Trova do vento

9 02 2026
Ilustração de Rie Cramer. 

 

 

Rege o vento na floresta

fagotes, trompas, clarins,

enquanto a brisa, modesta,

toca flauta nos jardins…

 

 

(Orlando Brito)





O avestruz lírico, poema de António Manuel Couto Viana

6 02 2026

Espere, alguma coisa não está correta!, 2023

Stephen Hall (Escócia, 1954)

acrilica sobe tela,  102 × 76 cm

 

NOTA: os emojis fazem parte da tela.

 

 

 

O avestruz lírico

 

António Manuel Couto Viana (1923–2010)

 

 

Avestruz:

O sarcasmo de duas asas breves

(Ânsia frustrada de espaço e luz,

De coisas frágeis, líricas, leves);

 

Patas afeitas ao chão;

Voar? Até onde o pescoço dá.

Bicho sem classificação:

Nem cá, nem lá.

 

Isto sou (Dói-me a ironia

– Pudor nem eu sei de quê).

Daí a absurda fantasia

De me esconder na poesia,

Por crer que ninguém a lê.

 

 

Em: O avestruz lírico, 1948

 

Nota: encontrei esse poema hoje, por acaso.  Não resisti, tive que trazê-lo para cá.  Ri muito.





Trova do caminho

26 01 2026

 

 

Estas pedras que me atiram

no decurso da jornada

embora todas me firam,

vão calçando a minha estrada.

 

(Pedro Viana Filho)





Trova do verão

23 01 2026
Capa da Revista St. Nicholas, de agosto de 1917, por H. Ayres.

Praia cheia, muita gente,

curtindo a bela estação;

suco gelado, sol quente,

tranquilidade. É verão.

 

(Argemira Fernandes Marcondes)





Marinheiro, poema de Ladyce West

14 01 2026

eastman_judge6jun25

Capa da Revista Judge, de junho de 1925, com ilustração de Ruth Eastman.
Marinheiro

Ladyce West

Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)

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Trova da margarida

9 01 2026

 

Margarida vai passando
no seu traje original.
Pensa que está abafando,
parece um pavão real…

 

(Anônima, folclore nacional, cantiga de roda)





Trova dos olhos negros

2 01 2026
Ilustração de Jon Whitcomb (EUA, 1906-1988)

 

 

Os teus olhos, pretos, pretos,

são como a noite cerrada…

Mesmo pretos, como são,

sem eles, não vejo nada.

 

(Trova anônima)





A minha terra natal, poesia de Helena Lellis de Andrade

10 12 2025

Paisagem mineira

Armínio Pascual (Brasil, 1920 – 2006)

óleo sobre eucatex, 30 x 40 cm

A minha terra natal

 

Helena Lellis de Andrade

 

Há montanhas azuladas
E campinas verdejantes
Um rio murmurante
De águas sempre a rolar

Há coqueiros, altaneiros
Sapatinhos e ipês
Há prédios altos, vistosos
Há choupanas de sapé

Há uma cruz no alto do morro
Com capelas pra rezar
Lembram passos dolorosos
De Jesus a se imolar

Há no lindo azul do céu
Brancas nuvens a passar
Estrelas brilham, cintilam
Nas noites claras de luar

Há estradas, automóveis
Trens, bondes e oficinas
Há sirenes e buzinas
Há coisas intermináveis

Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
Chorando para os finados

Não é brilhante nem ouro
Mas vale mais que tesouro
É a imagem milagrosa
Da nossa padroeira
A Senhora Aparecida
Do Brasil tão querida
Das Graças a medianeira

Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias

 

(29 de julho 1952)





O homem e sua morte, poesia de Sávio Soares de Sousa

1 12 2025
Ilustração de Yan Nascimbene.

 

 

O homem e sua morte

 

Sávio Soares de Sousa

 

Foi minha morte que nasceu comigo.

Trago-a em mim, circulando nas artérias,

latente em cada célula, no fundo

tranquilo de minha alma resignada.

 

Em verdade, nasceu com a minha sombra,

ou é, talvez, a própria sombra incôngrua,

com que diuturnamente me confundo,

ao meio-dia, sobre o chão da estrada.

 

Sou igual aos demais, de igual destino.

Pouco me importa o prazo destas férias,

nem me inquieta a imutável companhia,

 

que de mim nunca mais se apartará:

no instante em que, sem luz, se suma a sombra,

comigo a minha morte morrerá.





Trova dos amigos

26 11 2025
Pato Donald faz amigos, ilustração Walt Disney.

 

Para mantê-los me empenho,     

porque penso sempre assim:

tendo os amigos que tenho,

eu nem preciso de mim!

 

(Izo Goldman)