O filho de Sto Antônio, poema de Fagundes Varela

11 06 2011

Santo Antônio, 2009

Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)

Gravura, 80 x 65cm

O filho de Stº Antônio

(canção de um devoto)

……….Fagundes Varela

Bem sei, criança estouvada

Que por artes do demônio,

Furtaste, a noite passada,

O filho de Santo Antônio!

E sem medo, sem piedade,

Cheia de um ímpio alvoroço,

O mimo do pobre  frade

Correste a esconder no poço!

Arrepende-te.  Chiquinha,

Vida minha,

Minha linda tentação!

A divindade perdoa,

Terna e boa,

Os erros do coração.

Ah! que fizeste, insensata?

Demo gentil, que fizeste?

Por causa de um’alma ingrata

Tu’alma pura perdeste!

Tira depressa a criança

Do frio asilo onde está,

Tem nos santos esperança,

Que teu amor voltará.

Ainda é tempo, Chiquinha,

Rola minha,

Minha rosada ilusão!

A divindade perdoa,

Terna e boa,

Os erros do coração.

Acende uma vela benta

Junto ao santo que ofendeste,

Lançando a mão violenta

Contra o pirralho celeste.

Leva-lhe linda toalha

Cheia de finos bordados,

Talvez a oferta lhe valha

O olvido dos teus pecados.

Não te demores, Chiquinha,

Trigueirinha,

Que tens por cetro a paixão!

A divindade perdoa,

Terna e boa,

Os erros do coração.

E quando alcançado houveres

A remissão, minha vida,

Mais formosa entre as mulheres,

Vem, mimosa arrependida,

Vem que o santo receoso

De novo furto, quiçá,

Velará por teu repouso,

Nosso amor protegerá…

Não percas tempo Chiquinha!

Glória minha!

Minha dourada visão!…

A divindade perdoa,

Terna e boa,

Os erros do coração.

Luís Nicolau Fagundes Varella, (RJ 1841 – RJ 1871) ou Fagundes Varela, poeta brasileiro e um dos patronos na Academia Brasileira de Letras.

Obras:

  • Noturnas – 1861
  • Vozes da América – 1864
  • Pendão Auri-verde – poemas patrióticos, acerca da Questão Christie.
  • Cantos e Fantasias – 1865
  • Cantos Meridionais – 1869
  • Cantos do Ermo e da Cidade – 1869
  • Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – 1875 (publicação póstuma)
  • Diário de Lázaro – 1880




Imagem de leitura — Henriette Browne

6 06 2011

Uma menina escrevendo, 1860-1880

Henriette Browne ( França, 1829-1901)

óleo sobre tela

Victoria & Albert Museum, Londres

Henriette Browne, pseudônimo de Mme Jules de Saulx ( França, 1829-1901) Nasceu em Paris e estudou com Penn e Chaplin.  Exibiu no Salão de Paros de 1853, e na Academia Real em 1871-9.  Pintora que também se dedicou à gravura.  Teve preferência pela pintura de gênero e pelas telas com motivos religiosos, além de muitas cenas do Oriente médio.   Parou de expor mais ou menos 20 anos antes de morrer na sua cidade natal.

 

 





Imagem de leitura — Walter Crane

4 05 2011

Em casa: um retrato, 1872

Walter Crane (Inglaterra, 1845 — 1915)

aquarela e têmpera sobre papel

Leeds City Art Gallery

Walter Crane, RSW, (Inglaterra, 1845-1915) foi um pintor, ilustrador, designer, escritor e professor.  Desde criança mostrou ter habilidade para a pintura e o desenho que foi prontamente encorajada por seu pai, o retratista e miniaturista Thomas Crane (1808-1959).  A série de desenho para ilustrações que Walter Crane fez para o livro Lady of Shalott de Tennyson, foi primeiro  mostrado a Ruskin que se encantou com o uso das cores.  Mais tarde quem acreditou no talento de Walter Crane foi o gravador William James Linton de quem Crane foi aprendiz.  De 1859 a 1862 Walter Crane aprendeu as técnicas da exatidão e da economia de traços num desenho para ser transposto para a xilogravura.  E se esmerou no assunto.  Teve uma carreira de grande sucesso, morrendo em 1915 aos 75 anos.





Imagem de leitura — Johann Georg Meyer von Bremen

3 05 2011

Passatempos da tarde, 1863

Johann Georg Meyer von Bremen ( Alemanha, 1813 — 1886)

óleo sobre tela, 44 x 35 cm

Coleção Particular

Johann Georg Meyer von Bremen nasceu na cidade de Bremen em 1813.  Pintor de gênero foi aluno, na Academia de Düsseldorf  de Karl Ferdinand Sohn e de  Friedrich Wilheim Schadow.  Comelou pintando temas bíblicos.  Mas depois de viajar pela Bavária e pelos Alpes Suiços,  estudando as pessoas que encontrava, passou a pintar cenas da vida diária , que lhe trouxeram fama pela sensibilidade e competência que demonstrou.   Visitou repetidas vezes a Bélgica. Em 1852 mudou-se definitivamente para Berlim, onde se tornou professor em 1863.  Faleceu em 1886, aos 73 anos.





Vida de flor, poema de Fagundes Varela, 1861

17 03 2011

 

Flores, 1961

Agostinho Batista de Freitas ( Brasil, 1927-1997) 

óleo sobre tela,  50 x 70 cm

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Vida de flor

                             Fagundes Varela

Por que vergas-me a fronde sobre a terra,

Diz a flor da colina ao manso vento,

SE apenas às manhãs o doce orvalho

          Hei gozado um momento?

Tímida ainda, nas folhagens verdes

Abro a corola à quietação das noites,

Ergo-me bela, me rebaixas triste

          Com teus feros açoites!

Oh! Deixa-me crescer, lançar perfumes,

Vicejar das estrelas à magia,

Que minha vida pálida se encerra

          No espaço de um dia!

Mas o vento agitava sem piedade

A fronte virgem da formosa flor,

Que pouco a pouco se tingia, triste,

          De mórbido palor.

Não vês, ó brisa?  lacerada, murcha,

Tão cedo ainda vou pendendo ao chão,

E em breve tempo esfolharei já morta

          Sem chegar ao verão?

Tem piedade de mim!  Deixa-me ao menos

Desfrutar um momento de prazer,

Pois que é meu fado despontar n’aurora

          E ao crepúsc’lo morrer!…

Brutal amante não lhe ouviu as queixas,

Nem às suas dores atenção prestou,

E a flor mimosa, retraindo as pétalas,

          Na tige se inclinou.

Surgiu n’aurora,   não chegou à tarde,

Teve um momento de existência só!

A noite veio, procurou por ela,

          Mas a encontrou no pó.

Ouviste, ó virgem, a legenda triste

Da flor do outeiro e seu funesto fim?

Irmã das flores à mulher, às vezes,

          Também sucede assim.

São Paulo, 1861

 

Luís Nicolau Fagundes Varella, (RJ 1841 – RJ 1871) ou Fagundes Varela, poeta brasileiro e um dos patronos na Academia Brasileira de Letras.

Obras:

  • Noturnas – 1861
  • Vozes da América – 1864
  • Pendão Auri-verde – poemas patrióticos, acerca da Questão Christie.
  • Cantos e Fantasias – 1865
  • Cantos Meridionais – 1869
  • Cantos do Ermo e da Cidade – 1869
  • Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – 1875 (publicação póstuma)
  • Diário de Lázaro – 1880




O Carnaval no Rio, de Américo Fluminense, texto integral, Revista KÓSMOS, 1907

21 02 2011

O entrudo no Rio de Janeiro, 1823

Jean-Baptiste Debret ( França 1768-1848)

Aquarela sobre papel

Museu da Chácara do Céu

Rio de Janeiro

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O carnaval no Rio

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(NOTAS LIGEIRAS PARA UMA CRÔNICA)

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O Carnaval dos nossos antepassados era o entrudo.

Já nos tempos coloniais jogavam-no desembaraçadamente.  As máscaras eram tidas como prejudiciais à ordem pública, serviam para ciladas, para os levantes e crimes.   Em 1720, quando em Minas Gerais, o bando do mestre do campo Pascoal Guimarães desceu, alta noite, do Morro Velho sobre a moradia do prepotente ouvidor Martinho Vieira, os que o guiavam vinham mascarados.  Dizem também que foi um mascarado quem assassinou o prisioneiro Almirante Du Clerc, em 1710, na casa que o governador desta cidade lhe dera por prisão na rua Direita…  Outros crimes misteriosos são atribuídos a embuçados com máscaras.  E certo é que a máscara foi tida como traiçoeira e criminosa, por quanto, em diversas épocas os governadores desta cidade mandavam fazer públicos vários alvarás proibindo o seu uso.

Por essas proibições o entrudo constituiu-se o mais apreciável folguedo carnavalesco.

Havia grande prazer nesse jogo brutal.  Em algumas ruas grupos entrudescos agarravam os transeuntes a pulso, violentado-os, metiam-nos dentro de uma tina e, por sobre carga, toda a família do folgação despejava sobre a vítima jarros e barris d’água.   Visitar alguém nesses três dias era uma temeridade.  Só se animava a fazê-lo os que achavam graça no banho à força…ou não tinham escravos para abastecer a sua casa do precioso líquido.  Assim o banho chegava a ser providencial.

O processo mais delicado dessa terrível pagodeira consistia no arremesso de limões de cera cheios d’água simples ou perfumada com essência de benjoim e canela, e jatos de seringas de irrigação.  O fabrico desses limões tornou0se uma pequena indústria que ocupava por longos meses as famílias cariocas.  Durante dezembro e janeiro muitas casas no Rio de Janeiro viviam em verdadeira azáfama, a fabricar esses projéteis, mas nem sempre com a cautela necessária à integridade física do próximo, porque alguns limões excediam a espessura de seus invólucros o quanto deveriam ter de bem aferido para não esborrachar narizes nem amachucar o rosto das vítimas.  As seringas menos mal faziam contrapunham, porém, maior banho.  Colaborando com a seringa apareciam frequentemente o moringue, o jarro, o alguidar e o barril.

A água não bastava, porque se era limpa poderia, quando muito, provocar bronquites, plurises, pneumonias, o que era preciso, o que era necessário, era ridicularizar a vítima, fazê-la irrisória, escorraçá-la com a vaia, e o obrigá-la a arrastar o seu ridículo por onde passasse.

Assim, como banho cobriam-na de farinha de trigo ou polvilho, algumas vezes de pós de sapato ou vermelhão.  Este hábito esteve muito em voga entre a gente do povo, mormente os negros.  A estampa de Debret que reproduzimos adiante, é um quadro de costumes.  Aí está a pagodeira em todas as suas minúcias.  Aí estão a seringa em ação, a tina preparada, os limões para a batalha e o polvilho posto  ao serviço da folia. Nada lhe falta, nem mesmo a assuada dos que assistiam o ataque à crioula de anágua curta e cabeção rendado.

A introdução dos bailes carnavalescos populares sem corrigir logo este estúpido folguedo, veio indiretamente modificá-lo.  Foi em 1847 que eles estavam em maior voga.  Um hotel que aqui existiu, com o título de Hotel di Itália, dava-os como alguma animação e a Sociedade Constante Polka aumentava-lhes o brilho com a assistência dos seus associados.    Ao mesmo tempo o Tívoli, que era um estabelecimento de recreio, na chácara n. 9 do Campo d’Aclamação (Campo de Sant’Anna, em nossos dias Praça da República) engalanava-se para a alegria das quatro noites de Carnaval.  Em 1849 o Tívoli transformou-se, sob o título de Paraíso, num aprazível botequim campestre com salas de jogos e pavilhão para danças, então os seus bailes tornaram-se famosos, tal o preparo, o brilhantismo, a concorrência que tiveram.  O Teatro S. Francisco e o Salão da Floresta também deram bailes devendo-se notar que por causa perdida pela negligência das crônicas da época,  o empresário do Salão da Floresta arrepiou carreira publicando na quarta-feira de cinzas daquele ano, solene protesto de não mais dar bailes carnavalescos….  A partir desse tempo os bailes públicos carnavalescos entraram nos nossos costumes e com eles veio o atrativo das fantasias e o prazer da máscara em tal desenvolvimento, que em 1851, foram organizadas duas sociedades carnavalescas: o Congresso das Sumidades e a União Veneziana.

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Ilustração original do texto, revista Kosmos, 1907, sem indicação de autor.

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O aparecimento das sociedades carnavalescas não foi o bastante para por cobro ao entrudo brutal,  grande parte da população sentia prazer em se molhar e entregar-se delirantemente às suas violências, das quais, uma vez por outra, resultavam conflitos mais ou menos graves; outra parte, porém, propendia para a alegria do Carnaval mascarado e fantasiada e essa queixava-se da dificuldade em sair à rua formar bandos, organizar passeatas por causa dos vexames, contrariedades e prejuízos a que ficaria exposta com o desbragamento do entrudo.

Fizeram, então uma persistente campanha contra o entrudo.  A polícia empregou energia, perseguindo os entusiastas desse divertimento.  Os primeiros resultados dessa perseguição apareceram em 1854, cujo carnaval correu animadíssimo, vendo-se pelas ruazinhas cariocas carruagens com famílias fantasiadas, muitos máscaras avulsos e alguns montando cavalos azaejados.  Dois anos depois, em 1856, o chefe de Polícia Dr. Alexandre Joaquim de Sequeira conseguia reprimir o entrudo.  Datam desse tempo as vitórias do Carnaval do Rio.  O Congresso das Sumidades Carnavalescas obtinha grande sucesso com as suas passeatas, que ficaram memoráveis.  Em 58, a União Veneziana, estimulada pela vitória das Sumidades, organizou um suntuoso préstito, em que figuravam Felipe I de Castela, o duque de Buille, um Montmoroncy, o conde de Charnay,  capitão das guardas de Maria Antonieta, o marquês de Salures , o conde d’Arcos, o cavalheiro Ruy Lopes de Villa Lobos… em suma,  numeroso conjunto de reis, príncipes, duques, marqueses, condes, barões, cavalheiros e pajens.  Apesar da mistura das idades históricas e dos personagens, a marcha da União Veneziana assumiu a importância de um acontecimento social.  A população prestou-lhe ovações atirando-lhe flores e confeitos, saudando-a com palmas e bravos. Durante muitos anos essa passeata foi narrada e comentada e os nossos bisavós arregalando os olhos, suspendendo a pitada, murmuravam ainda cheios de assombro: Que luxo! que dinheirão!

Apareceram por esse tempo, os Zuavos, com o título: banda marcial da Sociedade Euterpe, e, segundo cremos, o celebérrimo Zé Pereira, o tremendo rompe-rasga do charivari pagodeiro.

O infatigável cronista de nosso passado, o sr. Vieira Fazenda, em um dos seus interessantes folhentins da Notícia, o de 15 de fevereiro de 1904, conta-nos o aparecimento desse barulhento e alegre estúrdio carnavalesco, mas esqueceu-se de nos dizer o ano em que isso foi.  É de crer que fosse por essa ocasião ou mais um ano depois ou menos um ano antes, que o incansável Zé Pereira zabumbou pelas ruazitas lôbregas da populosa sebastianópolis.  A data precisa escapou à pena, senão à memória do narrador dos nossos costumes e modos d’antanho;  em compensação tivemos o nome do seu primeiro zabumbador, que o cronista lega à posteridade.

Chamava-se José Nóbrega de Azevedo Paredes, tinha a profissão de sapateiro e era de origem portuguesa.  Foi o José Nóbrega quem, por uma tarde de nostalgias, numa segunda-feira de carnaval na Corte do império do Brasil, sob o reinado do sr. D. Pedro II, o formidável Zé P´reira das folias minhotas.   E teve êxito completo, foi um sucesso!

Toda a suja cidadezinha,  esconsa e fedorenta, estremeceu ao ruído ritmado da estrondosa pandorga; e se o Nóbrega tinha pulso capaz de vencer um touro, melhor teve-o para zabumbar galhardamente no couro curtido dum boi.  O sapateiro da rua São José, sem calcular o resultado da sua pândega nem prever a celebridade que o esperava, fez mais rápida escola com alegre barulhada dos bombos do que com a perícia da sua sovela.

De então em diante os Zé Pereiras surgiram às dúzias, aos centos.  As sociedades agarraram-se-lhe com fervor e toda a doidice do Carnaval e animou-se com esse retumbante bater de tambores e bombos.   No sábado do Momo, após o badalar das 10 horas do Aragão de S. Francisco de Paula, a barulhada começava.  Parecia que  um sopro de loucura passara sobre a cidade.  Em diversas ruas o Zé Pereira estrugia.  Ajuntavam-lhe buzinas, cornetins, campainhas.  Era o seu domínio.  Mas esse útil ao Carnaval porque distraiu o povo das brutalidades do entrudo.  Começou, então, o Carnaval das ruas.  Os princezes passeavam a sua capa de belbutina e os seus calções de cetim; ao arremedo de falsificados pajens medievais traziam cabeleiras de cachos frisados, e pregavam obreias pequeninas e multicores no rosto.

Fazia-se espírito.  Dominós impiedosos troçavam e intrigavam.  Alguns tornaram-se notáveis, e se os designava pela cor, porque guardavam rigoroso incógnito.

Dessa alegria, dessa animação surgiu a Boêmia, que, dizia França Júnior num folhetim da Gazeta de Notícias, de 7 de março de 1878, “marcou uma era memorável no Carnaval.  Foi o império do Chicard do espírito”.

Essa sociedade era composta dos mais elegante leões do tempo e foi ela que introduziu aqui o vestuário chicard, de gavarni, dando à Madame Niobey, costureira parisiense domiciliada no Rio, uma larga e longa celebridade por ter sido a confeccionadora da maior parte dessas fantasias.

Com a Boêmia, vieram os Estudantes da  Heidelberg, a Internacional, o Clube X, e outras mas já sem o caráter familiar dos primeiros, exceção do Clube X que afinal, teve de desistir de suas pretensões e ceder ao carnaval licencioso que Paris criava.

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Ilustração original do texto, revista Kosmos, 1907, sem indicação do autor.

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Apareceram também os diabinhos vermelhos, os velhos, cabeçudos, de enormes casacas com pães da rala por botões e báculos; o ás-de-copas, em camisas de mulher e trazendo por capacete um vaso,  que não é de sala…   E, pouco a pouco, os estalos fizeram a sua entrada; ao princípio alegremente atirados, dando uma nota ruidosa mas inofensiva aos folguedos; depois ultrapassando os limites d’alegria para entrar nos impulsos da perversidade, queimando roupas, chamuscando braços e colos.  E, sorrateiramente, sob maneiras de elegância e galanteios, surgiu a bisnaga, discreta, esguichando finamente, à guisa de um pulverizador, produtos das retortas de Lubin e Pinaud, conceituados perfumistas da época.

Não obstante os males provocados pelos estalos e a vulgarização das bisnagas, as sociedades folgavam e divertiam o povo.  O Carnaval do Rio de Janeiro ganhara foros de grande festa.  Arredadas, como foram, as famílias, os préstitos carnavalescos ostentavam um luxo que o maillot fazia deslumbrante.

Os bailes nos teatros iam perdendo a sua animação de outrora, porque as sociedades deixaram de os frequentar para se precaverem contra os contínuos conflitos que neles se davam, conflitos em que um pobre francês de nome Cosenave perdeu a vida.

Todos os anos surgiam novos clubes.  Eram os Fenianos, os Acadêmicos do Koenigcher, os Inimitáveis,  a Paulicéia Vagabunda, os Estudantes de Salamanca, que cantavam à guitarra peteneras e malaguenhas,  e grupos mais ou menos numerosos e efêmeros, como os das Sabichonas, Fragata Fraca, Corveta Terrível, Parasitas de Casacas, aos quais se reuniam clubes musicais, na sua maioria franceses…

Desapareciam uns, surgiam outros.

O Congresso das Sumidades desorganizou-se, em 63 já não existia; dez anos depois pretenderam reorganizá-lo com o título de Novas Sumidades; mas a sua existência não logrou duração.  Os Zuavos (Isto é, a Euterpe) passaram a ser Tenentes do Diabo, os Democráticos formaram-se com dissidentes de outras sociedades.

À proporção que se formavam novas sociedades, que seus préstitos atingiam a um luxo extraordinário, para cujas alegorias eram disputadas a ouro as mais bonitas alcasarinas, as mais moças e vistosas mundanas e os espirituosos máscaras da rua cediam lugar aos capoeiras vestidos de diabo, trazendo as caudas de rabo de velame, aos princezes armados para o que desse e viesse de porta-voz colossal, e mortes e macacos que escondiam nos cintos as navalhas assassinas.  E com isso o entrudo ressurgia.  As delicadas bisnagas, de fino jato de pulverizadores,  passaram a bisnagões que jorravam esguichos de repuxos; os limões não só de cera, também de borracha re-entravam na cena.   As mulheres, que faziam parte dos préstitos das sociedades, viam-se obrigadas a se munirem de chicotinhos de montaria para castigar os que as molhavam brutalmente.

Demais, parece que o entrudo, apesar da sua bruteza, das moléstias que provocava e dos conflitos que despertava, afinava-se perfeitamente com a nossa educação, porque muita gente boa tinha-lhe queda.  O Sr. Vieira Fazenda conta-nos que o Sr. D. Pedro II, quando em Petrópolis, não passava incólume sob a saraivada dos limões e esguichos das bisnagas.  Sua majestade achava-lhes graça e ao retornar a palácio, molhadinho como qualquer mortal, ria-se a bom rir dos desrespeitos das lindas veranistas petropolitanas.  Um jornalista houve, e dos mais célebres em nosso tempo, que comprava limões de cheiro aos milheiros.  E a pequenina redação do seu jornal, na rua do Ouvidor, transformava-se num verdadeiro arsenal, num depósito bélico de entrudo.  Dizem que, d’uma feita, andando a polícia a reprimir o entrudo, o alegre e gordo jornalista pediu ao delegado Macedo de Aguiar que subisse à sala da redação para intimar o numeroso grupo de damas e senhoritas a abandonar o divertimento.  Era um ardil.  O delegado subiu e mal punha o pé na sala uma legião de moças acometia-o de tal modo que, para sair, teve necessidade de mandar o seu ordenança buscar outras roupas em sua casa.

Contudo o Carnaval resistia, brilhava com a riqueza dos seus préstitos, atraía à cidade uma grande massa da população.

O Club X exibia uma caravana oriental montada em camelos, que mandara vir da Ásia, propositalmente para esse fim; os Tenentes, Fenianos, Inimitáveis e Democráticos, rivalizavam em riqueza de vestuários e espírito nas críticas, porque as sociedades tendiam ao aproveitamento jocoso dos fatos, mais salientes do ano.  Apareceram os Carbonários, Pingas, Filantes, Cínicos, Femmes Parisiennes, Badanas, Regresso do Rocambole, Tagarelas do Diabo ou Velhos Esponjas e, antes de todos os clubes de curta duração, os Cucumbis, que faziam suas danças selvagens nas ruas.

A pouco e pouco as sociedades mais dinheirosas desfaleciam, liquidavam seus últimos recursos.  Em 1878 só estavam em campo os Fenianos, Tenentes e Democráticos; os demais, mesmo o novo Club X, sucumbiu.  E aquelas três entravam num grave período de rivalidades que teve por desfecho uma tremenda luta, porfiada a cacete e pedradas, em um terça-feira, no momento em que Fenianos e Tenentes se cruzaram na rua do Hospício, esquina dos Ourives ou Quitanda.

Daí por diante, ou melhor dizendo, durante dois a três anos foi o entrudo quem fez o carnaval.

A seringa volveu a participar ativamente dos folguedos, não já a seringa de irrigação, mas a de borracha, destinada a outros usos; os limões atingiram as proporções disformes, deixaram de ser limões, transformaram-se em bananas, laranjas, abacaxis, jacas, melancias, pelo tamanho e pela forma: quem os levasse pela cara apanhava um banho completo e uma tapona de ver estrelas…entre chuva; as bisnagas pesavam litros e pareciam mangueiras de bombeiros, o polvilho e o pó de sapato entraram em atividade.

Não satisfeitos com isso os entrudistas voltaram às bombas de jardim e aos baldes d’água, e a perversidade, que é quem tira partido dos desregramentos, entrou a encher bisnagas com água suja e líquidos corrosivos e a fabricar limões que rivalizavam com cathaos na dureza e poder ofensivo. Para coroamento dessa obra de feios costumes e relaxamento policial não faltou a bordoada.  Quem descesse à cidade para assistir o carnaval, deveria dar graças a Deus quando voltasse sem chapéu e com as roupas em frangalhos, porque muitos voltavam com os olhos queimados, a cabeça em pontos falsos e o braço numa tipóia!…

Enquanto assim corria o Carnaval, os Cucumbis, como o Zé-Pereira n’outro tempo, mudavam o aspecto dos folguedos, comunicando a sua selvageria aos instintos rudes do povo.  Dir-se-ia uma afinidade.  Deles nasciam os cordões, esses horríveis, fétidos, bárbaros cordões, que dão ao nosso Carnaval de hoje algo de boçal e selvagem com a sua imutável melopéia de adufes e pandeiros e a babugem desbocada de suas cantilenas.  Quanto o Zé-Pereira, apesar de sua pobreza de ritmo, tem de ruidosamente alegre, esses tantãs e bufe-bufe dos cordões possuem de bruto, atroador, irritante e estúpido.

Já não há alegria nem espírito, há berreiro de taba, de mistura com uivos de africanos em samba.  E para completar a insipidez de um carnaval de cabindas e botocudos o lança-perfume vai abrindo caminho ao entrudo como outrora a bisnaga, pequenina, discreta e perfumada.

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[Texto integral, mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.  As duas ilustrações em preto branco são as ilustrações originais do texto que também tinha a reprodução de O Entrudo de Debret, em preto e branco.  Troquei-a para uma reprodução colorida.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

NOTA:

Américo Fluminense foi um dos pseudônimos do escritor  Gonzaga Duque.

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Retrato de Gonzaga Duque [pseudônimo:  Américo Fluminense], 1908

Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)

óleo sobre tela, 52 x 91 cm

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

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Luiz Gonzaga Duque Estrada (RJ 1863 — RJ, 1911) foi um jornalista, crítico de arte, pintor e escritor.   Atuou na imprensa carioca escrevendo em jornais e revistas importantes da cidade: O Paiz, A Semana, Diário de Notícias, Folha Popular, Kósmos e Fonfon, entre outros.

Obras:

A Arte Brasileira,  1888

Mocidade Morta, 1899

Graves e frívolos,  1910

Horto de Máguas, contos, 1914 – póstuma

Contemporâneos, s/d





Imagem de leitura — Paul Gustave Fischer

9 02 2011

Lendo a carta,  1914

Paul Gustave Fischer ( Dinamarca, 1860-1934)

óleo sobre tela

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Paul Gustave Fischer (Dinamarca 1860-1934) nasceu em Copenhagen filho de um pintor que mais tarde abandonou a pintura e teve sucesso como fabricante de tintas e vernizes.   Começou a pintar com seu pai que desde cedo lhe instrui nos segredos da pintura.   Teve pouca instrução artística formal freqüentando por apenas dois anos a Real Academia de Arte da Dinamarca.  Dedicou-se à pintura de gênero, naturalista– seus primeiros quadros retratavam a vida da cidade.  Passou quatro anos em Paris , onde adquiriu maior sensibilidade para cores mais ricas, e onde também deu preferência à pintura de cenas urbanas.





Imagem de leitura — Federico Faruffini

8 02 2011

A leitora

Federico Faruffini (Itália, 1833 – 1869)

óleo sobre tela

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Federico Faruffini nasceu em Sesto San Giovanni, 1833 e antes de se dedicar à artes plásticas, estudou direito.  Formou-se pela Escola de Pintura de Pavia. Dedicou-se à pintura histórica,  a de gênero e ao tratamento ilustrativo de cenas retratadas pela literatura.  Suicidou-se 1869 em Perugia.





Imagem de leitura — Édouard Manet

28 01 2011

Senhora lendo, 1879-80

Édouard Manet ( França, 1832-1883)

Óleo sobre tela, 61 x 51cm

Instituto de Arte de Chicago

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Édouard Manet (França, 1832 — 1883) Pintor e artista gráfico, foi de grande importância no desenvolvimento do estilo impressionista, por seus seguidores, tornando-se um dos mais importantes artistas plásticos do século XIX.  Revolucionário não só nas técnicas de pintura mas também pelos temas que escolheu retratar. Um dos pais da arte moderna do século XX.





Visita a São Paulo, texto de William Henry May, 1810

25 01 2011

Fundação da Cidade de São Paulo, s/d

Oscar Pereira da Silva (Brasil, 1865-1939)

Museu Paulista, São Paulo

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Hoje a cidade de São Paulo faz anos.  Fundada em 25 de janeiro de 1554, ela comemora 457 anos, muito bem vividos.  Contrário à crença popular, sou carioca e amo São Paulo.  Mas não sou a única carioca a ter esses sentimentos, nem sou a exceção que prova a regra.  Morei lá por pouco tempo, mas o suficiente para apreciar o espírito empreendedor do paulistano, sua organização e o ritmo delirante da cidade.  São Paulo é mais do que o “coração do Brasil” ela também é uma grande parte do cérebro do país, para não falar da miscigenação de povos, idéias, hábitos, culinária, religiões.  Sem São Paulo, o Brasil não seria o país que nos identifica hoje.  Claro que todas as regiões do Brasil contribuem para essa maravilhosa combinação que nos faz sermos o que somos.  Mas é lá, na cidade de São Paulo, que tudo se encontra e se mistura.   Quando posso retorno a esta metrópole inigualável, frenética, que nos impulsiona para o futuro como nenhum outro lugar do Brasil o faz.  Em São Paulo coloco em dia aspectos da vida cultural brasileira, muitos dos quais emigraram do Rio de Janeiro para outras praças depois que a capital do país foi transferida para o planalto central.  Então, a postagem de hoje é feita de alguns trechos da descrição da viagem de Willliam Henry May, a São Paulo, em 1810.

Paisagem, s/d

Edgard Oehlmeyer ( Brasil, 1909 – 1967)

óleo sobre tela, 38 x 50 cm]

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Resolvemos, então, seguir a diante, e em pouco tempo, chegamos a São Paulo.  A cidade está localizada num sítio bastante elevado – de fato, toda a região que tínhamos percorrido naquele dia estava quase na mesma altura do cume da montanha.  A vista que se tem de todos os lados da urbe é extremamente bonita e variada, e muito se assemelhando a uma paisagem da Itália.  Um pequeno rio corre em seus arredores, acrescentando-lhe comodidade e beleza.

Fomos recebidos de maneira extremamente hospitaleira pelo governador e pela sua família no palácio que habitavam.  Aí tinham sido preparados quartos para nós. O governador Antônio José de Franca e Horta, que também é um general de brigada, aparenta ser um homem de cinquenta e poucos anos e pertence a uma família antiga mas não de todo nobre.  Creio que nunca encontrei uma pessoa com tão boas disposições naturais, com um bom senso tão apurado, com uma verdadeira ambição de ser útil ao seu país em tudo o que for louvável e honrado, com notável sabedoria para escolher aqueles a quem vai confiar um encargo público e com um elevado grau de honestidade e independência – características que lhe garantem a estima de todos os homens bons, mas qua atraem o ciúme e o rancor de alguns até mais poderosos do que ele.

Em virtude de suas qualidades, creio que ele governa a capitania de São Paulo com justiça, sabedoria e prudência, lançando mão de todos os meios para fazê-la progredir e para trazer satisfação e felicidade aos seus habitantes – a mais valiosa conquista que um príncipe pode ambicionar.  Ainda assim, o governador não é um dos favoritos na Corte.   Ao contrário, os meios mais desonestos e mesquinhos têm sido usados por alguns ministros para dar uma falsa idéira dos seus honestos esforços e para minar a sua prosperidade.

A senhora Franca e Horta, sua esposa, é uma dama de muito bom senso e dotada de enorme vivacidade e sagacidade, além de possuir um excelente e caridoso coração.  Germânica de nascimento, ela  foi educada em um convento o que lhe conferiu uma agradável vivacidade de dama francesa.  O casal tem duas filhas pequenas – a mais velha com sete anos – e atualmente está bastante preocupado, pois não vê como oferecer a elas uma educação apropriada e liberal num país como o Brasil.  Com tais anfitriões, certamente estávamos muito bem instalados em São Paulo. 

Todos os esforços foram feitos e todos os meios empregados para tornar a nossa estada agradável.  Os nossos quartos foram preparados com tanto esmero quanto esperaríamos encontrar na Inglaterra – e o conforto das acomodações dos nossos servos era quase semelhante ao que desfrutávamos.  Lamentavelmente, como tínhamos despendido toda a manhã caçando e havíamos alcançado a cidade no período da tarde, tivemos que nos recolher cedo. 

Na manhã seguinte, 19 de abril, vimos as tropas formarem em frente ao palácio e pudemos observar o quão superior era a aparência daqueles homens em relação aos seus congêneres que estávamos habituados a ver no Rio de Janeiro.  Eram, na sua maioria, homens garbosos, notavelmente bem vestidos e muito limpos.  O seu número não era grande, pois as tropas da cidade vêm sendo sistematicamente drenadas para engrossar as expedições que rumam para o Rio Grande.  Inúmeras ordens têm sido enviadas do governo do Rio de Janeiro no sentido de recrutar todos os habitantes de São Paulo para o serviço do príncipe.  O general, sabedor do inconveniente político de tal medida e das conseqüências que adviriam de um gesto tão arbitrário e parcial, tentou advertir as autoridades para o seu perigo e insensatez.  A advertência, contudo, não foi ouvida e ordens ainda mais duras foram emitidas.  O resultado foi que a província perdeu alguns de seus mais valiosos habitantes, pois cerca de 14 a 15 mil pessoas deixaram suas terras e casa para se esconderem nas matas e nos distritos vizinhos, onde estariam a salvo de tamanha tirania.

O governo do Rio de Janeiro percebeu tardiamente a injustiça e a extravagância que cometera e viu-se obrigado a redimir-se diante de seus súditos, suspendendo as ordens iniciais e convidando os habitantes a retornarem para suas casas sob a promessa de que não mais realizaria qualquer recrutamento aviltante e de que perdoaria os foragidos que haviam descumprido as suas obrigações para com o soberano. 

A aparição do general e da senhora Horta em São Paulo deu-se quase simultaneamente à nossa, pois o casal acabava de retornar de uma viagem a uma mina de ferro, situada a 50 léguas da cidade.  O objetivo da expedição era avaliar o real valor da mina, reportando tudo ao príncipe, que estava inclinado a empregar alguns de seus súditos na exploração do lugar.

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O baile acabou por volta da meia-noite e, no dia seguinte, dia 23, não estávamos com disposição para começar nada.  Jantamos cedo e, ao entardecer, desfrutamos de uma deliciosa cavalgada na quinta do general, situada a cerca de uma légua da cidade.  O general ergueu aí uma bela casa e uma excelente estrebaria, com outras repartições, as quais ele construiu praticamente sozinho. O solo era bem cultivado e produzia todas as frutas americanas e quase todas as européias.  O jardim de flores, situado num local extremamente pitoresco, também era muito fértil e constituía obra saída exclusivamente da imaginação e do empenho do general.  É compreensível, pois, que a senhora Horta, uma pessoa sensível e capaz de apreciar devidamente as virtudes de seu marido, tenha predileção por esse lugar e aguarde ansiosamente o dia em que, com satisfação, poderão deixar a residência de São Paulo e vir morar aqui. 

A frescura do ar, a variedade dos campos e a sua semelhança com aqueles da Inglaterra causaram-me sensações muito agradáveis e, ao retornarmos, estávamos todos, creio, tomados por aquele sentimento de crescente felicidade que os objetos da natureza são tão propícios para suscitar.  Recolhemo-nos cedo para dormir, com o propósito de tentar nossa sorte na caça à perdiz da manhã seguinte.

No dia 24 antes de clarear, estávamos todos montados e devidamente aparelhados, formando um grupo de seis pessoas, acompanhados por quatro casais de perdigueiros.  A manhã estava gelada e tivemos de cavalgar cerca de 12 milhas até atingir o lugar em que armaríamos tocaia.  O campo estava coberto por uma impenetrável neblina e a situação lembrou-me uma caçada à raposa numa manhã de novembro.  A neblina, todavia, rapidamente dissipou-se e o sol apareceu.  Tínhamos alcançado a cabana de caça, onde daríamos inicio ao divertimento.  Demonstramos e dirigimos os cães para a planície  o campo, que era extremamente comprido e inteiramente coberto por um capim alto, ainda que pouco espesso, salpicado por samambaias.

Kilwick e dois outros companheiros deixaram-nos em torno do meio do dia e saíram em busca de madeira num bosque situado nas extremidades da planície.  Durante sua ausência, os cães detectaram 3 perdizes, que conseguimos abater.  A caça, no entanto, não era nada abundante e, de percorrermos uma extensão enorme, não encontramos mais do que quatro casais durante todo o dia, o que provavelmente pode ser atribuído ao numero de falcões que vimos. As perdizes são bastante grandes, tão grandes quanto uma aprazível galinha, e andam sozinhas.  A sua plumagem é semelhante aquela da perdiz inglesa, mas creio que seu sabor é inferior.

Por volta das duas da tarde, reunimo-nos sob a sombra de uma árvore para comer.  A essa altura, muitas pessoas da região tinham se admirada com a novidade das nossas maneiras – no mesmo modo que havíamos estranhado a simplicidade das delas.  Retornamos para a cidade às sete horas da tarde, depois de muito empenho, com somente quatro casais de pássaros.  Kilwick estava tão cansada que se dirigiu imediatamente para a cama.  Quanto a nós, terminamos o jantar, contamos nossas aventuras e seguimos rapidamente o seu exemplo. 

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Em: Diário de uma viagem da baía de Botafogo à cidade de São Paulo ( 1810), William Henry May, trad. Jean Marcel Carvalho França, Rio de Janeiro, José Olympio: 2006

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William Henry May, era um comerciante britânico estabelecido no Rio de Janeiro, de acordo com a correspondência do Consulado inglês no Brasil.   [ Fonte: acima]