Daniel Alejandro Rojas Espinoza (Chile, 1973)
Daniel Alejandro Rojas Espinoza (Chile, 1973)
Blaise Vlaho Bukova (Croácia, 1855-1922)
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Recentemente a revista The Economist publicou um artigo sobre a necessidade dos escritores atuais voltarem a atenção para o lado comercial da profissão. Não necessariamente para a escrita comercial, mas para a contabilidade, para os números. Isso se faz necessário porque as editoras estão competindo por leitores e querem ver seus livros resenhados, blogados, comentados nas mídias sociais. Com um menor número de livrarias independentes não há mais atenção dada ao público mais exigente, aquele que se encantaria com uma obra de um tema menos popular. No momento, as editoras só se preocupam em favorecer alguns poucos títulos, para os quais sabem que terão leitores, cujo investimento para o marketing trará retorno garantido. Desse modo não gastam tempo nem dinheiro impulsionando escritores ainda desconhecidos ou livros com temas menos populares. A atenção das editoras se concentra nos títulos que têm maiores chances de venda. Desejam aqueles livros que criam seguidores, marcando lugar nos jornais, criando filas nas livrarias, às três da manhã para a primeira compra de um novo título. Os escritores que se cuidem. A indústria editorial anda muito bem obrigada. Em 2013, as publicações quintuplicaram, isso mesmo, cresceram cinco vezes quando comparadas com os números de dez anos atrás.
Hoje escritores precisam estar atentos aos diversos níveis de marketing começando pelos contatos com pessoas que podem influenciar nas vendas. Já se foi a era dos críticos literários, dos jornais especializados. Tudo hoje é marketing. Tornou-se importante o endosso de celebridades, de pessoas famosas. E se as vendas são muito boas, os próprios escritores se tornam celebridades. Nesse caso o problema é que eles podem ser pessoas introvertidas, dadas à reflexão e quase nunca à arte de vender. Muitos autores se sentem incomodados com técnicas de venda sugeridas por especialistas em marketing ou com a aproximação invasiva de um público curioso pelo que escritores consideram desimportante. Mas, como lembra a revista, nenhum escritor pode, como em priscas eras, se esquivar de fazer a sua parte na promoção do livro que lhe custou tanto tempo de dedicação.
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Guillaume le Baub (França, 1958)
técnica mista
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Isso não resolve, no entanto, um dos grandes problemas dos autores: pouquíssimos conseguem viver exclusivamente da venda de seus livros. Mesmo aqueles que têm mais de um título vendendo bem não conseguem viver exclusivamente da escrita. Eles então suplementam sua subsistência dando palestras, fazendo consultoria ou ensinando. Seus honorários crescem de acordo com o sucesso de vendas. Hoje eles precisam de se envolver na campanha de marketing, precisam de uma página na web, nas redes sociais, canal no Youtube, pequenas histórias para download gratuito, como bônus para quem os segue e assim por diante. O emprego de um especialista em marketing não é raro e vale a pena saber que tópicos estão em pauta para o próximo livro.
Mas nada disso, absolutamente nada disso, funcionará a favor do autor se o livro publicado não tiver um mínimo de bom conteúdo, se não for bem escrito, sem erros gramaticais. A arte de escrever bem ainda é necessária. O que mudou é que o escritor precisa se dedicar à comercialização de seus livros, promovê-lo, escrever um blog, ter um website, encantar auditórios, dominar as redes sociais, polir sua imagem nas mesmas, agradar a gregos e troianos, ter senso de humor, ter assunto, estar do lado certo nas agendas político-sociais, alavancar vendas, favorecer encontros, suscitar interesse na sua pessoa ou nos seus livros, entusiasmar fãs, incrementar o guarda-roupa, sair bem na foto. É fácil! Ainda sonha em ser escritor?
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Artigo mencionado: Authorpreneurship
Giosi Costan (Itália, 1963)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Resista à tentação de tentar escrever o próximo grande sucesso. Ao invés disso, tente escrever a história que só você conseguirá contar.
[Tradução minha]
Para ler o artigo todo: LINK
Igreja da Matriz, Alfenas, MG, 1959
José Maria de Almeida (Portugal/Brasil, 1906-1991)
óleo sobre tela, 39 x 55 cm
Uma visita à Pinacoteca de Munique, 1917
Charles Friedrich Alfred Vetter (Alemanha 1858-1936)
óleo sobre tela
O jornal americano The New York Times publicou um artigo Seeing a Cash Cow in Museums Precious Art, sobre as dificuldades que museus no mundo inteiro estão tendo para manter suas coleções intactas sem que os governos de seus países, resolvam vender alguma peça do acervo para pagamento de dívidas.
É desesperador para nós que trabalhamos com cultura e com história cultural ver que o alto valor de obras de arte em coleções públicas pode servir de tentação para que se resolva problemas de gestão governamental, usando a liquidação do passado, a história daquela cultura, do local ou do país.
Como lembra o diretor do museu da Westfália, Hermann Arnold, vender uma peça ou a parte de uma coleção, que se encontra em um museu ou galeria pública, é semelhante a vender a história da sua família. Você faria isso? Você venderia aquele colar de ouro miudinho da sua bisavó com um santinho esmaltado, ou cruz, ou crucifixo ou ainda a estrela de Davi, que você se lembra ter visto no colo de sua avó, depois no de sua mãe e finalmente, o receberia e colocaria em volta de seu próprio pescoço? É claro que não. Faz parte de quem você é. Da ligação entre as gerações. Mostra o elo que você é entre o futuro e o passado. Marca a sua existência para você e para seus descendentes.
Nicholas Chistiakov (Belarus/EUA, 1981)
óleo sobre tela, 90 x 120cm
Coleção Particular, Grã-Bretanha
Há que se pensar em soluções criativas para o problema. No ano passado o Museu de Arte de Detroit, no estado de Michigan nos EUA, esteve às vésperas de liquidar sua coleção para saldar as dívidas com os aposentados municipais de Detroit. O museu não tinha nada a ver com esses aposentados.
Aqueles que falam mal dos capitalistas, e dos empresários no mundo ocidental, poderiam aprender um pouquinho com a lição dada por esses mesmos elementos “da insensível burguesia”. Movidos pela responsabilidade de manter o acervo de um dos melhores pequenos museus nos Estados Unidos, Detroit Institute of Art, empresários da cidade se cotizaram e conseguiram pelo menos retardar a venda, enquanto se espera que o governo encontre outra maneira de subsidiar os recursos das aposentadorias do município. Foram 27 milhões de dólares, muito menos do que a venda do acervo do museu traria, mas trouxe esperança. [Wall Street Journal].
Cláudio Dantas (Brasil, 1959)
óleo sobre tela, 120 x 160 cm
Alguns museus na Inglaterra já se desfizeram de obras de seus acervos. E o governo português se encontra em impasses judiciais sobre a venda de 85 Mirós apreendidos na nacionalização de Banco Português dos Negócios. A coleção estimada em 36 milhões de euros, no ano passado, enche os olhos daqueles que querem resolver de maneira fácil o débito governamental de 110 bilhões de euros. Desfazendo-se de algumas propriedades o governo conseguiu 11 bilhões de euros e se vê salivando com o prospecto desses meros 36 milhões de euros.
O que não está entrando na conta é o valor do patrimônio cultural para as gerações de futuros portugueses. Tampouco leva-se em consideração os outros tantos 36 milhões de euros, renováveis perpetuamente, que esses Mirós poderiam trazer em turismo a um país que depende muito desta indústria e que está sempre – como qualquer país estaria — tentando trazer turistas de melhor qualidade, de maior poder aquisitivo. Uma vez incorporada na cultura, essa coleção assim como qualquer outra, teria valor inestimável, centenas, milhares de vezes mais produtivo do que a passageira solução de um problema fiscal que governos têm a obrigação de saber resolver. Isso é válido para Portugal, Inglaterra, França, Alemanha, EUA, Brasil e qualquer outro país que esteja enamorado dessa solução fácil demais para ser realmente verdadeira.
Se o pior acontecer, perdemos para sempre a possibilidade de compreendermos o nosso próprio percurso no planeta. Porque uma vez vendidos, esses patrimônios culturais entrarão nas coleções particulares dos novos-ricos chineses, sauditas, se não forem parar em total obscurantismo nos portos francos de Singapura ou Genebra.
Há de haver uma solução que sirva melhor ao todo — a todos os cidadãos.
Musse, a esposa do pintor, na casa em Sofievij, 1916
Paul Gustave Fisher (Dinamarca, 1860-1934)
óleo sobre tela
Fomos presenteados pelo Wall Street Journal, com um delicioso ensaio sobre o sucesso póstumo de Jane Austen. Sucesso não só póstumo, mas sobretudo póstumo-tardio, se me permitem, já que 200 anos se passaram desde a publicação em 1813 de Orgulho e Preconceito, a obra mais popular da autora inglesa, e hoje um dos livros mais lidos no mundo inteiro. O artigo é assinado por Alexander McCall Smith, que por sua vez é seguido por milhares de leitores, desde que se tornou popular com Agência número 1 de mulheres detetives, [no Brasil publicado pela Cia das Letras em 2003]. Seus livros relatando as aventuras de deliciosos personagens de Mma Ramotswe, Mma Makutsi a Mma Potokwane, em Botswana, também foram, para espanto de muitos, sucessos de venda no mundo inteiro. No Brasil, As lágrimas da Girafa, O clube filosófico dominical, Amigos amantes e chocolate, entre outros conquistaram fieis seguidores.
McCall Smith, que portanto não é estranho à popularidade, considera com a doce ironia que o fez famoso, tudo que está envolvido nessa Austen-mania, que fez a autora inglesa ser mais lida que Tolstoy, Dickens e Proust. Uma popularidade que surpreende, ele nos lembra, porque apesar desses autores continuarem a ser lidos em grande número, nenhum deles tem milhares de fãs que leem e releem suas obras, que participam de numerosas convenções vestidos a caráter ou que esperam com ansiedade a mais recente adaptação para o cinema, teatro ou televisão dos romances deixados por esses escritores.
Retrato de Jane Austen, 1875, autor desconhecido, baseado em aquarela feita pela irmã da escritora, em 1810.
Além disso, a escritora inglesa tem seguidores entre escritores que se interessam em completar suas obras escrevendo ou uma sequência, ou uma visão por um ângulo diferente da mesma história e ainda romances que contam o “pré-romance”. Orgulho e Preconceito, de longe a obra mais popular de Austen bate recordes nesse nicho literário. As sombras de Longbourn, escrito por Jo Baker [Cia das Letras: 2014], conta a história vista pelos empregados da casa de Elizabeth Bennet. P.D. James, celebrada autora de histórias de mistério, se sentiu impulsionada a levar suas maquinações detetivescas para o mundo de Hertfordshire, no livro Morte em Pemberley, [Cia das Letras: 2013]. Há também algumas publicações que fogem ao esperado, como o romance de Seth Grahame-Smith Orgulho e preconceito e zumbis [Intrínseca: 2009]e livros no nicho do romance erótico
Por que? Por que Jane Austen é tão popular? Deve haver algo mais do que a eterna sedução, e retrato de uma paixão que o leitor vê desabrochar diante de seus olhos antes mesmo dos protagonistas se darem conta do que acontece. Afinal, este enredo é o básico para quase todos os romances “para senhoras” do século XIX. Lembramos de dezenas de títulos nessa linha romântica mesmo aqui no Brasil, A moreninha de Joaquim Manuel de Macedo [1844]; O tronco do ipê, José de Alencar [1871]; A mão e a luva de Machado de Assis [1874]. O que diferencia, certamente, Jane Austen de outros escritores do gênero é um fino senso de humor e um retrato detalhado das restrições impostas aos personagens da época. Além disso, é uma voz feminina, que percebe o mundo pelo ângulo da mulher inteligente que questiona. Austen ao mesmo tempo que descreve analisa com humor e engaja o leitor a ver o mundo como ela o faz. Mesmo o leitor moderno consegue entender a ironia das situações descritas e a diversão está completa.
Para ilustrar essa popularidade, Alexander McCall Smith lembra ao leitor que versões contemporâneas das obras de Austen estão sendo publicadas pelo Austen Project Series: Razão e sentimento, escrito por Joanna Trollope; A abadia de Northanger, por Val McDermid; e em abril sairá sua própria versão de Emma, para o mesmo projeto. Julgando a prosa que conheço do autor, fico ansiosa para ver o resultado. McCall Smith afirma que ao ser convidado para o projeto levou 45 segundos para aceitar e que se divertiu imensamente com o processo. Deve nos divertir também.
E você, é fã de Jane Austen? De todas as suas obras? Ou só das versões cinematográficas? Já leu algum dos livros relacionados à obra da autora?