
Quando a folha seca e muda
segue no seu abandono,
ela abraça o vento e ajuda,
com arte, a pintar o outono.
(Lúcia Sertã)

Quando a folha seca e muda
segue no seu abandono,
ela abraça o vento e ajuda,
com arte, a pintar o outono.
(Lúcia Sertã)
Ilustração de Willy Aractingi (1930-)
Olavo Bilac
Um camundongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leão.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.
Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…
Com todo seu vigor as cordas não partiu.
Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou: viu a aflição do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…
Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,
Pode sempre trazer em paga outro favor.
E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,
Deve os fracos tratar com caridade e amor.
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 132-3
O espelho de tartaruga, 1903
George Henry (Escócia, 1858 – 1943)
óleo
The Paisley Art Institute, Paisley, Escócia
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Em: Antologia Poética, Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

Anastácio Luiz de Bonsucesso
O dia era fulgente, o sol brilhava,
Em vívido esplendor;
De repente mil nuvens se aglomeram,
O sol perde o fulgor.
E as nuvens encobrem
Do sol os lindos raios,
As terras se cobrem
De turvos desmaios;
Ninguém se conduz
Nas trevas sem luz.
Do sol de seu posto
Tais coisas bem via;
Das nuvens no rosto
Com força batia;
A tanto calor
Desfez-se o vapor.
Perdidas nos ares
As nuvens passaram,
Das zonas polares
Que rumo levaram?
Não viram o sol
O novo arrebol.
MORALIDADE
Luz um talento, os tolos anuviam
Os fogos da razão;
A luta é transitória — os zoilos morrem.
O gênio brilha então.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158
Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.
Obras:
Fábulas, 1854
Maroquinhas do Apito, comédia em versos
Versos de Cisnato Lúzio
Quatro Vultos, 1867,
A casa amarela, 1888
Vincent Van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)
óleo sobre tela
Museu de Van Gogh, Amsterdã
Hélio Pellegrino
Por debaixo de tudo:
diques, dunas, frontões;
Por debaixo de tudo:
nobres pedras, canais
onde remam cisnes;
Por debaixo do mundo
lavra um incêndio.
Amsterdã, 1º/1/1981
Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993, p.39
Ilustração de Richard Sargent (1911-1978)
Sábio nenhum há completo
Neste mundo, assim entendo:
Por mais que seja correto,
O sábio morre aprendendo…
(Sabino de Campos)
O relógio de pêndulo, 1881
De Scott Evans (EUA, 1847–1898)
óleo sobre tela, 116 x 73 cm
Coleção Particular
Joaquim José Teixeira
A um relógio dava corda
Chavinha de áureo metal,
E mui vaidosa do impulso
Parar não quis afinal.
Forçou, pois, e desta força
Dentro a mola arrebentou,
E do tempo o mecanismo
Sem movimento ficou.
Resolvam, mandem governos
Nas raias do seu poder,
Vejam bem nesta chavinha
Que não basta o só querer.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 143
Joaquim José Teixeira nasceu no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1811 e faleceu também no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1885. Foi advogado, poeta, romancista, dramaturgo,teatrólogo, tradutor, conferencista, oficial da Ordem da Rosa, sócio-fundador do Instituto dos Advogados Brasileiros e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Colaborou em vários jornais e revistas. Traduziu Goethe, Molière, Fontaine entre outros.
Obras:
Elogio dramático, 1840
Fábulas, 1865
Versos, 1865
Pensamentos, (versos) 1878
Ilustração de Auguste Vimar (1851-1916)
Olavo Bilac
Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.
Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,
Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,
Que os outros animais só faça nojo e pena?
Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,
Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”
Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…
Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro
Rebentou e morreu, sem ficar como um touro.
Essa tola ambição da rã que quer ser forte
Muitos homens conduz ao desespero e à morte.
Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,
Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:
— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,
E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8
Oma Koti, 1934
Martha Wendelin (Finlândia. 1893-1986)
óleo sobre tela
Três poemas de José Ildone
Tome este remédio.
É excelente,
Cura dores reumáticas,
traumáticas, gramáticas
e matemáticas.
Nada é tão longe
que não se chegue
lá.
(Mesmo a morte)
Entre grades
passa
o canto
-manco.
Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 243-4
Parque com figuras
Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)
óleo sobre tela, 54 x 72 cm
Olavo Bilac
Olhas estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…
O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas…
É preciso, desde a infância,
Ir preparando o futuro;
Para chegar à abundância,
É preciso semear…
Não nasce a planta perfeita,
Não nasce o fruto maduro;
E, para ter a colheita,
É preciso semear…
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116