O Ateneu, de Raul Pompéia, quem não se lembra?

5 05 2012

A escola da jaqueta azul, Gloucester

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

Hoje estive pensando no livro de Raul Pompéia, O Ateneu, originalmente publicado em 1888.  Essa história se enraizou na minha imaginação por dois motivos: li a respeito da reclamação de Fernando Meirelles em Recife sobre a falta de público para seu filme Xingu, e ouvi no rádio uma exposição sobre os bullying, assunto muito em voga no momento.  Às vezes as coisas se embaralham nas nossas imaginações.  Pensei nos motivos de Xingu e Heleno, ambos filmes lançados recentemente, não terem atingido as audiências esperadas.  Analisei meus próprios sentimentos a respeito, as razões de eu ainda não ter visto nenhum deles.  E acho que, no meu caso, não fui a nenhum deles por achar que pareciam, pelas chamadas na televisão, um pouco didáticos, como se fossem documentários dramatizados.  Provavelmente estou errada, mas como vou ao cinema regularmente, pensei muito nas razões porque nenhum desses filmes havia me atraído até agora.

Em seguida, ainda com filmes na cabeça, ouvi a reportagem sobre bullying e me lembrei de O Ateneu, uma das nossas obras primas da literatura brasileira.  Devo dizer que sou grande apreciadora, fã mesmo, de filmes de época.  E que quando morava fora do Brasil, onde era mais fácil ver não só nos cinemas mas na televisão filmes da Merchant-Ivory Productions ou séries de época da BBC, do mesmo gênero, fazia tudo para não perder estas produções.  E me pergunto porque nossa indústria cinematográfica, que hoje não deve nada a ninguém em tecnologia, que tem centenas de excelente atores  em que se apoiar, ainda não tentou, seriamente, sem os viéses novelísticos, esse gênero de tanto sucesso lá fora.  O Ateneu certamente estaria entre uma das obras que se adaptariam muito bem ao nicho.

Essas observações não pretendem denegrir os esforços de Fernando Meirelles nem do cinema nacional.  São simples questionamentos que têm por intenção ventilar o que está sendo falado no momento.  Para quem ainda não conhece, aqui fica um trecho do romance de Raul Pompéia, que evidentemente já se encontra em domínio público.

A escola da jaqueta azul

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

[Atribuído]

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

CAPÍTULO III

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Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-me para a memória, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a cota das populações,perdendo as frações importunas, com prejuízo dos recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fora a esfera do mundo.

A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados a boca saborosíssimos.

A história pátria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionários da  catequese colonizadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrofes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flores, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres,aprendizes da fé e da civilização, acompanhados da turba selvagem do gentio cor de casca de árvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contrição de feiticismo domado, avultando do seio, do fundo da mata escura, como uma marcha fantástica de troncos. Até às eras da independência, evocação complicada de sarrafos comemorativos das alvoradas do Rocio e de anseios de patriotismo infantil; um príncipe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda oficial do Ipiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antônio, as aclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitila.

Cada página era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do colega. Graças à habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antônio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Mem de Sá, Maurício de Nassau, vi passar o herói mineiro, calmo, mãos atadas como Cristo, barba abundante de apóstolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escavada pelo destino para receber melhor a coroa do martírio.

A história santa revelou-me este épico, quem o diria? — o cônego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capítulos como o canto profundo das catedrais. Ouvi suspirar a Crença, o idílio do Éden, o amor primitivo do Gênesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnânimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dor, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez jovem de lírios na túnica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade das mães, estigmatizada pela maldição de Deus.

E crescia o canto na abóbada e o órgão falava à tradição inteira do sofrimento humano suplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando a elevação dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca da Sulamita, e a sedução de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena glória de Ester, a princesa querida.

Subitamente, entreabria-se o quadro sonoro para irromper o coro das lamentações. Acabavam no ar, lucíolas extintas, os derradeiros sons da harpa de Davi; perdia-se em ecos a derradeira antístrofe Salomão; sumiu-se à extremidade do campo a imagem de Rute, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréia sombria na tenda de Holofernes, levando nos lábios o beijo assassino; cobriu-se a aparição luminosa de Ester com o sono da noite de Mardoqueu. Era a gama dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do dilúvio, os desesperos de Gomorra; flamejava no firmamento a espada do anjo de Senaqueribe; dialogavam em concerto tétrico as súplicas do Egito, os gemidos de Babilônia, as pedras condenadas de Jerusalém. Vozeava o tenebroso grave das pregações dos profetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o lívido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta noturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mistério numa escapada de chamas. Nada. A música solene era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Belém na Judéia debelava a sombra, nem a miragem viva do Tabor. A epopéia agonizava ao rodar do século, ecoava numa caverna onde havia um túmulo; bradava triunfo um momento pela Ressurreição do Justo; morria, enfim, lento, lento com a prece dos mártires do anfiteatro, com a longínqua prece subterrânea dos refugiados das Catacumbas.

A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.

O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente.

Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tatuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.

Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.

…………………………………………………….

Em: O Ateneu, Raul Pompéia, em dóminio público.

Minha versão: O Ateneu, Raul Pompéia, São Paulo, Ed. Ática:s/d





Imagem de leitura — Hermann Kaulbach

15 03 2012

Hora das histórias, s/d

Hermann Kaulbach (Alemanha, 1846-1909)

óleo sobre tela

Hermann Kaulbach nasceu em Munique, na Alemanha em 1846.  Começou sua vida profissional pensando em medicina.  Chegou a começar os estudos nessa área, quando desistiu a meio caminho para se dedicar à pintura, profissão que seu pai também exercia.  Dedicou-se inicialmente à pintura histórica mas tornou-se mais conhecido pelos seu retratos e em particular seus retratos de crianças.  Morreu em Munique em 1909.





Imagem de leitura — Remy Cogghe

2 02 2012

Madame Malard, s/d

Remy Cogghe (Bélgica, 1854-1935)

óleo sobre tela

Museu Municipal de Roubaix, Bélgica

Remy Cogghe nasceu em Mouscron, na Bélgica, em 1854.  Quando tinha 13 anos sua família se muda para a cidade insdustrial de Roubaix.  Lá ele acaba estudando na Academia de Arte de Roubaix por já ter demonstrado grande talento para o desenho e a pintura.  Em 1876 vai para Paris, estudar na Escola de Belas Artes com Alexandre Cabanel.  Depois de começar sua vida profissional como pintor, viaja para Roma, Barcelona, Madri, Toledo, Argélia, Itália, Tunísia .  Volta em 1885 e finalmente se instala em Roubaix, onde constrói sua casa.  Estabeleceu-se como pintor de gênero e retratista.  Faleceu em 1935 em Roubaix.

 





Imagem de leitura — Carl Zewy

22 01 2012

As notícias, s/d

Carl Zewy (Áustria, 1855-1929)

óleo sobre tela, 48 x 38 cm

Carl Zewy ou Karl Zewy nasceu na Áustria em 1855.  Estudou na Academia de Viena e expôs seus trabalhos em Vienna em 1886 e 1888.  Pintor de gênero e de paisagens.





Valsa, poema dissílabo de Casimiro de Abreu

29 10 2011

Fim de baile

Rogelio de Egusquiza Barrena (Espanha 1845-1915)

óleo sobre tela

VALSA

Casimiro de Abreu

Tu, ontem,

na dança

que cansa,

voavas

c’as faces

em rosas

formosas

de vivo,

lascivo

carmim;

na valsa

tão falsa,

corrias,

fugias,

ardente,

contente,

tranqüila,

serena,

sem pena,

de mim!

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos.

Obras:

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

Poesia:

Primaveras, 1859

Romances:

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857





Imagem de leitura — Jacob Simmon Kever

5 10 2011

O livro de leitura, s/d

Jacob Simmon Kever (Holanda,1854-1922)

aquarela sobre papel, 45x51cm

Jacob Simmon Kever nasceu em Amsterdã, na Holanda em 1854. Estudou com P.R. Greive, na Escola de Belas Artes de Amsterdã. Pintor de gênero, Paisagens e Naturezas Mortas. Morreu em 1922.





Imagem de leitura — Albert Joseph Moore

23 09 2011


Uma leitora, 1877

Albert Joseph Moore ( Inglaterra, 1841- 1893)

óleo sobre tela colada em madeira

Coleção Particular

Albert Joseph Moore nasceu em York, na Inglaterra em 1841, um dos quatorze filhos de William Moore, um conhecido pintor, daquela parte do país.  Mostrou interesse, habilidade, dedicação e talento para pintura desde muito cedo.   Encorajado pelo pai e por seus irmãos também artistas começou sua carreira cedo fazendo sua primeira exposição aos 16 anos, em 1857, antes mesmo de entrar para a Royal Academy. Considerado um dos pintores mais sensuais  e originais de sua época, teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade em 1893, em Londres.





Imagem de leitura — Ernest Meissonier

11 08 2011

O leitor de branco, 1857

Ernest Meissonier (França, 1815-1891)

Óleo sobre tela

Museu do Louvre, Paris

Jean-Louis Ernest Meissonier nasceu em Lion em 1815.  Foi um pintor, ilustrador e escultor francês.  Estudou com Jules Potier, indo depois trabalhar no estúdio de Léon Cogniet.  Aos 19 anos começou a expor regularmente no Salão.  Pintor histórico, meticuloso e detalhista.  Morreu em Paris em 1891.

 





Imagem de leitura — John Singer Sargent

4 08 2011

Homem lendo, c. 1910

John Singer Sargent (EUA, 1856-1925)

Aquarela sobre carvão sobre papel,  35 x 53 cm

Fogg Art Museum, Cambrisge, Massachusetts

John Singer Sargent , nasceu em Florença na Itália, filho de pais americanos.  Estudou na Academia de Belas Artes de Florença de 1870 a 1874.   Logo depois partiu para a França, onde estudou com Emile Auguste Carolus Duran.   Mais tarde mudou-se definitivamente para Londres.  Um dos maiores retratistas da virada do século XIX e XX, John Singer Sargent foi um pintor prolífico produzindo mais de 900 óleos e mais de 2000 aquarelas, meio de pintura que favoreceu a vida inteira.  Al´me de retratista da sociedade influente européia, Sargent ficou também conhecido por suas maravilhosas aquarelas e sketches a carvão e lápis das grandes viagens a lugares exóticos que fez.   Com o passar dos anos tornou-se mais amplo em seus interesses passando a pintar paisagens e a fazer pinturas murais.  Morreu em 1925 em Londres.





Minha terra, poema de Casimiro de Abreu

26 06 2011

Paisagem com touro, 1925

Tarsila do Amaral ( Brasil, 1886 – 1973)

óleo sobre tela, 52 x 65 cm

Coleção Particular

Minha terra

                             Casimiro de Abreu

Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.

— Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pras bandas do sul:

Debaixo de um céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil.

— É uma terra de amores,

Alcatifada de flores,

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de abril.

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha o poeta

E nem as canta um mortal!

— É uma terra encantada

— Mimoso jardim de fada –

Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

Em: Vamos Estudar?  Theobaldo Miranda Santos, 3ª série primária, edição especial para o estado do Rio de Janeiro, RJ, Agyr:1957, 9ª edição.

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos. 

Obras: 

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

 Poesia:

Primaveras, 1859

 Romances: 

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857