Minha terra — poesia de Lobo da Costa — para crianças

24 07 2008

 

O Gaúcho, José Lutz Seraph Lutzemberger, (Brasileiro [nascido na Alemanha] 1882-1951, aquarela

O Gaúcho, s.d.

José Lutz Seraph Lutzemberger

(Brasileiro 1882 – 1951)

Aquarela

MINHA TERRA

 

Lá, na minha terra, quando

O luar banha o potreiro,

Passa cantando o tropeiro,

Cantando, sempre cantando;

Depois, avista-se o bando

Do gado que muge, adiante;

E um cão ladra bem distante,

Lá, bem distante, na serra;

Nunca foste à minha terra?!

 

Enfrena, pois, teu cavalo,

Ferra a espora, alça o chicote

E caminha a trote, a trote,

Se não quiseres cansá-lo.

Ainda não canta o galo,

É tempo de viajares.

Deixarás estes lugares,

Iras vendo novas cenas

Sempre amenas, muito amenas.

 

O laranjal reverdece,

E ao disco argênteo da lua,

Logo os olhos te aparece

A estrela deserta e nua.

………………………………………………

 

Lobo da Costa

 

 

Francisco Lobo da Costa (Pelotas, RS 1853 — RS 1888 ) Poeta, jornalista e teatrólogo brasileiro.

 

A obra poética:

 

Esparsa nos jornais:  Eco do Sul, Diário de Pelotas e Progresso Literário.

Espinhos d’alma em (1872)

 

Poesias em edições póstumas:

 

 Dispersas

Auras do Sul.

 

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: terceiro livro de leitura, edição especial para o Rio Grande do Sul, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.  [livro didático para a 3ª série do curso básico].

 





Um avô, poema de Stella Leonardos

23 07 2008

 

 Norman Rockwell, (EUA 1894 – 1978 ), Anúncio para passas secas,  SUNKIST.

 

UM AVÔ

 

 

 

Meu velho avô de alma jovem,

Inda hoje me comovem

As histórias que contavas.

Punhas nelas tanta vida,

Tanta força colorida,

Que tu mesmo as incarnavas.

Nos contos dos bons gigantes.

No Brasil dos bandeirantes.

Na Grécia cheia de glória.

Só não contaste as façanhas

Que tiveste.  As lutas ganhas

E as perdidas com vitória.

E nem grego ou brasileiro

Foi mais esteta e pioneiro

Do que tu quando sonhaste.

Meu velho avô de alma jovem!

Mais que as outras me comovem

As histórias que calaste.

 

 

Stella Leonardos

 

 

Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.

 





Buri, SP continua na luta de 1932

23 07 2008
Força voluntária chega às pequenas estações ao Sul de São Paulo

Força voluntária chega às pequenas estações ao Sul de São Paulo

 

Sexta-feira, 23 de julho de 1932

 

Continuam as forças em Buri.  Consta terem havido muitos combates na zona de Queluz e na do Túnel.  Um avião federal distribuiu manifesto ou boletim à cidade.

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 130, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Soldados abençoados antes da partida.  Revolução Constitucionalista.

 

Soldados são benzidos antes de partirem para a luta.  São Paulo, 1932.





A Borboleta Amarela — poema infantil de Ladyce West

23 07 2008
Mark Anderson

Borboleta amarela. Foto: Mark Anderson

 

A Borboleta Amarela

 

 

A borboleta amarela

pousou no beiral da janela.

Abriu suas asas listradas

cansadas de muitas estradas

e dormiu.

 

 

Ficou um bom tempo parada

até se sentir renovada.

Limpando as patinhas da frente,

jogou-se pelo muro bem rente

e seguiu.

 

 

Lá foi ela pelos ares

saltitando em ziguezagues.

Pousou na flor do caqui,

pulou daqui para ali

e partiu.

 

 

Por entre a grade de ferro, passou.

Por trás dos ramos floridos, voou.

Parou no banco da praça,

eis que um gato lhe ameaça…

e fugiu.

 

 

 

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

 

Ladyce West ( RJ – contemporânea)

http://ameiavoz.blog.terra.com.br





Só houve luta em Itararé — Diário da Revolução de 1932

23 07 2008

 

Voluntários moços e velhos.  Muitos não voltaram.

 

Quinta-feira, 22 de julho de 1932

 

As forças paulistas por seu comando geral do setor sul resolve evacuar a zona de Faxina e estabelecer-se em Buri. Em verdade,  porém, só houve combate em Itararé.  Nas outras zonas ocupadas, as forças de São Paulo se acantonaram, tomaram posições, mas não deram um tiro, nem o inimigo as procurou.

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 130, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 





As Borboletas, poema infantil de Vinícius de Moraes

22 07 2008

 

Professor Pardal.  Ilustração Walt Disney.

Professor Pardal. Ilustração Walt Disney.

AS BORBOLETAS

 

 

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas

 

Borboletas brancas

São alegres e francas.

 

Borboletas azuis

Gostam muito de luz.

 

As amarelinhas

São tão bonitinhas!

 

E as pretas, então…

Oh, que escuridão!

 

 

 

Vinícius de Moraes

 

 

Do livro:

 

A arca de Noé, Vinícius de Moraes, Livraria José Olympio Editora: 1984; Rio de Janeiro; páginas 58 e 59. 14ª edição.

 

 

Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

 

Livros:

 

O caminho para a distância (1933)

Forma e exegese (1935)

Ariana, a mulher (1936)

Novos Poemas (1938 )

Cinco elegias (1943)

Poemas, sonetos e baladas (1946)

Pátria minha (1949)

Antologia Poética (1954)

Livro de Sonetos (1957)

Novos Poemas (II) (1959)

Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)

A arca de Noé; poemas infantis (1970)

Poesia Completa e Prosa (1998 )

 

 

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Outros poemas de Vinícius de Moraes neste blog:

 

A cachorrinha

 

Veja o vídeo de Denise Shinotuka:



 

 





Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!