaísta, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Poeira –  poesia- 1910

Da seara de Booz – crônicas – 1918

 Vale de Josaphat – contos – 1918

 Tonel de Diógenes – contos – 1920

 A serpente de bronze – contos – 1921

 Mealheiro de Agripa – 1921

 Carvalhos e roseiras – crítica – 1923

 A bacia de Pilatos – contos – 1924

 Pombos de Maomé – contos – 1925

 Antologia dos humoristas galantes – 1926

 Grãos de mostarda – contos – 1926

 Alcova e salão – contos – 1927

 O Brasil anedótico – anedotas – 1927

 Antologia da Academia Brasileira de Letras – participação – 1928

 O monstro e outros contos – 1932

 Memórias 1886-1900 – 1933

 Crítica (4 séries) – 1933, 1935, 1936

 Os países – 1933

 Poesias completas – reedição poética – 1933

 À sombra das tamareiras – contos -1934

 Sombras que sofrem – crônicas – 1934

 Um sonho de pobre – memórias – 1935

 Destinos – 1935

 Lagartas e libélulas – 1935

 Memórias inacabadas – 1935

 Notas de um diarista – séries 1935 e 1936

 Reminiscências – memórias -1935

 Sepultando os meus mortos – memórias – 1935

 Últimas crônicas – 1936

 Contrastes – 1936

 O arco de Esopo – contos – 1943

 A funda de Davi – contos – 1943

 Gansos do capitólio – contos – 1943

 Fatos e feitos – 1949

 Diário secreto (2 vols.) – memórias – 1954





A cobra Norato: lenda do folclore brasileiro – versão de José Coutinho de Oliveira

31 08 2011
Antigo vaso grego, aproximadamente século V aC com a imagem de Cecrops, fundador da cidade de Atenas.
A cobra Norato

                                                              José Countinho de Oliveira

— Ainda no tempo colonial, veio para o Pará um português riquíssimo e, desejando aumentar seus haveres, fundou no Tocantins, perto de Mocajuba, uma fazenda para o cultivo do cacau.  Além do grande pessoal que consigo trouxe, acompanhou-o um seu filho de nome Honorato, rapaz de seus quinze anos, muito bonito e dado a conquistador.

Um dia este moço desapareceu sem que pessoa alguma pudesse dele dar mais notícias.  Dizia então uma velha índia que havia visto o moço Honorato andas nos dias anteriores triste, passeando pelas praias do Tocantins, atraído, sem dúvida, pela beleza de Iara e que esta o havia levado para o fundo do rio.

O que é certo é que alguns anos depois, quando há alguma grande festa, à meia noite aparece este moço, que dansa, diverte-se e às três para as quatro da madrugada, quando a aurora começa a despontar, ele some-se sem que ninguém saiba para onde vai.  Muitas vezes já se tem procurado sitiá-lo, colocando vigias por todos os lados para vê-lo sair e apenas uma vez muitos rapazes o viram atirar-se n’água do alto da ribanceira.

— Mas, coronel, isto é um absurdo, uma tolice.

— Não falemos assim; há tanta coisa na natureza que nós não compreendemos, de que não sabemos a causa e, no entanto, não podemos negar.

— Mas este fato tem uma explicação natural.  O Tocantins é continuamente navegado por canoas de regatões, por vapores e lanchas.  Ora, não é de admirar que, uma ou outra vez, um desses viajantes apareça em uma festa e de repente se vá embora, para continuar viagem.  Ninguém o conhece e a imaginação popular começa logo a criar mistérios.

— Não é assim.  Ouça: há dois anos houve uma grande festa no engenho do capitão Pinheiro, no distrito de Abaeté, na véspera do Natal, e na mesma noite outra na casa do Manuel Francisco, que o senhor bem conhece, chefe político de  nomeada em Bião.  Pois bem, à meia noite em ponto, o Honorato aparecia no baile do Pinheiro, em Abaeté, desaparecia às duas horas, para surgir às duas e meia em casa do Manuel Francisco. Qual a canoa ou vapor, ou balão capaz de, em meia hora, percorrer a distância que vai de uma a outra casa? Nem em oito horas!

— E o senhor poderia me dizer se conhece alguma cobra grande capaz de fazer esse percurso em meia hora? 

— O Honorato, porque é encantado.

Em:  Criança Brasileira: admissão e 5ª série,  Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949.

José Coutinho de Oliveira, (Brasil, ? – ? ) escritor, linguista e folclorista da Amazônia.  Membro da Academia de Letras do Estado do Pará.

Obras:

Lendas Amazônicas, 1916

Folclore Amazônico, 1951





O dia abriu seu pára-sol bordado, soneto de Mário Quintana

31 08 2011

A pequena comunidade, 1983

Inimá de Paula ( Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

O dia abriu seu pára-sol bordado

                                            Mário Quintana

O dia abriu seu pára-sol bordado

de nuvens e de verde ramaria.

E estava até um fumo, que subia,

mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu arqueado,

a Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.

Na rua, um menininho que seguia

parou, ficou a olhá-lo admirado…

 –

Pus meus sapatos na janela alta,

sobre o rebordo… Céu é que lhes falta

pra suportarem a existência rude!

 –

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,

que são dois velhos barcos, encalhados

sobre a margem tranquila de um açude…

Mário de Miranda Quintana – (RS 1906 – RS 1994) poeta, tradutor e jornalista.

Obras:

– A Rua dos Cata-ventos (1940)

– Canções (1946)

– Sapato Florido (1948)

– O Batalhão de Letras (1948)

– O Aprendiz de Feiticeiro (1950)

– Espelho Mágico (1951)

– Inéditos e Esparsos (1953)

– Poesias (1962)

– Antologia Poética (1966)

– Pé de Pilão (1968) – literatura infanto-juvenil

– Caderno H (1973)

– Apontamentos de História Sobrenatural (1976)

– Quintanares (1976) – edição especial para a MPM Propaganda.

– A Vaca e o Hipogrifo (1977)

– Prosa e Verso (1978)

– Na Volta da Esquina (1979)

– Esconderijos do Tempo (1980)

– Nova Antologia Poética (1981)

– Mario Quintana (1982)

– Lili Inventa o Mundo (1983)

– Os melhores poemas de Mario Quintana (1983)

– Nariz de Vidro (1984)

– O Sapato Amarelo (1984) – literatura infanto-juvenil

– Primavera cruza o rio (1985)

– Oitenta anos de poesia (1986)

– Baú de espantos ((1986)

– Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)

– Preparativos de Viagem (1987)

– Porta Giratória (1988)

– A Cor do Invisível (1989)

– Antologia poética de Mario Quintana (1989)

– Velório sem Defunto (1990)

– A Rua dos Cata-ventos (1992) – reedição para os 50 anos da 1a. publicação.

– Sapato Furado (1994)

– Mario Quintana – Poesia completa (2005)





Fitas Verdes na comemoração da Independência do Brasil

30 08 2011


Paço de São Cristóvão, 1817

Thomas Ender (Áustria, 1793-1875)

Laços de fitas

Viriato Corrêa

—  Fitas,  arranja-me fitas verdes para toda esta gente, disse D. Pedro jovialmente, tocando no braço de dona Leopoldina.

—  Vou buscá-las.

E, risonha, a princesa deixou o grande salão burburinhante, em caminho da alcova.

Naquela noite, de 14 de setembro de 1822, o palácio de São Cristóvão estava num pruido febril de festa e novidade.

Ao escurecer D. Pedro havia voltado de São Paulo e, como por milagre, a cidade inteira soube que o príncipe, nas colinas do Ipiranga, tinha dado o grito da Independência.

Aquilo estalara na cidade como uma bomba.  Os salões da Boa Vista encheram-se num momento.  Os grandes vultos da propaganda correram a ouvir do próprio imperador os pormenores do gesto emancipador.

D. Pedro, com uma alegria de rapaz e aquelas maneiras democratizadas que ele tinha nos seus momentos de júbilo, contava a sua grande revolta ao receber de Paulo Bregaro, o correio que José Bonifácio lhe enviara, as notícias das cortes de Lisboa:  o seu movimento imediato e espontâneo em arrancar do chapéu o tope português gritando “Independência ou Morte”; os transportes da comitiva ao ouvir o brado libertados; a marcha galopante para São Paulo; os delírios do povo paulista naquela mesma noite no teatro da Ópera; o hino que ele mesmo escrevera e que a platéia com ele cantara, alucinadamente; os vivas do padre Ildefonso Xavier, aclamando-o rei do Brasil, enfim, a sua viagem para o Rio, vitoriado por toda a parte.

Dona Maria Leopoldina de Áustria (Viena, 1797- Rio de Janeiro,  1826)

Primeira Imperatriz-consorte do Brasil, esposa de D. Pedro I

Rainha-consorte de Portugal

Arquiduquesa da Áustria

Née: Dona Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena

A fisionomia dos patriotas fulgurava.

José Bonifácio envolvia-o num olhar de ternura emocionada.  Gonçalves Ledo, nervoso, agitado movia eloquentemente o braço, a cada passagem vibrante da narrativa.  Frei Sampaio devorava-o com o olhar em fogo.  Cunha Barbosa esticava-se nas pontas dos pés, a mão ao pavilhão da orelha para ouvir melhor.  Nóbrega veio colocar-se mais perto para não perder uma palavra da narrativa.  José Clemente, calmo, com aquele ar de serenidade inalterável, de quando em quando, traía-se por um fulgor mais vivo nos olhos.  Não havia quem não sentisse naquele instante um grande fogo na alma.

A princesa voltou com as mãos cheias de fitas verdes.

D. Pedro tomou um dos laços da mão da esposa, oferecendo-o a José Bonifácio.

—  Foi a cor que escolhi para a bandeira – o verde.  Ponha o laço no braço.

Dona Leopoldina começou a distribuir as fitas.  Todos se curvaram respeitosamente.

Entre a figura serena da princesa e a figura vibrante do príncipe havia uma diferença profunda no desenrolar daquele movimento político de emancipação.  Dona Leopoldina era a amiga incondicional do Brasil.  Desde o primeiro momento da propaganda que ela se tinha colocado espontaneamente ao lado da Independência.  Enquanto D. Pedro, aquela sua cabeça de vento, ora bandeava para um lado, ora para o outro, ora cedendo às exigências de Avilez e da divisão portuguesa, ora tendo gestos imprevistos de simpatia pelos brasileiros, ela, com uma ternura religiosa pela paz em que lhe nasceram os filhos, esteve sempre ao lado da grande aspiração política do Brasil.

A vitória dos campos do Ipiranga era principalmente dela, da sua habilidade, da sua candura, do seu coração, em torcer o príncipe tão leviano e tão estouvado, para um feito tão alto.

Dom Pedro I, o Libertador do Brasil  ( Queluz, 1798 – Queluz, 1834)

Primeiro Imperador do Brasil

Pedro IV de Portugal

[Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon]

Pintura de Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

óleo sobre tela, 1902

Todos que ali estavam sabiam do papel que ela tivera.

A cena de quatorze dias atrás era conhecida nas suas minúcias.  O ministério de José Bonifácio tinha-se reunido para conhecer as exigências das Cortes de Lisboa.  Essas exigências eram tão prementes, que só um golpe de independência poderia resolvê-las.  O velho Andrada conclui pela separação definitiva do Brasil de Portugal e todos, inclusive a princesa, aplaudem a decisão.  É preciso mandar um emissário a D. Pedro, em São Paulo.  Paulo Bregaro  é chamado.  José Bonifácio entrega-lhe os papéis, recomendando:

—  Se não arrebentar uma dúzia de cavalos no caminho nunca mais será Correio; veja o que faz.

E, quando o oficial vai montado para partir, dona Leopoldina assoma as escadas de pedra do palácio, detendo-o com um gesto:

—  Falta ainda isto.

E, a sua carta, carta escrita pela sua própria mão, dirigida ao marido, aconselhando-o, pedindo-lhe que fizesse imediatamente a Independência do Brasil.

Os salões continuavam a encher.  A todo o momento carros paravam à escadaria do palácio.

A noite estava fria.  Chuviscava.  Pelas janelas via-se o clarão longínquo da cidade que começava a iluminar-se festivamente.

D. Pedro passeava pelo salão radiosamente.  Estava de uma alegria como nunca se tinha visto.  Ora passava o braço aos ombros de José Bonifácio, ora aos de Gonçalves Ledo, ora ia conversar com frei Sampaio, ora atender à reverência de um patriota que entrava.  Tinha-se a impressão de que ali não estava o príncipe que havia acabado de fundar um império, mas um homem como outro qualquer, um excelente camarada que se democratizava em abraços e rompantes festivos.

Paço de São Cristóvão, c. 1835-1840

Barão Karl Robert Planitz ( Alemanha, 1804- Brasil, 1847)

Gravura aquarelada

Nas salas agora, quase que ninguém se podia mover. D. Pedro lançou os olhos pelo salão em que se reuniam os vultos da propaganda e exclamou:

—  Mas nem todos têm o distintivo da Independência!

E, com a jovialidade dos seus vinte e quatro anos, voltou-se para a esposa num momento de intimidade encantadora:

—  Os laços foram poucos.  Não haverá mais fitas verdes no palácio?!

Dona Leopoldina sorriu.  Chegou-se-lhe até perto e disse-lhe baixinho aos ouvidos:

—  Não há.

Mas seguiu em rumo da alcova.  Abriu as gavetas do primeiro móvel, remexeu-as.  Não havia fitas.  Foi a outras gavetas, a mais outras, a mais outras.  As fitas que encontra não são da cor do distintivo.

E vai sair e fechar a porta quando os seus olhos se voltam para a sua larga cama estendida no quarto.  Os grandes travesseiros de cambraia estão enfeitados de fitas verdes.  Aproxima-se e nervosamente arranca as fitas uma por uma, pedaço a pedaço, sem deixar um só.

E entra no salão com uma alegria de criança, segurando a mão do marido:

—  Arranjei as fitas.

Há uma exclamação de contentamento em toda a sala.  Com um leve tom de rosa no rosto a princesa conclui:

—  Tirei-as dos travesseiros de minha cama.

No movimento instintivo toda a gente baixa respeitosamente a cabeça, numa reverência de profunda emoção.  Que alma maravilhosa tinha aquela mulher que amava tanto o Brasil a ponto de oligar candidamente à intimidade recatada dos travesseiros de sua cama!

Ninguém se sente com ânimo de merecer tão alta honra.  Há um ligeiro silêncio, uma ligeira indecisão.

Antonio Menezes de Vasconcelos Drummond avança um passo.  Dona Leopoldina oferece-lhe o laço de fita.  Ele beijou-o num respeito comovedor:

—  Obrigado, majestade! Era verdade.  Ninguém se havia lembrado que já não mais estava ali a arquiduquesa d’ Áustria e sim a soberana do Brasil.

E todos avançam.  Dona Leopoldina distribui as fitas.  A cada laço que entrega um beijo estala,  o beijo da ternura, o beijo da gratidão, a única e mais bela homenagem que aqueles patriotas podiam, naquele momento, prestar aquele imenso coração de mulher.

Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da história brasileira, Viriato Corrêa,  São Paulo, Civilização Brasileira: 1956.

 

Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.

 

Obras:

Minaretes, contos, 1903

Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908

Contos do sertão, contos, 1912

Sertaneja, teatro, 1915

Manjerona, teatro, 1916

Morena, teatro, 1917

Sol do sertão, teatro, 1918

Juriti, teatro, 1919

O Mistério, teatro, 1920

Sapequinha, teatro, 1920

Novelas doidas, contos, 1921

Contos da história do Brasil, infanto-juvenil, 1921

Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921

Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921

Nossa gente, teatro, 1924

Zuzú, teatro, 1924

Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926

Balaiada, romance, 1927

Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927

Baú velho, crônica histórica, 1927

Pequetita, teatro, 1927

Histórias ásperas, contos, 1928

Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928

A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930

A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930

A macacada, infanto-juvenil, 1931

Bombonzinho, teatro, 1931

Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931

No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931

Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931

Gaveta de sapateiro, crônica histórica, 1932

Sansão, teatro, 1932

Maria, teatro, 1933

Alcovas da história, crônica histórica, 1934

História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934

Mata galego, crônica histórica, 1934

Meu torrão, infanto-juvenil,1935

Bicho papão, teatro, 1936

Casa de Belchior, crônica histórica, 1936

O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936

Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938

Carneiro de batalhão, teatro, 1938

Cazuza, infanto-juvenil, 1938

A Marquesa de Santos, teatro, 1938

No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938

História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939

O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939

O caçador de esmeraldas, teatro, 1940

Rei de papelão, teatro, 1941

Pobre diabo, teatro, 1942

O príncipe encantador, teatro, 1943

O gato comeu, teatro, 1943

À sombra dos laranjais, teatro, 1944

A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945

Estão cantando as cigarras, teatro, 1945

Venha a nós, teatro, 1946

As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948

Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949

Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955

O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.

História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962





Imagem de leitura — Dee Lessard

30 08 2011

Um momento de silêncio, 2010

Dee Lessard ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

http://deelessard.blogspot.com

Dee Lessard nasceu no Nordeste dos Estados Unidos, em New Hampshire.  Dedicca-se até hoje à sua primeira profisão: cabelereira.  Mas sua paixão pelas artes visuais acaba falando alto.  Por três dias na semana dedica-se à pintura com técnica dos mestres clássicos.  Já ganhou diversos prêmios.  Mais trabalhos seus estão exemplificados no seu blog, cujo endereço você acha acima.