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Ned Anshutz lendo, c. 1900
Thomas Pollock Anshutz ( EUA, 1851-1912)
óleo sobre tela, 96 x 68 cm
Museu do Brooklyn, Nova York
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“O verdadeiro objetivo dos livros é laçar a mente para fazê-la pensar por si própria”.
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Christopher Morley
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Ned Anshutz lendo, c. 1900
Thomas Pollock Anshutz ( EUA, 1851-1912)
óleo sobre tela, 96 x 68 cm
Museu do Brooklyn, Nova York
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Christopher Morley
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Mlle Guillaumin lendo, 1907
Armand Guillaumin (França 1841-1927)
óleo sobre tela
Coleção Particular
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Armand Guillaumin nasceu em Paris em 1841. Em 1856 começou seus estudos artísticos em Paris na École Municipale sob a orientação do escultor Caillouet. Tornou-se empregado na Estrada de Ferro de Paris em 1860, indo morar em Montmartre. Logo começou seus estudos na Académie Suisse, onde conheceu Pissarro e Cezanne. Em 1863 mostrou seu trabalho junto a Cezanne, Edouard Manet e Pissarro no Salon des Refusés. Só em 1868 conseguiu deixar o trabalho na ferro-carril e se concentrar exclusivamente na pintura. Em 1877 Pissarro o apresentou a Gauguin. Em 1871 viajou; primeiro por diversas partes da França, depois pela Holanda. Manteve-se fiel ao impressionismo. Faleceu em 1927 em Orly, na França.
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Mike Absalom (Grã Bretanha, 1940)
acrílica sobre tela, 80 x 80 cm
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J. Paul Getty
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Hotel ao lado da estrada de ferro, 1952
Edward Hopper (EUA, 1882-1967)
Óleo sobre tela, 79 x 101 cm
Coleção Particular
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Edward Hopper nasceu em Nyack no estado de Nova York em 1882. Mostrou talento artístico desde cedo no que foi incentivado pela família. Fez um curso de arte por correspondência antes de estudar no New York Institute of Art and Design, onde estudou por seis anos inclusive algum tempo com William Merrit Chase. Admitiu ter sido muito influenciado pelos mestres franceses: Édouard Manet e Edgar Degas. Começou a trabalhar em ilustração a partir de 1905, deixando este aspecto das artes gráficas nos anos 20. Só em 1923 teve obras aceitas para exposições de arte. Mas daí para frente, com alguns altos e baixos iniciais, sua carreira tomou fôlego fazendo com que ele se tornasse um dos mais importantes pintores do século XX, um verdadeiro retratista da alma americana. Faleceu em Nova York em 1967.
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Relatividade, 1953
M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)
Litografia
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Inicialmente pensei que a imagem mais apropriada para ilustrar o livro Serena de Ian McEwan fosse uma das paisagens de Estaque do pintor francês e fundador do cubismo, Georges Braque, tal como Viaduto de Estaque ilustrado abaixo. Nesta tela vemos uma paisagem com algumas casas rodeadas de vegetação e um viaduto romano ao fundo. Nós compreendemos a cena, e ainda a vemos mais completa, porque somos instruídos — através da criativa maneira de pintar desenvolvida pelos cubistas, inspirados por Cézanne — sobre as demais facetas da paisagem que revela diversos elementos vistos por diferentes ângulos, que não estariam dentro das nossas possibilidades entrever. Com o uso de múltiplas perspectivas Georges Braque neste caso permite que conheçamos “o outro lado da lua”, ou seja: os dois lados de um telhado que nossa visão não permitiria perceber, ou a fachada de uma casa, que ele levanta ligeiramente, por cima das casas na frente, para que vejamos a série de janelas paralelas corridas. Essa visão compreensiva, giroscópica, do tema, dos objetos ou pessoas retratadas, explorada pelos cubistas constitui em grande parte a maneira narrativa de Ian McEwan.–
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Viaduto de Estaque, 1908
Georges Braque (França, 1882-1963)
óleo sobre tela, 72 x 59 cm
Museu de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris
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Mas à medida que o texto avançou e certamente depois que cheguei ao fim do romance, a visão cubista, ainda que interessante, não me satisfez. Porque é um texto que se renova, que se reencontra e que recomeça. É um labirinto com alguns becos, algumas passagens em múltiplos níveis, com algumas realidades paralelas, como se estivéssemos num jogo digital e uma vez ou outra achássemos a porta que nos leva direto até o próximo nível, sem termos que lutar com o dragão ou algum inimigo inesperado. Esta é uma história que vai e volta e se aprofunda em diversos níveis sem que saibamos por que estamos sendo levados por aquele caminho e de repente, parecemos voltar ao ponto inicial como em um rondó musical ou em uma fita de Möebius. E foi pensando nela que acabei selecionando uma das muitas gravuras de M. C. Escher para dar o tom visual do que acontece com o leitor de Serena. Escolhi a gravura Relatividade, uma litografia cuja primeira tiragem foi feita em 1953, porque esse artista holandês é quem, nas artes plásticas, de meu conhecimento, melhor exemplifica a minha experiência ao terminar esse texto.
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É a habilidade narrativa de McEwan que permite que se chegue ao final da trama capaz de entender os diversos níveis em que ela se desenvolve. E ser surpreendido. Totalmente surpreendido. Este é um romance, um thriller, que aparenta tratar de espionagem na década de 60 do século passado. Espionagem envolvendo o fabuloso serviço inglês MI5 já bastante caracterizado na literatura, no cinema e em programas televisivos pela sua invencibilidade. Não há nenhum James Bond, mesmo em se tratando de Londres, cidade onde Serena, que acabou de terminar o curso superior numa excelente universidade inglesa, arranja seu primeiro emprego. A jovem é a nossa porta de entrada para esta aventura literária que insiste em parecer simples e direta. Até que, em certo momento, temos a sensação de que talvez não estejamos lendo coma atenção necessária. No meu caso foi lá pela página 140, quando parei e voltei ao início. Mas tive relatos de outros leitores, talvez mais sensíveis, mais perceptíveis, que o fizeram umas 50 páginas antes. De qualquer modo, o leitor sente que há algo no ar mas não sabe onde, nem o quê, nem o porquê. E assim se desenrola a narrativa.
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Ian McEwan
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Mais do que um thriller, Serena é um livro sobre ficção. Sobre diversos níveis de ficção. Sobre a ficção que encontramos no dia a dia, na fabricação de quem somos, no contar e recontar de nossos movimentos de nossas ações. Temos a ficção de espiões e a ficção de quem escreve ficção. Este é um romance baseado no ato de simular, na habilidade do fingimento. Ian McEwan explora aqui a tênua linha que define realidade. Este romance é uma ode à imaginação. À nossa habilidade, à capacidade humana de iludir e de aceitar ser iludida. A narrativa é um quebra-cabeça, um Cubo de Rubik com faces de espelhos, onde tudo se encaixa, a qualquer momento em qualquer hora, porque tudo, absolutamente tudo não passa de ficção. Uma narrativa brilhante.
Minha objeção está na personagem que achei o menos crível dos elementos. Mas como acreditar em um personagem que nos ajuda a construir o ficcional? Como julgar aquele que nos faz crer e que nos ajuda a descrer. Este é o impasse a que chegamos. E a mensagem é simples: não creia, não acredite. Tudo não passa de ficção. Nem mesmo eu, nem você que me lê, nem Serena.
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Lisa
Jackie Knott (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela
Coleção Particular, Texas
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Benjamin Franklin
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Maria Helena Sleutjes
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Borboletas, como explicar?
São insetos…
Nem pensar!
São pedaços coloridos
Que voam.
Isto sim!
São as almas das flores
Visitando os jardins.
Isto sim!
Borboletas, como explicar?
São Lepidópteras…
Nem pensar!
São reflexos de anjos
Que flutuam.
Isto sim!
Borboletas
São pequenas bailarinas
São crianças dançarinas
Pedaços de serpentinas
No canto do meu olhar.
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Walinska, 1941
Arshile Gorky (Armênia, 1904-1948)
óleo sobre tela
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Arshile Gorky nasceu em Khorgom, na Armênia em 1904. Seu pai emigrou para os Estados Unidos em 1910. Gorky sobreviveu, em 1915, ao Genocídio Armeno fugindo com a mãe e suas três irmãs para território russo. A mãe morreu de fome em 1919. Gorky finalmente emigrou para os EUA em 1920 aos 16 anos, onde se encontrou com o pai, mas nunca chegaram a ser próximos. Em 1922 iniciou seus estudos de pintura em Boston. Logo se informou a respeito dos pintores pós-impressionistas, sendo bastante influenciado, inicialmente por Paul Cézanne. Desenvolveu no entanto estilo próprio chegado à pintra automática dos surrealistas e forma um elo entre a arte do início do século na Europa e o expressionismo abstrato de pós-segunda-guerra, nos Estados Unidos. Suicidou-se em 1948.
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Sem título, s/d
Ned Bittinger (EUA, 1951)
óleo sobre tela
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Angela Carter
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Rua de Jerusalem, s/d
Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)
aquarela e lápis sobre cartão, 38 x 27 cm
Coleção Particular
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No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012). Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa. Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.
E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim. Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz. Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.
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Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito. Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel. Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente. E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior. Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir — é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo. É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e dá a sensação de estarmos vivos. VIVOS! Alertas! Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada é viciante, porque a adrenalina se faz presente e transforma a nossa percepção do mundo ao redor. Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a certeza de que preciso de pouco para viver bem. Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia. É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.
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Este é um romance leve, o retrato de uma paixão. Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo. No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat. Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas. Passamos simplesmente a acompanhar o caso amoroso. É aí que o ritmo da leitura se desacelera. Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece. Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável. Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.