
Ilustração: Cartão postal [Alemanha], 1929.
Quem julga ser importante
nem sempre importância tem;
e além de deselegante,
é presunçoso também.
(Lucina Long)

Ilustração: Cartão postal [Alemanha], 1929.
Quem julga ser importante
nem sempre importância tem;
e além de deselegante,
é presunçoso também.
(Lucina Long)
Ilustração de Maurício de Sousa.
Cão
Alexandre O’Neill
Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré-fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema…
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960
—
Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.
Obras:
Tempo de Fantasmas, poesia, 1951
No Reino da Dinamarca, poesia, 1958
Abandono Vigiado, poesia, 1960
Poemas com Endereço, poesia, 1962
Feira Cabisbaixa, poesia, 1965
De Ombro na Ombreira, poesia, 1969
Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972
A Saca de Orelhas, poesia, 1979
As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981
Dezenove Poemas, poesia, 1983
O Princípio da Utopia, poesia, 1986
Poesias Completas, 1951-1983, 1984
As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970
Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980
Ilustração: Maurício de Sousa.
Na solidão da carteira
O aluno vadio cola
Pensando que a vida inteira
Viverá dessa “esmola”.
(J. Eloy Santos)
A rosa, meu bem, a rosa
É fonte de mil amores…
E o beija-flor todo prosa,
Beija a mais linda das flores.
(Frei Afonso Maria da Paixão)

Aquele que no fracasso
nos estende a sua mão
e não nos nega um abraço,
é mais que um amigo, é um irmão.
(José Augusto Fernandes)
Formiguinha, ilustração: MW Editora & ilustrações.
AS FORMIGAS
Olavo Bilac
Cautelosas e prudentes,
O caminho atravessando,
As formigas diligentes
Vão andando, vão andando…
Marcham em filas cerradas;
Não se separam; espiam
De um lado e de outro, assustadas,
E das pedras se desviam.
Entre os calhaus vão abrindo
Caminho estreito e seguro,
Aqui, ladeiras subindo,
Acolá, galgando um muro.
Esta carrega a migalha;
Outra, com passo discreto,
Leva um pedaço de palha;
Outra, uma pata de inseto.
Carrega cada formiga
Aquilo que achou na estrada;
E nenhuma se fatiga,
Nenhuma para cansada.
Vede! enquanto negligentes
Estão as cigarras cantando,
Vão as formigas prudentes
Trabalhando e armazenando.
Também quando chega o frio,
E todo o fruto consome,
A formiga, que no estio
Trabalha, não sofre fome…
Recordai-vos todo o dia
Das lições da Natureza:
O trabalho e a economia
São as bases da riqueza.
Em: Poesias Infantis, Olavo Bilac, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro, pp. 41-3
—
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.
Obras:
Poesias (1888 )
Crônicas e novelas (1894)
Crítica e fantasia (1904)
Conferências literárias (1906)
Dicionário de rimas (1913)
Tratado de versificação (1910)
Ironia e piedade, crônicas (1916)
Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas

Papa-capim e um amigo, ilustração: Maurício de Sousa
Vêm das fábricas descendo
impurezas em excesso.
A Natureza morrendo…
Chamam a isto progresso?
(Luiz Evandro Innocêncio)
ELOGIO DO BEM
Cleómenes Campos
Amigo, faze o bem: esse prazer dispensa
A maior recompensa.
Aqueles frutos saborosos
Que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar,
Custaram, com certeza, os trabalhos penosos
De alguém que já sabia
Que nunca, em sua vida, os colheria…
Mas nem por isso mesmo, os deixou de plantar.
Em: Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário. Rio de Janeiro, Agir: 1949.
Cleómenes Campos de Oliveira, ( Maroim, SE 1895 – São Paulo, SP, 1968). Pseudônimo: Ariel. Poeta, teatrólogo, radicado em SP desde 1912, agente fiscal do imposto de consumo, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Paulista de Letras. Estudou as primeiras letras em seu estado natal, indo depois para a Bahia, onde freqüentou o Ginásio São José. Ainda jovem, teve que abandonar os estudos, ingressando na vida comercial em Santos. Foi nomeado para os Correios de São Paulo, após concurso e mais tarde foi transferido para o Ministério da Fazenda. Fundou “A garoa”, uma das revistas literárias que mais custaram a morrer… Faleceu em 30 de abril de 1968.
Obras:
Coração encantado, 1923, poesia, [prêmio Academia Brasileira de Letras]
De mãos postas, 1926 [prêmio Academia Brasileira de Letras]
Humildade, 1931, poesia
Meu livro de Amor, 1931
Canção da felicidade, 1934
Zebelê, 1940
Sonata do desencanto, 1950. poesia
O segredo de nós dois, 1969, poesia
O louco e as estrelas, s/d
Teatro
Mascote, com Oduvaldo Viana,