A dura vida em Santo André da Borda do Campo, texto de Viriato Corrêa

9 01 2012

Descobrimento do Brasil.

As constantes reclamações, que temos todo o justo direito de fazer sobre os impostos no Brasil, associadas à próxima data de aniversário da cidade de São Paulo, me levaram a pensar hoje nos ensaios de Viriato Corrêa, em particular neste que reproduzo aqui sobre os impostos do vilarejo de Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, quando o Brasil tinha um pouco mais de 50 anos de existência.  Resolvi postá-lo, porque gosto desse excelente escritor e o ensaio  me lembra e espero que faça o mesmo a vocês, das dificuldades que os nossos antepassados tiveram ao se estabelecerem nesse Eldorado.  Sei muito bem que comemora-se o aniversário de Santo André da Borda do Campo  em abril — fundada em 1553 este ano ela comemora 459 anos de idade.   No entanto, Santo André da Borda do Campo exerce um grande fascínio para mim, o fascínio do desconhecido, do mistério, já que o vilarejo desapareceu em 1560 e há muito pouca informação sobre sua localização original.

A dura vida em Santo André da Borda do Campo

Viriato Correia

Desde que o Brasil é Brasil não houve certamente multas mais extorsivas que as que se cobraram na vila remota de Santo André da Borda do Campo.

Ao mais ligeiro golpe de vista pelas atas da municipalidade do rude arraial de João Ramalho, o leitor se escandaliza diante da disparidade das multas, comparada com o valor do dinheiro naquela longínqua quadra quinhentista.

Quer sobre a vila de Santo André, quer sobre a vida de João Ramalho, anda a história ainda às tontas.

João Ramalho tem sido tudo na história, ao sabor dos historiadores.  Para uns foi o precursor de Colombo, pisando em terras americanas antes que as caravelas do navegador genovês fundeassem nas águas das Antilhas.  Para outros é o náufrago que ao Brasil aportou naqueles dias sombrios em que o Portugal deixou a terra de Santa-Cruz em pleno abandono.  Para Cândido Mendes não é outro senão o muito conhecido bacharel da Cananéia, que a história até hoje não pode conhecer definitivamente.  Uns dizem-no fidalgo da casa real, outros afirmam-no aventureiro e ignorante.  O que ele é, até hoje, nestes dias de pesquisas, é um ponto de interrogação.

O arraial de Santo André continua com a mesma sorte de seu fundador.  Ninguém sabe em que ponto do planalto paulista João Ramalho fundou o seu povoado.

Até hoje não se pode determinar o lugar preciso em que existiram os primeiros fundamentos do mais antigo dos núcleos populosos de S. Paulo.

João Ramalho e seu filho

[DETALHE]

Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)

óleo sobre tela

Museu Paulista, São Paulo, SP

Que ambos existiram – o arraial e o fundador – é que não há mais dúvida.  Para muitos o arraial de Santo André da Borda do Campo não era mais que uma furna de bandidos, um numeroso rancho de malfeitores, colocados no planalto paulista, logo após as muralhas da cordilheira do Mar, ali vivendo como salteadores terríveis, escravizando indígenas, de arcabuz e flechas impedindo que alguém transpusesse os sertões incultos.  João Ramalho não era mais que o maioral dessa quadrilha.

É possível, é mesmo quase certo, que a população que fervia nas ruas de Santo André não fosse a mais dócil e a mais proba daqueles tempos ásperos.

Não seria possível existir no coração da selva, numa quadra de aventura e de fome de riquezas, uma população de santos.  As surpresas da floresta desconhecida, as emboscadas dos índios indomáveis e principalmente o ambiente da época, haviam de tornar os homens afoitos e bravios.

Mas a verdade é que Santo André da Borda do Campo teve uma organização social e uma organização política.  Ninguém hoje pode duvidar disso, depois que o sr. Washington Luis fez publicar as velhas atas da municipalidade do remoto arraial de João Ramalho.

Em Santo André não mandava quem queria, nem João Ramalho era o poder autoritário e supremo.  Havia uma municipalidade, havia um poder legislativo, havia o que hoje chamamos prefeito e que, naquele tempo, era chamado juiz.

A lei tinha um rigor feroz; os assuntos públicos um tom de seriedade que hoje absolutamente não existe nas mais perfeitas sociedades organizadas.

Em Santo André da Borda do Campo os deveres de um vereador eram coisas rigorosamente sérias.  Basta citar este caso hoje surpreendente para nós: os vereadores sofriam multas quando não compareciam às sessões da Câmara.

A moradia em Santo André não era para qualquer pé rapado.  Ninguém punha a trouxa às costas e entrava sem mais aquela no arraial, para morar.  Devia pedir licença à Câmara e obtê-la.  Em 1556, consta de uma ata da vila, Manuel Ribeiro, que já possuía “casa, roças, vaca e mulher” no povoado, requeria aos vereadores que o “assentassem por morador”.

Se se não entrava sem licença, sem licença também não se saía.  Havia multas rigorosas para os transgressores.  De uma ata de 1555 consta que Francisco Alves requerera permissão para viver algum tempo no campo.

Entre nós, em pleno século XX, o pistolão destrói o rigor das multas impostas pelas municipalidades.

Em muitas localidades do interior os amigos do chefe político não pagam impostos e multas.

Ilustração de trabalho escravo feito por índios.

No arraial de João Ramalho o caso era seríssimo.  Uma multa imposta era uma multa paga.  Não havia empenho capaz de demovê-la. O almotacel João Pires Gago, por desleixo, não mandou limpar os monturos das ruas.  Multaram-no em quinhentos réis.  O pobre diabo fez tudo para livrar-se da pena.  Nada conseguiu.  E, como não tinha dinheiro para pagá-la, viu-se obrigado a fugir.

Diante das atas da municipalidade de Santo André da Borda do Campo o que mais espanta não é o rigor das leis: é o vulto, o extorsivo vulto das multas que se impõem ao povo.

É necessário que nos reportemos à época.

No período quinhentista o dinheiro não tinha o mesmo valor de hoje. Basta dizer que a descoberta da América não custou muito mais de sete contos de réis ao governo da Espanha.  Um cruzado era uma quantia fabulosa.

Cabral quando fez a viagem às Índias, da qual resultou a descoberta do Brasil, ganhava regiamente.  Vencia, pela viagem de ida e volta, a soma incrível de quatro contos de réis.  Cada um dos comandantes das naus recebia um conto e duzentos, ida e volta.  Os pilotos ganhavam duzentos mil réis pela viagem; os marinheiros quatro mil réis por mês; e os soldados dois mil réis apenas.

Fernão de Magalhães não descobriu para Portugal o estreito que tem o seu último nome, porque el-rei d. Manuel não lhe quis gratificar com seis escudos, cerca de nove mil e seiscentos réis na moeda atual.
Na época em que o povoado de João Ramalho floresceu, o governador geral do Brasil percebia dos cofres públicos o imenso ordenado de trinta e três mil trezentos e trinta e três réis mensais.  O bispo não recebia mais que a metade.  O oficial do governador geral só recebia quinhentos réis por mês e vivia como um príncipe.

Ruínas de Santo André da Borda do Campo, aquarela de Miguel Dutra.

Na própria vila de Santo André os ordenados eram apertadíssimos.  O prefeito ganhava oitocentos réis por ano (dois cruzados).  O porteiro da Câmara satisfazia-se com quatrocentos réis anuais.

Numa quadra em que os valores eram esses, as multas impostas pelas municipalidades deviam ser relativas aos valores.  Não o eram em Santo André.

As penas impostas pela Câmara são as mais díspares.  Um tostão, naquela época tomava o vulto de muito dinheiro. Era quanto pagava o vereador que não comparecia a uma sessão da Câmara.

Certamente não existiram no Brasil taxas mais pesadas que as da vila ramalhense.  Tem-se a impressão de que a municipalidade, não podendo arcar com os encargos normais por falta de numerário, quer arrancar, seja como for, o pelo do povo.

A vila de João Ramalho, ao fundo da floresta paulista, era pobre.  A municipalidade tinha que refletir a pobreza da vila.  O patrimônio municipal, em 1556, constava apenas de uma balança, de pau, um peso de ferro de quatro arráteis, dois taipais com seus aparelhos e um machado grande de carpinteiro.  Em 1557 era mais rica.

Tinha a mesma balança, os mesmos taipais, e tudo isso agora acrescido com três agulhas e uma medida de três alqueires e o fabuloso saldo de quatrocentos réis em dinheiro.

Desenho refletindo como seria uma aldeia por volta de 1560.

Apesar de pobre, a municipalidade andreense fazia empréstimos aos seus munícipes preeminentes.  Em 1556 emprestou a João Fernandes – o Gago – a quantia de quatrocentos réis.

Aquele machado de que se fala acima era a caução que João Fernandes deixou, ao receber o grande empréstimo.  No mesmo ano emprestou três cruzados a Paulo Proença.  No ano seguinte João Pires Gago, conseguia, com a caução de um arcabuz, o empréstimo de mil e duzentos réis.

Parece que esse estado de penúria explica de alguma maneira o exagero das multas impostas em Santo André.  Se se não extorquir o povo, os cofres municipais nunca terão dinheiro.

As penas são horríveis.  Na vila a criação de vacas e porcos, dia a dia aumenta.  Os bichos vivem a estragar as roças da redondeza.  A Câmara toma uma medida enérgica contra o abuso, em 1556.  Pelo animal que for recolhido ao curral do Conselho pagará o dono cem réis por cabeça.  Mais tarde o imposto é diminuído, aos reclamos do povo.  A vaca desce a cinqüenta réis e o porco a um vintém.

Os índios das florestas vizinhas fazem, de quando em quando, surpresas desagradáveis à vila, destruindo o que podem.  Todo o mundo é obrigado a recolher, à tardinha, o gado às fortificações. O criador desleixado pagará cem réis por animal.

Cem réis é uma das penas menores impostas em Santo André da Borda do Campo, no tempo em que o ordenado maior era o do prefeito (juiz) e não ia além de oitocentos réis anuais.

João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912

Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

Palácio de São Joaquim

Rio de Janeiro

As taxas são sempre de quinhentos réis para cima.  O morador que se retirava da vila, sem licença, pagava quinhentos réis ao voltar.  Quando pusesse raízes de mandioca a fermentar nas fontes públicas entrava com dez tostões para os cofres municipais.

Era uma multa horrível.  Talvez possa ser explicada pelas razões da saúde pública: a mandioca, antes de fermentada, é um veneno terrível.

Ao fiscal da Câmara, que deixava de cumprir o seu dever, obrigava-se a entregar ao município a soma de quinhentos réis.  Foi a pena imposta ao almotacel João Pires Gago, por não ter mandado “ha limpar monturos”, pena que, por pesada, o fez fugir da vila.

Santo André, plantada à porta do campo paulista, na virgindade inculta dos sertões americanos, vivia numa constante ameaça de ataques. A mata, em redor, era a hostilidade dos índios.  Não se podia deixar a vila desprevenida.  Mas acontecia que os lavradores seguiam todos para as roças, deixando nas casas apenas as crianças e os enfermos.  A Câmara tomou medidas contra a negligência.  Designou as turmas de lavradores a trabalhar e as turmas que ficariam guardando o povoado.  A transgressão custava cento e cinqüenta réis.

As noções de higiene moderna já eram conhecidas no agrupamento humano que João Ramalho fundou.

Hoje, depois de quatro séculos, a trinta minutos do Rio de Janeiro, os médicos da profilaxia rural não conseguiram ainda que a população dos subúrbios compreendesse a necessidade das sentinas.  Nem as fossas simples, cavadas no solo, quer o suburbano usar.
Em Santo André da Borda do Campo, em mil quinhentos e tantos, havia o abuso das fossas.

Há uma ata de 1557, em que os edis, reunidos, impõem a multa de dez tostões a quem fizer privadas dentro dos muros da vila.
No Brasil, em defeitos administrativos, não há nada de novo. O atraso dos governos para com o funcionalismo público, que muita gente supõe ser coisa moderna, é velhíssimo.

Já a municipalidade de Santo André vivia em atraso.  Conhece-se um requerimento do escrivão Gaspar Nogueira solicitando pagamento dos seus ordenados esquecidos.  Devia-lhe a Câmara mil, cento e sessenta réis, dos quais ele já havia recebido oitocentos.

Há quem afirme que o desfalque é, no Brasil, uma criação da República.  Tem quatro séculos. Nasceu com os nossos primeiros vagidos.

Em 1555, em Santo André da Borda do Campo, deu-se um desfalque.  De uma ata constam sérias medidas tomadas contra o procurador João Fernandes, que teve a clamorosa improbidade de não entrar para os cofres municipais com a soma de cinqüenta réis, de uma multa que cobrou.

Sempre a multa! A municipalidade de Santo André da Borda do Campo foi a mais extorsiva criadora de impostos que houve no Brasil.

*****

Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1956





Quadrinha da colheita de uvas

9 01 2012

A colheita da estação,
junto aos vastos parreirais,
traz a marca e o coração
dos mais nobres ancestrais.

(Amália Marie Gerda Bornhein)





O bailarico das Novais, poema de Luiz Peixoto

8 01 2012

Um sarau musical, 1874

Guglielmo Zocchi (Itália, século XIX)

óleo sobre tela

O bailarico das Novais

Luiz Peixoto

Um sarau

na rua Itapiru,

em casa das Novais.

O calor

está abrasador

e tem gente demais

mas, tome polca!

No sofá

a Dona Jacintinha

faz bolas de papel

e na janela

de papelotes,

a Berenice namorica o furriel.

A reclamar silêncio

surge o seu Fulgêncio,

um rotundo e bom comendador.

Sim, porque nessa altura

chega o padre-cura

com o corregedor.

— Senhorita,

a honra desta dança

acaso quer me dar?

— Cavalheiro,

a honra é toda minha,

porém, já tenho par…

e tome polca!

Dança o Souza,

que vai pisando em ovos

com as botas de verniz,

enquantoa esposa,

de olhos em alvo,

fica torcendo os cabelinhos do nariz.

Por trás de uma cortina

vê-se a Minervina

que é mais preta que um tição,

e diz entre risadas:

— Quebra Dona Alice!

— Quebra seu Beltrão!

— Atenção! — acordes da “Dalila”,

seu Gil vai recitar!

Fazem roda

e o moço encalistrado

começa a gaguejar…

Vem o chá

Biscoitos de polvilho

e outros triviais

— São onze horas, apague o gás!

E assim termina o bailarico das Novais.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968;  coleção Henriqueta.

Luiz Carlos Peixoto de Castro, ( Niterói, RJ 2/2/1889 – RJ, RJ 14/11/ 1973). Foi poeta, letrista, cenógrafo, teatrólogo, diretor de teatro, pintor, caricaturista e escultor.





Trova do besouro

6 01 2012

Ilustração Blanche Wright.

 

Não tenho medo de homem

Nem do ronco que ele tem;

O besouro também ronca,

Vai se ver não é ninguém

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)





O simbolismo dos três presentes — Malba Tahan

6 01 2012

Cartão de Natal, EUA, sem data.

O simbolismo dos três presentes

Eis como o escritor católico, Sr. Ângelo Antônio Dallegrave, descreve a cena memorável:

“Melchior, venerável por sua velhice, ofereceu o ouro, reconhecendo Jesus como seu único Soberano e Senhor; Gaspar que segundo a tradição era o mais jovem, apresentou ao Menino incenso, porque viu na criança o Verbo Eterno que se fez homem e habitou entre nós; Baltasar ofertou-lhe mirra, porque, reconhecendo no Divino Infante, o Eterno, sabia igualmente, que Jesus viera ao Mundo, se fizera homem, nosso irmão pela carne, menos no pecado, para por nós morrer.”

Em torno da figuras tradicionais dos Reis Magos e dos presentes por eles oferecidos ao Menino, tecem os escritores cristãos as mais incríveis fantasias.  Vamos transcrever pequeno trecho do historiador, Sr. Hermes Vieira:

“Representando a cultura máxima do tempo dos Reis Magos, ao presentearem Jesus, deram uma grande lição à Humanidade.  Baltasar, que era preto, e viera da África, ofereceu-lhe a mirra que simbolizava a Mortificação; Gaspar, que tinha os olhos longos e a barba fina como um cavalheiro da Arábia, doou-lhe o incenso, que significava a Oração; e Melchior, que era velho e já possuía uma longa barba cor de neve, deu-lhe o Ouro, traduzindo com este gesto o desprendimento das coisas da Terra.”

Outra referência ao simbolismo das três dádivas encontramos no livro  Os Quatro Evangelhos, do eminente pregador Padre Lincoln Ramos.  Eis o que nos ensina esse sacerdote:

“Entregaram os Magus a Jesus o que mais precioso haviam trazido de sua pátria sem se impressionarem com a pobreza do lugar e das pessoas.  Atribui-se belo simbolismo às três dádivas: pelo ouro homenagearam Jesus como Rei; pelo incenso e pela mirra, reconheceram-no como deus e como homem.  O incenso se oferece a Deus nos altares; com a  mirra — resina aromática — eram embalsamados os cadáveres e purificadas as mortalhas que os envolviam.”

Em: A Estrela dos Reis Magos, Malba Tahan, São Paulo, Saraiva: s/d





Véspera de Reis — texto escolar de Theobaldo Miranda Santos

5 01 2012

Bumba-meu-boi, 1969

Enrico Bianco (Itállia/Brasil, 1918)

óleo sobre cartão colado em madeira, 59 x 95 cm

Coleção Particular

Véspera de Reis

Theobaldo Miranda Santos

Chamam-se reisados as festas populares que se realizam na véspera de Reis.  Tiveram início na Bahia, passando-se, depois, para outros estados do Brasil, inclusive São Paulo.  Essas festividades tradicionais tomaram aspectos diferentes nas diversas regiões do nosso país.

Assim, em certos lugares, os reisados assumem a forma de ternos, isto é, de grupos de pessoas, fantasiadas de pastores, acompanhadas de tocadores de flautas, violões e pandeiros.  Depois de visitarem o presépio da igreja local, dirigem-se às casas previamente avisadas, que se conservam inteiramente fechadas. Chegando a essas casas, cantam:

Vinde abrir a vossa porta,

Se quereis ouvir cantar;

Acordai, se estais dormindo,

Que nó viemos festejar!

Os três reis de longes terras

Vieram ver o Messias,

Desejado há tanto tempo

De todas as profecias.

Abrem-se as portas e janelas.  O cortejo entre na casa e começa a adoração do Deus Menino no presépio armado na sala.  Cada pessoa prosta-se, reverente, diante do presépio e entoa uma quadrinha.

Em todos os lugares, o reisado tem a forma de rancho da burrinha ou de rancho do boi, também chamado bumba-meu-boi.  No rancho da burrinha, um dos membros do cortejo ata à cintura uma armação com cara de burro, simulando estar montado.

No bumba-meu-boi, mais usado entre os sertanejos paulistas, a figura central do cortejo é um boi, grosseiramente imitado, na pele do qual se oculta um rapaz, que executa uma dança característica. Em certas localidades de São Paulo, os reisados se compõem apenas de grupos de músicos e cantores que visitam as casas onde há presépios armados e onde são recebidos com doces e bebidas.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954





Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





A raposa e o timbu, fábula brasileira, texto de Luís Câmara Cascudo

3 01 2012

Ilustração de Pat Hutchins

A raposa e o timbu

A raposa convidou o timbu para visitarem um galinheiro bem provido. A raposa iria às galinhas e o timbu aos ovos e pintos.  Entraram por um buraco que mal permitia a passagem.  Começaram a fartar.  A raposa prudente, apenas satisfez o apetite.  O timbu, voraz, empanturrou-se, ficando com a barriga inchada.  De súbito ouviram os passos do dono da casa.  A raposa passou como um raio pelo buraco e sumiu-se no mato.  O timbu meteu-se a tentar mas ficou engalhado pelo meio do corpo, ganindo como um desesperado. O homem chegou, viu o estrago e disparou a espingarda no timbu, que morreu por ser guloso.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

Esse conto foi originalmente coletado pelo autor no Rio Grande do Norte.  É possível que leitores de outros pontos do Brasil não estejam familiarizados com o timbu.  A grande área geográfica brasileira permite que esse animal receba diferentes nomes, em outras regiões: sariguê, gambá, ticaca, mucura, cassaco, entre outros.





Azul, soneto de Orlando Martins Teixeira

2 01 2012

Chapéu Azul, 1922

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

óleo sobre tela, 92 x 75 cm

Azul

Orlando Martins Teixeira

Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,

Azuis o parassol e as luvas, senhorita,

Como um lótus azul por um deus animado,

Passa toda de azul, por mil bocas bendita.

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,

Misticismos de um mundo, há muito em vão sonhado,

Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,

Azul claro, azul suave, azul de céu lavado.

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,

Não sei quê de anormal, de fantasma ou de duende,

Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia…

Como num sonho azul, logo nos vem a ideia

Um pedaço de céu azul passeando a terra.

Em: 232 Poetas Paulistas, de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968

Orlando Martins Teixeira (SP, 1875- MG, 1902) nasceu em São João da Boa Vista, SP em 1875. Poeta, dramaturgo e jornalista. Trabalhou na Gazeta da Tarde.  Seus versos a Venus ficaram famosos quando declamados pelo ator português Dias Braga.  Faleceu em Sítio, MG, em 1902.





Natal, soneto de Gualter Cruz

23 12 2011

Adoração dos pastores, 1500-1510

[Também conhecida como Natividade de Allendale]

Giorgione (Itália, 1477-1510)

Óleo sobre madeira, 91 x 111cm

National Gallery of Art, Washington DC

Natal

Gualter Cruz

Na agitação das ruas da cidade,

De povo fervilhante, e forasteiros,

Ninguém notava os pobres caminheiros,

Dois santos na pureza e na bondade.

Castíssimos esposos, companheiros,

Irmãos na mais perfeita afinidade,

José buscava obter dos hoteleiros

Abrigo à esposa, santa de humildade.

As portas com estrondo se fechavam…

Enquanto a turba infecta gargalhava,

Outro local, nervosos, procuravam.

Para uma gruta, enfim, Deus os conduz…

Orando aos céus, Maria murmurava:

— Nasceu  meu filho, ó Deus!…  Nasceu Jesus!…

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)