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F. V. Sychkov (Rússia, 1870-1958)
óleo sobre tela
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“Você lê a vida inteira para saber que livros reler na velhice.”
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Autran Dourado
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F. V. Sychkov (Rússia, 1870-1958)
óleo sobre tela
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Autran Dourado
Cláudio Dantas (Brasil, 1959)
óleo sobre tela
Há três semanas, passando por uma rua residencial, ouvi alguém ensaiando os acordes de Le Lac de Côme, no piano. E uma onda de memórias, muito antigas, de antes dos meus seis anos, borbulharam, trazendo com elas emoções há muito enterradas. Os arpejos desse noturno estão entre as minhas primeiras memórias musicais.
Sempre tivemos piano em casa, herdado de minha avó paterna. Por muito tempo ninguém tocava. Eu era muito pequena para aprender. Minha mãe havia estudado, mas não tinha jeito para a música. Só duas pessoas tocavam lá em casa: meu avô, que violonista e seresteiro na época de jovem boêmio, arriscava uma ou outra pequena melodia, e minha tia Yedda, que estudara piano quando adolescente, e tocava todo fim de semana quando nos visitava. Titia não dominava o instrumento. Sabia algumas músicas de cor. Depois do lanche sábados à tarde, quando ainda noivava meu futuro tio, minha tia se sentava ao piano e por um tempo dedicava-se a tocar o que sabia de memória. Danúbio azul, Pour Elise faziam parte de seu repertório, mas eu não gostava destas tanto quanto de Le Lac de Côme. Sua melodia é muito bonita, mas o que me fascinava era ver os acordes serem tocados em arpejo, com as mãos fazendo uma onda, o polegar tocando primeiro e o mindinho um segundo mais tarde… Aquele movimento, ondulante, me fascinava. E assim que meus pais conseguiram me colocar estudando piano, meu único objetivo era aprender a tocar aquela música. Nunca cheguei a contar para tia Yedda a influência que ela havia tido no meu aprendizado de música. Mas não importa, porque quando morreu, muitos anos depois ela já sabia que havia tido um grande impacto em minha vida, dessa vez, através das quartas-feiras de matinês no cinema do bairro.
Uma melodia é como perfume, intangível, mas cria raízes profundas na nossa memória.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014
Rosângela Marassi (Brasil, contemporânea)
Óleo sobre tela
Não me venha falar de tristeza
quando fala do sertão do Cariri.
Se você diz que a paisagem é cinza
é porque não conhece o sertão
patriótico na paisagem:
alegre, em flor, verde e amarelo.
É porque nunca viu o sertão de setembro;
o sertão dos ipês de puro ouro
salpicando felicidade na estação que se inicia.
Esses ipês renovam as esperanças no futuro
e alimentam a chama do amor à terra.
Quando vir as cores do sertão florado
Entenderá porque a bandeira do país
tremula no horizonte, lembrando o Cariri.
© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014
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Eduardo Feitosa (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 60 x 80cm
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Gari Melchers (EUA, 1860-1932)
óleo sobre tela, 82 x 60 cm
Minneapolis Institute of Arts
“Reunira-se na casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento.
A moça não aceitou a idéia de dar um baile por esse motivo; mas entendeu que devia cercar o ato da solenidade precisa, para tornar bem notória a espontaneidade de sua escolha e o prazer que sentia com esse enlace.
Não faltaram amigos e conhecidos, que sugerissem a Aurélia a lembrança de fazer o casamento à moda européia, com o romantismo da viagem logo depois da cerimônia, a lua-de-mel campestre, e o baile de estrondo na volta à Corte.
Ela, porém, recusou todos esses alvitres; resolveu casar-se ao costume da terra, à noite, em oratório particular, na presença de algumas senhoras e cavalheiros, que lhe fariam, a ela órfã e só no mundo, as vezes da família que não tinha.
Celebrara-se a cerimônia às oito horas. Lemos conseguira um barão para servir de contrapeso ao Ribeiro e um monsenhor para oficiar.
Quanto à madrinha, Aurélia escolhera D. Margarida Ferreira, respeitável senhora, que lhe mostraradesinteressada amizade, desde a primeira vez que a encontrou na sociedade.
No momento de ajoelhar aos pés do celebrante, e de pronunciar o voto perpétuo que a ligava ao destino do homem por ela escolhido, Aurélia com o decoro que revestia seus menores gestos e movimentos, curvara a fronte, envolvendo-se pudicamente nas sombras diáfanas dos cândidos véus de noiva.
Mau grado seu, porém, o contentamento que lhe enchia o coração e estava a borbotar nos olhos cintilantes e nos lábios aljofrados de sorriso, erigia-lhe aquela fronte gentil, cingida nesse instante por uma auréola de júbilo.
No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue a realidade de um desejo férvido e longamente ansiado.
Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante, e compreendiam que o amor tinha colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já tão feiticeira beleza, envolvendo-a de irresistível fascinação.
– Como ela é feliz! diziam os homens.
– E tem razão! acrescentaram as senhoras volvendo os olhos ao noivo.
Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso da felicidade. O orgulho de ser o escolhido daquela encantadora mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil. Efetivamente, no marido de Aurélia podia-se apreciar essa fina flor da suprema distinção, que não se anda assoalhando nos gestos pretensiosos e nos ademanes artísticos; mas reverte do íntimo com uma fragrância que a modéstia busca recatar, e não obstante exala-se dos seios d’alma.
Depois da cerimônia começaram os parabéns que é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes. Só então reparou-se na presença de uma senhora de idade, que ali estava desde o princípio da noite.
Era D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato.
Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas, no intervalo das quais um insigne pianista, que fora mestre de Aurélia, executava os melhores trechos de óperas então em voga.
Por volta das dez horas despediram-se as famílias convidadas.”
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Em: Senhora, José de Alencar, originalmente publicado em Capítulo XII, páginas 35-36, versão PDF, Biblioteca Nacional. Em domínio público.