Uma visita à galeria do Sr. Walter em Bel-Ami de Guy de Maupassant

9 08 2010

 

Conde Ludovico Lepic e senhoras vendo uma exposição, s/d

Julius LeBlanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 39 x 28 cm

Coleção Particular

Há uma passagem no romance de Guy de Maupassant, Bel-Ami, que se tornou extremamente  sedutora para mim.  Ela conta da visita que o personagem principal, Duroy, faz a um conhecido, e do prazer e orgulho que o dono da casa tem em mostrar a Duroy sua coleção de quadros.   Li e reli o trecho, várias vezes.  Os pintores são todos conhecidos, ativos em Paris no final do século XIX.   Só os quadros mencionados, esses sim, parecem ser produtos da imaginação de Guy de Maupassant.  No entanto, o escritor mostra grande familiaridade com o mundo artístico da época:  todos os títulos e  descrições das cenas representadas na coleção do Senhor Walter, que visitamos juntamente com Duroy, se encaixam perfeitamente com os temas e os  títulos e, digamos assim, preocupações estéticas de cada pintor mencionado.  A minha curiosidade venceu e contra qualquer aspiração que eu poderia ter de mostrar bom senso resolvi a todo custo achar representações de quadros equivalentes aos da suposta coleção de arte do Sr. Walter.  Como não poderia deixar de ser, não há caçada que se preze sem mostra das presas, assim, coloco aqui não só a passagem do livro mas sobretudo as telas que encontrei que seriam equivalentes — na maneira do possível — as que formariam o acervo do colecionador retratado por Maupassant. 

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Duroy havia levantado os olhos para as paredes, à falta de outra ocupação, e o Senhor Walter lhe gritou de longe, num visível desejo de fazer valer seus objetos: — Está olhando meus quadros? — O meus destacou-se. — Vou mostrá-los. — E apanhou um candelabro para que ficassem visíveis todos os detalhes.

— Aqui, as paisagens — disse ele.

No centro da parede, via-se uma grande tela de Guillemet, uma praia na Normandia, sob um céu de borrasca.  Por baixo, um bosque, de Harpignies, depois uma planície da Argélia por Guillemet, com um camelo no horizonte, um grande camelo de pernas longas, semelhante a um estranho monumento.

Paisagem costeira com figuras, s/d

Jean Baptiste Antoine Guillemet (França, 1843-1918)

óleo sobre tela

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Paisagem, s/d

Henri-Joseph Harpignies ( França, 1819-1916)

Óleo sobre tela

Walter passou à parede seguinte e anunciou com um tom sério, de mestre-de-cerimônias:  — A grande pintura. — Eram quatro telas:  Uma visita ao hospital, de Gervex.  A ceifeira, por Bastien-Lepage; Uma viúva, por Bouguereau, e Execução, por Jean-Paul Laurens.  Esta última obra representava um padre sendo fuzilado na parede de sua igreja, por um destacamento de azuis.

A colheita, 1880

Bastien Lepage (França, 1848-1884)

Óleo sobre tela

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O dia dos mortos, 1859

William Adolphe Bouguereau ( França, 1825-1905)

Óleo sobre tela

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A execução do Duque d’Enghien, s/d

Jean-Paul Laurens (França, 1838-1921)

Um sorriso passou pela figura grave de Walter ao indicar a parede seguinte: — Aqui os fantasistas, — Via-se em primeiro lugar uma pequena tela de Jean Béraud, intitulada O alto e o baixo.  Era uma parisiense bonita subindo a escada dum bonde em marcha.  Sua cabeça parecia no nível do tejadilho, e os senhores sentados nos bancos descobriam, com satisfação ávida, o rosto jovem que vinha ao encontro deles, enquanto os homens, de pé na plataforma de baixo, olhavam as pernas da moça, com expressões diferentes de despeito e desejo.

Jovem mulher atravessando a rua, s/d

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre tela

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Walter segurava a lâmpada no alto e repetia rindo, com um trejeito maroto: — Hein?  não é engraçado?  não é engraçãdo?

Depois iluminou um Salvamento de Lambert.

No meio de uma mesa vazia, um gatinho sentado sobre o traseiro, examinava com espanto e perplexidade uma mosca afogando-se num copo d’água.  Tinha uma pata levantada, pronta a apanhar o inseto com um golpe rápido.  Mas não estava completamente decidido.  Hesitava.  Que Faria?

Depois do jantar, s/d

Louis Eugène Lambert ( França, 1825-1900)

óleo sobre tela

O patrão mostrou depois um Detaille: A lição, que representava um soldado na caserna, ensinando a um cãozinho a tocar tambor, e declarou: — Aqui há espírito!

Duroy ria com um riso aprovador e extasiava-se: — Como é encantador, como é encantador, encan… — Parou bruscamente, ao ouvir, por trás dele, a voz da Senhora de Marelle, que acabava de entrar.

1806: Ponto avançado da cavalaria,  sem data

Jean-Baptiste Edouard Detaille ( França 1848-1912)

óleo sobre tela.

O diretor continuava a iluminar as telas e explicá-las. 

Mostrava agora uma aquarela de Maurice Leloir: O obstáculo.  Era uma cadeirinha parada, por se achar a rua obstruída por uma luta entre dois homens do povo, dois valentões, brigando como Hércules.  E pela janela da cadeirinha, via-se um lindo rosto de mulher que olhava… que olhava… sem impaciência, sem medo, e com certa admiração, o combate dos dois brutos.

A última visita de Voltaire a Paris, s/d

Maurice Leloir ( França, 1853-1940)

Walter continuava dizendo sempre: — tenho outros nas outras peças seguintes, mas são de gente menos conhecida, menos classificada.  Aqui é o meu salão.  Compro dos jovens do momento, dos mais jovens, e ponho-os de reserva nos quartos mais internos, esperando os autores tornarem-se célebres.  — Depois disse, muito baixo: — É a hora de comprar quadros.  Os pintores morrem de fome.  Não têm dinheiro, não têm dinheiro…

Em: Bel-Ami, Guy de Maupassant, São Paulo, Editora Abril:1981, tradução de Clóvis Ramalhete, pp: 111-113





Comemorando o Dia dos Pais com um desenho do Pica-pau

8 08 2010





Bloco de gelo gigante se solta na Groenlândia

7 08 2010

Um bloco gigante de gelo medindo 260 km² se soltou de uma geleira na Groenlândia, segundo disseram nesta sexta-feira cientistas da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos. O bloco se separou da geleira Petermann, na costa noroeste da Groenlândia, a cerca de 1.000 km ao sul do Pólo Norte.  Um pesquisado do Serviço Canadense de Gelo detectou a separação do gelo a partir de imagens do satélite da Nasa tomadas na quinta-feira passada, dia 5 de agosto.  Essas imagens mostraram que a geleira de Petermann perdeu cerca de um quarto ao longo dos seus 70 km de plataforma de gelo flutuante.

Esse iceberg é quatro vezes maior do que a ilha de Manhattan, em Nova York, ou em termos de Brasil, o equivalente ao município de Florianópolis.  E ele tem a altura  correspondente a metade da altura do edifício Empire State, em Nova York, ou para nós, a altura do Morro da Urca, vizinho de Pão de Açucar no Rio de Janeiro.  Este é o maior iceberg a se formar no Ártico desde 1962, segundo o professor Andréas Muenchow da Universidade de Delaware.

O gelo poderá agora ficar congelado onde está durante o inverno ou seguir pelas águas entre a Groenlândia e o Canadá. Se o iceberg seguir rumo ao sul, poderá interferir em rotas de navegação, segundo Muenchow.

Alguns cientistas já haviam observado rachaduras na geleira de Petermann no ano passado e esperavam que um bloco se soltasse em breve, formando um iceberg. Segundo o professor, um pesquisador do Serviço de Gelo Canadense detectou o bloco se soltando na quinta-feira a partir de imagens de um satélite da Nasa, a agência espacial americana. As imagens mostravam que a geleira perdeu cerca de um quarto de seus 70 km.

Há água fresca suficiente no iceberg para “manter todas as torneiras públicas dos Estados Unidos com água corrente durante 120 dias”, disse Muenchow, que acredita estar claro que o evento foi causado pelo aquecimento global.

Os primeiros seis meses de 2010 foram os mais quentes no planeta desde que começaram os registros das temperaturas, em 1850. Milhares de icebergs se formam na Groenlândia todos os anos, mas eles raramente são tão grandes.

Fonte: Terra





A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
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A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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Imagem de leitura — Julius LeBlanc Stewart

5 08 2010

Lendo em voz alta, 1883

Julius Leblanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 97 x 118 cm

Julius LeBlanc Stewart ( Filadélfia 1855- Paris 1919).  “O Pintor da Belle-Époque” — Pintor americano que passou a maior parte de sua vida profissional na França.   Filho de um milionário do açúcar, Le Blanc Stweart pintou a vida de luxo de sua família e seus amigos.  Seu pai tornou-se um grande colecionador de arte o que contribuiu para a melhor educação artística de Julius.  Especializou-se em grandes grupos, onde frequentemente se colocava no meio, com um auto-retrato.  Seu talento foi bastante reconhecido e seus trabalhos expostos regularmente no Salão de Paris desde 1878 até o início do século XX.  Ajudou também a divulgar a arte americana em Paris  no Salão de 1894.  Suas pinturas são tão ricas quanto o ambiente que representam.





Bracelete encontrado em Israel de 1500 aC

5 08 2010

O governo de Israel divulgou no início desta semana uma imagem de um bracelete de bronze descoberto em Ramat Razimum, sítio arqueológico próximo a Safed, ao norte do país.  Os cientistas acreditam que o objeto foi criado entre 1.550 a.C. e 1.200 a.C., durante a Idade do Bronze.  Isso quer dizer tem mais de 3.500 anos de idade!

Os arqueólogos dizem que o bracelete está em perfeito estado de conservação e tem adornos de chifres de animais , material usado principalmente com referência ao poder, à fertilidade e à lei, o que indica que pode ter pertencido a uma pessoa de alto nível financeiro, de grande poder, na sociedade local da época.

Essas escavações foram realizadas como prelimiar para o desenvolvimento da região: novos bairros, áreas comerciais e uma escola de medicina estão destinados a serem construídos nesse local. 

Karen Covello-Paran, diretora da escavação, descreveu assim a descoberta:  “Nós descobrimos uma pulseira larga, rara,  feita de bronze.  Essa pulseira antiga, que está extraordinariamente bem conservada, é decorada com incisões e bem em cima é adornada com applique de chifres.  Naquele tempo, os chifres eram o símbolo do deus da tempestade. Esse deus representava o poder, a fertilidade e a lei. A pessoa que poderia ter recursos para uma pulseira como essa,  aparentemente  estava muito bem financeiramente, e provavelmente pertencia ao governante aldeia . É interessante notar que outras descobertas feitas em  territórios vizinhos, governantes eram retratados usando coroas com chifres.  No entanto, os chifres usados em uma pulseira, nunca foram encontrados aqui antes”.

A pulseira foi encontrada dentro de uma casa numa  propriedade que data do período cananeu (Idade do Bronze tardia).  Estava  exposta, a flor da terrana durante a escavação, e fazia parte de um antigo povoado que existia na encosta sudeste de Ramat Razim,  numa área rochosa com vista para Mar da Galiléia e para as Colinas de Golã.  A construção foi feita com pedras calcária naturais da região e incluia um pátio central pavimentado cercado por salas que foram habitados e usados como armazéns.  Junto com a pulseira, foi enconttrado  um escaravelho cananeu feito de pedra e gravado com hieróglifos egípcios.  Na antiguidade escaravelhos eram usados como pingentes ou eram embutidos em anéis.  Eram usados como um selo pelas pessoas que os portavam ou como um talismã com poderes mágicos.  Com esses achados aprendemos que os moradores que habitavam esse local estavam também envolvidos no comércio.

Segundo a arqueóloga Covello-Paran, “Esta é a primeira vez que uma aldeia de 3.500 anos foi escavada e exposta no norte de Israel.  Até agora, só as grandes cidades foram escavadas na região: Tel Megiddo ou  Tel Hazo, é um exemplo.   Aqui nós ganhamos um primeiro vislumbre da vida no interior rural do norte, na antiguidade,  e descobrimos que era mais complexo do que pensávamos.  Parece que a pequena aldeia  Ramat Razim constituía uma parte da periferia de Tel Hazor, a maior cidade e mais a de maior importância na região do Canaã, até agora.  E está localizada a cerca de 10 km ao norte da localidade de Ramat Razim “.

Os antigos habitantes de Ramat Razim criavam gado ovino e caprino, e plantavam”, continuou ela, “numerosas mós,  usadas para moer a farinha, foram encontradas no prédio.  Além disso, também encontramos recipientes para armazenamento de grande porte, usados para armazenar grãos e líquidos, que estavam no chão, com mais de um metro de altura.   Um antigo forno para cozinhar foi encontrado em um dos cômodos da parte residencial ao lado de panelas de cerâmica e alguns instrumentos, incluindo lâminas de sílex, uma agulha de comprimento (15 centímetros) intacta que sercia para costurar sacos ou no tratamento de peles, e um pino longo,  decorado,  usado para fechar, ou prender, a roupa“.

A Autoridade de Antiguidades de Israel está trabalhando para integrar o sítio nos planos de desenvolvimento para a região de  Ramat Razim, juntamente com o instituto de pesquisa e escola de medicina.  A intenção é fazer um espaço aberto para os visitantes, juntamente com os outros atrativos naturais da região.

Fonte:  Artdaily





Quadrinha infantil para o Dia dos Pais

4 08 2010

Pai – nome bem pequenino

Que encerra tanto valor:

Traduz confiança, carinho,

 Força, bondade e amor.

(Walter Nieble de Freitas)





Imagem de leitura — Marie Louise Cathérine Breslau

4 08 2010

Meninas lendo, 1897

Marie Louise Cathérine Breslau ( Alemanha, 1856-1927)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

Marie Louise Cathérine Breslau, nasceu em Munique, na Alemanha, em dezembro de 1856filha de uma família abastada, seu pai era médico.  Sofrendo de asma, dedicou-se ao desenho desde criança como uma alternativa para passar o tempo.  A família mudou-se para Zurique e mais tarde para Paris.  Foi lá que Marie Louise viveu e trabalhou. Estudou na Academia Julian em Paris.  Em 1901 recebeu a medalha da Região de Honra da França.  Depois de uma exposição de seus trabalhos em 1904, na Galeria Petit atraiu a atenção do público para o  seu trabalho.  Teve uma fama instantânea, mas fugaz.  Faleceu em 1927.





Descobrindo a esposa através dos livros — um trecho de Os Diários de Pedra, de Carol Shields

3 08 2010

Homem lendo, 1881

Vincent van Gogh ( Holanda 1853-1890)

técnica mista: aquarela e carvão

Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

Uma passagem das mais interessantes do livro Os diários de pedra de Carol Shields, cuja resenha publiquei recentemente aqui mesmo no blog, mostra a descoberta que um homem faz da mulher que o abandonou, subitamente, sem nada dizer.  A cena se passa no Canadá nos anos 20 do século XX.  É simultaneamente delicada, enternecedora, engraçada.  E fala da solidão, da inabilidade de se demonstrar o amor.  Realmente fascinante.

***

Fazia um ano que ela tinha ido embora quando ele resolveu fazer uma faxina na sala – tapete, cadeiras, tirar o pó e botar tudo para arejar, e no fundo da caixa de costura dela ele encontrou quatro livros pequenos.  Livros românticos, ele achava que se chamava esse tipo, livros femininos, com capa de papel macio.  Nove centavos cada um, o preço estava carimbado nas costas: Livraria dos Nove Centavos.  Não sabia ao certo como ela arranjara aqueles livros, mas imaginava que os tinha comprado do caixeiro-viajante judeu, comprado e lido em segredo, como se ele algum dia fosse negar-lhe esse prazer tão insignificante.

Ele mesmo começou a ler aqueles livros nas noites de inverno.  Era melhor do que ficar olhando o relógio, ouvindo o seu tique-taque, ou escutando o gelo caindo dos ramos sobre o telhado.  A essa altura ele tinha instalado um pequeno e potente aquecedor a lenha na sala, para esquentar o ambiente, coisa que a esposa vivia pedindo.  Lia, devagar, pois, verdade seja dita, ele nunca em sua vida tinha lido um livro inteiro, da capa à contracapa.  Achava agradável pensar que conseguia decifrar a maioria das palavras, virando as páginas uma por uma, prestando atenção: Lutar por um coração, de Laura Jean Libby, O que o ouro não compra, por uma tal de Sra. Alexander, À mercê do mundo, por Florence Warden e Jane Eyre, de Charlotte Brontë.  Esse último era o seu predileto; havia episódios na história que lhe traziam à garganta uma sensação doce e dolorosa, e nesses momentos ele sentia a esposa perto, separada por algumas batidas do coração, tão perto que ele quase podia estender a mão e acariciar a carne do interior de suas coxas.  Ficava pasmo com a quantidade de pessoas que recheavam aqueles livros.  Cada um era um mundinho, povoado e mobiliado.  E como falava aquela gente dos livros!  Falar, falar, viviam pela língua.  Muito do que diziam era tolice, mas também razoável.  Falar afastava a raiva.  As palavras eram trocadas como se troca dinheiro por mercadoria.  Algumas das frases pareciam poemas, nada do jeito como as pessoas falam na realidade, mas mesmo assim ele as pronunciava em voz alta e as decorava, de modo que, se por algum acaso a esposa resolvesse voltar para casa e retomar o seu lugar, ele estaria pronto.  Se essa bobagem de falar difícil era a maior necessidade dela, ele estaria preparado para satisfazê-la – um vulcão de palavras cheias de doçura e sentimento.  Ó lindos olhos, Ó rosto precioso, Ó pele mais bela.  Ou frases que falavam de coração transbordante, desejo crescendo no peito, súbitas centelhas de um corpo acolhendo outro, ou mesmo a simples declaração de amor: Eu te amo, sussurrou ao ouvido expectante dela.  Adoro-te por inteiro.

Ou, se essas declarações lhe fossem demasiado difíceis, como suspeitava que seriam, iria simplesmente olhá-la nos olhos e pronunciar o nome dela: Clarentine.  Falando a princípio com delicadeza, como se faz para acalmar uma criança arisca, forçando a voz a permanecer suave, falando diretamente para aquele rosto que pertencia para sempre ao Clube Feminino de Ritmo e Movimento mas não a ele, aquele rosto querido e imóvel.  Clarentine.  Clarentine.

Em:  Os diários de pedra, Carol Shields,  tradução de Eliana Sabino, Rio de Janeiro, Editora Record: 1996, páginas 111 e 112.

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NOTA:  Todas as autoras mencionadas nesse texto existiram de verdade.





Um livro de ORIGAMI! Você já leu algum?

3 08 2010