Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)
óleo sobre tela, 63 x 79 cm
Guillermo Marti Ceballos (Espanha, 1958)
óleo sobre tela, 70 x 70 cm
Dizem que não há coincidências. Próximo ao Carnaval procurei por livros de autores de que gostei no passado. Queria ter certeza de que iria me divertir com a leitura. Lembrei-me de Claudia Piñeiro, cujo As viúvas das quintas-feiras havia me agradado imensamente. No entanto, o livro que achei em uma livraria virtual, Betibu, só chegaria às minhas mãos de 3 a 5 dias e eu queria algo para ontem. Entre vésperas de feriados, não dava para esperar. Passei na pequena livraria perto de casa, e logo na bancada, lá estava um volume da autora, à minha espera: Tua. Levei na hora e não me arrependi.
Se você vai passar um fim de semana em casa, uma tarde, se for um dia chuvoso, se precisa esperar por algumas horas na fila do DETRAN, do médico, do que seja, invista nessa pequena obra de suspense com humor. Desde as primeiras páginas não consegui colocar o livro de lado e foi devorado em meras quatro horas. Não tenho visão de super-herói, mas são só 140 páginas bem espaçadas. E a leitura foi dinâmica por conta da ansiedade de saber sua resolução.
Dizem em inglês “Hell hath no fury like a woman scorned” [A fúria do inferno não se compara à de uma mulher desprezada]. Claudia Piñeiro demonstra como esse fenômeno pode se manifestar. Trata-se de uma história de muitas traições entre os poucos personagens principais da trama: um casal, uma filha adolescente, a secretária dele e sua sobrinha. O ritmo é muito rápido, como se estivéssemos diante de um script, de um roteiro para a televisão ou cinema. Aliás Cláudia Piñeiro é roteirista para televisão e dramaturga, além de escritora de romances de suspense.
Mais cativante ainda, além da boa trama, é seguir a racionalização que cada personagem usa para justificar suas ações. As cenas em que Inês reflete sobre sua vida, e o que deve fazer para consertá-la, são de muito humor. Tenho certeza que em um momento ou outro, qualquer mulher se reconhecerá no absurdo retratado, e vai sorrir, por conhecimento de causa.
Claudia PiñeiroMeu único senão: gostaria de ter visto o desenvolvimento da história da adolescente melhor tecido com o resto da trama. Achei a história um pouco paralela, sem justificar completamente sua presença. Dizer mais, sobre um livro de suspense seria injusto, eu acabaria por me tornar indiscreta e revelar mais do que devo. Posso dizer no entanto que este é um livro divertido, cuja leitura nos faz virar páginas com ansiedade e que o esforço é bem recompensado no final.
Niels Frederik Schiottz Jensen,(Dinamarca 1855 –1941)
óleo sobre tela
Italo Calvino
[The screaming is all there]
Kai McCall (Canadá, 1968)
óleo sobre tela, 81 x 53 cm
Todo mundo já sabe que ler faz bem ao cérebro, aumenta a conectividade entre partes da nossa massa cinzenta, como comprovado por um estudo feito em 2013 na Emory University nos EUA.
Mas ler ficção é ainda mais interessante.
Você gosta de ler ficção? Mistérios, Romances, Espionagem, Ficção Científica, Ficção Histórica, Memórias? Pois saiba que as pessoas que gostam de ler ficção, em geral, têm maior empatia por outros seres humanos. Consequentemente leitores de ficção são bons amigos, capazes de se sensibilizar com as emoções dos outros. Na instituição New School for Social Research, os psicólogos David Comer Kidd e Emanuele Castano aprofundaram o estudo sobre leitura, contrastando a ficção literária com a ficção comercial mais estereotipada. Concluíram que a ficção literária ainda é melhor para o nosso entendimento do mundo, da sociedade que nos circunda, por apresentar uma realidade com personagens mais complexos que melhor refletem a vida real.
Ler, na verdade, ativa o nosso cérebro de tal maneira que ele imita as ações que lemos, passando para o leitor um pouco das emoções vividas pelos personagens fictícios.
[A título de curiosidade: recentemente senti meu coração bater mais rápido do que o normal, ao ler uma cena aterrorizante, de um inimigo batendo na porta de um apartamento onde se escondia um personagem, herói, na trilogia 1Q84, de Haruki Murakami.]
Tudo indica que quanto mais complexos os personagens, quanto mais ambíguos, quanto menos estereotipados, maior é o leque de emoções que permite o leitor de ter empatia pelo próximo e melhor compreensão do mundo à sua volta. No fundo, você se torna uma pessoa melhor.
Vamos ler…
Fonte: Mic
Paul Kelley (Canadá, 1955)
óleo sobre madeira, 45 x 65 cm
Alex Cree (Inglaterra, contemporâneo)
Os ingleses são mestres de listas. Já expliquei anteriormente que gosto de listas porque ela me fazem pensar sobre assuntos que passariam em branco… Os melhores livros do século XXI já foram causa de postagem aqui em abril do ano passado quando o jornal inglês The Guardian fez a pergunta a seus leitores: “daqui a cem anos que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?” — Se interessado, aqui está a minha resposta.
Desta vez, falo da lista feita pela BBC sobre os melhores livros do século até o momento e pergunto: você já leu algum deles?
1 – A fantástica vida breve de Oscar Wao — de Junot Diaz, publicado no Brasil pela Record.
2 – O mundo conhecido — de Edward P. Jones, publicado no Brasil pela José Olympio
3 – Wolf Hall — de Hilary Mantel, publicado no Brasil pela Record.
4 – Gilead — de Marilynne Robinson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira.
5 – As Correções — de Jonathan Frazen, publicado no Brasil pela Cia das Letras
6 – As incríveis aventuras de Kavalier e Clay — de Michael Chabon, publicado no Brasil pela Record
7 – A visita cruel do tempo — de Jennifer Egan, publicado no Brasil pela Intrínseca
8 – Billy Lean’s Long Hallftime Walk — de Ben Fountain, sem publicação no Brasil
9 – Reparação — de Ian McEwan — publicado no Brasil pela Cia das Letras
10 – Meio Sol Amarelo — de Chimamanda Ngozi Adichie, publicado no Brasil pela Cia das Letras
11 – Dentes Brancos — Zadie Smith, publicado no Brasil pela Cia das Letras
12 – Middlesex — de Jeffrey Eugenides, publicado no Brasil pela Cia das Letras
De posse desta lista vou passar o Carnaval no ar condicionado, lendo. Na mesinha de cabeceira estão: Middlesex — versão em inglês comprado no seu lançamento (2003) e ainda não lido, mas outros membros da casa leram e gostaram. Dentes Brancos, versão em português também não lido apesar de comprado quando publicado no Brasil, por recomendação do marido. Wolf Hall que está na mesma situação. MAS, há algo a meu favor: conheço boa parte dos autores por outras publicações… Por que ainda não li estes livros? Prestem atenção ao número de páginas…. Tem que ser muito bom para que valha toda a dedicação. Há alguns autores que têm crédito comigo: Hilary Mantel é uma autora cujas obras conheço desde os tempos em que morei fora do Brasil. Já li muitos de seus romances… Já ouvi ótimas opiniões sobre Meio Sol Amarelo, mas acabo de ler Americanah da mesma autora e vou dar um tempo. Ian McEwan também é velho conhecido e Reparação já vi duas vezes no cinema. Preciso espaçar o envolvimento com o tema, apesar de gostar bastante de sua prosa.
Mas saio deste Carnaval certamente enriquecida por alguma excelente leitura.
Eugênio Latour (Brasil, 1874-1942)
óleo sobre tela, 67 x 33 cm
Museu Antônio Parreiras