Sobre Magritte, Murilo Mendes

26 07 2018

 

 

Magritte, o sobretudo de Pascal, OST, MenilO sobretudo de Pascal,  1954

[Le manteau de Pascal]

René Magritte (Bélgica, 1898-1967]

óleo sobre tela, 59 x 49 cm

The Menil Collection, Texas

 

 

“Todavia certos pintores — como também certos escritores — apesar de praticarem o culto do sonho e do inconsciente, que muito antes de Freud os ligava aos românticos (especialmente a Novalis, Achim von Arnin, Hoffmann e Nerval), não eram de fato uns instintivos, mesmo porque percebiam nitidamente a polaridade entre forças cerebrais e forças ancestrais. Em breve fundou-se uma linha divisória da teoria e da prática. Pascal escrevera: “Nous sommes automate autant qu’esprit“. Os revisionistas poderiam alterar a fórmula e dizer “Nous sommes esprit autant qu’ automate“. Não foi por acaso que alguns adeptos da doutrina passaram sem choque para o marxismo, que comporta, além de seu aspecto destruidor e polêmico, toda uma construção. O surrealismo, teoricamente inimigo da cultura, tornou-se num segundo tempo um fato de cultura; e muitos surrealistas, superando a técnica do automatismo, dispuseram-se a trabalhar com um método planificador. Por isso mesmo, quando há uns vinte anos atrás Breton procedeu em Nova Iorque à revisão analítica do movimento, a contragosto incluía Magritte entre os pintores surrealistas, insinuando que o seu processo de compor não era automático, antes plenamente deliberado”.

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.188-9.

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

25 07 2018

 

JOSÉ FONSECA - Natureza morta Óleo sobre Tela, Assinado Canto Inferior Direito, Medindo 59,70 x 80,00Natureza morta com penca de bananas e maçãs

José Fonseca (Brasil, 1966)

óleo sobre tela, 59 x 80 cm

 





Dez anos de blog Peregrina Cultural!

24 07 2018

 

 

aniversario vovo donalda, disneyVovó Donalda faz anos, ilustração Walt Disney.

 

Em meados de junho de 2008, ainda sem grande comprometimento, comecei o Peregrina Cultural.  Minha intenção era, e ainda é, levar ao conhecimento de um público maior, para além de especialistas, imagens da arte brasileira.  Naquela época havia pouco, muito pouco na internet, de graça, que cobrisse este aspecto.  Não havia um banco de imagens da arte brasileira em geral. E certamente muito pouco da arte chamada acadêmica.  Quis trazer ao público também parte do que havia sido descartado dos textos educacionais do passado que pudessem ser utilizados por educadores em escolas através do país.  Textos das antologias dos anos 40, 50, 60, 70 eram muito mais ricos em vocabulário, mais literários do que os que alunos leem hoje, infelizmente. E parece que acertei quando mostrei isso aos professores contemporâneos.  Nem todos, mas muitos sentiram essa necessidade.

Tive muito, muito sucesso.  De verdade.  Mais sucesso do que esperava e alguns dos meus textos (assinados por mim) foram liberados para uso nas escolas de vários estados do Brasil, Rio Grande do Sul tomando a liderança neste quesito.

Aos poucos a internet no Brasil mudou de perfil.  Mais pessoas se interessaram em compartilhar conhecimento. E com isso comecei a me dedicar mais a resenhas literárias e obras de arte, do que em trazer novidades arqueológicas, de pesquisa histórica ou curiosidades científicas porque outros blogs de muito sucesso preenchiam esta lacuna.  Muitos deles com mais de uma pessoa no gerenciamento.  Poucos descobrem que há uma única pessoa por trás de todas as postagens da Peregrina.  Manter-me como única contribuinte ajudou a dar consistência e sobretudo manutenção contínua.

Em dez anos este lugar se tornou meu canto de reflexões.  É um passatempo, um lugar para onde venho quando fujo da realidade. Construo-o tijolo por tijolo, nos dias bons e nos não tão bons.  É um prazer.  É também um prazer ter tido neste período (desde que comecei a contar) mais de 10.000.000 de visitantes, e ter mais de 3.000 seguidores.

Mantive o mesmo arranjo através dos anos, com uma foto de pescadores na praia de Copacabana no topo, porque é assim que me sinto, pescando e compartilhando imagens e ideias.  Escrevo pouco sobre minha vida.  Gostaria de fazer mais, mas há melhores escritores de blogues por aí.  Ocasionalmente sou tomada por uma lembrança ou uma experiência que desejo mostrar ao mundo.  Pago ao WordPress para não ter anúncios, é um luxo que me dou para manter o foco no que posto.

Devo muito ao incentivo que recebi dos meus leitores, que são uns poucos milhares por dia.  Mas já é bastante, muito mais do que um dia sonhei.  Agradeço também a todos que comentam, que  levam as postagens para outros blogs.  Acredito que conhecimento é para ser dividido.  Enfim, se não fosse por minha amiga Lígia Guedes, do blog Nós Todos Lemos, que me alertou a necessária comemoração, eu provavelmente não o teria feito.  Sei que blogs andam mudando, que o Instagram está tomando o lugar deles, mas aqui ainda é um lugar onde muitos vêm procurar informações e enquanto puder mantê-lo o farei. Entrar aqui e postar é um hábito, como para muitos é tomar um drinque, ler o jornal, tirar uma soneca após o almoço.

Muito obrigada pelo apoio, pelas visitas, pelas ideias, pelo carinho de todos vocês!
E vamos em frente.

 

 





Nossas cidades: São Paulo

24 07 2018

 

 

Fernando Naviskas (Brasil, 1961 Viaduto Santa Ifigênia,

Viaduto Santa Ifigênia, SP

Fernando Naviskas (Brasil, 1961)

 





Domingo, um passeio no campo!

22 07 2018

 

 

GAGARIN, Paulo, Serra dos Órgãos, ostcc, ass. e dat. 1935 45 x 73 cm.jpgSerra dos Órgãos, 1935

Paulo Gagarin (Rússia/Brasil, 1885-1980)

óleo sobre tela colada em cartão, 47 x 73 cm





Imagem de leitura — Birgit Stern

22 07 2018

 

 

Stern, Birgit Ausstellung-Viechtach-Fontanella_Stern_reference Birgit Stern, aquarela

Leitora na cafeteria em Viechtach

Birgit Stern (Alemanha, 1970)

aquarela sobre papel





Rio de Janeiro, minha cidade natal!

20 07 2018

 

 

YVONNE VISCONTI CAVALLEIRO,Praia Vermelha,óleo stela, (década de 1950),65 x 80 cmPraia Vermelha, década 1950

Yvonne Visconti Cavalleiro (França/Brasil, 1901 – 1965)

óleo sobre tela, 65 x 80 cm





Resenha: “A inesperada herança do Inspetor Chopra” de Vaseem Khan

19 07 2018

 

 

_Demeter_BabyElephant David Drinnon (oil), Baby Elephant by Anne Demeter (acrylic)Elefantinho, ilustração de Anne Demeter.

 

 

A Inesperada Herança do Inspetor Chopra de Vaseem Khan é um agradável livro de entretenimento, perfeito para o fim de semana de férias.  Ele se insere entre livros de mistério passados em terras exóticas e longínquas. Este nicho literário ganhou, nas últimas duas décadas, leitores fieis e novos escritores.  Essas obras abrem caminho para o entendimento de diferentes culturas através de detetives e crimes por resolver. Neste segmento meus preferidos são as aventuras de Mma Precious Ramatswe, em Botsuana,  personagem criado pelo escritor britânico Alexander McCall-Smith cuja aparição no mundo dos detetives foi no livro Agência Nº 1 de Mulheres Detetives (original de 1998, 2003 no Brasil) (a série inteira é deliciosa) e também os problemas enfrentados ao combater crimes pelo Detetive Chen Cao, do escritor Qiu Xialong (imperdíveis para quem lê em inglês, mas até o momento sem tradução no Brasil), cujo território de ação é sua terra natal, Xangai. Sua primeira aventura apareceu em Death of a Red Heroine (2000). Ambos autores presenteiam seus leitores com impressões da vida cotidiana e da cultura local.  Agora podemos adicionar a esta lista as obras de Vaseem Khan, localizadas na Índia, em Bombaim (Mumbai).   A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é o primeiro volume da série Baby Ganesh Agency, e o único título publicado no Brasil. Nele o policial indiano, que está se aposentando, e que dedicou toda vida profissional no combate ao crime, na mais populosa cidade da Índia, recebe, no mesmo dia de sua aposentadoria, um elefante bebê de herança.

 

A_INESPERADA_HERANCA_DO_INSPET_1488479386658013SK1488479386B

 

Este é um livro aconchegante. Cheio de charme e bom humor.  Ele nos lembra como é importante seguir os instintos ganhos depois de mais de trinta anos de profissão.  Como era previsível, o inspetor Chopra não tem tempo de se sentir nostálgico pelos anos a serviço da cidade. Apesar de se aposentar por motivos médicos, no mesmo dia em que deveria usufruir do tempo livre, sem horários, típico do benefício que lhe coube, descobre que a polícia não está fazendo qualquer esforço para resolver um crime e isso lhe parece estranho.  O instinto o alerta.  Há algo que não cai bem nessa história.  No entanto, este não é o único empecilho proibindo-o de gozar do descanso projetado. Há outro problema inesperado: cuidar do  filhote de elefante herdado de um tio e que lhe foi entregue em casa na primeira manhã do planejado descanso.  Contrastando com os agitados primeiros dias de reforma, há a figura calma da fiel esposa, Poppy, que raciocina de maneira deliciosa sobre soluções de problemas corriqueiros e que solidamente o mantém em cheque, mesmo depois de Chopra levar para dentro de casa, para nada menos do que a sala de estar do casal, a inusitada herança. Como numa boa e justa história tudo se explica no final e por causa do sucesso de seu desempenho, tanto no crime quanto na guarda do elefante, Inspetor Chopra abre a Agência de Detetives Baby Ganesh.

 

Vaseem-Khan-14.10.2017-2-e1510867988647-350x2jlzrbt007tg7l0ykqVaseem Khan

 

Estamos em julho.  Época de férias de inverno.  Nada melhor do que uma leitura leve, com chocolate quente nas mãos, manta no colo e uma boa poltrona.  Indicada para todas as idades.  Interessante e informativo.  Alarga horizontes. Em dois tempos Inspetor Chopra nos conquista.  E não precisamos de mais do que duas tardes, acompanhamos a vida deste detetive que ao transitar em sua cidade natal nos mostra os bairros e o complexo perfil de Bombaim.  Ao final, ficamos felizes de ver que provavelmente a Agência de Detetives Baby Ganesh será um sucesso e trará para nós  leitores mais aventuras com gosto indiano. É só esperar pelos próximos volumes.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Jesus Cristo bebia cerveja” de Afonso Cruz

18 07 2018

Inês Dourado (Portugal, contemporânea) Monsaraz VI, 2013,acrílica sobre papel, 17 x 23 cmMonsaraz VI, 2013

Inês Dourado (Portugal, 1958)

Técnica mista (grafite, acrílico, canetas de acetado e crayons) s/papel, 17 x 23 cm

Jesus Cristo bebia cerveja é um título que chama atenção. Parece profano, desrespeitoso.  E, no entanto, esta provocação de Afonso Cruz, não se materializa.  Trata-se de obra moralizante, cujo desfecho me pareceu surpreendentemente antiquado, bastante incompatível com o mundo contemporâneo.

A trama se desenvolve em torno de Rosa, uma jovem de beleza rústica e sensual. Imaginei-a semelhante a Frida Kahlo, por causa do bigodinho, sobrancelhas espessas e vasta cabeleira. Rosa foi criada pela avó.  Os pais, cada qual à sua maneira, decidem tocar a vida separadamente e em estilo não condizente com a vida doméstica.  Ele morre, ela sai de cena. A criança fica com a avó.  Agora, Rosa é responsável pela anciã que já não consegue sobreviver sozinha.  Muito pobres, vivem do que plantam e do auxílio dos outros.  Um dia, Rosa descobre que a avó gostaria de visitar Jerusalém antes de morrer.  Este desejo parece impossível de ser concretizado, a não ser que mudassem Jerusalém para o centro do Alentejo. Como? Esta é apenas uma das inúmeras intrigas que seguimos  e não é, nem mesmo, a mais importante.  Porque a vida de Rosa, filha de uma mulher que sai do interior de Portugal e se prostitui em Lisboa, parece já estar, desde o início da leitura, condicionada.

JESUS_CRISTO_BEBIA_CERVEJA__1399672790B

Esta obra se parece com uma igreja barroca-rococó, como as encontradas no século XVIII no Brasil.  A localização da história no Alentejo, árido, ensolarado, de casas caiadas e ruas vazias nos dá a impressão externa de simplicidade como acontece com qualquer templo barroco tardio e engana quem se detém em sua observação, pois esconde a rica  complexidade de seu interior. E é esse interior,  a narrativa de uma história simples entremeada por numerosos personagens esdrúxulos — como a inglesa que mantém intelectuais de duvidoso saber a seu redor;  assim como as intermináveis discussões entre eles sobre assuntos esotéricos — que ocupam o espaço, e por excesso borram a linha narrativa, confundindo o leitor com mais informação do que necessário, entulhando seu percurso até o final. Prestar atenção a esses personagens é seguir arabescos narrativos e chegar a becos sem saída que intrigam, não pela imaginação do autor em descrevê-los, mas porque conspiram para que a leitura de um texto de 240 páginas na versão brasileira, consiga ser cheia de caminhos tortos e curvas perigosas,  continuamente desnecessários.

Este foi o primeiro livro que li de Afonso Cruz, que ocupa, pelo aplauso e louvor recebidos por suas obras anteriores, lugar de importância na literatura lusitana da atualidade. Foi uma leitura que me surpreendeu  pelo estilo rebuscado.  No início, suas figuras de linguagem, antíteses, metáforas, paradoxos, hipérboles parecem charmosas.  Encantam.  O virar da frase, a torção inesperada de um significado, a troca do significado pelo significante chamam a atenção.  Configuram maneira diferente, poética, de registrar acontecimentos.  Mas terminado o primeiro terço da obra, elas se tornam um maneirismo, um impulsivo exagero cansativo e irritante.  Pareceu-me um caderno de exercícios em estilo, em que os adornos ao texto tornam a narrativa rebuscada, barroca e indisciplinada. “A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela vida, lábios cheios de palavras por dizer.” [57].  [Quantas figuras de linguagem cabem numa frase de vinte palavras? ] “A noite começa seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com suas trevas.” [113] Ocasionalmente este tipo de linguagem é muito bem vindo.  Sim, o autor está trabalhando a nossa língua, está exercitando sua potencialidade.  Mas precisa mostrar toda destreza que possui ao navegar o idioma, continuamente?  Em uma única obra?

Afonso Cruz 075Afonso Cruz

Não conheço o trabalho anterior de Afonso Cruz.  Amigos recomendaram a leitura por serem fervorosos adeptos da obra do autor.  A seu favor: houve interesse suficiente para que eu levasse a leitura até o fim.  Por Jesus Cristo bebia cerveja, e exclusivamente por esta livro, Afonso Cruz me parece ansioso por compartilhar com leitores as incríveis ideias que lhe vêm à cabeça, tanto na linguagem quanto na volumosa população de personagens extravagantes, sem edição.  A exuberância narrativa, a imaginação prolixa contrastam com a trama simples e previsível. Sem dúvida uma obra que trabalha a discordância entre a singeleza da trama e a ostentosa linguagem.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

18 07 2018

 

 

FLORÊNCIO - Arranjo - Óleo sobre tela

Arranjo com tangerinas, bule e caçarola

Florêncio [José Carlos dos Santos] (Brasil, 1947)

óleo sobre tela