Trova do outono

23 07 2020

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Quando a folha seca e muda

segue no seu abandono,

ela abraça o vento e ajuda,

com arte, a pintar o outono.

 

(Lúcia Sertã)





O leão e o camundongo, Olavo Bilac

20 07 2020

 

 

Willy ARACTINGI (1930-)Ilustração de Willy Aractingi (1930-)

 

 

O leão e o camundongo
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.

 

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se  furioso…

Com todo seu vigor as cordas não partiu.

 

Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

 

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,

Deve os fracos tratar com caridade e amor.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 132-3





Retrato, poesia de Cecília Meireles

10 07 2020

 

 

 

George Henry, Escocia, 1848, o espelho de tartarugaO espelho de tartaruga, 1903

George Henry (Escócia, 1858 – 1943)

óleo

The Paisley Art Institute, Paisley, Escócia

 

 

Retrato

Cecília Meireles

 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

Em: Antologia Poética, Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.





As nuvens e o sol, poesia de Anastácio Luiz de Bonsucesso

6 07 2020

 

 

Chuva arco-íris tondo

 

As nuvens e o sol

Anastácio Luiz de Bonsucesso

Fábula

 

O dia era fulgente, o sol brilhava,

Em vívido esplendor;

De repente mil nuvens se aglomeram,

O sol perde o fulgor.

 

E as nuvens encobrem

Do sol os lindos raios,

As terras se cobrem

De turvos desmaios;

Ninguém se conduz

Nas trevas sem luz.

 

Do sol de seu posto

Tais coisas bem via;

Das nuvens no rosto

Com força batia;

A tanto calor

Desfez-se o vapor.

 

Perdidas nos ares

As nuvens passaram,

Das zonas polares

Que rumo levaram?

Não viram o sol

O novo arrebol.

 

MORALIDADE

 

Luz um talento, os tolos anuviam

Os fogos da razão;

A luta é transitória — os zoilos morrem.

O gênio brilha então.

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158

 

Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.

Obras:

Fábulas, 1854

Maroquinhas do Apito, comédia em versos

Versos de Cisnato Lúzio

Quatro Vultos, 1867,

 

 

 

 

 





Poeta no museu: Hélio Pellegrino

2 07 2020

 

 

Minke_Wagenaar_-_Vincent_van_Gogh_1888_The_yellow_house_('The_street')_-_detailA casa amarela, 1888

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Museu de Van Gogh, Amsterdã

 

 

Van Gogh em Amsterdã

 

Hélio Pellegrino

 

Por debaixo de tudo:

diques, dunas, frontões;

 

Por debaixo de tudo:

nobres pedras, canais

onde remam cisnes;

 

Por debaixo do mundo

lavra um incêndio.

 

Amsterdã, 1º/1/1981

 

Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993, p.39





Trova do sábio

30 06 2020

 

 

800-sargent3619framed3Richard Sargent (1911-1978)Ilustração de Richard Sargent (1911-1978)

 

 

Sábio nenhum há completo

Neste mundo, assim entendo:

Por mais que seja correto,

O sábio morre aprendendo…

 

(Sabino de Campos)

 

 





A chave do relógio, poesia de Joaquim José Teixeira

29 06 2020

 

 

DeScott_Evans_Grandfathers_ClockO relógio de pêndulo, 1881

De Scott Evans  (EUA, 1847–1898)

óleo sobre tela, 116 x 73 cm

Coleção Particular

 

A chave do relógio

Joaquim José Teixeira

 

Fábula

 

A um relógio dava corda

Chavinha de áureo metal,

E mui vaidosa do impulso

Parar não quis afinal.

 

Forçou, pois, e desta força

Dentro a mola arrebentou,

E do tempo o mecanismo

Sem movimento ficou.

 

Resolvam, mandem governos

Nas raias do seu poder,

Vejam bem nesta chavinha

Que não basta o só querer.

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 143

 

Joaquim José Teixeira nasceu no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1811 e faleceu também no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1885. Foi advogado, poeta, romancista, dramaturgo,teatrólogo, tradutor, conferencista, oficial da Ordem da Rosa, sócio-fundador do Instituto dos Advogados Brasileiros e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Colaborou em vários jornais e revistas. Traduziu Goethe, Molière, Fontaine entre outros.

Obras:

Elogio dramático, 1840

Fábulas, 1865

Versos, 1865

Pensamentos, (versos) 1878





A rã e o touro, Olavo Bilac

25 06 2020

 

 

illustrations_couleur_fables_de_la_Fontaine_par_Vimar_-_la_grenouille_qui_veut_se_faire_aussi_grosse_que_le_boeufIlustração de Auguste Vimar (1851-1916)

 

 

A rã e o touro
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que os outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”

Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…

Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro

Rebentou e morreu, sem ficar  como um touro.

 

Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8

 





Três poemas de José Ildone

22 06 2020

 

 

Martha Wendelin (Finnish. 1893-1986).Oma Koti, March 1934.Oma Koti, 1934

Martha Wendelin (Finlândia. 1893-1986)

óleo sobre tela

 

 

Três poemas de José Ildone

 

Receita

Tome este remédio.

É excelente,

Cura dores reumáticas,

traumáticas, gramáticas

e matemáticas.

 

Ode à distância

Nada é tão longe

que não se chegue

lá.

(Mesmo a morte)

 

Gaiola

Entre grades

passa

o canto

-manco.

 

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 243-4

 

 

 





As velhas árvores, Olavo Bilac

16 06 2020

 

 

Edgar Walter - Quadro á óleo sobre tela representando Parque com figuras.54 x 72 cmParque com figuras

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 54 x 72 cm

 

As velhas árvores

 

Olavo Bilac

 

Olhas estas velhas árvores,  — mais belas,

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

 

O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E alegria das aves tagarelas…

 

É preciso, desde a infância,

Ir preparando o futuro;

Para chegar à abundância,

É preciso semear…

 

Não nasce a planta perfeita,

Não nasce o fruto maduro;

E, para ter a colheita,

É preciso semear…

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116