Ilustração de Rie Cramer.
Rege o vento na floresta
fagotes, trompas, clarins,
enquanto a brisa, modesta,
toca flauta nos jardins…
(Orlando Brito)
Rege o vento na floresta
fagotes, trompas, clarins,
enquanto a brisa, modesta,
toca flauta nos jardins…
(Orlando Brito)
Espere, alguma coisa não está correta!, 2023
Stephen Hall (Escócia, 1954)
acrilica sobe tela, 102 × 76 cm
António Manuel Couto Viana (1923–2010)
Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves);
Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.
Isto sou (Dói-me a ironia
– Pudor nem eu sei de quê).
Daí a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê.
Em: O avestruz lírico, 1948
Nota: encontrei esse poema hoje, por acaso. Não resisti, tive que trazê-lo para cá. Ri muito.
Estas pedras que me atiram
no decurso da jornada
embora todas me firam,
vão calçando a minha estrada.
(Pedro Viana Filho)
Praia cheia, muita gente,
curtindo a bela estação;
suco gelado, sol quente,
tranquilidade. É verão.
(Argemira Fernandes Marcondes)
Ladyce West
Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014
(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)
Margarida vai passando
no seu traje original.
Pensa que está abafando,
parece um pavão real…
(Anônima, folclore nacional, cantiga de roda)
Os teus olhos, pretos, pretos,
são como a noite cerrada…
Mesmo pretos, como são,
sem eles, não vejo nada.
(Trova anônima)
Paisagem mineira
Armínio Pascual (Brasil, 1920 – 2006)
óleo sobre eucatex, 30 x 40 cm
Helena Lellis de Andrade
Há montanhas azuladas
E campinas verdejantes
Um rio murmurante
De águas sempre a rolar
Há coqueiros, altaneiros
Sapatinhos e ipês
Há prédios altos, vistosos
Há choupanas de sapé
Há uma cruz no alto do morro
Com capelas pra rezar
Lembram passos dolorosos
De Jesus a se imolar
Há no lindo azul do céu
Brancas nuvens a passar
Estrelas brilham, cintilam
Nas noites claras de luar
Há estradas, automóveis
Trens, bondes e oficinas
Há sirenes e buzinas
Há coisas intermináveis
Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
Chorando para os finados
Não é brilhante nem ouro
Mas vale mais que tesouro
É a imagem milagrosa
Da nossa padroeira
A Senhora Aparecida
Do Brasil tão querida
Das Graças a medianeira
Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
(29 de julho 1952)
Sávio Soares de Sousa
Foi minha morte que nasceu comigo.
Trago-a em mim, circulando nas artérias,
latente em cada célula, no fundo
tranquilo de minha alma resignada.
Em verdade, nasceu com a minha sombra,
ou é, talvez, a própria sombra incôngrua,
com que diuturnamente me confundo,
ao meio-dia, sobre o chão da estrada.
Sou igual aos demais, de igual destino.
Pouco me importa o prazo destas férias,
nem me inquieta a imutável companhia,
que de mim nunca mais se apartará:
no instante em que, sem luz, se suma a sombra,
comigo a minha morte morrerá.
Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!
(Izo Goldman)